Bem-vindos ao Margareads. Sempre achei que o melhor da vida é para partilhar, por isso, aqui está a partilha de uma das minhas maiores paixões: os livros. Decidi comentar neste blogue algumas das histórias que passaram a fazer parte da minha vida e que, quem sabe, poderão passar a fazer parte da vossa. Obrigada por passarem por aqui!
Kafka está rapidamente a tornar-se um dos escritores mais interessantes que já conheci. Li O Processo (1925) há alguns anos, quando andava na universidade, e lembro-me de ter gostado, apesar de o ter achado um livro estranho. Acabei por ler A Metamorfose (1915) há uns meses, naquela que se tornou uma das minhas obras preferidas que acabou por despoletar esta jornada para ler os outros trabalhos de referência do autor. Seguiram-se estes textos de que vos vou falar.
Um Artista da Fome e outros textos (1924) é uma coletânea publicada pela chancela 11 17 da editora Bertrand que reune as melhores histórias curtas de Franz Kafka, com algumas delas ainda publicadas em tempo de vida do escritor. A que mais se destaca é, sem dúvida, a que lhe dá nome: Um Artista da Fome. Neste conto, Kafka conta a história de um “artista da fome” que se recusa a comer, ficando por isso extremamente magro e sendo uma atração num circo de horrores. Quando, no final, os fiscais que inspeccionam as jaulas o encontram dentro de uma das melhores, perguntam-lhe se ele continua a jejuar, ao que o artista responde que sim, que não pode fazer outra coisa, que está condenado a isso, porque nunca encontrou nada de que gostasse de comer.
Todos os textos desta coletânea são mais ou menos assim. Todos têm uma conclusão ou um contexto filosófico, aparentemente confuso ou estranho, cuja intenção creio que é fazer-nos pensar na vida e no nosso papel individual, e coletivo, no mundo. Não nos esqueçamos de que Kafka escreveu sobretudo no período entre guerras, uma época fortemente marcada pela Grande Depressão e por tensões sociais que acabaram por originar regimes autoritários e totalitários.
Gostei muito deste livrinho. E, apesar de não ser uma obra obrigatória, creio que deve ser lida como parte de um bom conhecimento sobre Kafka. A obra que se segue é O Castelo (1926).
Na minha estante tenho toda a série de Em Busca do Tempo Perdido (1913-27) para ler, mas Proust intimida um bocadinho, confesso. Enquanto não mergulho de cabeça na sua monumental obra de sete volumes, leio o que Proust tem a dizer sobre a leitura. E não é pouco.
Sobre a leitura (1987) é um ensaio escrito no início do séc. XX para servir de prefácio para as obras de John Rushkin, quem Proust muito admirava. Nos anos oitenta foi publicado pela primeira vez como um ensaio sobre o acto de ler.
Neste pequeno texto, Proust diz que a leitura é uma atividade muito prazeirosa que, quando interrompida, se torna um tormento. Diz também que “(…) a leitura, ao contrário da conversa, consiste para cada um de nós em receber comunicação de um outro pensamento (…)”; “(…) é ainda às leituras de infância que eu irei perguntar em que é que consistem (as virtudes) (…)”; e que a leitura é uma forma de introdução na vida espiritual, e a maneira de um “espírito preguiçoso” sair do seu desalento.
Interessante, não é? E há mais para ler sobre a opinião de Marcel Proust, mas não o direi para não estragar o livro, um “miminho” para todos os verdadeiros leitores que se lê em poucas horas.
O Leopardo (1958), de Tomasi di Lampedusa, foi uma das minhas leituras preferidas de 2019. Gostei tanto do livro que mal podia esperar para ver a adaptação cinematográfica que Luchino Visconti faria alguns anos mais tarde. Devo dizer que os dois são uma experiência cultural brilhante.
O Leopardo conta a história do fim da aristocracia siciliana através dos olhos de Don Fabrizio, principe de Salina. No final do séc. XIX, a península Itálica era composta por diversos estados governados por várias potências, como a Áustria, os Bourbons, a casa de Sabóia, e o Papa. Estes mantinham um poder quase absolutista e sem apoio popular, pelo que começaram a propagar-se ideias revolucionárias e a criar-se vários movimentos com a intenção de formar um estado uno. Algumas fações queriam uma república, outras desejavam uma monarquia. Após várias guerras que duraram décadas, em 1861, Vitor Emanuel da casa Sabóia foi proclamado rei de Itália com o reconhecimento de deputados de todos os Estados envolvidos.
É sobre esta última fase do Risorgimento de que fala o livro. Lampedusa, ele próprio um príncipe siciliano sem reino, conta a história de um antepassado seu e de como este terá vivido os últimos anos de uma época que terminaria com a aristocracia estatutária. Apesar de ser o fim, Don Fabrizio comporta-se sempre com uma dignidade extrema, aceitando os novos tempos e tentando minimizar as consequências negativas tanto para a sua família, como para as pessoas que viviam nos seus territórios. E embora a população quisesse uma Itália unida e democrática, com representação popular no Senado, nunca deixaram de admirar Don Fabrizio e o papel importante que este teve no desenvolvimento das suas terras. O papel da Igreja também é simbolicamente descrito, pois Lampedusa traça um cenário em que o Clero preferia que estas pequenas aristocracias vingassem, mas que rapidamente “se vende” à burguesia para não perder o seu poder local.
O Leopardo é um livro excepcional. Não só retrata muito bem o período final das guerras e o quase início da unificação de Itália, como também transmite brilhantemente o sentimento triste, melancólico e resignado de uma aristocracia que perdeu o seu lugar no mundo.
Em 1963, ou seja, cinco anos após a publicação do livro, o realizador italiano Luchino Visconti apresentaria a sua versão com o actor americano Burt Lancaster no papel de Don Fabrizio. Esta superprodução italo-francesa é uma das melhores adaptações cinematográficas que eu já vi. Visconti consegue transmitir o espírito do livro numa narrativa calma, mas ao mesmo tempo sufocante. Os cenários e o guarda-roupa são impressionantes e o casting não poderia ter sido mais bem escolhido. Alain Delon teve aqui a sua grande estreia, e Claudia Cardinale reforçou o seu papel de estrela e de diva. Não foi por acaso que o filme ganhou a Palma de Ouro, em Cannes.
Nota: O Leopardo faz-me lembrar o E Tudo o Vento Levou. Ambos os livros retratam um período histórico real, conturbado e de mudança por meio de personagens fictícias, e os filmes estão extremamente bem feitos sendo hoje considerados clássicos do cinema. Recomendo vivamente os dois, tanto na forma escrita como na forma visual. Obras-primas.
2019 foi um ano muito atípico para mim, tanto em termos de leitura como em termos pessoais. Engravidei em janeiro e, devido aos fortes enjoos por que passei, fui forçada a parar a obra que estava a ler nesse momento, A Cabana do Pai Tomás (1852), de Harriet Beecher Stowe, e a estar três meses sem ler um único livro.
A leitura fez-me muita falta e, quando finalmente comecei a recuperar o meu “eu” habitual, não soube por onde recomeçar. Não fui capaz de retomar A Cabana do Pai Tomás porque me nauseava, por isso, decidi recomeçar por livros mais leves e de não ficção. Após este reinício, consegui então voltar às grandes obras de literatura de que tanto gosto.
No total li 32 livros, o que não foi mau tendo em conta os três meses de interregno. 6 deles alcançaram a categoria dos Favoritos e 3 a das Menções Honrosas. Falarei destes nove livros num futuro post. A maioria das obras lidas foram clássicos. Gostei muito de descobrir novos autores como Daphne du Maurier, Emile Zola, Graham Greene, John Williams, Truman Capote, Arthur Conan Doyle, as irmãs Brontë e o português Júlio Dinis. Continuarei certamente a ler obras suas.
Eis a lista completa dos livros que li (por ordem de leitura):
Rebecca (Daphne du Maurier)
The diary of a bookseller (Shaun Bythell)
O Jogador (Fiodor Dostoievski)
O Livro de Ouro das Raparigas Prendadas (Sarah Vine e Rosemary Davidson)
Lessons from Madame Chic (Jennifer L. Scott)
Polish Your Poise with Madame Chic (Jennifer L. Scott)
At Home with Madame Chic (Jennifer L. Scott)
Never Let Me Go (Kazuo Ishiguro)
Anne of Avonlea (L. M. Montgomery)
Pais à maneira dinamarquesa (Jessica Alexander e Iben Sandalh)
Amor e Amizade (Jane Austen)
A Morte de Lorde Edgware (Agatha Christie)
Matilda (Roald Dahl)
O Leopardo (G. Tomasi di Lampedusa)
O Paraíso das Damas (Emile Zola)
As mentiras da cosmética (Beatrice Mautino)
Parisian Chic (Inès de la Fressange)
Comment je m’habille aujourd’hui? (Inès de la Fressange)
Sendo uma fã incondicional de Agatha Christie, é quase inconcebível ainda não ter lido nada daquele que é considerado o pai da literatura policial, Sir Arthur Conan Doyle. Há já algum tempo que tinha cá por casa o livro O Signo dos Quatro (1890), pelo que decidi começar por ele.
Nesta história, das mais de cinquenta que Conan Doyle criou, deparamo-nos com um Sherlock Holmes entediado por nada digno do seu gabarito aparecer para o fazer pensar. Eis senão quando surge à sua porta uma jovem rapariga que lhe pede auxílio para descobrir algo de bizarro que lhe acontece todos os anos. Em todos os dias do seu aniversário, Mary recebe de presente um pequeno embrulho anónimo com uma caixa pequena contendo uma valiosa pérola lá dentro. Ela não sabe quem lhas envia, nem o motivo por que lhe são enviadas. A única pista que dá a Holmes é a de que o seu pai fora militar na Índia e morrera há alguns anos em circunstâncias misteriosas. A partir daqui, o detetive ganha um novo “interesse pela vida” e dispõe-se a ajudá-la com a colaboração do Dr. Watson.
Esta história de Sherlock Holmes era tudo o que eu esperava que fosse. Cheia de suspense, intriga, acção e com um curioso background baseado no início do declínio do império britânico. A narrativa de Conan Doyle é tão fluida que quase parece moderna, algo muito atípico para o final do séc. XIX. Temos a sensação de estar a ler o guião de um filme de acção, o que provavelmente justifica o facto de tantos dos seus livros terem sido adaptados ao cinema e à televisão, com mais ou menos sucesso.
Não é por acaso as histórias de Sherlock Holmes não só se terem tornado clássicos da literatura policial, mas também da literatura mundial. Holmes e Watson são uma dupla dinâmica e incomum, e o mundo e os enredos nos quais se envolvem são obscuros e interessantes. Creio que ficou claro que O Signo dos Quatro foi, para mim, o primeiro de muitos. Venham os restantes.
Sempre senti alguma curiosidade em ler Bukowski, especialmente por não saber nada sobre ele, apenas que era considerado um autor à margem. Ao entrar numa livraria, vi as suas obras publicadas pela Alfaguara em lindas edições e decidi comprar a que me pareceu mais apelativa, Hollywood (1989). Apesar de não saber o que esperar, não me decepcionei.
Hollywood é uma história autobiográfica sobre como foi para Charles Bukowski escrever o guião para um filme. O autor é abordado pelo realizador de cinema Barbet Schroeder para escrever uma história baseada na sua vida, sendo arremessado para Hollywood e vivendo uma pseudo vida de estrela ao lado de actores, produtores, realizadores, etc. As curiosidades que conta e as críticas que faz àquele mundo e aos actores que conheceu são simultaneamente divertidas e bizarras.
Creio que o início do livro pode ser um pouco agressivo para quem não conhece o estilo do autor. Aparecem asneiras, piadas ordinárias explícitas e muito álcool. Depois, com o decorrer da acção, creio que estes recursos acabam por suavizar, contudo, a escrita de Bukowski é conhecida precisamente por ser direta, bruta e indesculpável. Tal como o próprio. Bukowski defendia que a literatura devia ser quase bombástica, cada frase um murro no estômago numa tentativa de imitar as amarguras da vida da classe trabalhadora. Os escritores descritivos que “perdem tempo a apresentar a cena”, são, para ele, “muito aborrecidos”.
E eis que surge Barfly (1987). Com Mickey Rourke e Faye Dunaway nos principais papéis, Barfly mostra Chinaski (Bukowski) tal como ele é: bêbedo, preguiçoso, sujo, idealista, rude, mas com um bom coração. O que o homem mais quer é beber álcool e escrever em paz. A estreia teve críticas boas e más, embora Dunaway tivesse sido nomeada para um Globe de Ouro no papel que ditou o seu regresso ao grande ecrã. Hoje em dia creio que o filme é considerado de culto, principalmente para os fãs do escritor. Uma coisa é certa, a experiência de leitura de Hollywood não fica completa sem ele.
Tal como referi no início, Hollywood foi o meu primeiro contacto com Charles Bukowski, mas certamente não será o último. As suas obras relatam um “realismo sujo” (dirty realism) que é, ao mesmo tempo, absurdo e apetecível.
Em 2011, quando Anna Gavalda decidiu traduzir Stoner (1965) para francês por achar que se tratava de um belo romance, estava a fazer mais do que permitir a quem falava a sua língua a oportunidade de o ler, estava a reavivá-lo para o mundo.
Stoner narra a história de William Stoner, um rapaz americano nascido na última década do séc. XIX, para quem a vida não reservara nada de significativo. William ajudava os pais na quinta que estes possuíam no Missouri e, quando o pai o incentiva a tirar uma licenciatura na recentemente aberta Escola Agrária, é com relutância que ele aceita. Já na universidade, William é obrigado a frequentar a cadeira de Literatura Inglesa, algo que lhe muda radicalmente a vida, pois toma a decisão de mudar de curso e de não regressar à quinta dos pais.
Esta obra de John Williams parece que tem tudo e, ao mesmo tempo, que não tem nada. A vida de Stoner é relativamente “normal” para os padrões da época. Acaba o curso na universidade, permanece nela como professor, casa com Edith, uma rapariga que mal conhece e que não lhe proporciona uma vida feliz, tem uma filha que a mãe monopoliza e que acaba por sofrer as consequências de um matrimónio infeliz, arranja uma amante que acaba por “fugir” da sua vida devido à vergonha de uma relação extraconjugal, e acaba os seus dias a lutar pelos seus princípios na universidade onde lecciona.
William é um personagem bastante passivo que parece não lutar por nada, a não ser pela literatura que ensina. E é este o epicentro da obra. Ao longo da história, os livros são a grande companhia de William, e é sempre neles que ele se refugia para obter o consolo que a sua triste existência lhe parece negar.
Numa narrativa magnificamente bem escrita, John Williams, ele próprio um professor universitário de Literatura Inglesa, escreve uma ode ao poder dos livros, dizendo nas entrelinhas que apesar de tudo o que possa ocorrer nas nossas vidas temos sempre o consolo da literatura para resgatarmos a nossa humanidade. E apesar de Stoner não ser um autobiografia creio que é altamente inspirada nas experiências de Williams, ou não tivesse ele querido partilhar o seu nome com a personagem principal da sua obra.
Aquando da sua republicação, passados 50 anos de esquecimento, tanto Stoner como os restantes livro de Williams ganharam um novo fôlego, tendo sido o presente romance considerado o melhor do ano de 2013 para os leitores da livraria britânica Waterstones. Não estranho. E, claro está, recomendo-o vivamente.
Antes de iniciar o que, oficialmente, eu já chamo de “A Minha Jornada Brontë”, Anne Brontë era para mim uma autora desconhecida. Quando decidi ler as obras das irmãs Brontë, após a leitura de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, foi por Anne que comecei por ela ter escrito apenas dois livros. Depois do fantástico Agnes Grey, seguiu-se o maravilhoso A Inquilina de Wildfell Hall.
Uma pacata zona do Yorkshire é assolada pela repentina chegada de uma mulher desconhecida com um filho pequeno. Os habitantes ficam curiosos com a nova vizinha e tentam conhecê-la, mas Helen é a discrição em pessoa e mantém-se à margem de todos os encontros sociais. Rapidamente começam a surgir boatos de que ela fugiu do marido para se tornar amante do seu senhorio, o que leva William, um jovem rapaz local que se apaixonou perdidamente por ela, a querer saber o que aconteceu ao certo. Helen confia-lhe o seu diário e o que se segue é o relato triste e inacreditável de um casamento vitoriano falhado em que as mulheres, embora inocentes e muitas vezes com a razão do seu lado, não tinham quaisquer direitos.
Este livro foi uma autêntica surpresa para mim. Não só pela maneira de como está escrito (Anne escreveu-o um ano após Agnes Grey e a sua maturidade como escritora é notória), como também pela sua temática a roçar o feminismo, num período em que o termo e o conceito não existiam. As irmãs Brontë também são conhecidas por pensarem nos direitos das mulheres nas suas obras, e creio que nenhuma o faz melhor do que Anne, a mais nova das três. E é precisamente disso que trata A Inquilina de Wildfell Hall. Helen foge de uma situação injusta para tentar salvar o filho, mas a verdade é que ela própria não se sentia capaz de viver numa conjuntura desrespeitosa e infeliz só porque a sociedade o impunha. E, apesar de ter voltado para um marido alcoólico, depressivo e moribundo para tratar dele, e só depois de este falecer se ter permitido recomeçar de novo, não creio que o mérito de fortalecer as mulheres numa sociedade que as via como propriedade do esposo seja posto em causa, pois Helen voltou porque quis devido ao seu forte sentido de dever (não nos esqueçamos igualmente de que Anne Brontë era filha de um pároco e que, acima de tudo, a época em que vivia não estava assim tão desenvolvida para que Helen largasse tudo e deixasse o marido morrer sozinho em nome do feminismo.)
Não nos esqueçamos igualmente do contexto em que a obra foi escrita. O irmão de Anne, Branwell, também passou por uma grande provação amorosa que a autora terá usado como sua inspiração no livro.
Por tudo isto e muito mais A Inquilina de Wildfell Hall merece um lugar de destaque não só no portfolio das irmãs Brontë, como também no cânone da literatura inglesa e mundial. Recomendo vivamente a sua leitura.
Neste meu périplo para ler todas as obras das irmãs Brontë, deixei para último as que foram escritas por Charlotte. Li Jane Eyre (1847) o ano passado e agora recomecei os seus restantes livros por O Professor (1857).
Esta novela foi originalmente escrita quando Charlotte ainda era uma adolescente, sendo a sua primeira tentativa de romance. E nota-se. O Professor conta a história de William Crimsworth, um órfão que com o apoio desapegado dos tios estuda em Eton para um dia ingressar no clero. Como não o é de todo o seu desejo fazê-lo, os tios retiram-lhe a ajuda sendo este obrigado a procurar o irmão, Edward, que herdara a fábrica dos pais. Edward recebe-o mal e o emprego como escriturário que William consegue na empresa dura poucos meses. Tentando por Hunsden, um homem estranho e sombrio, a procurar novos rumos para a sua vida, William parte para a Béigica onde acaba por encontrar trabalho como professor numa escola de raparigas.
As descrições que faz das alunas são sempre superficiais e focadas no físico e nas suas maneiras, principalmente se forem belgas. São “feias, malfeitas, ignorantes e sujas.” Só as três que se sentam sempre na primeira fila é que chamam a atenção do professor pela sua beleza, mas ainda assim são consideradas “ordinárias, desorientadas e estúpidas.” William acaba por desenvolver uma atração pela diretora da escola, Zoraide, que “brilhava no meio das alunas como uma estrela sobre um pântano coberto de fogos-fátuas profundamente convencida da sua superioridade.” Tudo nela é bom, tanto a nível fisico como psicológico, mas, apesar de dar esperanças ao professor, está comprometida com o Sr. Pelet, diretor da escola dos rapazes e dono da casa onde William se encontra hospedado.
Após esta grande desilusão, William vira a sua atenção para uma professora de lavores suíça que começa a frequentar as suas aulas com o objetivo de aprender inglês. Frances vai personificar o ideal da mulher vitoriana da classe média: inteligente, submissa q.b., não muito bonita mas agradável à vista, faz tudo corretamente de modo a agradar ao professor. A sua autoconfiança cresce sempre que William a elogia e quando ela começa a tirar as melhores notas da turma é subitamente despedida por Zoraide.
Com este despedimento, Frances vai-se embora fazendo com que William mova mundos e fundos para encontrar o seu paradeiro. Passado algum tempo, quando a alcança, descobre que ela trabalha como professora de francês, história e geografia, e que é bastante respeitada no meio. Os dois acabam por casar, partem para Inglaterra (sonho antigo de Frances cuja mãe era inglesa), e abrem uma das melhores escolas de raparigas no condado onde vivem, ficando a viver ao lado da propriedade de Hunsden, seu vizinho e amigo.
Na minha opinião, O Professor tinha um grande potencial para se tornar um clássico, mas peca sobretudo pela confusa narrativa de Charlotte Bronte. O romance demora muito a arrancar, sendo o primeiro terço dedicado à relação de William e Edward que acaba subitamente para regressar apenas num ou noutro comentário final. Parece que, à primeira vista, a premissa da história é uma e depois se torna outra completamente distinta. Creio igualmente que a descrição das mulheres e o papel do feminino deixa um tanto a desejar. A diferença de tratamento entre as raparigas belgas e Frances é enorme e, a meu ver, injustamente generalizada. No entanto, Charlotte faz uma critica interessante à sociedade inglesa, apelidando-a de superficial e enganadora, ao contrário da belga que, sendo latina, é mais consciente da dignidade que advém do trabalho. Trabalho esse muito valorizado ao longo de todo a história, ao ponto de, no final, Frances pedir ao marido William que a deixe continuar a leccionar pois: “gosto do descanso, mas prefiro a atividade. É preciso que trabalhe e que trabalhe consigo. Tenho observado que as pessoas que somente buscam o prazer de se acompanharem nunca se amam tanto como aquelas que trabalham e sofrem, conscientemente, por uma finalidade comum.”, numa clara critica à aristocracia.
Outro dos pontos fortes, porém pouco explorado, deste romance é a personagem de Hunsden. No início não entendemos bem a sua intenção, nem porque o preocupa tanto William e o seu estilo de vida. todavia, no final, apercebemo-nos de que esta figura é uma alusão ao diabo a quem William “vende a alma” de modo a encontrar o seu lugar no mundo. Esta comparação é um pouco lata porque o nosso protagonista nem sempre segue os concelhos de Hunsden e, no fim, até se torna seu amigo pessoal, contudo é a própria autora que o define como um Mefistófeles e uma víbora.
Muito mais haveria a dizer sobre O Professor, de Charlotte Brontë. Termino apenas com a ideia de que é um rascunho preparatório para o que viriam a ser os seus romances e que, na busca da perfeição, o escritor tem por vezes de falhar para aperfeiçoar a técnica de modo a escrever a sua obra-prima. Este falhanço é mau, ma non troppo.
Neste meu périplo pelas obras das irmãs Brontë, decidi ler o terceiro livro que me faltava dos três que foram publicados em 1847: Agnes Grey, de Anne Brontë. Apesar de não ser tão intenso nem magnânimo como Jane Eyre ou O Monte dos Vendavais, continua a merecer (fortemente) a nossa atenção.
O que Charlotte, Emily e Anne Brontë mais desejavam era ser autoras com trabalho publicado. Para isso, decidiram escrever uma prosa que mais tarde pudessem editar numa compilação conjunta. Charlotte escreveu Jane Eyre, Emily escreveu O Monte dos Vendavais, e Anne escreveu Agnes Grey. Curiosamente, este último foi o que, à época, teve mais aceitação por parte do editor e o que mais vendeu junto de um público que não se achava preparado para entender as outras duas obras. Hoje em dia, o livro de Anne é o menos conhecido dos três, tendo sido altamente ultrapassado pelos textos das irmãs que hoje são considerados verdadeiras obras de culto.
Agnes Grey (1847) conta a história de uma jovem preceptora que decide independentizar-se para poder ajudar a família e para se sentir, de certa forma, útil à sociedade. As casas por onde passa não são propriamente um paraíso, pelo que Agnes aprende a amadurecer depressa e sozinha, acabando por encontrar um equilíbrio emocional pouco comum à sua idade. Esta foi mesmo uma das características de que mais gostei no livro: Anne Brontë, na voz de Agnes, tece vários comentários sobre a vida, sobre como viver em harmonia consigo própria, com os outros, com a natureza e os animais, sobre como educar as crianças, e até sobre o casamento e a aparência das mulheres. Achei a sua mentalidade deveras moderna e edificante, especialmente tendo em conta o pensamento do séc. XIX no início da era vitoriana. Também apreciei a sua escrita, simples e indo ao cerne da questão, se bem que se nota não estar tão desenvolvida com a das irmãs. O final do livro foi o esperado, um pouco cliché, porém satisfatório.
Por todas estas razões creio que passar ao lado de um livro como Agnes Grey é um erro. Apesar de ser o menor dos três originalmente publicados, continua a ser bom, com uma história ternurenta e cheia de lições de vida que nos fazem pensar e encarar as personagens de um modo quase estóico. Recomendo vivamente.