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A Toupeira

O final do verão pediu um romance policial para ler na praia, pelo que escolhi um dos livros que comprei este ano na Feira do Livro de Lisboa e que andava a namorar há algum tempo: “A Toupeira” (1974), de John le Carré. Foi o meu segundo livro do autor após ter lido “O espião que veio do frio” (1963), há uns anos.

O enredo é simples: há uma toupeira nos Serviços Secretos Ingleses que anda a passar segredos de Estado à Rússia, o maior inimigo do Ocidente aquando da Guerra Fria, momento em que decorre a acção. O presidente dos Serviços Secretos, o Control, sabe que assim é, mas não consegue descobrir de quem se trata. Após a sua morte, a nova direcção manda chamar George Smiley, um antigo ex-agente a “desfrutar” da reforma.

Escrito assim parece um livro simples. No entanto, não é. A escrita de le Carré é intricada e a sua maneira de narrar nem sempre é fácil de seguir, pois a estrutura que utiliza não é linear, exigindo, por vezes, um grande esforço de concentração por parte do leitor. De igual modo, e numa boa história de espiões, vão surgindo várias personagens ao longo da trama que complicam a intriga e nos fazem ponderar tudo o que já lemos de modo a tentarmos descobrir a verdadeira toupeira.

Gostei muito deste livro. Mais uma vez, le Carré conseguiu transformar uma narrativa aparentemente pouco original num grande livro de espiões, cheio de História, e sem clichés, sem lugares-comuns, sem evidências. É um livro do seu tempo que ultrapassa os limites da sua temporalidade e que pode ser perfeitamente apreciado por um leitor do século XXI. Tal como foi por mim. Recomendo.

PS: Vi a adaptação cinematográfica de 2011, de Tomas Alfredson, e não gostei. Achei o filme trapalhão, pouco explicativo e atabalhoado. Creio que uma pessoa que não tenha lido o livro não entende a história e uma que leu vê que esta foi completamente trucidada. Não recomendo.

Literatura Britânica

O espião que saiu do frio

Estava um pouco reticente ao pegar neste livro porque, como escrevi aqui no blogue, não gostei do único livro que lera de John le Carré, O Espião Perfeito. Contudo, decidi dar uma segunda oportunidade ao escritor e arriscar esta obra que já estava há algum tempo na minha estante. Ainda bem que o fiz.
O espião que saiu do frio é um romance sobre a espionagem no tempo da Guerra Fria. A personagem principal, Alec Leamas, é um agente de campo britânico responsável pela espionagem da Alemanha Ocidental contratado para eliminar Mundt, líder dos Serviços Secretos da Alemanha de Leste e suspeito de ser um agente duplo britânico. 
A narrativa está muito bem desenvolvida, o leitor acompanha Leamas ao longo da história sabendo apenas o que ele sabe e vendo apenas o que ele vê, pelo que as reviravoltas são surpreendentes tanto para um como para outro. Le Carré soube criar uma atmosfera de desconfiança e suspeição que gera momentos de pura adrenalina em que por vezes senti o meu coração a bater um pouco mais depressa com a ansiedade de saber o que se passaria a seguir. O final é inesperado e absolutamente brilhante, brilhante, perfeito para uma trama frenética e bastante verosímil em que a espionagem e a contra-espionagem são rainhas. 
Como Graham Greene uma vez disse sobre O espião que saiu do frio: “O melhor romance de espionagem que alguma vez li.”
Literatura Britânica

Um Espião Perfeito

Dois meses! Demorei dois meses a ler este livro! A que devia ter sido a minha última leitura de 2014 acabou por ser a primeira de 2015.
O Espião Perfeito (1986) é considerada a obra prima de John Le Carré, escritor britânico de romances policiais e ex-espião do MI5 e MI6, cujos livros são muitas vezes adaptados ao cinema. Este, em particular, conta a história de vida de Magnus Pym, um oficial britânico e agente duplo que trabalha ao mesmo tempo para a Inglaterra e Checoslováquia, no tempo da guerra fria. A história é contada de forma não linear, alternando entre o presente (Pym fugitivo por se ter descoberto que é traidor), e o passado, o crescimento com um pai corrupto e vigarista que nutre pelo filho um amor incondicional e para o qual tem grandes expectativas. 
A escrita do autor não é fácil, razão pela qual demorei mais tempo a ler o livro do que gostaria (e a verdade é que a tradução portuguesa que li também não ajudou). Penso que, apesar de brilhante, a história não prende o leitor e torna-se, por vezes, confusa. Ainda assim, nunca me passou pela cabeça abandonar a leitura. Sempre reconheci o valor da narrativa e quis saber o final, o estilo é que não me conquistou.
Seja como for, aconselho O Espião Perfeito, de John Le Carré, por ser diferente, por ser um clássico policial, e pelo final (que vale o esforço).