Literatura Britânica

Um Espião Perfeito

Dois meses! Demorei dois meses a ler este livro! A que devia ter sido a minha última leitura de 2014 acabou por ser a primeira de 2015.
O Espião Perfeito (1986) é considerada a obra prima de John Le Carré, escritor britânico de romances policiais e ex-espião do MI5 e MI6, cujos livros são muitas vezes adaptados ao cinema. Este, em particular, conta a história de vida de Magnus Pym, um oficial britânico e agente duplo que trabalha ao mesmo tempo para a Inglaterra e Checoslováquia, no tempo da guerra fria. A história é contada de forma não linear, alternando entre o presente (Pym fugitivo por se ter descoberto que é traidor), e o passado, o crescimento com um pai corrupto e vigarista que nutre pelo filho um amor incondicional e para o qual tem grandes expectativas. 
A escrita do autor não é fácil, razão pela qual demorei mais tempo a ler o livro do que gostaria (e a verdade é que a tradução portuguesa que li também não ajudou). Penso que, apesar de brilhante, a história não prende o leitor e torna-se, por vezes, confusa. Ainda assim, nunca me passou pela cabeça abandonar a leitura. Sempre reconheci o valor da narrativa e quis saber o final, o estilo é que não me conquistou.
Seja como for, aconselho O Espião Perfeito, de John Le Carré, por ser diferente, por ser um clássico policial, e pelo final (que vale o esforço). 
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Balanço 2014

Feliz ano novo! Pois é, 2014 já lá vai e é altura de fazer balanços. Para mim, tratou-se de um ótimo ano, tanto em termos pessoais, como profissionais. Em relação aos livros também foi bastante mais positivo do que negativo.
Ao todo li 22 livros em 2014 (nada mau, apesar de nos meses de abril e dezembro não ter conseguido  ler tanto como gostaria por circunstâncias da vida). 
Eis a lista por ordem cronológica:
O Assassinato do Arquiduque, Sue Woolmans
Farenheit 451, Ray Bradbury
Persuasão, Jane Austen
Mary Poppins, P. L. Travers
Maus, Art Spiegelman
The Fault in Our Stars, John Green
A Princesa de Gelo, Camilla Lackberg
Drácula, Bram Stoker
O Corsário Negro, Emilio Salgari
A Mulher Que Decidiu Passar Um Ano na Cama, Sue Townsend
O Deus das Moscas, William Golding
O Ensaio, Elanor Catton
A Viagem dos Inocentes, Mark Twain
Nova Iorque, Brendan Behan
Ferrugem Americana, Philip Meyer
Werther, Goethe
– Cards on the Table, Agatha Christie
The Ocean At The End of the Lane, Neil Gaiman
Catch 22, Joseph Heller
13 Deadly Ghosts Stories, vários autores
O Voluntário de Auschwitz, Witold Pilecki
To Kill a Mockingbird, Harper Lee
Gostei da maioria dos livros que li. Aprendi com eles, diverti-me com eles, senti-me bem com eles. No entanto, houve uns que me marcaram mais do que outros. Os que menos gostei foram A Mulher Que Passou Um Ano Na Cama e The Ocean at the End of the Lane.
Os que mais gostei foram Dracula, Maus, O Deus das Moscas, Werther e To Kill a Mockingbird. Trataram-se de verdadeiros pontos altos do meu ano. Fizeram-me refletir sobre o mundo, sobre mim, sobre a vida, sobre o passado, presente, futuro… Deram-me uma valente ressaca literária e só queria dizer a todos para os lerem porque são maravilhosos. (Leiam-nos! Todos têm artigos no blogue)
Espero que 2015 me traga aventuras literárias tão boas como as de 2014. Espero também conseguir fazer artigos para todos os livros que leio (o que acabou por não acontecer no ano passado) de forma a poder partilhar convosco a minha opinião. 
Desejo-vos um excelente ano e boas leituras!
Literatura Britânica · Literatura Juvenil

The Ocean at the End of the Lane

Neil Gaiman é um dos autores preferidos dos “booktubers”. Mais conhecido por escrever livros para crianças e jovens adultos, tem estatuto de estrela no Reino Unido (onde nasceu e reside) e não há obra que publique que não seja um sucesso.
Incluindo The Ocean at the End of the Lane (2013). Bestseller em vários países, decidi comprá-lo por ter tido uma grande aceitação na comunidade de leitores do Youtube. Contudo, foi uma das leituras de que menos gostei este ano. A história centra-se na infância do próprio Neil Gaiman que nos conta como foi viver numa família aparentemente disfuncional e encontrar um novo sentido para a vida junto a umas vizinhas estranhas, possuidoras de poderes mágicos. Tudo começa quando o pai trai a mãe com a babysitter que Gaiman detesta, e este engendra um plano com as vizinhas para afastá-la da sua casa e da sua vida.
No início, a leitura foi bastante agradável. A narrativa tinha pés e cabeça e a história era interessante. No entanto, quando as vizinhas revelam que têm poderes e que podem fazer desaparecer a babysitter, que na realidade é uma bruxa, a história deixou de fazer sentido para mim. A linha condutora perdeu-se completamente, houve questões que foram deixadas em suspenso sem nenhuma conclusão, e, apesar de o final não ter sido mau, foi mais do que esperado. 
Como este livro de Neil Gaiman não me entusiasmou particularmente, acho que não continuarei a seguir a sua obra. É pena, pois este escritor sempre me despertou uma grande curiosidade devido ao êxito que tem junto dos “booktubers”. Mas, enfim, embora parecidos, os gostos nunca são iguais. 
Literatura Norte-Americana

Catch 22

É muito comum ouvirmos na língua inglesa a expressão “It’s a catch 22”, que eu traduziria pela expressão portuguesa “preso por ter cão e por não ter”. Este dito “apareceu” na gíria americana pela mão, ou pela cabeça, de Joseph Heller, autor do clássico Catch 22 (1961). 
A obra conta-nos a história do capitão Yossarian, destacado em Itália durante a II Guerra Mundial, e profundamente irritado com o artigo 22 (catch 22) que diz que um homem é doido se continuar a participar voluntariamente em perigosos voos de combate, mas se apresentar um pedido formal de dispensa para não voar, é declarado mentalmente são, pelo que esta lhe é negada. Yossarian tenta voar o número oficial de vezes, porém, este está sempre a aumentar tornando-lhe impossível cumprir o seu objetivo e regressar a casa em segurança. Sendo assim, tenta sobreviver no campo como pode, assistindo à morte de colegas e a estratagemas por parte de membros do exército para se esquivarem ao seu dever.
Confesso que a leitura deste livro foi um pouco complicada. Acho que a tradução da D. Quixote não é a melhor, e que Heller poderia ter encurtado a narrativa (inspirada na sua própria experiência, já que ele foi piloto da Força Aérea Americana e esteve destacado em Itália na II Guerra Mundial) que, pelo meio, se arrasta desnecessariamente. No entanto, reconheço que se trata de um livro hilariante, bem escrito, com passagens dignas dos Monty Python, e com uma moral muito interessante. É fácil perceber por que razão se tornou um clássico da literatura americana e como a expressão entrou tão naturalmente na linguagem dos seus habitantes. 
Literatura Europeia

O Voluntário de Auschwitz

Não é ficção. É mesmo verdade. Witold Pilecki, um capitão do exército polaco, voluntariou-se para ir para um campo de concentração nazi de forma a organizar um motim junto dos prisioneiros e salvar os compatriotas que lá se encontravam detidos. 
Deixando para trás a mulher e os dois filhos, Pilecki deixou-se apanhar nas ruas de Varsóvia e seguiu com os restantes capturados para Auschwitz. Ali, conheceu todo o tipo de privações e torturas, tentando sobreviver enquanto punha em marcha o seu plano e mantinha os outros soldados motivados. Apesar de ter sido testemunha de inúmeros atos de violência e ter passado fome e frio, Pilecki nunca desistiu do seu objetivo e sempre fez de tudo para salvar os colegas e escapar.
As suas desventuras em Auschwitz chegam-nos através do relatório que o próprio escreveu para os seus superiores, e que compõe este livro. Trata-se do seu depoimento do que viveu nos três anos que passou no campo, desde como era acordado, até aos natais passados com os nazis.
Atrevo-me a dizer que o relatório de Witold Pilecki tem a mesma importância histórica do Diário de Anne Frank. É um documento precioso que nos relata não só como eram os dias em Auschwitz, mas também como a coragem de um homem o leva a escolher a miséria para salvar uma vida que seja. 
Nunca tinha ouvido falar de um voluntário em Auschwitz. Talvez porque o regime comunista que governou a Polónia após a II Guerra Mundial tenha abafado a história para não criar um mártir. Talvez por mera ignorância minha. Seja como for, agora que está editado em Portugal, creio que este livro é de leitura obrigatória para nos ajudar a não esquecer que em tempos de terror há sempre alguém que se manifesta e tenta impedir que a loucura de alguns faça mais vítimas. Heróis. 
Literatura Norte-Americana

To Kill a Mockingbird

Grande livro. Harper Lee realmente não precisou de escrever mais nada. 
Embora tenha sido publicado em 1960, a ação da obra passa-se no decorrer dos anos 1933-35, logo após a Grande Depressão, e aborda o tema do racismo.
Atticus Finch, um advogado de 50 anos, viúvo, e pai de dois filhos (Jem e Scout) é nomeado pelo juiz do tribunal local para defender um jovem negro, Tom Robinson, de uma acusação de violação a uma jovem branca de reputação duvidosa. As hipóteses de defesa e absolvição são praticamente nulas devido ao sentimento antinegro que se vive na cidade de Maycomb, no sul dos Estados Unidos. Ainda assim, e apesar de saber que a sua família poderá sofrer consequências graves por parte de pessoas intolerantes, Atticus decide defender o jovem porque acredita na inocência dele. 
Ora, Atticus não se engana em relação às consequências que tanto ele como a sua família acabam por sofrer, sendo o desfecho do julgamento, e do que lhe segue, o que de melhor a obra tem.
To Kill a Mockingbird é provavelmente o melhor livro sobre a segregação racial americana. Diz-se que Harper Lee se inspirou num episódio verídico que sucedeu na sua cidade natal e na recusa de Rosa Parks em levantar-se num autocarro para dar o lugar a um branco. Seja o que tenha sido, o tema do racismo é tratado com uma sensibilidade objetiva quase histórica, numa narrativa impressionantemente fluida.
Para mim, Atticus Finch é, sem dúvida, Gregory Peck. E este é um dos poucos exemplos em que vos aconselho a lerem o livro e, depois, a verem o filme (hoje um clássico do cinema), que a própria autora apelidou de “obra de arte”. Ambos são excelentes e deviam ser obrigatórios para quem gosta de ler e ver cinema. 
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13 Contos de Terror…

O Halloween foi há uma semana, contudo, quero falar-vos de um livro fantasmagórico…

13 Tales from the Dead of Night é uma obra composta por treze contos sobre fantasmas, organizada por Cecily Gayford. A estudiosa de literatura inglesa escolheu trabalhos de escritores famosos como Edith Wharton e Rudyard Kipling, e de outros menos conhecidos (pelo menos, para mim) como E. Nesbit e Ruth Rendell. Apesar de a temática ser a mesma, os contos são diversificados, passados em épocas distintas, e de diferentes tamanhos. 
Confesso que os melhores foram os primeiros e os últimos. O livro começa por prometer-nos histórias estranhas sobre acontecimentos sobrenaturais inexplicáveis, mas acaba por cair no aborrecimento com histórias confusas, um pouco mais difíceis de acompanhar e muito menos assustadoras. Após a superação do meio, volta ao brilhantismo inicial, deixando o leitor com sede de mais. 
Os meus contos preferidos foram, sem dúvida, The Clock, de W. F. Harvey, The Crown Derby Plate, de Marjorie Bowen, The Haunting of Shawley Rectory, de Ruth Rendell e The Phantom Rickshaw, de Rudyard Kipling. 
Apesar de apenas ter mencionado quatro, creio que todos os contos estão muito bem escritos e merecem ser lidos. A edição de capa dura da Profile Books está linda e convida-nos a sentarmo-nos no sofá para sermos assustados. Bons pesadelos…
Literatura Norte-Americana

O Ensaio



O Ensaio, de Eleanor Catton, é um livro estranho. Começa com um possível assédio sexual por parte de um professor de música a uma aluna menor e as implicações que o caso tem na escola e na família dessa aluna. Ao mesmo tempo, a escola de teatro que existe ao lado da escola de música ensaia uma peça baseada no que aconteceu. 
A premissa da história até parece normal, contudo, a autora usa um método invulgar de interação entre personagens que a torna fresca e complexa. Trata-se de um livro maduro e completamente ausente de lugares comuns (um feito, visto o tema já estar bastante vulgarizado). Para além da frescura da escrita, o que mais me impressionou na narrativa foi realmente a maturidade. As personagens estão bem construídas, pensadas e humanizadas e a história discorre com naturalidade, algo que provavelmente não se espera de uma escritora de 25 anos. O caso da professora de música foi o mais enigmático para mim. No início não a compreendia bem, nem sabia o que procurava, apesar de ser o elo comum a todas as personagens e, tal como o leitor, estar a par de tudo o que acontece. No entanto, no final, fui capaz de entender a sua razão de ser e as suas motivações. É uma personagem perfeita que espelha as complexidades que todas as personagens principais deviam ter.
É através de características como esta que percebemos que estamos perante um grande livro. Apesar de não ter sido umas das minhas leituras preferidas até à data, reconheço que se trata de uma obra boa, diferente, fresca, e com um estilo muito próprio e humano. O Ensaio é a primeira publicação de Eleanor Catton, foi nomeada para vários prémios, incluindo o Orange Prize, e elevou muito a fasquia para uma autora que não desiludiu e escreveu o mais recente vencedor do Man Booker Prize: The Luminaries. Definitivamente a ler.
Literatura Britânica

O Deus das Moscas

Uma das melhores leituras do ano. Só assim é que consigo descrever este maravilhoso livro que tão bem retrata a natureza humana. 
O Deus das Moscas, do escritor inglês premiado com um Nobel da literatura em 1980, William Golding, narra a história de um grupo de rapazes que fica perdido numa ilha, sem adultos, após um acidente que lhes matou os pais. Estes meninos, de várias idades, vão tentar criar uma sociedade de forma a sobreviverem aos perigos de um território novo e satisfazerem as suas necessidades básicas. O problema é que nem todos concordam com as regras estabelecidas e o grupo acaba por se dividir, impedindo-os de viverem em paz. 
Esta obra fala essencialmente sobre a natureza humana. Há rapazes com personalidades mais fortes do que outros que acabam por se autodenominarem líderes e subjugarem os outros por estes serem diferentes ou simplesmente mais novos e fracos. A voz da razão nem sempre está presente e, quando está, é ouvida com preconceito e arrogância.
O que creio que William Golding quis mostrar com este livro, e com um exemplo tão básico como rapazes perdidos numa ilha, foi que a natureza humana não é igual em todos os homens. Uns são mais pacíficos, outros mais violentos, uns são mais sensatos, outros mais aventureiros. O problema é que quando não se sabe conversar e a anarquia se instala, o grupo torna-se violento e selvagem per se, perde a noção da sensatez e acaba por praticar ações más que provavelmente nunca praticaria num ambiente civilizado.
Aconselho vivamente a leitura de O Deus das Moscas, um clássico de 1954 que ainda hoje dá que pensar. 
Literatura Britânica

A mulher que decidiu passar um ano na cama

Não há como negá-lo: o que me “vendeu” o livro foi o título. Não há dúvida. Quem é que muitas vezes não pensou em esquecer tudo e simplesmente passar uma temporada na cama, a dormir, a ler, a ver tv, ou a fazer outras coisas? Pois eram tantas as possibilidades de uma história diferente que devo ter elevado demasiado as minhas expectativas. 

A Mulher Que Decidiu Passar Um Ano Na Cama conta a história de Eva, uma mulher que abdicou de uma carreira para cuidar dos filhos gémeos e do marido e que, passados 18 anos, quando os rebentos vão para a universidade numa outra cidade, decide passar um ano na cama. Durante esse período acontece-lhe de tudo: descobre que o marido, que já não ama, a trai com uma colega do trabalho, que a sogra nunca gostou dela, que a mãe não a entende, e que o homem que lhe faz as obras no quarto e por quem se apaixona não está disposto a largar tudo por ela.
Este devia ser um livro trágico-cómico, com situações caricatas que nos deveriam levar às lágrimas de tanto rir. No entanto o que me pareceu é que a autora, Sue Townsend, (mãe do famoso Adrian Mole), se esforçou demasiado e não conseguiu passar para o papel as peripécias que o livro merecia. Eva está constantemente a sentir pena de si própria porque tudo de ruim lhe acontece. É um azar atrás de outro que em vez de nos produzir gargalhadas faz com sintamos pena da protagonista e não tenhamos curiosidade em saber o que lhe acontece a seguir. Não gostei de nenhuma personagem em particular porque todas me pareceram vazias e caricaturadas ao extremo. 
Apesar de eu ter ficado um pouco desiludida com o livro, admito que há algumas passagens interessantes e que a história possa agradar a muita gente. Eu é que esperava mais. E com um título destes o livro merecia seguramente bastante mais.