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A Fera na Selva

(spoilers)

Para mim, Henry James é um autor difícil. A sua escrita floreada e descritiva não me é de fácil acesso, seja em inglês ou português. Muitas vezes tenho de recuar e reler frases por não tê-las compreendido ou porque o meu pensamento se desviou para outro lado. No entanto, nunca desisti dos seus livros porque no fundo sei que o final e a conclusão valem muito o meu esforço. Como neste incrível “A Fera na Selva”.

Escrita no final da sua vida, em 1903, esta novela curta, apresenta-nos duas personagens: John Marcher e May Bartram. A primeira vez que o casal se encontrou foi dez anos antes, sendo John incapaz de se lembrar da ocasião. Porém, May relembra-lha ao mencionar algo muito profundo e pessoal que John lhe disse. Ficando espantando por se ter aberto tanto com a rapariga, John acaba por fazer dela sua confidente e amiga.

Ao longo da história percebemos que May espera mais do que John lhe pode dar. John tem a sensação de que algo vai acontecer na sua vida, um acontecimento marcante como uma fera a saltar-lhe para cima no meio da selva. Ele só não sabe o quê. May parece saber, mas nunca lho diz. Os anos passam e May adoece gravemente. Quando John a visita, ela diz-lhe que a fera na sua vida já apareceu, mas que ele não reparou. Desesperada, recusa os seus encontros. May acaba por morrer e John fica muito triste por ter perdido a única pessoa que verdadeiramente o ouvia, compreendia e consolava. Até que, no cemitério, vê um homem velho a chorar junto à campa da mulher desaparecida e acaba por perceber tudo. O grande acontecimento da sua vida foi ter reencontrado May. Poderia ter casado e vivido uma vida feliz com ela, mas, em vez disso, preferiu esperar para ver se algo de diferente e excitante lhe aconteceria.

Neste texto, Henry James não nos dá apenas uma narrativa literária, mas também uma filosófica. O autor condena a atitude de John por não ter sabido aproveitar a vida como ela merecia, ao “menosprezar” May enquanto esperava por algo maior que nunca chegou a suceder. John tinha tudo para ser feliz: uma mulher amiga e companheira, que gostava dele como ele era e o amparava. Em vez de a ter aceite e procurado a felicidade conjugal, John preferiu ficar à espera de algo que considerava maior, mas que nunca apareceu. Ou seja, não viveu a realidade nem o sonho, tendo desperdiçado a vida numa eterna esperança que nunca se concretizou.

Gostei muito deste livro. Em poucas páginas, Henry James faz-nos ver como a vida é preciosa, com a sua trivialidade, normalidade, o seu rumo, e que, para vivê-la, há que ler os sinais reais que temos diante de nós, e não os hipotéticos, pois poderá ser tarde demais, como foi para John. Eu sabia que este livro valia a pena. Boas leituras!

Literatura Norte-Americana

Washington Square e A Herdeira

O fim-de-semana passado vi o filme “A Herdeira” (1947), de William Wyler (Ben-Hur; The Children’s Hour) com os maravilhosos Olivia de Havilland e Montgomery Clift. Não sabia nada sobre a história, que é como gosto de escolher os filmes que vejo e os livros que leio, pelo que fiquei muito surpreendida ao ver que se tratava de uma adaptação da obra “Washington Square”(1888), de Henry James.

Eu já tinha lido este livro há alguns anos, mas lembrava-me pouco da história, pelo que após o visionamento do filme decidi lê-lo outra vez. “Washington Square” narra o romance entre Catherine Sloper, uma rapariga pouco atraente, desajustada e rica que vive com o pai, Dr. Sloper, médico cirurgião bem sucedido, e Morris Townsend, um jovem cavalheiro bem parecido, pobre e sem recursos. Catherine não acredita na sua sorte quando se vê alvo do interesse de Morris, e o seu pai desconfia logo do rapaz e diz à filha que ele só a quer por causa do dinheiro. A partir daqui, estas três personagens, juntamente com Mrs. Penniman, tia de Catherine e grande impulsionadora do namoro, vão confrontar-se ao longo do tempo para se defenderem umas das outras.

Enquanto no livro as razões do interesse de Morris são bastante explícitas, no filme, que é muito fiel ao texto, o espectador é deixado na penumbra. Todas as personagens dão o seu ponto de vista e são guiadas pelos seus interesses e fraquezas, e, apesar de parecer não existir personagem principal, é sem dúvida Catherine que conhece a maior transformação e que dita o desenrolar da história e o desenlace da mesma.

Gostei muito do livro e do filme. Como referi, são os dois muito parecidos e, de certa forma, complementares. Henry James escreve maravilhosamente enquanto aborda um tema diferente e mais original do que é costume, e Olivia de Havilland e Montgomery Clift são divinos no ecrã (ela inclusive ganhou o seu segundo Óscar de melhor actriz com esta longa-metragem). Recomendo.