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Do Lado de Swann

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Sempre quis ler Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Há alguns anos que tenho a série completa da Relógio D’Água, traduzida por Pedro Tamen (o meu primeiro exemplar está inclusivamente autografado pelo tradutor), e decidi começar a lê-la, um livro por ano.

Do Lado de Swann (1913), o primeiro volume, está dividido em três partes. Em “Combray” um jovem Marcel conta-nos como passava os dias em casa da tia paterna, em Combray (nome fictício para a pequena cidade de Illiers que mais tarde se auto-rebatizou de Illiers-Combray em homenagem ao escritor), como era a sua família, os vizinhos e a paisagem local. Refere um grande medo de adormecer sem que a mãe lhe dê um beijo de boa-noite, confessa que ao comer uma madalena se recordou de muitas memórias de infância, e fala ainda de um vizinho, Swann, que era por vezes recebido pelos seus pais.

Na segunda parte, “Um Amor de Swann”, o autor concentra-se neste personagem. Charles Swann não era membro da aristocracia nem da alta burguesia, apesar de ser respeitado e recebido em algumas casas. Apaixona-se por Odette de Crécy, uma mulher vulgar e libertina, por quem sente muitos ciúmes e tormentos. Ela parece não corresponder como ele ao amor de ambos e acaba por mostrar-se desinteressada ao ponto de desaparecer. A grande conclusão a que Swann chega, e que é a beleza deste capítulo, é a de que perdeu tempo e energia com uma pessoa que não lhe merecia essa dedicação.

Na terceira parte, “Nomes de Terras: o nome”, encontramos um narrador mais velho e desejoso de um tempo passado que não mais voltará. Num desfile acaba por reencontrar personagens (como um amor de infância) que o leitor não esperava encontrar.

Do Lado de Swann é um grande livro. Proust descreve em 450 páginas a saudade, a nostalgia, a memória, a recordação e o apreço que temos pelos objetos e pessoas que vão fazendo parte da nossa vida. A sua escrita não é a mais fácil de seguir. É muito descritivo, faz inúmeras comparações, pausas e parêntesis. Trata-se de uma história muito densa que precisa da máxima concentração do leitor. Tive de reler frequentemente trechos que já tinha lido porque me distraí e perdi o fio à meada. Contudo, se persistirmos na leitura acabamos com uma grande sensação de preenchimento e com imagens que farão parte do nosso imaginário durante um longo período de tempo.

Foi o primeiro de uma série de sete volumes que vou decididamente prosseguir.

Literatura Europeia

Sobre a leitura

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Na minha estante tenho toda a série de Em Busca do Tempo Perdido (1913-27) para ler, mas Proust intimida um bocadinho, confesso. Enquanto não mergulho de cabeça na sua monumental obra de sete volumes, leio o que Proust tem a dizer sobre a leitura. E não é pouco.

Sobre a leitura (1987) é um ensaio escrito no início do séc. XX para servir de prefácio para as obras de John Rushkin, quem Proust muito admirava. Nos anos oitenta foi publicado pela primeira vez como um ensaio sobre o acto de ler.

Neste pequeno texto, Proust diz que a leitura é uma atividade muito prazeirosa que, quando interrompida, se torna um tormento. Diz também que “(…) a leitura, ao contrário da conversa, consiste para cada um de nós em receber comunicação de um outro pensamento (…)”; “(…) é ainda às leituras de infância que eu irei perguntar em que é que consistem (as virtudes) (…)”; e que a leitura é uma forma de introdução na vida espiritual, e a maneira de um “espírito preguiçoso” sair do seu desalento.

Interessante, não é? E há mais para ler sobre a opinião de Marcel Proust, mas não o direi para não estragar o livro, um “miminho” para todos os verdadeiros leitores que se lê em poucas horas.