Literatura Europeia · Uncategorized

Top Leituras 2023

Bom ano!

Foi-se 2023 e chegou 2024 e, com ele, novos objectivos de leitura. Desde que em 2018 comecei a registar os meus livros na plataforma Goodreads que me é mais fácil controlar a minha vida literária. Registo as leituras que vou fazendo, as que quero fazer e leio as opiniões das pessoas que sigo.

A minha meta vai mudando ao longo do tempo por diversos motivos. Já esteve nos 45 livros por ano, nos 30, e por ora encontra-se confortavelmente nos 35. Foi precisamente este o total que li o ano passado, sendo que 8 obras se estabeleceram como as minhas preferidas. Ei-las:

  • “O Palácio de Gelo” (1963), de Tarjei Vesaas
  • “A Trilogia de Copenhaga” (1967/71), de Tove Ditlevsen
  • “Beleza” (2009), de Roger Scruton
  • “O Conde de Monte Cristo” (1844), de Alexandre Dumas
  • “Terna é a Noite” (1934), de F. Scott Fitzgerald
  • “Reunion” (1971), de Fred Uhlman
  • “A Casa da Alegria” (1905), de Edith Wharton
  • “Diário de um homem supérfluo” (1850), de Ivan Turguéniev

Dois clássicos modernos escandinavos, um livro de não ficção, um clássico francês obrigatório, dois clássicos americanos, um clássico alemão e um clássico russo. Não há dúvida: a minha preferência é de facto a literatura clássica ocidental. E apesar de nenhum destes livros ter entrado para a lista da minha vida, todos me marcaram de uma forma especial, fosse pela novidade do tema, fosse pela escrita.

Como menção honrosa não posso deixar de referir a tetralogia das quatro estações de Karl Ove Knausgard, que me fez companhia ao longo do ano, pois li um livro por estação. Gostei muito de conhecer este autor norueguês naquele que foi, por excelência, o meu ano de literatura escandinava. Já tenho a sua série mais famosa, “A Minha Luta”, na estante para ler.

Em conclusão, 2023 foi um bom ano de leituras, apesar de infelizmente não ter havido nenhum coup de coeur. Estou igualmente satisfeita com o número total de livros que li, neste momento é o que a minha vida e rotinas diárias permitem fazer. Espero que o vosso ano literário também tenha sido positivo e desejo-vos um excelente 2024, cheio de saúde e amor, e, claro, óptimas leituras!

Literatura Russa · Uncategorized

Diário de um Homem Supérfluo

Gosto muito de literatura russa. O meu escritor russo preferido é Dostoiévski, cuja casa-museu tive a oportunidade de visitar em São Petersburgo (com artigo próprio aqui no blogue), mas também gosto de Tolstoi (apesar de ainda não ter lido as suas obras-primas), Gogol, Nabokov, Tchékhov, Pasternak… Entretanto, fiz a minha estreia com Ivan Turgueniev.

Escolhi “Diário de um Homem Supérfluo” (1850) pela sua brevidade (88 páginas) e pelo seu título incomum. O diarista, Tchulkatúrin, é um rapaz de 30 anos com uma doença terminal que decide deixar por escrito, a quem interessar, os momentos mais importantes da sua vida. Começa por falar da triste infância para se concentrar no episódio que mais o marcou: o seu amor por Liza. Este romance não correspondido é o detonante da sua tristeza e da razão do título, numa altura em que a teoria do niilismo começava a aparecer, O mais irónico, ou não, é que Tchulkatúrin é a única personagem verdadeiramente boa e que tenta fazer o bem, e, como consequência disso, é tratado como supérfluo, ou seja, alguém que não faz falta e está a mais. Agora, escrevendo assim, não posso deixar de pensar em Gregor, a personagem principal de Kafka em “A Metamorfose” (1915).

Gostei muito desta leitura. É um daqueles casos em que se diz muito com poucas palavras. Já tenho à espera outras três obras do autor: “Águas de Primavera”, “Fumo” e a que é considerada a sua obra-prima, “Pais e Filhos”. Mal posso esperar para lê-las.

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A Casa em Paris

Nunca tinha ouvido falar em Elizabeth Bowen, porém, as promoções da Relógio d’Água, tal como o título sugestivo do livro, aguçaram-me a curiosidade. Mais tarde, reparei que a autora tinha duas obras na lista dos 1001 livros a ler antes de morrer, o que bastou definitivamente para me convencer a lê-la.

A Casa em Paris (1935) é um romance um pouco atípico pela forma como está estruturado. A acção decorre num único dia, numa casa em Paris, onde encontramos duas crianças, Henrietta e Leopold, que não se conhecem e lá se encontram por razões distintas. Henrietta está em trânsito, pois vai a caminho de casa da avó, e Leopold espera encontrar-se com a mãe, que nunca conheceu. Após as apresentações, o tempo regride para o passado, onde ficamos a saber a história de Leopold e os motivos verdadeiros que o levaram até ali.

Apesar de a escrita de Bowen nem sempre ser a mais fácil de seguir, a verdade é que gostei muito deste seu livro. Trata-se de uma história complexa e dramática que hoje provavelmente não teria consequências de maior, mas que naquele tempo lidava com valores como a honra, dignidade ou decoro. Gostei sobretudo do final, em que a maturidade e o sentido de responsabilidade têm um papel preponderante.

Estarei mais atenta à publicação das obras da escritora britânica no futuro e, claro, recomendo A Casa em Paris para quem quiser familiarizar-se com a obra de Elizabeth Bowen (1899-1973).

Literatura Europeia · Literatura Policial

Os Três Crimes dos Meus Amigos

Conheci Georges Simenon no secundário, quando a nossa professora de francês nos deu a tarefa de ler L’ Homme de Londres (1934), integralmente no original. Pouco ou nada me lembro do livro, mas como desafio foi uma boa experiência, não só porque me permitiu exercitar a língua, como me apresentou a um autor que eu haveria de querer seguir. Entretanto já li O Quarto Azul (1964) e, mais recentemente, Os Três Crimes dos Meus Amigos (1938).

Este último, não foi o que eu esperava. Como Simenon é sobretudo conhecido pelos seus policiais, tinha a expectativa de encontrar o inspector Maigret ou um crime que fosse desvendado por outro detective. No entanto, deparei-me com uma história baseada em factos reais, sobre a desilusão e a desesperança que se viveu após a I Guerra Mundial.

A história decorre num bairro de Liège, Bélgica, onde alguns jovens artista e intelectuais, desiludidos e traumatizados com I Guerra, começam a encontrar-se num lugar sórdido a que chamavam de “caque” e a cometer pecados mortais, como adorar o diabo, drogarem-se e prostituirem-se. No meio destas excentricidades, aparece um homem que se denomina “Fakir” e começa a fazer experiências num jovem rapaz pintor e doente que droga e acaba por levar ao suicídio. Mais tarde, “Fakir” é encontrado enforcado à porta de uma igreja, a escassos metros da “caque”.

Estes acontecimentos perturbam o narrador, amigo da vítima. Quando surge a oportunidade de seguir a carreira de jornalista num jornal satírico que acaba de aparecer pela mão de um conhecido seu, ele aceita. O problema é que o jornal é financiado com dinheiro suspeito e rapidamente se torna um meio de chantagem pública. É readquirido por outra pessoa, e o diretor original foge para Barcelona de modo a dedicar-se ao proxenetismo. O novo dono do jornal, sob a capa de um patriotismo artificial, acaba por ganhar fama e condecorações, enquanto se dedica a ciências ocultas e a fazer ameaças no seu jornal. É condenado, não sem antes fugir para, também ele, cometer o seu crime.

São estes os acontecimentos que Simenon narra, quase como uma recordação de juventude, enquanto se pergunta a si próprio se os seus três conhecidos eram assassinos em formação ou ficaram assim devido aos acontecimentos por que passaram. O livro termina sem que consiga dar uma resposta, cabendo ao leitor pensar numa solução, no entanto, são visíveis as marcas de uma guerra que traumatizou os jovens europeus que lutaram nas trincheiras para defender o seu país, e revela um mundo ocidental que começou a decair a partir daí. Um livro estranho, mas interessante.

Fiódor Dostoiévski · Literatura Russa

Os Irmãos Karamázov

O que dizer de um livro perfeito? Leiam-no.

Fiodor Dostoievki é um dos meus escritores preferidos. Já li seis das suas obras (“Noites Brancas”; “O Jogador”; “Memórias do Subsolo”; “O Eterno Marido”; “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamázov”), e quanto mais leio, mais se consolida como um dos meus autores de cabeceira.

A presente história tem início com Fiodor Karamázov, um homem bruto, rude e sem maneiras, que gosta de beber e de dinheiro. Os dois casamentos que faz são por interesse e, apesar de as esposas terem falecido desgostosas e de morte natural, deixam-lhe três filhos: a primeira, Dmitri, e a segunda, Ivan e Aleksei. Fiodor não se interessa por nenhum deles, ficando as crianças à mercê de empregados e familiares. Mais tarde, quando os rapazes se tornam adultos e voltam a contactar o pai, vemos que os seus caminhos tomaram rumos muito diferentes: Dmitri é um pândego, sendo o mais parecido com Fiodor; Ivan é o típico intelectual do Iluminismo, rejeitando Deus e a moralidade; e Aleksei torna-se monge num mosteiro. A relação entre os irmãos é geralmente pacifica, o grande problema que eles têm é com o pai, Fiodor Karamázov. E é a partir daqui que a narrativa se desenrola.

Adorei este livro. É longo, intenso, complexo, repetitivo, filosófico. É uma leitura árdua e exigente, mas muito compensadora. Dostoievski sabe como ninguém chegar às profundezas do pensamento e da alma, fazendo-nos questionar a condição humana e, no seu caso, as características psicológicas. E, apesar de eu continuar a preferir “Crime e Castigo” (cujo final me emocionou profundamente), não posso deixar de recomendar “Os Irmãos Karamázov”. Uma história que fica para sempre connosco.

Literatura Norte-Americana

O Despertar

Devorei “O Despertar” (1899), de Kate Chopin, numa tarde. Há muito tempo que um livro não me agarrava desta forma.

A primeira vez que ouvi falar de “O Despertar” foi num antigo livro de cabeceira que tenho sobre as grandes heroínas da literatura. Ao lado de nomes como Madame Bovary, Ana dos cabelos ruivos, Jane Eyre ou Anna Karenina, encontrava-se o de Edna Pontellier, protagonista de um romance que na sua época provocou escândalo e do qual eu nunca ouvira falar. Decidi então que tinha de o ler e encontrei-o, por acaso, a preço de saldo numa velha edição da Relógio d’Água na Feira do Livro.

Edna é uma jovem mulher casada e com dois filhos que vive em Nova Orleães. Apesar de ter um casamento satisfatório, uma posição social que lhe permite completo desafogo económico e uma vida social interessante, Edna não se sente feliz porque a sua natureza livre e independente não se coaduna com as convenções que, na viragem do século, vingavam no sul dos Estados Unidos. Durante umas férias de verão junto ao mar, Edna conhece um jovem e os dois apaixonam-se.

Gostei muito deste livro, contudo, devo dizer que me recordou a história de “Madame Bovary” (1856), de Flaubert. Não nos podemos esquecer que a segunda metade do século XIX teve a figura feminina e os seus despertares como uma das temáticas mais importantes e em voga, como tive oportunidade de referir acima. O que é espantoso neste caso, foi o facto de este livro em particular ter sido escrito por uma mulher.

A escrita de Kate Chopin é clara, simples e prende-nos desde a primeira página. O seu ritmo é idóneo, o ambiente da história está muito bem elaborado e as personagens são vivas e bem construídas. Todavia, o melhor é o final. Apesar de não ser inteiramente original é o desenlace perfeito para a coerência que Edna apresenta ao longo do livro. Recomendo.

Literatura Francesa

Arsène Lupin

Gosto muito de policiais, principalmente no verão. É comum munir-me de um livro da saga Hercule Poirot e lê-lo à beira da piscina ou estendida na areia da praia. Contudo, este ano, decidi trocar o detetive belga por um ladrão francês, e a praia pelo lar.

Arsène Lupin, Gentleman Ladrão (1905), de Maurine Leblanc, apareceu originalmente na revista Je Sais Tout, no intento de ser uma resposta “criminosa” a Sherlock Holmes. Teve tanto sucesso que se transformou numa série, agora editada em Portugal pela Relógio D’Água.

No primeiro volume temos vários contos que nos revelam não só a origem de Arsène, como alguns dos motivos que o levaram a querer ser este ladrão cortês e pouco violento, que gosta sobretudo da boa vida e do melhor que esta tem para oferecer. O estilo narrativo de Leblanc é muito bom. Com imenso ritmo, personagens cativantes e tramas sensacionais que nos mantêm presos às paginas. Faz realmente lembrar um pouco Sir Arthur Conan Doyle, quiçá menos obscuro.

Gostei muito deste livro. Por ora, não sei se será suficiente para me levar a querer ler os restantes números da coleção, contudo, é uma óptima alternativa a Agatha Christie, mais madura, mais excitante e mais honesta. Um óptimo companheiro de férias de verão e a minha primeira leitura da época estival. Recomendo.

Literatura Europeia

Carta ao Pai

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Depois de ler O Processo (1925), A Metamorfose (1915), O Artista da Fome (1924), e O Castelo (1926), só me faltava Carta ao Pai (1952) para completar a leitura das obras mais emblemáticas de Franz Kafka.

Carta ao Pai é um livro curto, de não ficção, no qual Kafka se dirige ao progenitor para lhe dizer que são os dois pessoas muito diferentes, e que, por isso, não vêem o mundo da mesma forma. Kafka acusa-o diretamente de ter sido um mau pai (embora não com termos tão directos), e critica as suas atitudes de déspota e arrogante não só para com os familiares, como também para com os funcionários da sua loja.

Kafka revela que a relação que o pai teve com as outras três filhas também não foi fácil, deixando assim transparecer o seu autoritarismo, e acrescenta que a vida familiar não foi fácil devido ao carácter mal formado e intolerante do progenitor. Franz faz igualmente mea culpa de modo a não acusar o pai de todos os males passados na infância, contudo fica subentendido que a (má) influência do pai terá sido decisiva para ele se considerar tímido e pouco confiante.

Carta ao Pai não é uma obra obrigatória, porém, para quem gosta de Kafka é um óptimo meio para conhecê-lo melhor e perceber como ele próprio se via como criança e adulto numa sociedade entre guerras, rapidamente em mudança. Uma leitura muito interessante que completou o meu ciclo Franz Kafka.