Literatura Europeia · Literatura Francesa

O Vermelho e o Negro

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Quando uma das minhas Booktubers preferidas disse que um dos livros da sua vida era O Vermelho e o Negro (1830), de Stendhal, a minha motivação para o ler foi mais que muita. Especialmente porque o tinha dividido em dois volumes como parte integrante de uma coleção que fiz há cerca de 20 anos…

Esta história passa-se na França do início do século XIX e relata a vida de Julien Sorel, o filho de um carpinteiro que vive numa parte rural do país e que sonha com a ascensão social. Como é muito inteligente, Julien acaba por se tornar o protegido de um padre que lhe ensina latim e lhe arranja o lugar de tutor no seio de uma família nobre da região. Julien acaba por se apaixonar pela senhora da casa, Madame de Rênal, e como a relação é impossível porque ela é casada e tem filhos, Julien vai para Paris trabalhar para o seio da nobreza sofisticada, onde lhe acontecem as maiores peripécias.

Neste romance, Stendhal dá-nos pela primeira vez o que é hoje designado como “romance psicológico”. Estamos sempre na cabeça de Julien, percebemos o seu raciocínio e as suas emoções, e temos uma maior compreensão e entendimento do seu carácter. Ao mesmo tempo, o realismo e o contexto histórico descritos pelo autor fazem com que tenhamos uma noção do que a França era na altura e as movimentações sociais que, mais tarde, deram origem às revoluções de 1830 e 1848.

Gostei muito deste livro. A sua leitura é fácil, agradável e imersiva. Para mim o ponto alto foi o final, completamente inesperado, e a moral da história, infelizmente sempre tão atual. Recomendo vivamente este clássico da literatura e fico satisfeita por ter dado ouvidos à recomendação que indiretamente me foi feita. O Vermelho e o Negro é certamente um livro a não perder.

Literatura Europeia

A Guerra das Salamandras

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Admito que não sou grande leitora de ficção cientifica, mas quando me recomendam um clássico do género, tenho dificuldade em recusar a leitura. Acho que é a minha vontade de saber e aprender mais sobre aquilo que não sei que me levou a ler A Guerra das Salamandras (1936), de Karel Capek.

Karel Capek (1890-1938) foi um prolífico escritor checo que se notabilizou no género de ficção cientifica (muitas vezes em colaboração com o seu irmão Josef). Ficou sobretudo conhecido pela peça de teatro R.U.R. (que deu origem à palavra ROBOT), e pelo romance A Guerra das Salamandras.

Este último é uma sátira ao momento e ao contexto político em que o autor vivia, no início do século XX, aquando da chegada ao poder de várias ditaduras autoritárias. Conta a história de um explorador que encontra uma salamandra no Pacífico e percebe que ela é suficientemente inteligente para seguir ordens e desenvolver-se intelectualmente. Como as salamandras se reproduzem em grandes quantidades e são ótimas trabalhadoras, muitos países as adotam para fazer os trabalhos pesados. Principalmente no que toca a ganhar território ao mar, algo em que são peritas. O problema, é que passados vários anos, as salamandras são mais numerosas do que os humanos e já não se deixam subjugar como dantes.

Mais do que um texto de ficção científica, A Guerra das Salamandras é uma crítica ao comportamento humano que pela sua ganância e ânsia de poder entra em guerras desnecessárias e destrói vidas inutilmente. Gostei muito deste livro. Realmente é diferente do que normalmente leio, mas de vez em quando é bom sairmos da nossa zona de conforto para descobrir obras que nos surpreendem e fazem pensar de uma nova forma. Recomendo.

Bibliotecas do Mundo · Literatura Portuguesa

Biblioteca Galveias

Uma das bibliotecas que mais frequento em Lisboa é a Biblioteca Palácio Galveias, nas Avenidas Novas, junto ao Campo Pequeno.

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Esta biblioteca pública entrou em funcionamento em 1928, quando a Câmara Municipal de Lisboa adquiriu o antigo palacete. Apesar de se encontrar no centro da cidade, o palácio foi originalmente construído para servir de casa de campo aos Marqueses de Távora, que o viram confiscado pelas autoridades em 1759 aquando do processo que os opôs ao então primeiro-ministro do reino, Marquês de Pombal, no famoso caso Processo dos Távoras. Em 1801 foi adquirido pelo 5º Conde das Galveias sofrendo obras de restauro e adquirindo o nome pelo qual ainda hoje é conhecido.

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Enquanto biblioteca, o Pálacio Galveias sofreu obras de restauro em 2015, transformado-se num local mais agradável e preparado para receber estudantes e leitores. Com um acervo de 120 mil documentos, é um lugar de consulta e de empréstimo de livros, possuindo cerca de 320 lugares sentados. Dispõe ainda de uma grande zona infantil, de um jardim com pavões e estátuas, e de um quiosque-café com esplanada.

Uma das suas salas mais bonitas e emblemáticas alberga a Livraria Municipal de Lisboa, e serve não só de área de estudo como também de sala de lançamento de livros (fora do horário da biblioteca). Recebeu o nome Sala José Saramago porque o escritor vencedor do prémio Nobel costumava frequentar a biblioteca na juventude.

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Apesar de não ser muito grande, a Biblioteca Galveias é uma das mais bonitas e frequentadas da cidade de Lisboa. Recomendo uma visita seja para fazer o empréstimo de um livro ou simplesmente para ver o edifício histórico. Vale realmente muito a pena.

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Literatura Europeia

Carta ao Pai

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Depois de ler O Processo (1925), A Metamorfose (1915), O Artista da Fome (1924), e O Castelo (1926), só me faltava Carta ao Pai (1952) para completar a leitura das obras mais emblemáticas de Franz Kafka.

Carta ao Pai é um livro curto, de não ficção, no qual Kafka se dirige ao progenitor para lhe dizer que são os dois pessoas muito diferentes, e que, por isso, não vêem o mundo da mesma forma. Kafka acusa-o diretamente de ter sido um mau pai (embora não com termos tão directos), e critica as suas atitudes de déspota e arrogante não só para com os familiares, como também para com os funcionários da sua loja.

Kafka revela que a relação que o pai teve com as outras três filhas também não foi fácil, deixando assim transparecer o seu autoritarismo, e acrescenta que a vida familiar não foi fácil devido ao carácter mal formado e intolerante do progenitor. Franz faz igualmente mea culpa de modo a não acusar o pai de todos os males passados na infância, contudo fica subentendido que a (má) influência do pai terá sido decisiva para ele se considerar tímido e pouco confiante.

Carta ao Pai não é uma obra obrigatória, porém, para quem gosta de Kafka é um óptimo meio para conhecê-lo melhor e perceber como ele próprio se via como criança e adulto numa sociedade entre guerras, rapidamente em mudança. Uma leitura muito interessante que completou o meu ciclo Franz Kafka.

Literatura Europeia · Literatura Francesa

A Educação Sentimental

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Comprei A Educação Sentimental (1869), de Gustave Flaubert, há muitos anos e o meu exemplar estava esquecido na estante, sendo de súbito ressuscitado pelo clube de leitura de uma Booktuber de quem gosto bastante. Devo dizer que quando acabei a leitura conclui que esta obra não fica a dever nada a Madame Bovary (1856).

A Educação Sentimental conta a história de Frédéric Moreau, um jovem francês estudante de Direito e cheio de sonhos que se apaixona perdidamente pela Sra. Arnoux, uma mulher mais velha, casada e com filhos. Durante vários anos, Frédéric faz de tudo para se aproximar da sua amada, pondo o seu amor à frente de tudo e de todos. Enquanto a trama decorre, dá-se a crise económica, política e social de 1848 que acaba por culminar na tão afamada República Francesa.

Este livro é muito importante porque foi com ele que Flaubert consolidou de vez o Realismo na Literatura, juntando ficção e realidade numa história que critica abertamente o Romantismo. Creio que o final grandioso dá sentido ao texto e ata as peças soltas, ensinando-nos que, por vezes, os sonhos podem ser destrutivos e que a falta de objetivos de vida ou ambição pessoal pode levar a que desejemos algo que não é para nós.

Com A Educação Sentimental, Flaubert despoletou a minha curiosidade em relação à sua obra. Já comprei  Salambô (1862), e não devo tardar a lê-lo. Nesta ocasião precisei de uma ajuda externa para conhecer este grande livro. Foi a minha primeira participação num clube de leitura e, seguramente, não será a última.

Literatura Europeia

O Castelo

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Depois de ler A Metamorfose (1915) e O Artista da Fome (1924), de Franz Kafka, resolvi comprar um dos seus livros mais famosos, O Castelo (1926). Hesitei porque Kafka nunca o terminou, contudo, e para minha surpresa, não me importei muito que a história não tivesse um final.

Nesta obra, Kafka relata o estranho episódio em que K, um agrimensor de fora da cidade, é contratado pelo Castelo para trabalhar na identificação dos terrenos locais. Contudo, os habitantes não ficam contentes com a sua chegada, pelo que o menosprezam e dificilmente lhe dão guarida. Quando K tenta ir ao Castelo para esclarecer a sua situação, nunca lá consegue entrar porque pelo caminho vai encontrando obstáculos bizarros.

Durante a leitura, achei esta história bastante parecida com a de O Processo (1925). Ambas as personagens têm o menos nome, ambas se vêem envolvidas em situações similares, e, no geral, o ambiente do livro parece o mesmo: claustrofóbico, caótico, desordenado. Creio que Kafka terá querido expressar nos seus livros o tempo confuso em que vivia. No período entre guerras, as tensões sociais e as incertezas (principalmente para os judeus) eram enormes, e o autor terá tentado demonstrar a falta de respostas e certezas perante o silêncio e a ambiguidade que sentia.

Nunca saberemos ao certo o que Kafka quis realmente dizer, a minha é uma de muitas interpretações. No entanto, é ao lê-lo que fazemos com que a sua memória permaneça viva, uma memória que põe o Estado burocrático e, por vezes, esmagador no centro da trama como um vilão. Creio que muitas pessoas sabem perfeitamente o que isso é.

Literatura Europeia

A Metamorfose

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Kafka sempre foi um escritor que me inspirou uma certa curiosidade. Enquanto andava na faculdade, li O Processo (1925) e gostei muito, apesar de achar que se tratava de um livro estranho. Há umas semanas li A Metamorfose (1915) e adorei ao ponto de querer ler todos os livros famosos do escritor (algumas deles já com opiniões aqui no blogue).

Gregor Samsa é um jovem caixeiro-viajante que tem de trabalhar num emprego que não gosta para ajudar financeiramente a família. Gregor mora com os pais e a irmã mais nova, mas passa a maior parte do tempo na estrada. Certo dia, quando acorda para ir apanhar o comboio, percebe que está transformado num insecto. O que se segue é um enorme rebuliço e a estupefação geral. Ninguém sabe como reagir, nem o que fazer. Com o passar do tempo, a família encontra outras formas de subsistência e Gregor fica confinado ao seu quarto sem que ninguém queira saber muito dele.

Apesar de eu achar que este pequeno texto de Kafka tem uma mensagem clara, creio que, por vezes, pode ser de difícil interpretação. Para mim, Gregor era visto pela família como uma bóia de salvação em termos económicos, pois viviam às suas custas, e, ao mesmo tempo, como alguém que lhes dizia o que fazer (sem má intenção) e os tinha, por isso, “presos”. Ele teve de se tornar dependente para que os familiares recuperassem a sua independência.

Gostei muito desta leitura. Há quem diga que as razões por detrás da sua escrita são religiosas (Kafka era judeu) ou uma alusão à autoridade que o pai exercia sobre ele. Seja o que for, A Metamorfose é um clássico da literatura que merece ser lido. Recomendo vivamente.

Literatura Europeia

Um Artista da Fome

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Kafka está rapidamente a tornar-se um dos escritores mais interessantes que já conheci. Li O Processo (1925) há alguns anos, quando andava na universidade, e lembro-me de ter gostado, apesar de o ter achado um livro estranho. Acabei por ler A Metamorfose (1915) há uns meses, naquela que se tornou uma das minhas obras preferidas que acabou por despoletar esta jornada para ler os outros trabalhos de referência do autor. Seguiram-se estes textos de que vos vou falar.

Um Artista da Fome e outros textos (1924) é uma coletânea publicada pela chancela 11 17 da editora Bertrand que reune as melhores histórias curtas de Franz Kafka, com algumas delas ainda publicadas em tempo de vida do escritor. A que mais se destaca é, sem dúvida, a que lhe dá nome: Um Artista da Fome. Neste conto, Kafka conta a história de um “artista da fome” que se recusa a comer, ficando por isso extremamente magro e sendo uma atração num circo de horrores. Quando, no final, os fiscais que inspeccionam as jaulas o encontram dentro de uma das melhores, perguntam-lhe se ele continua a jejuar, ao que o artista responde que sim, que não pode fazer outra coisa, que está condenado a isso, porque nunca encontrou nada de que gostasse de comer.

Todos os textos desta coletânea são mais ou menos assim. Todos têm uma conclusão ou um contexto filosófico, aparentemente confuso ou estranho, cuja intenção creio que é fazer-nos pensar na vida e no nosso papel individual, e coletivo, no mundo. Não nos esqueçamos de que Kafka escreveu sobretudo no período entre guerras, uma época fortemente marcada pela Grande Depressão e por tensões sociais que acabaram por originar regimes autoritários e totalitários.

Gostei muito deste livrinho. E, apesar de não ser uma obra obrigatória, creio que deve ser lida como parte de um bom conhecimento sobre Kafka. A obra que se segue é O Castelo (1926).

Literatura Europeia

Sobre a leitura

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Na minha estante tenho toda a série de Em Busca do Tempo Perdido (1913-27) para ler, mas Proust intimida um bocadinho, confesso. Enquanto não mergulho de cabeça na sua monumental obra de sete volumes, leio o que Proust tem a dizer sobre a leitura. E não é pouco.

Sobre a leitura (1987) é um ensaio escrito no início do séc. XX para servir de prefácio para as obras de John Rushkin, quem Proust muito admirava. Nos anos oitenta foi publicado pela primeira vez como um ensaio sobre o acto de ler.

Neste pequeno texto, Proust diz que a leitura é uma atividade muito prazeirosa que, quando interrompida, se torna um tormento. Diz também que “(…) a leitura, ao contrário da conversa, consiste para cada um de nós em receber comunicação de um outro pensamento (…)”; “(…) é ainda às leituras de infância que eu irei perguntar em que é que consistem (as virtudes) (…)”; e que a leitura é uma forma de introdução na vida espiritual, e a maneira de um “espírito preguiçoso” sair do seu desalento.

Interessante, não é? E há mais para ler sobre a opinião de Marcel Proust, mas não o direi para não estragar o livro, um “miminho” para todos os verdadeiros leitores que se lê em poucas horas.

Literatura Europeia

O Leopardo (livro e filme)

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O Leopardo (1958), de Tomasi di Lampedusa, foi uma das minhas leituras preferidas de 2019. Gostei tanto do livro que mal podia esperar para ver a adaptação cinematográfica que Luchino Visconti faria alguns anos mais tarde. Devo dizer que os dois são uma experiência cultural brilhante.

O Leopardo conta a história do fim da aristocracia siciliana através dos olhos de Don Fabrizio, principe de Salina. No final do séc. XIX, a península Itálica era composta por diversos estados governados por várias potências, como a Áustria, os Bourbons, a casa de Sabóia, e o Papa. Estes mantinham um poder quase absolutista e sem apoio popular, pelo que começaram a propagar-se ideias revolucionárias e a criar-se vários movimentos com a intenção de formar um estado uno. Algumas fações queriam uma república, outras desejavam uma monarquia. Após várias guerras que duraram décadas, em 1861, Vitor Emanuel da casa Sabóia foi proclamado rei de Itália com o reconhecimento de deputados de todos os Estados envolvidos.

É sobre esta última fase do Risorgimento de que fala o livro. Lampedusa, ele próprio um príncipe siciliano sem reino, conta a história de um antepassado seu e de como este terá vivido os últimos anos de uma época que terminaria com a aristocracia estatutária. Apesar de ser o fim, Don Fabrizio comporta-se sempre com uma dignidade extrema, aceitando os novos tempos e tentando minimizar as consequências negativas tanto para a sua família, como para as pessoas que viviam nos seus territórios. E embora a população quisesse uma Itália unida e democrática, com representação popular no Senado, nunca deixaram de admirar Don Fabrizio e o papel importante que este teve no desenvolvimento das suas terras. O papel da Igreja também é simbolicamente descrito, pois Lampedusa traça um cenário em que o Clero preferia que estas pequenas aristocracias vingassem, mas que rapidamente “se vende” à burguesia para não perder o seu poder local.

O Leopardo é um livro excepcional. Não só retrata muito bem o período final das guerras e o quase início da unificação de Itália, como também transmite brilhantemente o sentimento triste, melancólico e resignado de uma aristocracia que perdeu o seu lugar no mundo.

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Em 1963, ou seja, cinco anos após a publicação do livro, o realizador italiano Luchino Visconti apresentaria a sua versão com o actor americano Burt Lancaster no papel de Don Fabrizio. Esta superprodução italo-francesa é uma das melhores adaptações cinematográficas que eu já vi. Visconti consegue transmitir o espírito do livro numa narrativa calma, mas ao mesmo tempo sufocante. Os cenários e o guarda-roupa são impressionantes e o casting não poderia ter sido mais bem escolhido. Alain Delon teve aqui a sua grande estreia, e Claudia Cardinale reforçou o seu papel de estrela e de diva. Não foi por acaso que o filme ganhou a Palma de Ouro, em Cannes.

Nota: O Leopardo faz-me lembrar o E Tudo o Vento Levou. Ambos os livros retratam um período histórico real, conturbado e de mudança por meio de personagens fictícias, e os filmes estão extremamente bem feitos sendo hoje considerados clássicos do cinema. Recomendo vivamente os dois, tanto na forma escrita como na forma visual. Obras-primas.