Literatura Britânica · Literatura Europeia

O Vento nos Salgueiros

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Para mim, os clássicos são sempre uma ótima oportunidade não só para conhecer os livros considerados o cânone da literatura, mas também para compreender porque o são. O Vento nos Salgueiros (1908) é, há muito, considerado um livro de referência no género infantil, tendo sido adaptado para séries de animação e longas-metragens. Por isso, quis lê-lo.

O Vento nos Salgueiros, de Kenneth Grahame, sempre me intrigou. Sempre pensei nele como um romance ternurento passado no mundo dos animais, quiçá até um pouco triste. O que descobri, porém, não foi bem isso. É verdade que o primeiro capítulo é promissor, com um rato e uma doninha a partirem numa viagem de barco através do rio junto às suas casas, contudo, depois, parece que o livro ganha uma linguagem cómica e torna as aventuras destes amigos, de um sapo e uma toupeira, um pouco mais surreais. Creio que deve apelar a uma criança ler este tipo de brincadeiras, porém, o que me pareceu foi que as brincadeiras também são um pouco adultas para um público mais novo (como é, por exemplo, o caso da prisão do sapo).

Esta obra é interessante, mas não foi, de todo, uma das minhas preferidas. Acho que a minha ideia romantizada levou um pouco a melhor de mim e me estragou a experiência da leitura. De qualquer forma, devo referir que O Vento nos Salgueiros (cujo título é um dos mais bonitos no que a narrativas infantis diz respeito) é um livro muito bem escrito e querido para muita gente. Lá por eu não o ter adorado não quer dizer que seja mau. Não me arrependo de o ter lido, pelo contrário, é bom conhecer os clássicos e perceber o que leva tantas pessoas a a gostar deles. Neste caso em concreto compreendo que tenha sido uma obra para crianças inovadora para o início de século. Se perdurou até aos dias de hoje é porque há muita gente a apreciá-los. Infelizmente, não é bem o meu caso.

Literatura Juvenil

As mais belas fábulas africanas

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Tento ler o mais diversamente possível. As minhas preferidas são as literaturas britânica e americana, mas também tento ler portuguesa, espanhola, italiana, francesa, escandinava, russa, latina-americana. Da africana conheço pouco, aliás, o único livro que li foi Things Fall Apart, de Chinua Achebe, uma bela resposta à obra de Conrad, O Coração das Trevas. Logo, quando vi à venda As mais belas fábulas africanas, com prefácio de Nelson Mandela, não só achei que era uma excelente iniciativa da Nuvem de Letras, como a comprei.

Esta obra é uma compilação de fábulas de vários países africanos registas normalmente por professores, tradutores e escritores ocidentais que passaram algum tempo nesses lugares e quiseram pôr por escrito um valioso património oral que não queriam ver perdido. Segundo o prefácio de Nelson Mandela, muitas destas histórias são contadas às crianças africanas, como são contados os contos de fadas aos meninos ocidentais. Servem não só para estimular a sua imaginação e intensificar o sentimento de pertença, como também para servir de exemplo e fazer com que elas sejam capazes de distinguir o Bem e o Mal.

Confesso que algumas das fábulas são particularmente violentas, sem uma moral que valide o que referi acima, porém, a maior parte delas fala de valores partilhados universalmente como o amor, a amizade, o valor da vida e da morte. Duas das características mais vincadas nestas fábulas são o papel da mulher, que normalmente está associado à procriação e submissão perante um homem, e a superação ou sobrevivência que em África parece particularmente importante, seja através da força ou da inteligência.

Gostei deste livro. Não posso dizer que seja o meu preferido em termos de fábulas ou contos, mas é uma boa leitura para quem deseja conhecer mais um pouco da cultura africana e saber que histórias as crianças deste maravilhoso continente aprendem.

Literatura Britânica · Literatura Europeia

A Jóia das Sete Estrelas

Gosto muito de livros de suspense. Thrillers, policiais, crime, gosto de todos estes géneros (principalmente se forem da autoria de Agatha Christie…). Contudo, o terror é uma categoria literária que não exploro porque não gosto de ficar sem dormir. Achava que isso me ia acontecer com esta obra em particular, mas não foi o caso.

A joia das sete estrelas (1903), de Bram Stoker, afamado escritor de Drácula (critica aqui no blogue) é supostamente um dos melhores livros de terror de todos os tempos. A história passa-se em Londres, no final do séc. XIX, quando um brilhante advogado em início de carreira é chamado a casa da filha de um historiador que, de súbito, entrou num transe do qual não consegue sair. Ninguém é capaz de explicar o facto e um perito em egiptologia e magia oculta é chamado para salvá-lo. Descobre-se então que este homem é um antigo amigo do historiador e que, com ele, explorou túmulos egípcios. Um desses túmulos era o da rainha Tera que, incomodada no seu sono e privada das relíquias que descansavam consigo (entre elas a sua mão de sete dedos), acaba por reencarnar no corpo de outra mulher. O que é estranho é que Margaret, a filha do historiador, tem, sem saber, muitas parecenças bizarras com a rainha Tera…

A premissa parece interessante e, depois de conhecermos o trabalho de Stoker, ficamos com vontade de saber como é que o escritor imaginou as suas outras obras. Para meu grande espanto, encontrei muitas semelhanças entre este livro e o próprio Drácula. Há muitas imagens parecidas como o facto de as vítimas serem mulheres desamparadas, normalmente vestidas de branco; a história é vista do ponto de um outsider com esperança de resolver o problema para poder ficar com a pessoa amada; um holandês perito em assuntos do oculto é mandado chamar para iluminar o grupo que tenta solucionar a questão. Apesar destas presenças, a história segue o seu fluxo, tornando-se por vezes demasiado repetitiva. Stoker demora-se em pormenores que são imediatamente claros ao leitor, fazendo com que o ritmo seja lento numa narrativa cheia de suspense e por isso frenética. É claro que devemos ter em conta de que se trata de um livro escrito no final do século XIX, pelo que a narrativa não poder ser igual às do século XXI.

Por outro lado, e novamente seguindo um pouco o que acontece em Drácula, o papel da mulher nesta obra é visto como pouco relevante, quase só serve para fazer de vítima. O autor chega mesmo a afirmar que os comentários infantis de Margaret são normais por ela ser de sexo feminino, algo que sem dúvida tem a ver com a época em que o escritor viveu, embora tal justificação não seja menos agradável às leitoras.

Resumindo, trata-se de um bom romance, especialmente se for visto à luz da época em que foi escrito. É notório que Stoker adorava lendas e mitos do oculto e que tentava transpor o seu gosto para histórias que chocassem o público. Não considero este livro assustador, nunca me tirou o sono (graças a Deus), mas é um bom ponto de partida para quem quer entrar neste género ou simplesmente ler um bom romance vitoriano. Só aconselho a não comprarem a edição da Editorial Estampa porque o grafismo não é bom e a tradução deixa um pouco a desejar.

Literatura Britânica · Literatura Europeia

The Invisible Man

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Não gosto de ficção científica, nunca leio. Nem vejo na televisão, nem no cinema. É simplesmente um tema que não me atrai. No entanto, ao ler a premissa deste livro, fiquei com vontade de o ler e de sair um pouco da minha zona de conforto.

A primeira vez que ouvi falar da história do homem invisível foi no museu de cera Grévin, em Paris, tinha eu uns 11 anos. Tratava-se de uma estátua não-estátua, ou seja, de roupas penduradas por arames que de certa forma davam a ideia de um homem sem corpo. Deve ter sido mais ou menos o que os personagens sentiram quando viram a personagem principal pela primeira vez.

H. G. Wells escreveu o seu romance em 1897 e o que impressiona é a modernidade da ideia. Griffin é um jovem cientista que se dedica ao estudo da retracção dos corpos, algo que os impede de absorver e refletir a luz tornando-se, deste modo, invisíveis. Depois de utilizar um gato como cobaia, decidi experimentar a poção em si próprio e tornar-se invisível. A princípio, a sensação de poder e impunidade é incrível, e Griffin sente-se muito feliz. Todavia, não pensou que um corpo transparente também tem de vestir roupas para não ter frio, de comprar comida para não morrer à fome, e que cada vez que pega num objeto este flutua, parecendo estranho aos demais. A sua vida torna-se um inferno e ele ainda não tem um antídoto que o cure…

Esta ideia é simplesmente genial. Não é à toa que H. G. Wells é o escritor de ficção científica mais admirado e um dos mais prolíferos, com clássicos como A Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau. A sua imaginação é fascinante, a sua escrita é fluída e sem grandes floreados, uma vantagem em livros repletos de ação que por vezes mais parecem guiões de Hollywood (mesmo tendo sido escritos no séc. XIX). Precisamente por este motivo, creio que o autor peca por não desenvolver melhor as suas personagens a nível psicológico e em não explicar as suas ações.

Apesar disso, o livro é um prazer. A história é emocionante, a escrita é cativante e o factor “ficção científica” não incomoda os leitores menos habituados, como eu. É um clássico e eu recomendo-o.

Literatura Europeia · Literatura Portuguesa

As Crónicas de Fernão Lopes

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Decidi ler mais um livro português neste meu mar de literatura estrangeira.

Lembro-me de na escola e na faculdade grande parte dos professores de História e Português aconselharem a leitura de As Crónicas de Fernão Lopes a todos os alunos. Percebo porquê. Trata-se do trabalho de um dos primeiros “jornalistas” com informação privilegiada junto de governantes e pessoas influentes, que punha no papel (num tempo em que o alfabetismo era raro) o que acontecia nos mais alto círculos reais.

Apesar de ter passado grande parte da vida a relatar o que testemunhava, Fernão Lopes chega-nos sobretudo como autor de três crónicas essenciais para melhor entendermos a nossa História: as de D. Pedro, D. Fernando e D. João I. Nestes documentos, o cronista do reino conta-nos o que ocorria na corte destes três reis, como viviam, com quem conviviam, como arranjavam os seus casamentos e, principalmente, como viveram os conturbados anos da crise de sucessão de 1383-85. O leitor fica a saber o que de importante se passava nos bastidores e como até nesse tempo a política e o poder já estavam desenvolvidos.

A escrita de Fernão Lopes é, claro está, datada, porém as edições contemporâneas das Crónicas estão adaptadas ao português atual, o que faz com que qualquer pessoas as consiga ler. Ultrapassada a barreira linguística, o leitor depara-se com uma escrita clara, descritiva e até opinativa, ficando assim a saber o que Fernão Lopes pensava dos episódios ocorridos.

Recomendo vivamente a leitura das Crónicas de Fernão Lopes para quem gosta de ler sobre a monarquia, para quem gosta de História, ou simplesmente para quem tem curiosidade sobre o passado do nosso país.

Literatura Norte-Americana

The Catcher in the Rye

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Acabo de ler um livro inesquecível: The Catcher in the Rye (1951)

Holden Caulfield é um jovem adolescente nova-iorquino que acaba de ser expulso de um dos melhores colégios do país. Como não é a primeira vez que acontece, Holden receia ir para casa e enfrentar os pais, contudo, como também não quer ficar na escola até as férias de Natal começarem, decide ir-se embora e deambular pela cidade até descobrir o que fazer.

Sem rumo e desapontado com a vida, Holden instala-se num hotel barato, frequenta bares e discotecas, fuma e tenta beber álcool sempre que pode. Nessa noite, e contra os seus princípios, marca um encontro com uma prostituta para ver se perde a virgindade e ganha experiência sexual. No entanto, tudo o que recebe é uma discussão com o chulo e um murro na barriga. Deprimido, Holden liga a uma antiga amiga e pede-lhe para ela fugir com ele, algo que naturalmente não acontece. Decide, então, falar com a sua irmã mais nova, Phoebe, uma menina de dez anos que parece ser a única pessoa que o compreende. É com ela que Holden vai perceber o significado da metáfora que dá sentido à sua vida.

Não é por acaso que The Catcher in the Rye é considerado um dos melhores romances do século XX. O estilo de escrita de Salinger é absolutamente sublime e, na minha opinião, nada datado. O narrador é Holden Caulfield, um adolescente perdido e desiludido com o mundo em busca do sentido da vida nos diversos personagens com que se depara ao longo da sua deambulação por Nova Iorque. Acaba por encontrá-lo em Phoebe, uma criança ainda inocente que representa o otimismo e a espontaneidade que o jovem tanto procura.

Esta obra representa sobretudo a fase da adolescência, quando nos começamos a aperceber de que o mundo não é perfeito, de que há pessoas más e de que a cultura popular pode, por vezes, incapacitar a inteligência dos mais tenazes. J. D. Salinger descreve de forma tão crua e coloquial esta etapa da vida que o seu livro foi banido de escolas e bibliotecas americanas nas décadas de 60 e 70.

The Cather in the Rye é intemporal. Eu própria tive alguma dificuldade em idealizá-lo nos anos 50 e não atualmente. Salinger conseguiu retratar na perfeição, e sem caricaturismos, a adolescência. A perda da inocência. O jovem idealista e desiludido. O verdadeiro rebelde sem causa. Aquele que quer salvar todas as almas incorruptas de caírem no precipício da realidade. Recomendo vivamente.

Literatura Europeia · Literatura Portuguesa

O mundo em que vivi

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Uma das minhas irmãs mais novas teve de ler este livro no 9º ano. Disse que era muito bom e aconselhou-mo vivamente. Na altura, eu andava no secundário e tinha a minha dose de leitura para fazer, sendo da área de Humanidades. No entanto, fiquei sempre com curiosidade para ler O mundo em que vivi (1943), de Ilse Losa. Hoje, com 32 anos, matei o bichinho.

Rose, uma menina judia de tenra idade, vivia em casa dos avós no final da I Grande Guerra quando o pai vai buscá-la para que ela passe a viver com eles e os irmãos numa cidadezinha próxima, na mesma altura em que Hitler ganha as eleições alemãs e incita ao sentimento anti-semita. Pouco depois, estala a II Grande Guerra.

O mundo em que vivi foi a forma que Ilse Losa arranjou para fazer as pazes com o seu país natal. A história da infância e adolescência de Rose confude-se com a da própria autora, nascida em 1913 no seio de uma família judia alemã e obrigada a emigrar, neste caso para Portugal, para fugir ao Nazismo. Nesta história ficcional, porém autobiográfica, Rose descreve como é viver durante a transição das duas guerras e fazer parte de uma família judia que sempre foi respeitada e deixou de o ser. O relato é sempre na primeira pessoa, cru, honesto e surpreendido, mas com uma dose de bondade e empatia que nunca esmorecem.

Adorei este livro. Atrevo-me a dizer que foi uma das minhas leituras preferidas do ano. Ilse Losa escreve maravilhosamente, a história é fascinante e chega até a ser original, pois fala de um intervalo de tempo que não costuma surgir amiúde na literatura: os anos entre as guerras. A minha irmã tinha razão. E eu também o recomendo vivamente.

Literatura Europeia

A verdade sobre o caso Harry Quebert

Não costumo ler bestsellers. Não tenho nada contra eles, pelo contrário, já li vários, uns melhores, outros piores. Contudo, pela minha experiência, trata-se de livros com pouco conteúdo, excessivamente publicitados por grandes editoras que pretendem vender milhares de exemplares. Neste caso específico, o fenómeno de popularidade não foi tão elevado no nosso país como no resto do mundo ocidental. Talvez tenha sido por isso que o li.

A verdade sobre o caso Harry Quebert (2012) é  o segundo livro de Joel Dicker, um jovem escritor suíço que ganhou o prestigioso prémio Goncourt des Lycéens com esta obra. O protagonista é o jovem escritor Marcus Goldman (alter ego de Dicker), que, sem inspiração,   decide passar uns dias em casa do seu mentor, antigo professor universitário e escritor famoso Harry Quebert. Quando nesse preciso período de tempo o corpo de uma jovem adolescente é encontrado 33 anos após o seu bizarro desaparecimento, Harry transforma-se no principal suspeito. Marcus não acredita na acusação e decide fazer a sua própria investigação. O que conclui é absolutamente surpreendente e dá-lhe inspiração para escrever o seu livro.

A leitura de A verdade sobre o caso Harry Quebert é altamente viciante. Os capítulos são curtos e a escrita de Dicker é simples e clara, dando vontade de virar a página e ler só mais um bocadinho. Apesar de o autor ser suíço, a história é muito americana: a ação decorre no New Hampshire e todas as personagens são quase estereótipos que costumamos ver em filmes e séries sem, no entanto, caírem no lado caricatural. A narrativa está muito bem conseguida, anda para trás e para a frente no tempo sem nunca confundir o leitor, uma proeza de Dicker que, num livro tão longo, é capaz de manter a coerência e a linha de pensamento.

A minha única crítica tem a ver com a extensão do livro. É evidente que um enredo tão complexo e com tantos anos de intervalo tem de ser comprido, no entanto, creio que mais para o final da trama, o autor poderia ter rematado a história um pouco mais cedo e ter dado outro impacto ao desenlace. Foi demasiado quando pela segunda vez parecia ter-se encontrado o culpado que afinal não o era. Compreendo que o propósito seja criar mais suspense ao leitor, mas, após 500 páginas, já não tem tanta graça.

Gostei do livro, acho que é uma boa leitura para quem aprecia thrillers e policias (como eu). O final não é óbvio, não são deixadas pontas soltas, as personagens estão devidamente desenvolvidas, e a escrita de Dicker é clara e agradável, que é o que se pretende neste tipo de literatura. Recomendo.