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…e o que os miúdos leem hoje em dia.

Um dos grandes sucessos infantojuvenis da atualidade é, sem dúvida, a série Cherub, do autor britânico Robert Muchamore. Com cerca de duas dezenas de livros publicados, esta coleção provou que os meninos e meninas afinal também gostam de histórias de espiões à la 007.
O primeiro livro da coleção, e provavelmente o que conheceu mais êxito, é O Recruta. Aqui conhecemos o protagonista da série, James, e a forma de como ele vai parar à Cherub, uma organização secreta que em vez de alistar espiões adultos alicia crianças por serem agentes “menos óbvios”. A história está cheia de momentos de ação, e a sua narrativa é parecida à de um filme. Enquanto pretende cativar o público-alvo com cenas divertidas e episódios tumultuosos, deseja, ao mesmo tempo, mostrar-lhe um pouco do passado recente inglês e ajudá-lo a compreender como funciona o atual mundo da política e da grandes organizações mundiais.
De forma geral, compreendo que o livro seja cativante para os mais novos porque tem cenas engraçadas que os fazem rir e fala de um miúdo da idade deles que se torna espião ao serviço do seu país, uma fantasia interessante e íntima que faz sonhar qualquer adolescente. No entanto, enquanto leitora mais experiente, devo admitir que achei o livro violento, preconceituoso para com os mais gordinhos e com uma história pouco original. Os clichés sucedem-se e as cenas acontecem tão rapidamente e de maneira tão desconcertada que por vezes não percebemos como passámos de um episódio para outro. As personagens, à exceção de James, são vazias, sem história, e acrescentam pouco à obra.
Não creio que O Recruta seja um livro que encha a vida de um adolescente nem que, muito menos, o marque nessa fase tão importante. É apenas mais um passatempo, divertido e cativante, sem dúvida, mas com pouco conteúdo e não muito memorável. Resumindo: O Corsário Negro 1 – 0 O Recruta.
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O que líamos antigamente…

Há vinte anos, a oferta de literatura infantil não era comparável à de hoje. Atualmente, a maioria das livrarias tem uma secção bastante grande de livros infantis e juvenis que às vezes até a mim dão vontade de ler. De autores portugueses a estrangeiros, de banda desenhada a romances, de mistérios a biografias… A gama é absolutamente esmagadora, apelando a um público cada vez mais difícil de cativar. 
Quando eu era criança ainda não havia computadores, telemóveis, consolas de jogos… Os gadgets que então possuíamos eram Game Boy, aparelhagens, walkmans, discmans, beeps, e pouco mais. A televisão conservava-se, assim, rainha e senhora do nosso tempo livre, e não líamos mais do que os jovens de hoje. Líamos diferente: Os Cinco, Uma Aventura…, Os Sete, os obras de Alice Vieira, A Lua de Joana, os almanaques da Turma da Mónica… Ou o mais comum: adaptações das grandes obras clássicas da literatura universal para jovens.
Uma dessas adaptações foi O Corsário Negro, de Emilio Salgari (autor de Sandokan), editado pela Verbo (hoje Babel). Este livro conta a história de um corsário que deseja vingar a morte dos três irmãos, assassinados pelo mesmo homem: o governador de Maracaibo, Duque Van Guld. Temido por todos, o Corsário Negro é uma lenda do alto-mar. Consegue sempre o que quer e segue um código de conduta que valoriza a honra e a justiça acima de tudo. Jurou há muito matar o Duque e todos os membros da sua família. No entanto, sofre o azar de se apaixonar, sem saber, pela filha do inimigo… 
O Corsário Negro é uma série clássica italiana do final do século XIX, cheia de aventura e romance que apela tanto a jovens como a adultos mais exigentes. Lê-se num ápice e deixa-nos com vontade de retroceder no tempo e brincar aos corsários. A escrita é apaixonante, com descrições lindas da selva e das primeiras cidades espanholas da América Latina. As personagens principais estão muito bem construídas, e cada uma tem um papel importantíssimo na trama, o que leva a crer que se lá não estivesse a história perderia. É, sem dúvida, um livro memorável que agrada a miúdos de ontem e a miúdos de hoje. Recomendo-o vivamente.
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Autógrafos

A 84ª Feira do Livro de Lisboa não serviu apenas para comprar livros, foi também um espaço de encontro entre leitores e escritores que puderam trocar ideias sobre livros, leituras e experiências de vida. Eu também gosto de me encontrar com autores cuja obra é importante para mim, e, neste ano, quis pedir o autógrafo a dois que claramente se destacaram no meu percurso literário de 2013.
A primeira é uma senhora que eu já encontrei várias vezes em fóruns e apresentações de livros:  Teolinda Gersão. Na minha tese de mestrado, usei o seu livro A Cidade de Ulisses como exemplo de obra a ler numa aula de PLE. Quando lhe pedi o autógrafo dei-lhe uma cópia da tese, que ela recebeu com grande surpresa e carinho. Espero que tenha gostado da análise literária que fiz ao seu livro.
O segundo é um escritor juvenil norte-americano que está muito em voga entre os jovens do nosso país: Robert Muchamore. Ficou famoso com a série CHERUB, uma sucessão de livros que contam a história de uma organização secreta que em vez de ter agentes adultos tem agentes adolescentes, pois as crianças levantam menos suspeitas quando espiam. O primeiro livro da série, O Recruta, foi o escolhido pelos alunos do 5º e 6º ano para lermos na segunda parte do Clube de Leitura do cessante ano letivo.

Gostei muito de falar com os dois escritores e de trocar impressões sobre os seus livros. É uma forma muito enriquecedora de perceber o ponto de vista de quem escreve e de o comparar com o de quem lê.

 

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84ª Feira do Livro de Lisboa

E eis a minha perdição deste ano da Feira do Livro de Lisboa. 20 obras fresquinhas e acabadinhas de chegar à minha estante, que terão de esperar um pouco até serem lidas, pois os primos foram adquiridos antes e estão à frente na fila. Alguns destes livros foram comprados sem aviso e com desconto, outros foram comprados de propósito, com um preço que fez oscilar um pouco a minha carteira, que passeou mais na minha mão do que é costume (sortuda). Contudo, são todos muito bem-vindos e todos me deixam com uma grande vontade de os ler.

São eles:

The GoldFinch, Donna Tartt
As Aventuras de Augie March, Saul Bellow
Nós, os afogados, Carsten Jensen
O Som e a Fúria, William Faulkner
Fúria, Salman Rushdie
Middlesex, Jeffrey Eugenides
Bem me quer, Mal me quer, Pearl S. Buck
O Sol Nasce Sempre (Fiesta), Ernest Hemingway
Triologia dos Senhores da Guerra, Bernard Cornwell
Rebelde, Bernard Cornwell
As Desventuras do Sr. Pinfold, Evelyn Waugh
A Lebre de Vatanen, Arto Paasilinna
Flush, Uma Biografia, Virginia Woolf
Histórias de Londres, Enric González
A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Washington Irving
O livro da Selva, Rudyard Kipling
O Vento nos Salgueiros, Kenneth Grahame
O falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello

Literatura Europeia

Dracula

Provavelmente teria sido mais adequado ler este livro em outubro, porém, como o descarreguei gratuitamente para o Kindle e li o primeiro capítulo de imediato, foi impossível deixá-lo. 
Dracula foi escrito pelo irlandês Bram Stoker e publicado pela primeira vez em 1897. Na altura, os leitores não souberam o que pensar do livro, porém, o jornal Daily Mail não teve dúvidas em classificá-lo como melhor do que as obras de Mary Shelley e Edgar Allan Poe. Segundo alguns historiadores literários, Dracula tem mais relevância para os leitores dos séculos XX e XXI do que para a geração que o viu nascer.
Este romance gótico começa por narrar a viagem do advogado inglês, Jonathan Harker, à Transilvânia, terra do Conde Dracula, para onde é enviado de modo a tratar da papelada na preparação da viagem do Conde a Londres e consequente compra de uma propriedade. No entanto, o jovem começa a ser alvo de acontecimentos estranhos e assustadores, e aos poucos vai-se apercebendo de que o conde é um vampiro e o mantém preso no seu castelo. Com receio de enlouquecer, Jonathan aponta tudo o que vive e presencia no seu diário, o que mais tarde se revela utilíssimo. Em Whitby, esperam-no a sua noiva, Mina Murray, e os seus amigos Lucy Wenstera, Dr. John Seward, Quincey Morris e Arthur Holmwood. Jonathan consegue escapar e é internado num hospital de freiras. Em Whitby, Lucy também começa a ser objeto de eventos bizarros, pelo que o Dr. Seward, um médico psiquiátrico que não sabe o que fazer, chama o seu antigo professor Abraham Van Helsing para o ajudar. É a partir daqui que se inicia uma verdadeira caça ao vampiro e aos porquês de todas aquelas ocorrências.  
Um dos pormenores mais engraçados do livro é o facto de todo ele ser escrito em forma de diário e/ou cartas. Todas as personagens vão contando o seu ponto de vista à vez, relatando ao leitor não só os acontecimentos que vão tendo lugar, mas também a forma de como estes as afetam psicológica e emocionalmente. Assim, o espectador tem uma visão privilegiada da história, entrando nela a fundo e apercebendo-se de tudo o que se passa em primeiríssima mão. Trata-se de uma narrativa que não tem pressa em ser contada, pelo contrário, vai-se desenrolando a um ritmo agradável, sem se tornar aborrecida, nem rápida demais. Creio que o leitor dá conta de que foi um prazer para Stoker escrever este livro.
Diz-se que o escritor se inspirou em Henry Irving, um dos atores mais conhecidos do seu tempo e para quem Stoker trabalhava, para escrever Dracula. A sua ideia era que a obra fosse transposta para o teatro (tendo o próprio Stoker feito a adaptação), e que o Conde tivesse sido interpretado por Irving. Porém, tal não aconteceu porque o ator não se sentiu à vontade para o fazer. Atualmente, a teoria mais aceite é a de que Bram Stoker se inspirou no principe de Valáquia, Vlad Draculea, o Empalador, para construir a personagem. Vlad foi um aristocrata romeno, famoso pelo seu desejo de independência dos impérios turco e otomano, e pelo sadismo e crueldade com que tratava os seus prisioneiros. No livro, Van Helsing chega a compará-lo ao vampiro, dizendo: “(…) He must, indeed, have been that Voivode Dracula who won his name against the Turk, over the great river on the very frontier of Turkey-land. (…)”. (Cap. 18, pg. 145). Ainda hoje o antigo castelo de Vlad é conhecido como o castelo de Drácula.

Gostei muito de ler este livro. Está muito bem escrito (o facto de ser um epistolário ajuda à  compreensão da história e faz com que sintamos uma empatia mais vincada em relação às personagens), tem um ritmo excelente e os acontecimentos são assustadoramente requintados. É uma obra que mexe connosco e nos acompanha mesmo depois de a termos terminado de ler. Não é por acaso que já foram feitas tantas adaptações cinematográficas (sendo as melhores a de 1931 com Bela Lugosi no melhor Dracula de sempre, e a de 1992, de Francis Ford Coppola), ajudando à mitificação da personagem. É, sem dúvida, um Clássico da literatura moderna.
Literatura Juvenil · Literatura Norte-Americana

Archie Comics

Como já tenho escrito neste blogue, estou a descobrir o mundo da banda desenhada. Quando era pequena gostava muito dos almanaques da Turma da Mónica e devo ter lido centenas (se não milhares) ao longo dos anos da minha adolescência. Agora que já sou adulta, apetece-me ver que tipo de banda desenhada existe no mercado para os mais velhos. Já li Maus, Calvin & Hobbes e tenho vontade de ler Corto Maltese. Porém, numa visita recente a Nova Iorque, dei de caras com uma das bandas desenhadas mais antigas e icónicas dos Estados Unidos: Archie Comics.
Editada no inicio dos anos 40 do século vinte, Archie Comics é uma banda desenhada que tem como personagens principais um grupo de adolescentes: Archie Andrews, Betty Cooper, Veronica Lodge, Reggie Mantle e Jughead Jones, todos amigos e membros da banda de rock&roll, The Archies. A personagem principal, Archie, é um adolescente desastrado e mau aluno, sempre metido em sarilhos devido à má sorte ou às suas ideias mirabolantes. Como é de esperar sai dessas situações quase sempre ileso e num contexto quase cómico-trágico. 
Pode definir-se o grupo de amigos como tipicamente americano, isto é, cada um à sua maneira representa um esteriótipo do americano branco que aparecia muito no cinema dos anos 30 e 40. Archie é o adolescente de classe média que não quer estudar e se vê dividido entre duas raparigas: Betty e Veronica, Betty é uma loira estonteante que deseja subir na vida, ter uma apartamento no Upper East Side, passear o cão e vestir nas melhores lojas, Veronica já faz tudo isso, pois é a filha coquete de um politico influente de Washington, Reggie é claramente Republicano e deseja tornar-se politico ou advogado, e Jughead é o músico/artista relaxado do Soho que deseja criar e ser reconhecido por isso. Algumas destas personagens tiveram tanto sucesso que conseguiram ter as suas próprias publicações em BD como Betty e Veronica.
As histórias são leves, cómicas e feitas a pensar no público adolescente. Ainda assim, se um adulto não tiver mais nada para ler e der de caras com um livrinho do Archie, ou de outra personagem do grupo, não ficará aborrecido. Afinal, estas histórias tolas, de vez em quando, também animam a alma.

Literatura Europeia

A Princesa de Gelo

Eu adoro romances policiais! E quando vi “A nova Agatha Christie” escrito na capa, soube logo que tinha de comprar este livro.

A Princesa de Gelo, de Camilla Lackberg, fala-nos de um assassinato ocorrido na pacata aldeia piscatória de Fjallbacka, na Suécia. Erica Falck, uma autora de biografias de escritoras suecas residente em Estocolmo, regressa à sua cidade-natal para passar o verão na casa dos pais, que morreram recentemente num acidente de viação, e encontra o corpo sem vida da melhor amiga de infância numa banheira congelada. Depois de ligar para a polícia, ela própria começa a investigar as causas do crime e une forças com o detetive criminal, Patrick Hedstrom, que sempre nutriu um carinho especial por ela…
A história é muito cativante. Assim que começamos a lê-la, é difícil pararmos. O livro está muito bem escrito, o ritmo é impecável, e o enredo tem tudo para se tornar um ótimo romance policial. Contudo, devo dizer que o final foi um pouco menos interessante do que eu esperava. Não que não tenha gostado, só acho que poderia ter sido mais empolgante. Aconteceu tudo muito depressa, o que para um livro de 400 páginas não é compreensível, e foi bastante óbvio. Esperava um motivo espetacular e um assassino mais cruel.
No entanto, de forma geral, o livro é bom. Apesar de eu achar que a Agatha Christie é uma escritora mais talentosa, fria e manipuladora do que Camilla Lackberg, (algo que adoro nos romances policiais), penso que esta nova autora sueca tem tudo para se tornar uma escritora interessante.
Literatura Britânica · Literatura Juvenil

Mary Poppins

Nunca fui uma grande conhecedora de Mary Poppins. Aos 10 anos, quando estive pela primeira vez de férias na EuroDisney, apareceu-me à frente um casal de personagens vestido à anos 20 que eu não reconheci. Seria possível existir um filme da Disney que nunca vira? Para meu espanto, que me considerava uma perita em filmes de animação, sim, vários. E um deles era precisamente Mary Poppins.
Vi-o mais tarde, já adolescente, e devo dizer que apesar de ter gostado muito nunca foi dos meus preferidos. No entanto, no inicio deste ano, apareceu no cinema um filme bastante original sobre a realização de Mary Poppins, com dois atores fenomenais: Tom Hanks e Emma Thompson. Não podia perder. Adorei Saving Mr. Banks (fiz inclusive uma critica ao filme neste meu blogue de livros) e, como tal, resolvi ler o que esteve na base de tudo: o livro Mary Poppins escrito por P. L. Travers. 
A obra foi publicada em 1934 e deu início a uma série infantil que obteve grande êxito na sua geração e se tornou um clássico infantil também devido ao filme. Conta a história da família Banks e da sua curiosa ama, Mary Poppins, que surge com os ventos de leste (daí o nome Poppins, de alguém que pops, aparece) e cuida das quatro crianças da casa. No dia a dia, Mary mostra-lhes um mundo de fantasia que elas muitas vezes põem em causa por não acreditarem que algo de tão fantástico possa realmente existir. Conhecem personagens estranhas, viajam para lugares onde os animais falam e chegam mesmo a tomar chá com parentes de Mary. Algo que as intriga é o facto de desconhecerem em absoluto a origem de Mary Poppins. Não sabem de onde vem, onde vive, ou o que pensa, sabem apenas que é muito vaidosa, pouco simpática, senhora do seu nariz e que aparece de vez em quando. Apesar de ser assim, ela leva-os a sítios onde eles podem ser crianças no verdadeiro sentido do termo e gozar de uma liberdade que os tempos de principio de século não permitem. É por isso que acabam por gostar dela e querem que fique para sempre, o que acaba por não acontecer.
Diz-se que este livro é auto-biográfico e que a personagem de Mary Poppins foi inspirada numa tia de P. L. Travers que apareceu num dia de muito vento, após a terrível morte do seu pai, para ajudar na lida da casa e na educação das crianças. O filme Saving Mr. Banks pega igualmente nesta versão para justificar a escrita da série infantil. Eu não posso afirmar que assim seja porque nunca li a biografia de P. L Travers, contudo parece-me bastante plausível que tal pudesse ter sido o caso. Seja como for, Mary Poppins é um livro mágico que nos transporta para um mundo encantado, por vezes parecido com o do filme da Disney, e nos mostra que ser criança e poder sonhar é realmente a melhor coisa do mundo. Recomendo.