Literatura Britânica

The Monogram Murders

Para mim, o ano de 2015 foi marcado por dois grandes lançamentos literários: o segundo livro de Harper Lee, que há muito estaria escondido no cofre de um banco, e uma nova versão de uma história de Hercule Poirot, maior personagem de Agatha Christie, pelas mãos de Sophie Hannah. O primeiro deixou um pouco a desejar, o segundo foi uma vitória literária.
Como já devem ter percebido, eu sou uma grande admiradora de Agatha Christie, principalmente da sua criação fetiche, Hercule Poirot. Por isso, quando soube que ia sair um novo livro do detetive pela mão de uma escritora policial contemporânea fiquei um pouco cética. A principio não quis ler a adaptação com medo de estragar a ideia que tinha de Hercule Poirot, contudo, depois de ter visto um exemplar de bolso com uma capa irresistível e frases encorajadoras de jornais reputados foi impossível ficar indiferente. 
A ideia original não foi trazer Poirot para a atualidade, pelo contrário, foi mantê-lo no seu período de início do século XX e tentar arquitetar um mistério parecido aos da própria Agatha Christie. O resultado foi excelente: um triplo homicídio num prestigioso hotel de Londres, com vários suspeitos, motivos controversos e conspirações inexplicáveis. 
A narrativa está muito bem conseguida. Percebe-se que Sophie Hannah estudou a fundo os livros de Agatha Christie e que tentou construir o seu com uma estrutura semelhante, sem nunca esquecer, claro está, as características distintivas de Poirot, tanto a nível fisico como psicológico. A trama tem muitos volte-face, como seria de esperar num romance policial, o que faz com que o leitor se sinta sempre preso ao livro. Sophie Hannah assegura que não se perde o fio à meada ao explicar continuamente o que ocorre, algo que Agatha Christie nem sempre faz, dando mais liberdade ao receptor. 
Apesar de a versão estar bem feita, vê-se que não é igual às histórias de Agatha Christie. Os leitores ficarão agradados com o livro, no entanto, aperceber-se-ão de que este Poirot é, quiçá, um pouco mais nervoso, autoritário e menos gentil do que aquele a que estamos habituados. Pode ser o cunho pessoal de Hannah ou apenas a forma de como ela vê a personagem. Seja como for, aconselho vivamente a leitura desta tentativa bem-sucedida de engendrar um novo crime para o detetive desvendar, quanto mais não seja para vermos como um autor contemporâneo dá vida a uma personagem que merece indiscutivelmente o reconhecimento do público do século XXI. Gostei muito. 
Literatura Norte-Americana

A mulher de branco

Devo admitir que o título deste livro sempre me fascinou. O nome do autor não me era familiar, nunca lera nada seu nem ouvira falar de outra obra que pudesse ter escrito. Só desta. Da enigmática mulher de branco. 


A Mulher de Branco (1859) de Wilkie Collins, colaborador e amigo pessoal de Charles Dickens, é hoje em dia considerado um clássico da literatura britânica e uma das primeiras tentativas do romance policial. Trata-se de uma narrativa epistolar que conta a história das irmãs Laura e Marian, e do seu amigo e professor de pintura, Walter Hartright, que, ao longo do livro, tenta descobrir a razão do aparecimento de uma mulher de branco, cuja fisionomia é semelhante à de Laura, que os avisa para o risco de esta última contrair matrimónio arranjado com o homem que o pai escolheu.

Sempre esperei que este fosse um romance de fantasmas, decidindo, por isso, lê-lo em Outubro, porém, a meio do livro, percebi que os espíritos que pairavam no ar não eram abstractos e dei-me conta de que estava, na verdade, perante uma trama policial bastante perversa.

O que mais me fascinou foi a personagem de Marian Halcombe. Ao contrário de Laura que é a típica mulher bonita, frágil e dependente, Marian é uma pessoa cheia de força que ajuda Walter a desvendar o caso e cuida da irmã como se de uma filha se tratasse. Collins dá-lhe um estatuto quase igual ao de Walter, fazendo-o, a certa altura, duvidar do seu amor por Laura perante a prestável Marian, e tornando-a o amor secreto do vilão em detrimento de uma esposa aduladora e servil que ele só suporta porque ela faz todas as suas vontades. Apesar de o autor ter tido a coragem de construir uma personagem feminina que em nada fica atrás do corajoso herói da trama, não teve bravura suficiente para lhe dar um final feliz ao lado de um homem. Marian acaba solteira por ter uma personalidade vincada e não corresponder aos padrões de beleza da época.

A obra é extensa, 478 páginas na edição da Relógio D’ Água, contudo, não nos apercebemos disso porque o livro está escrito numa maneira apelativa e nunca se torna maçudo. Recomendo-o vivamente, principalmente a quem gosta de romances policiais. O final é previsível mas está muito bem construído. E, apesar de não ser um romance de fantasmas, às vezes, assusta um bocadinho…

Literatura Europeia

A Túlipa Negra

Recebi de presente o livro “A Túlipa Negra” quando fiz 10 ou 11 anos. Era uma edição juvenil baseada no original, com gravuras bonitas e texto adaptado. Na altura, eu não era leitora, pelo que o livro não me interessou e o pus de lado. Contudo, anos mais tarde, depois de ter finalmente descoberto o que os livros podem fazer por mim, lembrei-me dele e fiquei com vontade de o ler. O problema é que não o encontrava à venda. Até agora.
A Túlipa Negra (1850), de Alexandre Dumas, conta a história de Corneille de Witt e do ser amor por flores, nomeadamente túlipas. Corneille é um jovem herdeiro abastado, sobrinho dos dois “governadores” da Holanda que acabam por sofrer as represálias de um povo encantado com Guilherme de Orange e farto dos franceses. Depois de serem ambos decapitados em praça pública, as autoridades seguem no encalço de Corneille e prendem-no, afastando-o das suas queridas túlipas. Corneille, completamente alheio às movimentações políticas que ocorrem, sofre por não poder dedicar-se ao que mais gosta. Na prisão, conhece a filha do carcereiro, Rosa, que, ao vê-lo, fica imediatamente apaixonada por ele e ajuda-o na sua missão de descobrir como plantar uma túlipa negra, desafio proposto pela Sociedade Hortícula holandesa. Só que o perigo espreita de perto, e um preso e uma jovem rapariga pouco podem fazer contra ele.
Este é o mote de um livro de aventuras à la “Os Três Mosqueteiros”. Apesar de a escrita não ser propriamente fácil de ler, com muitas vírgulas, interrupções, e comentários ao leitor, a narrativa desenrola-se com ritmo e deixa-nos algumas vezes em suspense e desejosos de querer saber o que vai acontecer. O final é o esperado e, na minha opinião, podia ter sido contado de uma forma mais pormenorizada e lenta para fazer jus à obra. Seja como for, trata-se de uma leitura agradável que agora nos chega pela editora Civilização, que apresenta uma coleção de clássicos da literatura nacional e estrangeira, com lindas capa a condizer. Aconselho. 
Literatura Britânica

O retrato de Dorian Gray

Oscar Wilde é um dos escritores mais adorados e citados do mundo. Muitos reconhecem-lhe o génio, a forma cómica de apontar os defeitos sociais, e as personalidades vincadas dos seus personagens. A mais famosa, quiçá, Dorian Gray.
O retrato de Dorian Gray (1891) conta a história de um rapaz, Dorian Gray, considerado fisicamente perfeito aos olhos da sociedade britânica dos finais do século XIX. É tão bonito, jovem e inocente que um pintor da moda, Basil Hallward, decide pintá-lo na que será a sua obra-prima. Assim que termina o quadro, aparece no seu atelier um bom amigo, Lord Henry Wotton, que fica absolutamente impressionado com Gray. Basil pede-lhe que não o “polua” com as suas ideias filosóficas e modernistas, mas Henry não resiste à beleza do modelo e inicia de imediato uma relação de amizade com ele. Tece-lhe tantos elogios que Dorian deseja, diante dos companheiros e do quadro, ficar jovem para sempre, e que seja o retrato a envelhecer em vez dele. Ora, como dizem os anglo-saxónicos: “Be careful what you wish for, you may receive it”.
É interessante notar como uma simples premissa pode levar a tantas conclusões. Eu só referirei algumas. A obra joga muito com o efeito da estética e da duplicidade. Muitas vezes é aludido, principalmente através do cínico Henry Wotton, que a beleza é meramente uma ideia abstrata que apenas serve para iludir e agradar os outros. É por isso que, a dada altura, Dorian se dedica ao estudo de tudo o que é belo (jóias, tapetes, roupas, música), fazendo crer que é apenas isso que importa para a alta sociedade vitoriana. No entanto, tudo tem um preço, e o que Dorian acaba por pagar para ser eternamente belo é bem elevado. Acaba por levar uma vida dupla, ao estilo Dr. Jekyll e Mr. Hide, e transforma-se num ser mesquinho, perverso, e perdido. 
Gostei muito do livro. Embora tenha sido escrito há 124 anos continua a ser um murro no estômago para quem vive no século XXI. A temática da beleza, da sua importância extrema, e do custo que tem para quem se deixa influenciar por ela, continua a ser bastante atual. Podemos até estabelecer um paralelismo entre os dândis da época vitoriana (Oscar Wilde era um deles) e as celebridades dos dias de hoje. Até que ponto estão dispostos a sacrificar o seu bem-estar para serem considerados modelos de beleza a seguir? Tudo, diriam muitos. Dorian sacrificou até a alma. 
Literatura Norte-Americana

O Sentido na Vida

Comecei a ler este livro quando o meu gatinho morreu. Foi uma época muito estranha para mim porque, apesar de o meu gato ter dezoito anos e aparentar cada vez mais fragilidades, nunca pensei que o seu desaparecimento pudesse realmente acontecer. Entristeceu-me muito. Talvez por isso eu tenha querido refletir sobre o sentido na vida. Não de um ponto de vista de autoajuda, mas de um ponto de vista filosófico. 
Susan Wolf é professora catedrática na Universidade da Carolina do Norte e dedica o seu trabalho à filosofia moderna. Entre os vários temas que trata está o sentido na vida. Nesta obra, a autora argumenta que apesar de o sentido na vida ser diferente para todas as pessoas, tem uma característica geral a todas: fazer as coisas por amor e o desejo de realização. Quando fazemos algo por amor ou hedonismo sentimo-nos realizados, mas será que isso basta para que haja sentido na nossa vida? Susan Wolf acha que não e dá o exemplo de uma mulher que vive para alimentar o peixinho dourado e de um homem que tem como objetivo de vida fazer cópias manuscritas do livro Guerra e Paz, de Tolstoi. Questiona a autora: “(…) do ponto de vista do interesse próprio – e desde que, talvez, os seus afectos e valores sejam estáveis, (…) – estas vidas são tão boas quanto possível? (…)”. 
A professora argumenta ainda que o outro lado da moeda é fazermos algo “mais vasto do que nós”, ou seja “(…) algo cujo valor seja independente de nós e tenha a sua fonte fora de nós. (…)”. Contudo, argumenta, lembrando-se do caso de Sísifo, condenado interminavelmente a carregar uma pedra até ao cimo de um monte, “(…) mesmo uma vida que satisfaça completamente a condição subjetiva pode ser tal que hesitaríamos em descrevê-la como dotada de sentido, se objetivamente não tiver qualquer conexão a algo ou alguém cujo valor esteja para lá da própria pessoa em causa. (…)”. 
Isto é, a concepção de sentido na vida para Susan Wolf é, ao mesmo tempo, objetiva e subjetiva, tem a ver com o amor que depositamos no que é importante para nós e nas tarefas que fazemos em prol da comunidade. Segundo a sua visão, o discutível é se damos valor ao que é correto, um assunto inteiramente novo.
Confesso que achei o livro um pouco aborrecido devido à repetição dos conceitos descritos. Não nos podemos esquecer que a obra é o conjunto de uma série de conferências que Susan Wolf deu sobre o tema, ainda assim, poderia ter sido encurtado. Algo que achei curioso foi o facto de a autora ter acrescentado as opiniões de colegas seus, nem sempre concordantes com o seu ponto de vista, e as ter rebatido no final. É, acima de tudo, um livro filosófico e académico, que pede uma leitura atenta. Não tem uma conclusão fechada sobre o sentido na vida, mas dá-nos argumentos interessantes para o começo de uma reflexão. Afinal, não é para isso que serve a filosofia?
Literatura Europeia

A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia

Há já alguns anos que tinha este livro em casa e quando soube que estava incluido no Plano Nacional de Leitura para o 5º ano não hesitei em levá-lo para o Clube de Leitura lá da escola.
A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia (1909) foi escrito pela primeira mulher vencedora do Prémio Nobel da Literatura, a sueca Selma Lagerlof. E é fácil perceber porquê. Neste livro, a autora utiliza a premissa de um jovem mal comportado, que mais tarde é transformado em gnomo e recorre grande parte do território sueco, para louvar o seu país. Pelo meio da que parece ser uma história juvenil, Selma Lagerlof conta lendas e mitos de diversas regiões, relata como era o desenvolvimento da Suécia a todos os níveis: económico, social, educacional, e até discute algumas das diferenças dos diversos povos que, no início do século XX, habitavam uma nação independente e monárquica, onde, segundo a autora, já cerca de 90% da população era literata.
Ao lermos a obra, não podemos deixar de comparar Portugal ao país escandinavo e a verdade é que o que nos distinguia na altura é o que nos distingue agora.
Gostei muito do livro, mas creio que gostei porque já fui à Suécia. Reconheci alguns dos locais mencionados (nomeadamente Estocolmo e o Skansen), lembrei-me de algumas paisagens que vi, e reconheci a mentalidade do povo sueco nas personagens e na escrita direta e fluida da autora. Acima de tudo, achei a ideia da história muito bem articulada com o verdadeiro objetivo da narrativa, o que, para a altura, deve ter sido uma agradável inovação literária. Porém, para quem não conhece a Suécia e não tem ideia de como age e vive o seu povo, esta identificação é mais difícil de sentir. Creio que foi isso que aconteceu aos meus alunos. No final, achei que o livro fora um pouco longo (cerca de 300 páginas) e que as suas descrições tinham sido um fardo quando o que eles mais queriam era ler sobre as aventuras de Nils. Na minha opinião, a obra devia ter como público-alvo alunos mais velhos, com uma certa maturidade e conhecimento da Europa e da Escandinávia.
Sem ligar a este pormenor, acho que o livro se adequa a qualquer adolescente/adulto. É um clássico da literatura europeia que nos conta, por meio de situações hilariantes e quiçá profundas, o que era a Suécia e o ser-se sueco no final/início do século passado. Recomendo. 
Literatura Europeia

História da Beleza

Este livro foi-me aconselhado por um psicólogo. Eu não sabia da sua existência, o que é estranho para alguém que liga tanto ao tema da beleza! O que não esperava era uma verdadeira revelação.
História da Beleza (2004) é um livro de não-ficção organizado e pensado pelo reputado escritor italiano Umberto Eco, que compilou os “ideais” de beleza (principalmente feminina) desde os gregos até à atualidade. Para isso, recorreu à arte e à literatura de forma a exemplificar o que era considerado bonito durante as diferentes épocas. 
O que aprendi com a frutuosa leitura foi que ao longo dos séculos a beleza sempre esteve associada a valores bons (ou bonitos, se quisermos), como a verdade, a bondade, a inteligência, a liberdade, o sofrimento, etc. O papel do artista (pintor, escultor, escritor) era o de exaltar estas qualidades tidas como extraordinárias em personagens dignas de admiração. A partir da Revolução Industrial (meados do séc. XIX), quando as máquinas começaram, pela primeira vez, a usurpar empregos e a criar produtos em massa, o lugar do artista foi posto em causa porque o físico passou a ser considerado belo. Tudo era classificado como arte, a arquitetura, a engenharia, a moda, a fotografia, o estilo de vida, o cinema. Parece que deixou de existir uma idealização de arte para passar a haver uma arte elitista e uma arte de massas. Foi mais ou menos a partir deste momento que o artista começou a olhar para a fisionomia humana per se como algo bonito, e a enaltecer quem correspondia a determinados padrões estéticos. Tudo ganhou mais força com o poder de Hollywood e das casas de alta costura. Até que chegamos à atualidade. 
Hoje em dia, a maioria da população ocidental e desenvolvida pensa que a magreza é a forma maior de beleza e elegância, basta verificarmos as revistas dirigidas ao público feminino que é quem mais contribui para as indústrias da moda e beleza. Contudo, tal como o livro refere, se um marciano descesse à Terra daqui a cinquenta anos e estudasse a História da beleza do nosso tempo veria que nunca houve uma era estética tão democrática como a que vivemos. 
Atualmente, todos os padrões de beleza parecem ser aceites. E temos vários exemplos para demonstrá-lo. Há pessoas que acham a Kim Kardashian bonita (complexão escura, muito curvilínea, baixa) e quem ache a Gisele Bundchen bonita (alta, magra, loira). Há quem considere o Johnny Depp bonito (alto, moreno, de aspeto Bad Boy) e quem considere o Chris Hemsworth bonito (loiro, musculado, de aspeto angelical). Todas as pessoas têm os seus gostos e as suas preferências. Veja-se, a título de exemplo, os casos das mais gordinhas. Embora ainda não sejam tidas como um padrão estético a seguir (principalmente devido a questões de saúde), têm fãs, são bem-sucedidas, e aparecem frequentemente em capas de revistas, como Adele, Queen Latifah, Melissa McCarthy, ou até Oprah. 
A conclusão do livro foi uma agradável surpresa. Nunca tinha realmente pensado que há um lugar cativo para todas as formas e feitios, e que as pessoas têm gostos diferentes e se interessam por outras não racionalmente, mais emocionalmente. Nem todas acham bonito o que nos é “vendido” ou “imposto” pelas indústrias que lucram com o estético, e a personalidade é, uma vez mais, a âncora que prende um ser a outro. Na minha opinião, todas as raparigas (e rapazes) deviam ler este livro para aprenderem de onde vêm os ideias de beleza, o que os motiva, e que o belo é algo de muito relativo e pessoal. Nunca parece ter sido, nem parece que será, um único padrão.
Literatura Britânica

O Assassinato de Roger Ackroyd

Só tenho uma palavra para descrever este livro: incrível.

Se seguem o meu blogue com alguma frequência, já perceberam que sou fã incondicional de Agatha Christie. Conheço bem a sua obra e não passa um ano sem que leia um livro seu. Contudo, nunca tinha posto as mãos no que é hoje considerado o clássico da literatura policial por excelência, e o seu melhor trabalho: O Assassinato de Roger Ackroyd (1926).

Tudo começa com o homicídio de Mrs. Ferrars, viúva de um dos homens mais importantes de King’s Abbott. O outro homem rico da aldeia é Roger Ackroyd, que ultimamente sente uma certa apreensão pela sua vida, sem que ninguém perceba muito bem porquê. A verdade é que ele tem motivos para estar preocupado e acaba mesmo por ser assassinado. É neste momento que Poirot entra em cena e o enredo se desenrola ao mais puro estilo Christie. 
A narrativa é-nos contada pelo Dr. Sheppard, o médico de King’s Abbott que analisou primeiramente os dois cadáveres. Poirot junta-se a ele numa espécie de dupla que imita a que manteve em muitos livros com o Capitão Hastings, na esperança de lhe ser mais fácil obter informações para resolver o caso, pois, como o próprio diz, encontra-se reformado e as celulazinhas cinzentas já não são o que eram. 
Para não variar, a história está muito bem escrita e descrita, com todos os pormenores que nos apaixonam em Agatha Christie. É fácil de seguir, um deleite de ler, e (muito) difícil de poisar. Apesar de, pela primeira vez, eu ter descoberto o/a responsável pelos crimes, recomendo vivamente a leitura deste livro e compreendo por que razão é considerado o ex-libris da literatura policial. Tem tudo. Trama, intriga, paixão, suspense, medo, morte, inteligência. 
Se é o melhor que Agatha Christie nos deixou, não sei, pois, dos que já li, gosto especialmente de As Dez Figuras Negras (1939) e de Poirot e o Jogo Macábro (1946). Na minha opinião, é tão bom quanto estes. No entanto, ao contrário dos dois, está presente em inúmeras listas de livros a ler antes de morrer. Eu já me adiantei e adorei! 
Literatura Sul-Americana

O amor nos tempos de cólera

Eu pensava que ia ler uma história de amor. O primeiro capítulo assim o indicou e confesso que me despertou uma curiosidade imensa. No entanto, à medida que as páginas se iam virando, apercebi-me de que a história de amor não era o que eu esperava. Era uma história de amor diferente.
O amor nos tempos de cólera narra a história de duas personagens, Fermina Daza e Florentino Ariza. Ambos vivem numa pequena terra portuária situada algures nas Caraíbas, sendo que ela provem de uma família poderosa e ele é o filho bastardo de um homem importante da cidade. Enquanto crianças,  prometem casar e amar-se para sempre, contudo, depois de se tornarem adultos, Fermina declina a ideia e acaba por desposar um médico de excelente trato e reputação. Só que Florentino não esquece a promessa e não desiste.
Gabriel Garcia Márquez (Nobel da Literatura, 1982), dá-nos assim a sua visão do amor e da humanidade. O romance, já com algumas adaptações cinematográficas, em especial a de 2007 protagonizada por Javier Bárdem, explica-nos a sua ideia de amor: difícil, incompreensível, mutável, ilimitada. As personagens vivem ao sabor do vento, raramente se encontram, amam outras pessoas, mas nunca deixam de pensar uma na outra, para o bem e para o mal. Márquez evidencia deste modo que o poder da vida e da razão é muito forte, mas que o do amor e da vontade consegue ser maior. O ser humano não é capaz de mudar tudo, mas pode, e deve, ter uma palavra a dizer sobre o seu destino. 
Outra curiosidade de O amor nos tempos de cólera é a percepção histórica do círculo onde as personagens se movem. O romance tem lugar no século XIX, altura em que as Caraíbas ainda faziam parte da Corte Espanhola, e Garcia Márquez relata-nos como era a vida na colónia para pobres e ricos. Essa dicotomia está patente em toda a obra, sendo interessante verificar que se parece bastante à que hoje ainda existe na maior parte dos países da América Latina.  
Apesar de O amor nos tempos de cólera não ser o romance de uma história de amor tradicional, é o romance de uma história de amor diferente, bela, intemporal, e, acima de tudo, possível, contada através de uma escrita fluída e nada aborrecida. Recomendo. 
Literatura Norte-Americana

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça e Outros Contos

Comprei o livro de Washington Irving pelo simples facto de querer ler “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”. Já conhecia a história devido ao filme da Disney, de 1949, e sempre a achei assustadora e cómica, ao mesmo tempo. Uma ótima forma de contar aos mais novos uma história de terror.
Ichabod Crane é o novo professor primário de uma cidadezinha norte-americana habitada sobretudo por emigrantes holandeses. A sua chegada causa um grande reboliço devido à sua fisionomia peculiar (ao longe parece um espantalho), e principalmente ao facto de parecer atrair a atenção da bela filha do homem mais rico da região, Katrina Van Tassel, disputada por todos os solteiros da zona, como o popular Brom Bones. Certa noite, numa festa organizada pelo pai de Katrina, Brom começa a perder a esperança de conquistar a rapariga. De repente, apercebe-se do ponto fraco do adversário: Ichabod tem medo de histórias de terror. Então, ele narra a lenda do Cavaleiro sem Cabeça, um antigo mito da cidade que diz que anda um cavaleiro sem cabeça à solta, à procura de uma cabeça para poder usar. Claro que ninguém leva a história a sério, só que, na manhã seguinte, o desaparecimento de Ichabod levanta muitas suspeitas. O que lhe terá acontecido?
O segundo conto do livro é “Rip Van Winckle”, e não há norte-americano que não o conheça. 
Certo dia, Rip Van Winkle, homem bondoso e mandado pela esposa, fartou-se da sua vida de trabalho e da “megera da mulher”, pegou na espingarda e foi caçar para os bosques da zona montanhosa. No final da jornada, quando se preparava para descer para a aldeia, ouviu alguém chamar por ele. Tratava-se de um homem idoso, baixo e entroncado, com um pesado barril com o que parecia ser uma bebida alcoólica. Este pediu a Rip que o ajudasse com o barril, e, apesar de desconfiado, Rip assentiu. Quanto mais subiam a montanha, mais Rip ouvia o barulho de trovões ao longe, e, chegados a um pequeno anfiteatro, depararam-se com personagens peculiares que vestiam de forma excêntrica, e jogavam à laranjinha. Começaram todos a beber a bebida do barril e, depois, adormeceram. Quando Rip acordou, percebeu que o mundo em que vivia já não era o que tinha conhecido. 
O terceiro, e último, conto é “A Lenda do Astrólogo Árabe”. Como é pequeno, não o resumirei aqui, pois estaria a estragar-vos a surpresa, contudo, direi apenas que parece uma mistura entre a lenda por detrás da construção do Taj Mahal e o conto “O Rei Vai Nu”, de Hans Christian Andersen.
Recomendo vivamente a leitura de uma das obras fundadoras da literatura e do imaginário norte-americanos. Washington Irving, para além de divertido e sinistro, relata-nos os costumes da época como se de um historiador se tratasse, dando-nos a conhecer a “América” antes da independência britânica, enquanto cria um universo fantástico que inspirou escritores como Charles Dickens, Lord Byron e Edgar Allan Poe.