Literatura Europeia

A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia

Há já alguns anos que tinha este livro em casa e quando soube que estava incluido no Plano Nacional de Leitura para o 5º ano não hesitei em levá-lo para o Clube de Leitura lá da escola.
A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia (1909) foi escrito pela primeira mulher vencedora do Prémio Nobel da Literatura, a sueca Selma Lagerlof. E é fácil perceber porquê. Neste livro, a autora utiliza a premissa de um jovem mal comportado, que mais tarde é transformado em gnomo e recorre grande parte do território sueco, para louvar o seu país. Pelo meio da que parece ser uma história juvenil, Selma Lagerlof conta lendas e mitos de diversas regiões, relata como era o desenvolvimento da Suécia a todos os níveis: económico, social, educacional, e até discute algumas das diferenças dos diversos povos que, no início do século XX, habitavam uma nação independente e monárquica, onde, segundo a autora, já cerca de 90% da população era literata.
Ao lermos a obra, não podemos deixar de comparar Portugal ao país escandinavo e a verdade é que o que nos distinguia na altura é o que nos distingue agora.
Gostei muito do livro, mas creio que gostei porque já fui à Suécia. Reconheci alguns dos locais mencionados (nomeadamente Estocolmo e o Skansen), lembrei-me de algumas paisagens que vi, e reconheci a mentalidade do povo sueco nas personagens e na escrita direta e fluida da autora. Acima de tudo, achei a ideia da história muito bem articulada com o verdadeiro objetivo da narrativa, o que, para a altura, deve ter sido uma agradável inovação literária. Porém, para quem não conhece a Suécia e não tem ideia de como age e vive o seu povo, esta identificação é mais difícil de sentir. Creio que foi isso que aconteceu aos meus alunos. No final, achei que o livro fora um pouco longo (cerca de 300 páginas) e que as suas descrições tinham sido um fardo quando o que eles mais queriam era ler sobre as aventuras de Nils. Na minha opinião, a obra devia ter como público-alvo alunos mais velhos, com uma certa maturidade e conhecimento da Europa e da Escandinávia.
Sem ligar a este pormenor, acho que o livro se adequa a qualquer adolescente/adulto. É um clássico da literatura europeia que nos conta, por meio de situações hilariantes e quiçá profundas, o que era a Suécia e o ser-se sueco no final/início do século passado. Recomendo. 
Literatura Sul-Americana

O amor nos tempos de cólera

Eu pensava que ia ler uma história de amor. O primeiro capítulo assim o indicou e confesso que me despertou uma curiosidade imensa. No entanto, à medida que as páginas se iam virando, apercebi-me de que a história de amor não era o que eu esperava. Era uma história de amor diferente.
O amor nos tempos de cólera narra a história de duas personagens, Fermina Daza e Florentino Ariza. Ambos vivem numa pequena terra portuária situada algures nas Caraíbas, sendo que ela provem de uma família poderosa e ele é o filho bastardo de um homem importante da cidade. Enquanto crianças,  prometem casar e amar-se para sempre, contudo, depois de se tornarem adultos, Fermina declina a ideia e acaba por desposar um médico de excelente trato e reputação. Só que Florentino não esquece a promessa e não desiste.
Gabriel Garcia Márquez (Nobel da Literatura, 1982), dá-nos assim a sua visão do amor e da humanidade. O romance, já com algumas adaptações cinematográficas, em especial a de 2007 protagonizada por Javier Bárdem, explica-nos a sua ideia de amor: difícil, incompreensível, mutável, ilimitada. As personagens vivem ao sabor do vento, raramente se encontram, amam outras pessoas, mas nunca deixam de pensar uma na outra, para o bem e para o mal. Márquez evidencia deste modo que o poder da vida e da razão é muito forte, mas que o do amor e da vontade consegue ser maior. O ser humano não é capaz de mudar tudo, mas pode, e deve, ter uma palavra a dizer sobre o seu destino. 
Outra curiosidade de O amor nos tempos de cólera é a percepção histórica do círculo onde as personagens se movem. O romance tem lugar no século XIX, altura em que as Caraíbas ainda faziam parte da Corte Espanhola, e Garcia Márquez relata-nos como era a vida na colónia para pobres e ricos. Essa dicotomia está patente em toda a obra, sendo interessante verificar que se parece bastante à que hoje ainda existe na maior parte dos países da América Latina.  
Apesar de O amor nos tempos de cólera não ser o romance de uma história de amor tradicional, é o romance de uma história de amor diferente, bela, intemporal, e, acima de tudo, possível, contada através de uma escrita fluída e nada aborrecida. Recomendo. 
Literatura Britânica

O Deus das Moscas

Uma das melhores leituras do ano. Só assim é que consigo descrever este maravilhoso livro que tão bem retrata a natureza humana. 
O Deus das Moscas, do escritor inglês premiado com um Nobel da literatura em 1980, William Golding, narra a história de um grupo de rapazes que fica perdido numa ilha, sem adultos, após um acidente que lhes matou os pais. Estes meninos, de várias idades, vão tentar criar uma sociedade de forma a sobreviverem aos perigos de um território novo e satisfazerem as suas necessidades básicas. O problema é que nem todos concordam com as regras estabelecidas e o grupo acaba por se dividir, impedindo-os de viverem em paz. 
Esta obra fala essencialmente sobre a natureza humana. Há rapazes com personalidades mais fortes do que outros que acabam por se autodenominarem líderes e subjugarem os outros por estes serem diferentes ou simplesmente mais novos e fracos. A voz da razão nem sempre está presente e, quando está, é ouvida com preconceito e arrogância.
O que creio que William Golding quis mostrar com este livro, e com um exemplo tão básico como rapazes perdidos numa ilha, foi que a natureza humana não é igual em todos os homens. Uns são mais pacíficos, outros mais violentos, uns são mais sensatos, outros mais aventureiros. O problema é que quando não se sabe conversar e a anarquia se instala, o grupo torna-se violento e selvagem per se, perde a noção da sensatez e acaba por praticar ações más que provavelmente nunca praticaria num ambiente civilizado.
Aconselho vivamente a leitura de O Deus das Moscas, um clássico de 1954 que ainda hoje dá que pensar.