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A Metamorfose

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Kafka sempre foi um escritor que me inspirou uma certa curiosidade. Enquanto andava na faculdade, li O Processo (1925) e gostei muito, apesar de achar que se tratava de um livro estranho. Há umas semanas li A Metamorfose (1915) e adorei ao ponto de querer ler todos os livros famosos do escritor (algumas deles já com opiniões aqui no blogue).

Gregor Samsa é um jovem caixeiro-viajante que tem de trabalhar num emprego que não gosta para ajudar financeiramente a família. Gregor mora com os pais e a irmã mais nova, mas passa a maior parte do tempo na estrada. Certo dia, quando acorda para ir apanhar o comboio, percebe que está transformado num insecto. O que se segue é um enorme rebuliço e a estupefação geral. Ninguém sabe como reagir, nem o que fazer. Com o passar do tempo, a família encontra outras formas de subsistência e Gregor fica confinado ao seu quarto sem que ninguém queira saber muito dele.

Apesar de eu achar que este pequeno texto de Kafka tem uma mensagem clara, creio que, por vezes, pode ser de difícil interpretação. Para mim, Gregor era visto pela família como uma bóia de salvação em termos económicos, pois viviam às suas custas, e, ao mesmo tempo, como alguém que lhes dizia o que fazer (sem má intenção) e os tinha, por isso, “presos”. Ele teve de se tornar dependente para que os familiares recuperassem a sua independência.

Gostei muito desta leitura. Há quem diga que as razões por detrás da sua escrita são religiosas (Kafka era judeu) ou uma alusão à autoridade que o pai exercia sobre ele. Seja o que for, A Metamorfose é um clássico da literatura que merece ser lido. Recomendo vivamente.

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Um Artista da Fome

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Kafka está rapidamente a tornar-se um dos escritores mais interessantes que já conheci. Li O Processo (1925) há alguns anos, quando andava na universidade, e lembro-me de ter gostado, apesar de o ter achado um livro estranho. Acabei por ler A Metamorfose (1915) há uns meses, naquela que se tornou uma das minhas obras preferidas que acabou por despoletar esta jornada para ler os outros trabalhos de referência do autor. Seguiram-se estes textos de que vos vou falar.

Um Artista da Fome e outros textos (1924) é uma coletânea publicada pela chancela 11 17 da editora Bertrand que reune as melhores histórias curtas de Franz Kafka, com algumas delas ainda publicadas em tempo de vida do escritor. A que mais se destaca é, sem dúvida, a que lhe dá nome: Um Artista da Fome. Neste conto, Kafka conta a história de um “artista da fome” que se recusa a comer, ficando por isso extremamente magro e sendo uma atração num circo de horrores. Quando, no final, os fiscais que inspeccionam as jaulas o encontram dentro de uma das melhores, perguntam-lhe se ele continua a jejuar, ao que o artista responde que sim, que não pode fazer outra coisa, que está condenado a isso, porque nunca encontrou nada de que gostasse de comer.

Todos os textos desta coletânea são mais ou menos assim. Todos têm uma conclusão ou um contexto filosófico, aparentemente confuso ou estranho, cuja intenção creio que é fazer-nos pensar na vida e no nosso papel individual, e coletivo, no mundo. Não nos esqueçamos de que Kafka escreveu sobretudo no período entre guerras, uma época fortemente marcada pela Grande Depressão e por tensões sociais que acabaram por originar regimes autoritários e totalitários.

Gostei muito deste livrinho. E, apesar de não ser uma obra obrigatória, creio que deve ser lida como parte de um bom conhecimento sobre Kafka. A obra que se segue é O Castelo (1926).

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Sobre a leitura

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Na minha estante tenho toda a série de Em Busca do Tempo Perdido (1913-27) para ler, mas Proust intimida um bocadinho, confesso. Enquanto não mergulho de cabeça na sua monumental obra de sete volumes, leio o que Proust tem a dizer sobre a leitura. E não é pouco.

Sobre a leitura (1987) é um ensaio escrito no início do séc. XX para servir de prefácio para as obras de John Rushkin, quem Proust muito admirava. Nos anos oitenta foi publicado pela primeira vez como um ensaio sobre o acto de ler.

Neste pequeno texto, Proust diz que a leitura é uma atividade muito prazeirosa que, quando interrompida, se torna um tormento. Diz também que “(…) a leitura, ao contrário da conversa, consiste para cada um de nós em receber comunicação de um outro pensamento (…)”; “(…) é ainda às leituras de infância que eu irei perguntar em que é que consistem (as virtudes) (…)”; e que a leitura é uma forma de introdução na vida espiritual, e a maneira de um “espírito preguiçoso” sair do seu desalento.

Interessante, não é? E há mais para ler sobre a opinião de Marcel Proust, mas não o direi para não estragar o livro, um “miminho” para todos os verdadeiros leitores que se lê em poucas horas.

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O Leopardo (livro e filme)

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O Leopardo (1958), de Tomasi di Lampedusa, foi uma das minhas leituras preferidas de 2019. Gostei tanto do livro que mal podia esperar para ver a adaptação cinematográfica que Luchino Visconti faria alguns anos mais tarde. Devo dizer que os dois são uma experiência cultural brilhante.

O Leopardo conta a história do fim da aristocracia siciliana através dos olhos de Don Fabrizio, principe de Salina. No final do séc. XIX, a península Itálica era composta por diversos estados governados por várias potências, como a Áustria, os Bourbons, a casa de Sabóia, e o Papa. Estes mantinham um poder quase absolutista e sem apoio popular, pelo que começaram a propagar-se ideias revolucionárias e a criar-se vários movimentos com a intenção de formar um estado uno. Algumas fações queriam uma república, outras desejavam uma monarquia. Após várias guerras que duraram décadas, em 1861, Vitor Emanuel da casa Sabóia foi proclamado rei de Itália com o reconhecimento de deputados de todos os Estados envolvidos.

É sobre esta última fase do Risorgimento de que fala o livro. Lampedusa, ele próprio um príncipe siciliano sem reino, conta a história de um antepassado seu e de como este terá vivido os últimos anos de uma época que terminaria com a aristocracia estatutária. Apesar de ser o fim, Don Fabrizio comporta-se sempre com uma dignidade extrema, aceitando os novos tempos e tentando minimizar as consequências negativas tanto para a sua família, como para as pessoas que viviam nos seus territórios. E embora a população quisesse uma Itália unida e democrática, com representação popular no Senado, nunca deixaram de admirar Don Fabrizio e o papel importante que este teve no desenvolvimento das suas terras. O papel da Igreja também é simbolicamente descrito, pois Lampedusa traça um cenário em que o Clero preferia que estas pequenas aristocracias vingassem, mas que rapidamente “se vende” à burguesia para não perder o seu poder local.

O Leopardo é um livro excepcional. Não só retrata muito bem o período final das guerras e o quase início da unificação de Itália, como também transmite brilhantemente o sentimento triste, melancólico e resignado de uma aristocracia que perdeu o seu lugar no mundo.

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Em 1963, ou seja, cinco anos após a publicação do livro, o realizador italiano Luchino Visconti apresentaria a sua versão com o actor americano Burt Lancaster no papel de Don Fabrizio. Esta superprodução italo-francesa é uma das melhores adaptações cinematográficas que eu já vi. Visconti consegue transmitir o espírito do livro numa narrativa calma, mas ao mesmo tempo sufocante. Os cenários e o guarda-roupa são impressionantes e o casting não poderia ter sido mais bem escolhido. Alain Delon teve aqui a sua grande estreia, e Claudia Cardinale reforçou o seu papel de estrela e de diva. Não foi por acaso que o filme ganhou a Palma de Ouro, em Cannes.

Nota: O Leopardo faz-me lembrar o E Tudo o Vento Levou. Ambos os livros retratam um período histórico real, conturbado e de mudança por meio de personagens fictícias, e os filmes estão extremamente bem feitos sendo hoje considerados clássicos do cinema. Recomendo vivamente os dois, tanto na forma escrita como na forma visual. Obras-primas.

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Os livros que li em 2019

2019 foi um ano muito atípico para mim, tanto em termos de leitura como em termos pessoais. Engravidei em janeiro e, devido aos fortes enjoos por que passei, fui forçada a parar a obra que estava a ler nesse momento, A Cabana do Pai Tomás (1852), de Harriet Beecher Stowe, e a estar três meses sem ler um único livro.

A leitura fez-me muita falta e, quando finalmente comecei a recuperar o meu “eu” habitual, não soube por onde recomeçar. Não fui capaz de retomar A Cabana do Pai Tomás porque me nauseava, por isso, decidi recomeçar por livros mais leves e de não ficção. Após este reinício, consegui então voltar às grandes obras de literatura de que tanto gosto.

No total li 32 livros, o que não foi mau tendo em conta os três meses de interregno. 6 deles alcançaram a categoria dos Favoritos e 3 a das Menções Honrosas. Falarei destes nove livros num futuro post. A maioria das obras lidas foram clássicos. Gostei muito de descobrir novos autores como Daphne du Maurier, Emile Zola, Graham Greene, John Williams, Truman Capote, Arthur Conan Doyle, as irmãs Brontë e o português Júlio Dinis. Continuarei certamente a ler obras suas.

Eis a lista completa dos livros que li (por ordem de leitura):

  • Rebecca (Daphne du Maurier)
  • The diary of a bookseller (Shaun Bythell)
  • O Jogador (Fiodor Dostoievski)
  • O Livro de Ouro das Raparigas Prendadas (Sarah Vine e Rosemary Davidson)
  • Lessons from Madame Chic (Jennifer L. Scott)
  • Polish Your Poise with Madame Chic (Jennifer L. Scott)
  • At Home with Madame Chic (Jennifer L. Scott)
  • Never Let Me Go (Kazuo Ishiguro)
  • Anne of Avonlea (L. M. Montgomery)
  • Pais à maneira dinamarquesa (Jessica Alexander e Iben Sandalh)
  • Amor e Amizade (Jane Austen)
  • A Morte de Lorde Edgware (Agatha Christie)
  • Matilda (Roald Dahl)
  • O Leopardo (G. Tomasi di Lampedusa)
  • O Paraíso das Damas (Emile Zola)
  • As mentiras da cosmética (Beatrice Mautino)
  • Parisian Chic (Inès de la Fressange)
  • Comment je m’habille aujourd’hui? (Inès de la Fressange)
  • A Morgadinha dos Canaviais (Júlio Dinis)
  • O Hobbit (J. R. R. Tolkien)
  • Os Primeiros Casos de Poirot (Agatha Christie)
  • Crime e Castigo (Fiodor Dostoievski)
  • Circe (Madeline Miller)
  • O Terceiro Homem (Graham Greene)
  • O Monte dos Vendavais (Emily Brontë)
  • Agnes Grey (Anne Brontë)
  • A Inquilina de Wildfell Hall (Anne Brontë)
  • O Professor (Charlotte Brontë)
  • Shirley (Charlotte Brontë)
  • Departamento de Especulações (Jenny Offill)
  • Stoner (John Williams)
  • O Signo dos Quatro (Sir Arthur Conan Doyle)
  • Breakfast at Tiffany’s (Truman Capote)

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A Inquilina de Wildfell Hall

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Antes de iniciar o que, oficialmente, eu já chamo de “A Minha Jornada Brontë”, Anne Brontë era para mim uma autora desconhecida. Quando decidi ler as obras das irmãs Brontë, após a leitura de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, foi por Anne que comecei por ela ter escrito apenas dois livros. Depois do fantástico Agnes Grey, seguiu-se o maravilhoso A Inquilina de Wildfell Hall.

Uma pacata zona do Yorkshire é assolada pela repentina chegada de uma mulher desconhecida com um filho pequeno. Os habitantes ficam curiosos com a nova vizinha e tentam conhecê-la, mas Helen é a discrição em pessoa e mantém-se à margem de todos os encontros sociais. Rapidamente começam a surgir boatos de que ela fugiu do marido para se tornar amante do seu senhorio, o que leva William, um jovem rapaz local que se apaixonou perdidamente por ela, a querer saber o que aconteceu ao certo. Helen confia-lhe o seu diário e o que se segue é o relato triste e inacreditável de um casamento vitoriano falhado em que as mulheres, embora inocentes e muitas vezes com a razão do seu lado, não tinham quaisquer direitos.

Este livro foi uma autêntica surpresa para mim. Não só pela maneira de como está escrito (Anne escreveu-o um ano após Agnes Grey e a sua maturidade como escritora é notória), como também pela sua temática a roçar o feminismo, num período em que o termo e o conceito não existiam. As irmãs Brontë também são conhecidas por pensarem nos direitos das mulheres nas suas obras, e creio que nenhuma o faz melhor do que Anne, a mais nova das três. E é precisamente disso que trata A Inquilina de Wildfell Hall. Helen foge de uma situação injusta para tentar salvar o filho, mas a verdade é que ela própria não se sentia capaz de viver numa conjuntura desrespeitosa e infeliz só porque a sociedade o impunha. E, apesar de ter voltado para um marido alcoólico, depressivo e moribundo para tratar dele, e só depois de este falecer se ter permitido recomeçar de novo, não creio que o mérito de fortalecer as mulheres numa sociedade que as via como propriedade do esposo seja posto em causa, pois Helen voltou porque quis devido ao seu forte sentido de dever (não nos esqueçamos igualmente de que Anne Brontë era filha de um pároco e que, acima de tudo, a época em que vivia não estava assim tão desenvolvida para que Helen largasse tudo e deixasse o marido morrer sozinho em nome do feminismo.)

Não nos esqueçamos igualmente do contexto em que a obra foi escrita. O irmão de Anne, Branwell, também passou por uma grande provação amorosa que a autora terá usado como sua inspiração no livro.

Por tudo isto e muito mais A Inquilina de Wildfell Hall merece um lugar de destaque não só no portfolio das irmãs Brontë, como também no cânone da literatura inglesa e mundial. Recomendo vivamente a sua leitura.

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Crime e Castigo

Aviso: Este texto contém spoilers.

Este foi o terceiro livro de Dostoievski que li, após Noites Brancas e O Jogador. Crime e Castigo é considerado uma das suas obras-primas e não é dificil perceber porquê.

De leitura obrigatória no 8º ano da escolaridade russa, Crime e Castigo (1866), de Fiodor Dostoievki, decorre na cidade de São Petersburgo e conta a história de Raskolnikov, um estudante pobre e desmotivado que penhora tudo o que possui a uma velha prestamista maldosa e mal encarada, de forma a conseguir subsistir. Raskolnikov sente tal aversão pela mulher que planeia assassiná-la com a “desculpa” de que está a fazer um favor à Humanidade e que as pessoas “extraordinárias” que cometem crimes, como ele, fazem-no por um bem maior e não devem, por isso, ser punidas. Quando finalmente se decide, Raskolnikov vai a casa da velha e mata-a com um machado. O que não espera é que a irmã desta apareça nesse preciso momento, passando pela porta que o jovem acidentalmente deixara aberta, o que fará com que ele a tenha de matar também.

Estes dois crimes pesarão na consciência de Raskolnikov ao longo do livro, e o jovem apenas confia o seu segredo a Sónia, uma prostituta de tenra idade que acaba de perder o pai alcoólico num acidente de carruagem e se vê obrigada a sustentar deste modo o resto da família. Contudo, e apesar de o chefe da polícia desconfiar sempre de que Raskolnikov é o autor do crime, e de Svidrigailov (vilão que acaba por se redimir) também o ter descoberto, o jovem estudante acaba por confessar o que fez e é punido com oito anos de trabalhos forçados na Sibéria. Sónia acompanha-o por vontade própria e espera que este cumpra a pena para poderem ficar juntos. No final, após um longo período sem ver a amada por motivo de doença, Raskolnikov senta-se a seu lado, poisa a cabeça no seu colo e chora desalmadamente, arrependendo-se assim do crime hediondo que cometeu.

Crime e Castigo é um daqueles clássicos que não nos sai da cabeça depois de o lermos. Dostoievski tem uma forma muito peculiar de expor a problemática da história, apresentando pontos de vista diferentes de modo a que o leitor consiga pensar por si sobre eles e chegar às suas próprias conclusões. Claro que neste caso estamos a falar de crime: será que pode ser cometido por um bem maior? Será que devemos ter compaixão do assassino? Será que compensa? Todas estas questões nos são apresentadas de vários prismas através das personagens que encontramos.

O que Dostoievski acha necessário mostrar é que um crime pesa sempre na consciência de quem o comete e acaba inevitavelmente por ser descoberto, sendo os seus efeitos trágicos tanto a nível psicológico como físico não só para o autor, como para as pessoas que o rodeiam. Creio que é por isso que os alunos russos de 14, 15 anos têm de estudar a obra na escola, para se aperceberem de que, afinal de contas, o crime não compensa. Recomendo vivamente.

P.S.: Eu já tive a felicidade de visitar a casa de Dostoievski em São Petersburgo. Podem ver as fotografias na secção Casa de Escritores.

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Scaramouche

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A Sextante Editora está a lançar uma coleção de livros de aventuras muito interessante. Já comprei três títulos: As Aventuras de Robin dos Bosques (1883), de Howard Pyle, Os Três Mosqueteiros (1844), de Alexandre Dumas, e Scaramouche (1921), de Rafael Sabatini. Comecei logo a ler este último porque fiquei retida numa situação em que tinha de esperar algum tempo e, em vez de estar no telefone, decidi mergulhar de cabeça neste romance passado durante a Revolução Francesa.

No início, nada sabia sobre a história e até cheguei a pensar que poderia ser sobre um amor proibido, no entanto, à medida que fui avançando, comecei a perceber que se tratava de uma narrativa sobre a maturação de um rapaz. André-Louis nasce no seio de uma família aristocrata, mas revolta-se contra a sua classe social quando o Marquês de La Tour mata o seu melhor amigo num duelo. A partir daí, a história transporta-nos para uma ficção baseada na realidade, e ensina-nos um pouco do que terá sido a Revolução que levou à queda da monarquia absolutista em França e à reorganização das suas classes sociais.

Gostei muito de Scaramouche. Está bem escrito, é divertido e tem um twist no final que eu não esperava. Quando terminei pensei imediatamente que daria um grande filme e, ao fazer uma pesquisa na rede, vi que em 1952 foi realizada uma película com Stewart Granger e Mel Ferrer. Ainda não a vi, mas, se for igual ao livro, promete!

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Silas Marner

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Sempre quis ler este livro, não só porque a sua autora é George Eliot (de quem sempre ouvi falar na faculdade), mas também porque a capa é a imagem de um homem a pegar afectuosamente na mão de uma criança, o que, para uma recente mãe, é atractivo.

Silas Marner (1861) conta a história de Silas, um homem injustamente acusado de roubo, que decide mudar de cidade para começar uma vida nova. Trabalha como tecelão e consegue acumular uma pequena fortuna que conta todos os dias à noite, antes de se deitar. Certa vez, repara que foi roubado e cai numa grande depressão. Após um passeio solitário pelas redondezas, ao chegar a casa encontra uma criança de dois anos a dormir, sozinha, aos pés da sua lareira.

A história de Silas cruza-se com a de outras personagens igualmente importantes para o livro, mas ao expô-las aqui só complicariam o meu resumo. E é exatamente essa a única crítica que tenho a fazer à obra: é demasiado curta para um enredo tão cheio. Na minha opinião, o livro carece desenvolvimento. Acontece tudo demasiado depressa sem que o leitor tenha tempo de digerir o que acabou de suceder. Sem ser isso, creio que é um texto bastante bom, a escrita de Eliot é simples e agradável de ler, e a história é ternurenta com o final que eu secretamente desejava. Uma óptima opção para começar a mergulhar no trabalho desta escritora.

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Os Cadernos Secretos de Agatha Christie

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Sou uma fã incondicional de Agatha Christie. A primeira vez que li uma das suas obras foi no 11º ano, a nossa professora de Inglês quis testar o nível de Lingua escrita da turma e escolheu And There Were None (1939) para o fazer. O exercício consistia em lermos o livro e fazermos um teste com apenas quatro perguntas de interpretação. Na altura, as coisas não me correram muito bem, mas o bichinho da Rainha do Crime ficou e sigo-a desde então. É, de longe, a autora que mais leio.

Os livros de Agatha Christie não são difíceis de ler. A sua escrita é acessível e fácil de entender, o que permite ao leitor mergulhar na história, concentrar-se nos pormenores e deleitar-se com o ritmo do suspense. Este é um dos motivos que John Curran aponta para o sucesso da escritora, juntamente com a invenção de um detetive interessante e original que alcançou tanta fama que chegou mesmo a ultrapassar a da sua criadora. Nestes cadernos encontrados ao acaso numa das casas de Christie, Curran descortinou o seu método de trabalho, a forma como elabora as histórias, como escolhe as personagens e o género de crime que prefere aplicar. Reuniu tudo num livro a que chamou Os Cadernos Secretos de Agatha Christie (2009), uma obra mais consultiva do que propriamente para ler de fio a pavio onde o autor aborda quase todas as obras da Rainha do Crime.

Creio que este registo é muito curioso e intrigante para qualquer fã de Christie. Explica bem como a escritora pensava no delito e chegava ao assassino. Parece que entramos na sua mente e a vemos funcionar. Eu apenas aconselho a não lê-lo todo de seguida porque John Curran revela, por vezes, o final de algumas obras. A minha estratégia é ler o livro de Christie e consultar depois a obra de Curran. Desta forma, a leitura fica mais completa e enriquecida. E, como bónus, no final, estão publicados dois contos inéditos de Poirot. O que é que um fã quer mais?