Literatura Portuguesa

Sinto Muito

Confesso que sou um pouco céptica em relação à literatura portuguesa contemporânea, prefiro clássicos. No entanto, devo abrir uma (grande) excepção a este livro.
Sinto Muito (Verso de Kapa; 248 páginas) é composto por vários textos independentes que relatam a vida de um neurologista pediátrico em Nova Iorque e em Lisboa. Para além de estar muitíssimo bem escrito (ou não fosse o autor um Lobo Antunes), é de uma ternura comovente que nos faz pensar sobre a natureza humana, a vida, a rotina de um médico, a apreensão de um doente, a perda dos familiares. Como cada história tem a duração de, mais ou menos, duas/três páginas, é quase impossível poisá-lo, pois queremos saber o que vem a seguir.
Para quem se quer aventurar em boa literatura nacional contemporânea, recomendo vivamente esta obra.
P.S.: Tenho ainda de fazer referência à linda capa da edição comemorativa dos 60.000 exemplares vendidos. Muito bonita.
Literatura Europeia

A Noite

Este foi um dos livros mais belos que já li.
Não porque fala de uma história de amor, ou de um herói que, no final, conseguiu singrar, mas porque é um testemunho real de um homem que era adolescente quando foi levado para um campo de concentração nazi.

Elie Wiesel, prémio Nobel da Paz em 1986, é um sobrevivente judeu do nazismo. Perdeu os pais e a irmã, a quem dedica esta obra, em campos de concentração, e conseguiu ultrapassar com uma coragem e uma vontade quase sobre-humanas ao terror que aconteceu durante a II Guerra Mundial.

A Noite (127 págs, Texto Editora), juntamente com o diário de Anne Frank, é um livro obrigatório para quem quiser compreender melhor o que significava ser judeu numa época em que Hitler tentava dominar a Europa, mas também para quem quiser ler um relato humano sobre amor, entre-ajuda e esperança.
Absolutamente a não perder.
Literatura Europeia

As crianças não são adultos

«As crianças não são adultos» (151 pgs.; caleidoscópio) é um livro indispensável para os pais e educadores de hoje. Não só aborda todos os temas importantes com que os pais têm de lidar, como o medo em ser pai na sociedade actual, a educação, as relações entre irmãos, ou o medo do conflito, como também é uma ferramenta preciosa para quem não se sente preparado para enfrentar os problemas de crianças mais complicadas.

Béatrice CopperRoyer é uma psicóloga e psicanalista francesa de renome, com vasta experiência clínica e obra publicada. Neste livro em particular, a doutora ajuda-nos a compreender, ou a relembrar, que as etapas da infância devem ser respeitadas, e que o conflito é normal e desejável para que a criança e o adulto encontrem o seu espaço próprio na família, sem nunca esquecer a autoridade, no bom sentido, dos mais velhos.
Muito esclarecedor.
Literatura Portuguesa

A mulher que prendeu a chuva

Este livro de contos foi uma agradável surpresa. Não só porque a literatura portuguesa não tem uma grande oferta deste género literárioexcepção de Miguel Torga, e de um ou outro livro de contos de autores portugueses como, por exemplo, Eça de Queiróz), como também por ter sido escrito com uma grande sensibilidade e com alguns dados biográficos da própria escritora.

A escrita de Teolinda Gersão denota uma temporalidade passada que é sempre engraçado reler e uma suavidade que transparece uma feminilidade confortável e prazenteira. Também denuncia várias situações sociais como a violência doméstica (praticada tanto por homens como por mulheres), a ganância, a velhice, a emigração, a doença, o desconhecido, o amor. Um conto, uma história, uma emoção.

Aconselho a sua leitura.
Literatura Europeia · Uncategorized

As Lições dos Mestres

As Lições dos Mestres, de George Steiner, é um pequeno livro de ensaio que nos dá a conhecer a visão que o professor norte-americano, de origem francesa, tem sobre o que um professor deve ser, e sobre as diferentes relações que estabelece com os alunos. A obra aborda várias relações conhecidas de mestres e aprendizes, ou simplesmente de mestres com a sua própria obra e conceito de intelectualidade. São exemplos disso os casos de Sócrates-Platão-Aristóteles; Martin Heidegger e Hannah Arendt; Franz Kafka e Max Brod.

Apesar de ser um livro com uma linguagem académica e com muitos exemplos de relações que provavelmente não serão conhecidas do grande público, é uma óptima ferramenta para reflectirmos sobre o papel do professor, a sua influência nos alunos e o que de novo e de pessoal pode imprimir às matérias que ensina. Na minha opinião, um livro obrigatório para professores, pais e alunos.
Uncategorized

Melody Gardot

Concerto de quarta-feira à noite, no CCB, praticamente esgotado para ouvir um dos mais jovens e promissoros nomes do Jazz. Melody Gardot não só canta com alma e coração, através de uma das vozes mais melodiosas de que tenho memória, como também interage com o público de forma sensual e divertida. Aqui está uma imagem das duas maravilhosas horas de espectáculo. A nova “Diana Krall” acaba de entrar no edifício do Jazz contemporâneo. Esperemos que nunca saia.
Uncategorized

El secreto de sus ojos

Há muito tempo que não via um filme tão bom. El secreto de sus ojos é uma mistura entre thriller e drama que, ao longo de duas horas, desperta nos espectadores emoções cómicas e comoventes. A história desenvolve-se de forma anacrónica, nos anos 70 e na actualidade. As personagens atravessam a barreira do tempo para lidar com antigos fantasmas que, no tempo presente do filme, representam um empecilho nas suas vidas. Contudo, a mesagem é clara: nunca é tarde para se descobrir a verdade dos factos, nem de nós próprios.

 

A meu ver, El secreto de sus ojos é um dos melhores filmes de língua espanhola de sempre (venceu dois Goyas e o Óscar da Academia para melhor filme estrangeiro). E, apesar de ser uma co-produção Hispano-argentina, tem laivos de cinema norte-americano. Nada é deixado ao acaso: a maquilhagem, os figurinos, o guião, a interpretação, a realização, a maneira fluída como a história discorre, os efeitos especiais… É tudo perfeito.

 

Sentada na cadeira da sala, vendo os aborrecidos anúncios antes da sessão começar, pensei que há muito tempo não via um filme que, no final, deixasse os espectadores pregados ao assento, sem reacção. Bem, quando El secreto de sus ojos terminou, tive uma agradável surpresa.
Literatura Europeia

Non ti muovere

Vou debruçar-me no romance italiano, vencedor do Prémio Strega 2002, Non ti muovere, de Margaret Mazzantini, e no respectivo filme, adaptado ao cinema pela mão do realizador (e protagonista do mesmo) Sergio Castellitto (marido da escritora na vida real).

A primeira vez que ouvi falar neste romance foi na aula de gramática italiana, em Florença, onde a professora nos aconselhou vivamente a sua leitura.

O livro começa com o acidente de viação de uma rapariga de quinze anos que, por coincidência, é transferida para o hospital onde o pai trabalha como cirurgião. Moribunda, Angela está entre a vida e a morte e depende da equipa médica que a viu nascer. Assim que Timoteo é avisado do acidente da filha, deixa tudo para assistir de perto à sua operação de risco. Durante a espera interminável, começa slenciosamente a contar-lhe a história do grande amor da sua vida, que conheceu quando ainda namorava a futura esposa, mãe de Angela. Uma prostituta chamada Itália (interpretada por uma brilhante Penélope Cruz).

Este é o apetecível e curioso mote que dá inicio a uma história de desejo e de medo. Pela mão de uma mulher vamos desvendando aos poucos tudo o que vai na mente e no coração de um homem, que não deseja outra coisa senão ser feliz ao lado daquela que ama. O problema é que essa mulher é prostituta, não tem formação, vive num bairro de lata, e não seria bem vista nem aceite na sociedade como esposa de um conceituado cirurgião. Para Timoteo é uma escolha difícil entre a harmonia e o conforto de um lar junto a uma bela e simpática Elsa, e uma vida cheia de preconceitos e com um futuro incerto junto a uma Itália que o ama incondicionalmente.
A princípio, o herói enfraquece e faz a escolha mais fácil. Depois, quando decide ganhar coragem para enfrentar o destino, é tarde demais.

Non ti muovere é um romance muito bonito que nos faz pensar sobre a natureza frágil do ser humano, e da sociedade que este constrói para se integrar e viver. Lembra-nos de que há ocasiões na vida em que devemos prestar mais atenção às nossas vontades, e magoar momentaneamente os outros, em vez de nos arriscarmos a passar o resto do tempo que nos falta a pensar como teria sido se tivéssemos optado pelo outro caminho.

Margaret Mazzantini escreveu uma história sem género, sem idade e sem preconceitos, conseguindo, ao mesmo tempo, fazer uma maravilhosa e conseguida critica à sociedade italiana ao dar o nome do país a uma personagem inocente, querida e tão imerecidamente maltratada por aqueles que dizem amá-la. Fantástica é também a interpretação de Penélope Cruz, que justifica plenamente o seu Donatello.

Apesar de ter gostado do filme em geral, acho que há um detalhe que o transforma radicalmente: o facto de não ser claro de que foi Timoteo a pedir a Itália que fizesse o aborto. Sem este pormenor, a película não foi fiel ao livro e perdeu, pelo menos, metade da sua magia e do seu interesse.

Ainda assim, tal como fez a minha professora, aconselho vivamente a leitura deste romance. Está muito bem escrito, dá que pensar, e tem o ingrediente que mais prezo nos livros que leio e nos filmes que vejo: é comovente.