Literatura Europeia · Literatura Francesa

A Educação Sentimental

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Comprei A Educação Sentimental (1869), de Gustave Flaubert, há muitos anos e o meu exemplar estava esquecido na estante, sendo de súbito ressuscitado pelo clube de leitura de uma Booktuber de quem gosto bastante. Devo dizer que quando acabei a leitura conclui que esta obra não fica a dever nada a Madame Bovary (1856).

A Educação Sentimental conta a história de Frédéric Moreau, um jovem francês estudante de Direito e cheio de sonhos que se apaixona perdidamente pela Sra. Arnoux, uma mulher mais velha, casada e com filhos. Durante vários anos, Frédéric faz de tudo para se aproximar da sua amada, pondo o seu amor à frente de tudo e de todos. Enquanto a trama decorre, dá-se a crise económica, política e social de 1848 que acaba por culminar na tão afamada República Francesa.

Este livro é muito importante porque foi com ele que Flaubert consolidou de vez o Realismo na Literatura, juntando ficção e realidade numa história que critica abertamente o Romantismo. Creio que o final grandioso dá sentido ao texto e ata as peças soltas, ensinando-nos que, por vezes, os sonhos podem ser destrutivos e que a falta de objetivos de vida ou ambição pessoal pode levar a que desejemos algo que não é para nós.

Com A Educação Sentimental, Flaubert despoletou a minha curiosidade em relação à sua obra. Já comprei  Salambô (1862), e não devo tardar a lê-lo. Nesta ocasião precisei de uma ajuda externa para conhecer este grande livro. Foi a minha primeira participação num clube de leitura e, seguramente, não será a última.

Literatura Europeia

O Castelo

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Depois de ler A Metamorfose (1915) e O Artista da Fome (1924), de Franz Kafka, resolvi comprar um dos seus livros mais famosos, O Castelo (1926). Hesitei porque Kafka nunca o terminou, contudo, e para minha surpresa, não me importei muito que a história não tivesse um final.

Nesta obra, Kafka relata o estranho episódio em que K, um agrimensor de fora da cidade, é contratado pelo Castelo para trabalhar na identificação dos terrenos locais. Contudo, os habitantes não ficam contentes com a sua chegada, pelo que o menosprezam e dificilmente lhe dão guarida. Quando K tenta ir ao Castelo para esclarecer a sua situação, nunca lá consegue entrar porque pelo caminho vai encontrando obstáculos bizarros.

Durante a leitura, achei esta história bastante parecida com a de O Processo (1925). Ambas as personagens têm o menos nome, ambas se vêem envolvidas em situações similares, e, no geral, o ambiente do livro parece o mesmo: claustrofóbico, caótico, desordenado. Creio que Kafka terá querido expressar nos seus livros o tempo confuso em que vivia. No período entre guerras, as tensões sociais e as incertezas (principalmente para os judeus) eram enormes, e o autor terá tentado demonstrar a falta de respostas e certezas perante o silêncio e a ambiguidade que sentia.

Nunca saberemos ao certo o que Kafka quis realmente dizer, a minha é uma de muitas interpretações. No entanto, é ao lê-lo que fazemos com que a sua memória permaneça viva, uma memória que põe o Estado burocrático e, por vezes, esmagador no centro da trama como um vilão. Creio que muitas pessoas sabem perfeitamente o que isso é.

Literatura Europeia

A Metamorfose

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Kafka sempre foi um escritor que me inspirou uma certa curiosidade. Enquanto andava na faculdade, li O Processo (1925) e gostei muito, apesar de achar que se tratava de um livro estranho. Há umas semanas li A Metamorfose (1915) e adorei ao ponto de querer ler todos os livros famosos do escritor (algumas deles já com opiniões aqui no blogue).

Gregor Samsa é um jovem caixeiro-viajante que tem de trabalhar num emprego que não gosta para ajudar financeiramente a família. Gregor mora com os pais e a irmã mais nova, mas passa a maior parte do tempo na estrada. Certo dia, quando acorda para ir apanhar o comboio, percebe que está transformado num insecto. O que se segue é um enorme rebuliço e a estupefação geral. Ninguém sabe como reagir, nem o que fazer. Com o passar do tempo, a família encontra outras formas de subsistência e Gregor fica confinado ao seu quarto sem que ninguém queira saber muito dele.

Apesar de eu achar que este pequeno texto de Kafka tem uma mensagem clara, creio que, por vezes, pode ser de difícil interpretação. Para mim, Gregor era visto pela família como uma bóia de salvação em termos económicos, pois viviam às suas custas, e, ao mesmo tempo, como alguém que lhes dizia o que fazer (sem má intenção) e os tinha, por isso, “presos”. Ele teve de se tornar dependente para que os familiares recuperassem a sua independência.

Gostei muito desta leitura. Há quem diga que as razões por detrás da sua escrita são religiosas (Kafka era judeu) ou uma alusão à autoridade que o pai exercia sobre ele. Seja o que for, A Metamorfose é um clássico da literatura que merece ser lido. Recomendo vivamente.

Literatura Europeia

Um Artista da Fome

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Kafka está rapidamente a tornar-se um dos escritores mais interessantes que já conheci. Li O Processo (1925) há alguns anos, quando andava na universidade, e lembro-me de ter gostado, apesar de o ter achado um livro estranho. Acabei por ler A Metamorfose (1915) há uns meses, naquela que se tornou uma das minhas obras preferidas que acabou por despoletar esta jornada para ler os outros trabalhos de referência do autor. Seguiram-se estes textos de que vos vou falar.

Um Artista da Fome e outros textos (1924) é uma coletânea publicada pela chancela 11 17 da editora Bertrand que reune as melhores histórias curtas de Franz Kafka, com algumas delas ainda publicadas em tempo de vida do escritor. A que mais se destaca é, sem dúvida, a que lhe dá nome: Um Artista da Fome. Neste conto, Kafka conta a história de um “artista da fome” que se recusa a comer, ficando por isso extremamente magro e sendo uma atração num circo de horrores. Quando, no final, os fiscais que inspeccionam as jaulas o encontram dentro de uma das melhores, perguntam-lhe se ele continua a jejuar, ao que o artista responde que sim, que não pode fazer outra coisa, que está condenado a isso, porque nunca encontrou nada de que gostasse de comer.

Todos os textos desta coletânea são mais ou menos assim. Todos têm uma conclusão ou um contexto filosófico, aparentemente confuso ou estranho, cuja intenção creio que é fazer-nos pensar na vida e no nosso papel individual, e coletivo, no mundo. Não nos esqueçamos de que Kafka escreveu sobretudo no período entre guerras, uma época fortemente marcada pela Grande Depressão e por tensões sociais que acabaram por originar regimes autoritários e totalitários.

Gostei muito deste livrinho. E, apesar de não ser uma obra obrigatória, creio que deve ser lida como parte de um bom conhecimento sobre Kafka. A obra que se segue é O Castelo (1926).

Literatura Europeia

Sobre a leitura

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Na minha estante tenho toda a série de Em Busca do Tempo Perdido (1913-27) para ler, mas Proust intimida um bocadinho, confesso. Enquanto não mergulho de cabeça na sua monumental obra de sete volumes, leio o que Proust tem a dizer sobre a leitura. E não é pouco.

Sobre a leitura (1987) é um ensaio escrito no início do séc. XX para servir de prefácio para as obras de John Rushkin, quem Proust muito admirava. Nos anos oitenta foi publicado pela primeira vez como um ensaio sobre o acto de ler.

Neste pequeno texto, Proust diz que a leitura é uma atividade muito prazeirosa que, quando interrompida, se torna um tormento. Diz também que “(…) a leitura, ao contrário da conversa, consiste para cada um de nós em receber comunicação de um outro pensamento (…)”; “(…) é ainda às leituras de infância que eu irei perguntar em que é que consistem (as virtudes) (…)”; e que a leitura é uma forma de introdução na vida espiritual, e a maneira de um “espírito preguiçoso” sair do seu desalento.

Interessante, não é? E há mais para ler sobre a opinião de Marcel Proust, mas não o direi para não estragar o livro, um “miminho” para todos os verdadeiros leitores que se lê em poucas horas.

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O Leopardo (livro e filme)

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O Leopardo (1958), de Tomasi di Lampedusa, foi uma das minhas leituras preferidas de 2019. Gostei tanto do livro que mal podia esperar para ver a adaptação cinematográfica que Luchino Visconti faria alguns anos mais tarde. Devo dizer que os dois são uma experiência cultural brilhante.

O Leopardo conta a história do fim da aristocracia siciliana através dos olhos de Don Fabrizio, principe de Salina. No final do séc. XIX, a península Itálica era composta por diversos estados governados por várias potências, como a Áustria, os Bourbons, a casa de Sabóia, e o Papa. Estes mantinham um poder quase absolutista e sem apoio popular, pelo que começaram a propagar-se ideias revolucionárias e a criar-se vários movimentos com a intenção de formar um estado uno. Algumas fações queriam uma república, outras desejavam uma monarquia. Após várias guerras que duraram décadas, em 1861, Vitor Emanuel da casa Sabóia foi proclamado rei de Itália com o reconhecimento de deputados de todos os Estados envolvidos.

É sobre esta última fase do Risorgimento de que fala o livro. Lampedusa, ele próprio um príncipe siciliano sem reino, conta a história de um antepassado seu e de como este terá vivido os últimos anos de uma época que terminaria com a aristocracia estatutária. Apesar de ser o fim, Don Fabrizio comporta-se sempre com uma dignidade extrema, aceitando os novos tempos e tentando minimizar as consequências negativas tanto para a sua família, como para as pessoas que viviam nos seus territórios. E embora a população quisesse uma Itália unida e democrática, com representação popular no Senado, nunca deixaram de admirar Don Fabrizio e o papel importante que este teve no desenvolvimento das suas terras. O papel da Igreja também é simbolicamente descrito, pois Lampedusa traça um cenário em que o Clero preferia que estas pequenas aristocracias vingassem, mas que rapidamente “se vende” à burguesia para não perder o seu poder local.

O Leopardo é um livro excepcional. Não só retrata muito bem o período final das guerras e o quase início da unificação de Itália, como também transmite brilhantemente o sentimento triste, melancólico e resignado de uma aristocracia que perdeu o seu lugar no mundo.

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Em 1963, ou seja, cinco anos após a publicação do livro, o realizador italiano Luchino Visconti apresentaria a sua versão com o actor americano Burt Lancaster no papel de Don Fabrizio. Esta superprodução italo-francesa é uma das melhores adaptações cinematográficas que eu já vi. Visconti consegue transmitir o espírito do livro numa narrativa calma, mas ao mesmo tempo sufocante. Os cenários e o guarda-roupa são impressionantes e o casting não poderia ter sido mais bem escolhido. Alain Delon teve aqui a sua grande estreia, e Claudia Cardinale reforçou o seu papel de estrela e de diva. Não foi por acaso que o filme ganhou a Palma de Ouro, em Cannes.

Nota: O Leopardo faz-me lembrar o E Tudo o Vento Levou. Ambos os livros retratam um período histórico real, conturbado e de mudança por meio de personagens fictícias, e os filmes estão extremamente bem feitos sendo hoje considerados clássicos do cinema. Recomendo vivamente os dois, tanto na forma escrita como na forma visual. Obras-primas.

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Os livros que li em 2019

2019 foi um ano muito atípico para mim, tanto em termos de leitura como em termos pessoais. Engravidei em janeiro e, devido aos fortes enjoos por que passei, fui forçada a parar a obra que estava a ler nesse momento, A Cabana do Pai Tomás (1852), de Harriet Beecher Stowe, e a estar três meses sem ler um único livro.

A leitura fez-me muita falta e, quando finalmente comecei a recuperar o meu “eu” habitual, não soube por onde recomeçar. Não fui capaz de retomar A Cabana do Pai Tomás porque me nauseava, por isso, decidi recomeçar por livros mais leves e de não ficção. Após este reinício, consegui então voltar às grandes obras de literatura de que tanto gosto.

No total li 32 livros, o que não foi mau tendo em conta os três meses de interregno. 6 deles alcançaram a categoria dos Favoritos e 3 a das Menções Honrosas. Falarei destes nove livros num futuro post. A maioria das obras lidas foram clássicos. Gostei muito de descobrir novos autores como Daphne du Maurier, Emile Zola, Graham Greene, John Williams, Truman Capote, Arthur Conan Doyle, as irmãs Brontë e o português Júlio Dinis. Continuarei certamente a ler obras suas.

Eis a lista completa dos livros que li (por ordem de leitura):

  • Rebecca (Daphne du Maurier)
  • The diary of a bookseller (Shaun Bythell)
  • O Jogador (Fiodor Dostoievski)
  • O Livro de Ouro das Raparigas Prendadas (Sarah Vine e Rosemary Davidson)
  • Lessons from Madame Chic (Jennifer L. Scott)
  • Polish Your Poise with Madame Chic (Jennifer L. Scott)
  • At Home with Madame Chic (Jennifer L. Scott)
  • Never Let Me Go (Kazuo Ishiguro)
  • Anne of Avonlea (L. M. Montgomery)
  • Pais à maneira dinamarquesa (Jessica Alexander e Iben Sandalh)
  • Amor e Amizade (Jane Austen)
  • A Morte de Lorde Edgware (Agatha Christie)
  • Matilda (Roald Dahl)
  • O Leopardo (G. Tomasi di Lampedusa)
  • O Paraíso das Damas (Emile Zola)
  • As mentiras da cosmética (Beatrice Mautino)
  • Parisian Chic (Inès de la Fressange)
  • Comment je m’habille aujourd’hui? (Inès de la Fressange)
  • A Morgadinha dos Canaviais (Júlio Dinis)
  • O Hobbit (J. R. R. Tolkien)
  • Os Primeiros Casos de Poirot (Agatha Christie)
  • Crime e Castigo (Fiodor Dostoievski)
  • Circe (Madeline Miller)
  • O Terceiro Homem (Graham Greene)
  • O Monte dos Vendavais (Emily Brontë)
  • Agnes Grey (Anne Brontë)
  • A Inquilina de Wildfell Hall (Anne Brontë)
  • O Professor (Charlotte Brontë)
  • Shirley (Charlotte Brontë)
  • Departamento de Especulações (Jenny Offill)
  • Stoner (John Williams)
  • O Signo dos Quatro (Sir Arthur Conan Doyle)
  • Breakfast at Tiffany’s (Truman Capote)

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Literatura Britânica · Literatura Policial

O Signo dos Quatro

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Sendo uma fã incondicional de Agatha Christie, é quase inconcebível ainda não ter lido nada daquele que é considerado o pai da literatura policial, Sir Arthur Conan Doyle. Há já algum tempo que tinha cá por casa o livro O Signo dos Quatro (1890), pelo que decidi começar por ele.

Nesta história, das mais de cinquenta que Conan Doyle criou, deparamo-nos com um Sherlock Holmes entediado por nada digno do seu gabarito aparecer para o fazer pensar. Eis senão quando surge à sua porta uma jovem rapariga que lhe pede auxílio para descobrir algo de bizarro que lhe acontece todos os anos. Em todos os dias do seu aniversário, Mary recebe de presente um pequeno embrulho anónimo com uma caixa pequena contendo uma valiosa pérola lá dentro. Ela não sabe quem lhas envia, nem o motivo por que lhe são enviadas. A única pista que dá a Holmes é a de que o seu pai fora militar na Índia e morrera há alguns anos em circunstâncias misteriosas. A partir daqui, o detetive ganha um novo “interesse pela vida” e dispõe-se a ajudá-la com a colaboração do Dr. Watson.

Esta história de Sherlock Holmes era tudo o que eu esperava que fosse. Cheia de suspense, intriga, acção e com um curioso background baseado no início do declínio do império britânico. A narrativa de Conan Doyle é tão fluida que quase parece moderna, algo muito atípico para o final do séc. XIX. Temos a sensação de estar a ler o guião de um filme de acção, o que provavelmente justifica o facto de tantos dos seus livros terem sido adaptados ao cinema e à televisão, com mais ou menos sucesso.

Não é por acaso as histórias de Sherlock Holmes não só se terem tornado clássicos da literatura policial, mas também da literatura mundial. Holmes e Watson são uma dupla dinâmica e incomum, e o mundo e os enredos nos quais se envolvem são obscuros e interessantes. Creio que ficou claro que O Signo dos Quatro foi, para mim, o primeiro de muitos. Venham os restantes.

Literatura Norte-Americana

Hollywood (e Barfly)

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Sempre senti alguma curiosidade em ler Bukowski, especialmente por não saber nada sobre ele, apenas que era considerado um autor à margem. Ao entrar numa livraria, vi as suas obras publicadas pela Alfaguara em lindas edições e decidi comprar a que me pareceu mais apelativa, Hollywood (1989). Apesar de não saber o que esperar, não me decepcionei.

Hollywood é uma história autobiográfica sobre como foi para Charles Bukowski escrever o guião para um filme. O autor é abordado pelo realizador de cinema Barbet Schroeder para escrever uma história baseada na sua vida, sendo arremessado para Hollywood e vivendo uma pseudo vida de estrela ao lado de actores, produtores, realizadores, etc. As curiosidades que conta e as críticas que faz àquele mundo e aos actores que conheceu são simultaneamente divertidas e bizarras.

Creio que o início do livro pode ser um pouco agressivo para quem não conhece o estilo do autor. Aparecem asneiras, piadas ordinárias explícitas e muito álcool. Depois, com o decorrer da acção, creio que estes recursos acabam por suavizar, contudo, a escrita de Bukowski é conhecida precisamente por ser direta, bruta e indesculpável. Tal como o próprio. Bukowski defendia que a literatura devia ser quase bombástica, cada frase um murro no estômago numa tentativa de imitar as amarguras da vida da classe trabalhadora. Os escritores descritivos que “perdem tempo a apresentar a cena”, são, para ele, “muito aborrecidos”.

E eis que surge Barfly (1987). Com Mickey Rourke e Faye Dunaway nos principais papéis, Barfly mostra Chinaski (Bukowski) tal como ele é: bêbedo, preguiçoso, sujo, idealista, rude, mas com um bom coração. O que o homem mais quer é beber álcool e escrever em paz. A estreia teve críticas boas e más, embora Dunaway tivesse sido nomeada para um Globe de Ouro no papel que ditou o seu regresso ao grande ecrã. Hoje em dia creio que o filme é considerado de culto, principalmente para os fãs do escritor. Uma coisa é certa, a experiência de leitura de Hollywood não fica completa sem ele.

Tal como referi no início, Hollywood foi o meu primeiro contacto com Charles Bukowski, mas certamente não será o último. As suas obras relatam um “realismo sujo” (dirty realism) que é, ao mesmo tempo, absurdo e apetecível.

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Literatura Norte-Americana

Stoner

(Este artigo contém spoilers)

Em 2011, quando Anna Gavalda decidiu traduzir Stoner (1965) para francês por achar que se tratava de um belo romance, estava a fazer mais do que permitir a quem falava a sua língua a oportunidade de o ler, estava a reavivá-lo para o mundo.

Stoner narra a história de William Stoner, um rapaz americano nascido na última década do séc. XIX, para quem a vida não reservara nada de significativo. William ajudava os pais na quinta que estes possuíam no Missouri e, quando o pai o incentiva a tirar uma licenciatura na recentemente aberta Escola Agrária, é com relutância que ele aceita. Já na universidade, William é obrigado a frequentar a cadeira de Literatura Inglesa, algo que lhe muda radicalmente a vida, pois toma a decisão de mudar de curso e de não regressar à quinta dos pais.

Esta obra de John Williams parece que tem tudo e, ao mesmo tempo, que não tem nada. A vida de Stoner é relativamente “normal” para os padrões da época. Acaba o curso na universidade, permanece nela como professor, casa com Edith, uma rapariga que mal conhece e que não lhe proporciona uma vida feliz, tem uma filha que a mãe monopoliza e que acaba por sofrer as consequências de um matrimónio infeliz, arranja uma amante que acaba por “fugir” da sua vida devido à vergonha de uma relação extraconjugal, e acaba os seus dias a lutar pelos seus princípios na universidade onde lecciona.

William é um personagem bastante passivo que parece não lutar por nada, a não ser pela literatura que ensina. E é este o epicentro da obra. Ao longo da história, os livros são a grande companhia de William, e é sempre neles que ele se refugia para obter o consolo que a sua triste existência lhe parece negar.

Numa narrativa magnificamente bem escrita, John Williams, ele próprio um professor universitário de Literatura Inglesa, escreve uma ode ao poder dos livros, dizendo nas entrelinhas que apesar de tudo o que possa ocorrer nas nossas vidas temos sempre o consolo da literatura para resgatarmos a nossa humanidade. E apesar de Stoner não ser um autobiografia creio que é altamente inspirada nas experiências de Williams, ou não tivesse ele querido partilhar o seu nome com a personagem principal da sua obra.

Aquando da sua republicação, passados 50 anos de esquecimento, tanto Stoner como os restantes livro de Williams ganharam um novo fôlego, tendo sido o presente romance considerado o melhor do ano de 2013 para os leitores da livraria britânica Waterstones. Não estranho. E, claro está, recomendo-o vivamente.