Um dos últimos livros que li o ano passado foi “O Último Magnate” (1941), de Francis Scott Fitzgerald. Pelo prefácio desta edição, fiquei a saber que se trata de um livro inacabado e publicado postumamente. Apesar de me sentir um pouco desencorajada, a obra termina com as notas do autor que nos revelam como teria decorrido o resto da história. E que história teria sido!
A acção decorre nos anos 30 do séc. XX, no seio da indústria cinematográfica americana. Monroe Stahr é um importante executivo de Hollywood, com o toque de Midas para o negócio e para os êxitos de bilheteira. Cecelia, a filha de um produtor influente, conhece-o a bordo de um avião e apaixona-se de imediato por ele. No entanto, Stahr não consegue esquecer a sua mulher falecida, e, por um acaso do destino, ao ver no set de filmagens uma figurante bastante parecida com ela, não descansa até a encontrar e conhecer. No início, Kathleen rejeita os seus avanços, todavia, com o passar do tempo, os dois estabelecem uma bonita relação. O que desconhecem é que tanto um como outro escondem um segredo que inevitavelmente mudará tudo.
Gostei muito de “O Último Magnate”. Tal como no livro “O Grande Gatsby”(1925), a escrita de Fitzgerald é fluída, moderna e concisa, porém cheia de sentimentalismo (no bom sentido da palavra). A vida de Stahr parece perfeita, e ele tem tudo para singrar, mas o seu segredo pessoal, os dramas da profissão e um certo descontentamento que se vivia no período pós Crash da bolsa e pré II Guerra Mundial fazem com que o sonho americano seja mais difícil de concretizar. Acredita-se que a personagem foi inspirada em Irving Thalberg, um jovem e importante executivo da MGM (casado com a atriz Norma Shearer) que nos deu filmes como “Ben-Hur” ou “Revolta na Bounty”, e com quem o autor privou várias vezes.
Creio que se Fitzgerald tivesse terminado “O Último Magnate” ter-nos-ia deixado uma obra tão significativa como “O Grande Gatsby”. Foi uma pena, realmente. Contudo, fica a intenção e as notas que nos dizem como teria gostado de a escrever. Uma história bonita e dramática, ideal para quem gosta do começo hegemónico dos EUA e de Hollywood. Recomendo.
Robinson Crusoe (1719), de Daniel Defoe, era um dos livros mais antigos da minha TBR. Apesar de ser uma história que eu sempre quis ler, acho que nunca lhe tinha pegado por temer a complexidade da sua escrita possivelmente antiquada e de difícil compreensão. Para minha grande surpresa, não podia estar mais enganada.
Creio que a premissa do livro é conhecida: Crusoe, um jovem sem grandes perspectivas na sua Inglaterra natal e cheio de vontade de se fazer ao mar, parte de Hull num navio rumo a Londres, contra a vontade dos pais. Apesar de sofrer uma tempestade a bordo e de jurar nunca mais entrar num barco, parte novamente desta feita para “os Brasis”, onde compra uma porção de terra e se estabelece como rico fazendeiro. Passado um par de anos, fazendeiros seus conhecidos propõem pagar-lhe uma viagem a África para que ele compre escravos de modo a trabalharem nas suas terras. No entanto, o navio não chega ao destino e Crusoe, sendo o único sobrevivente, fica sozinho numa ilha deserta durante vinte e oito anos, dois meses e dezanove dias.
Este livro é incrível. Defoe consegue criar uma narrativa de um só homem onde o relato da sua superação, força e autodeterminação é o que nos prende às páginas. Crusoe parece nascer de novo num lugar inóspito e estranho, tendo de reaprender tudo outra vez: a comer, a vestir-se, a proteger-se, a confiar e a desconfiar. É a sua força de vontade em continuar vivo e a esperança de um dia sair dali que faz com que ele nunca perca o controlo nem a capacidade de olhar para o futuro, sem se concentrar apenas no presente.
Gostei muito desta obra. Defoe escreve maravilhosamente. As suas descrições são minuciosas, humorísticas e nunca aborrecidas. É impressionante que tenha escrito esta aventura (baseada na vida de Alexander Selkirk) aos 60 anos e cunhado aquele que é considerado o primeiro romance realista inglês. Recomendo-o vivamente. É caso para dizer que já tenho encontro marcado com Moll Flanders (1722). Antes tarde que nunca.
Há um par de anos, após ter lido “Stoner” (1965), do escritor americano, recentemente descoberto, John Williams, soube que um dia leria os outros dois livros publicados pelo autor: “Butcher’s Crossing” (1960) e “Augustus” (1972). Comecei pelo primeiro, um western muito masculino, mas também uma história de crescimento e aventura.
A ação de “Butcher’s Crossing” ocorre em 1870 numa pequena vila chamada Butcher’s Crossing. O jovem Will Andrews fartou-se do curso que estava a tirar em Harvard e decidiu escapulir-se para esta zona rural de modo a viver uma aventura. Por intermédio de um contacto do pai conhece Miller, um caçador obcecado por bisontes que anseia desesperadamente por uma última caçada.
É assim que se desencadeia a história. Toda ela é passada nas montanhas onde quatro homens procuram bisontes, tentam caçá-los, sobreviver ao frio e aos feitios diferentes uns dos outros. Apesar de lermos sobre uma aventura e uma história de superação, o livro é bastante lento. Williams leva o seu tempo a desenvolver a ação, o que por um lado é bom porque envolve o leitor, mas, por outro, acaba por tornar tudo muito previsível.
Gostei do livro mas não me encantou. É uma boa opção para quem gosta de histórias invernais ou de westerns. Para além disso está muitíssimo bem escrito, sendo a narrativa o ponto forte de Williams. Ao lê-lo pensei várias vezes que daria um excelente filme, e, pelo que vi online, parece que será realmente levado ao grande ecrã, com Nicolas Cage como Miller, o que me desmotiva grandemente. Sempre pensei na personagem como sendo uma espécie de Glukov (Alex Ferns) da série de tv “Chernobyl”.
Com os dois primeiros livros de John Williams lidos resta-me agora “Augustus”, que em 1972 ganhou o National Book Award. Lê-lo-ei, com certeza, mas não será para já. Não será para já.
O último livro que li foi The Call Of The Wild (1903), de Jack London. Trata-se de uma pequena novela sobre um cão chamado Buck, que é subitamente raptado de sua casa para servir de cão condutor em Klondike, uma região inóspita do Alasca onde se tinham descoberto minas de ouro. Esta famosa febre do ouro fez com que muita gente tentasse a sua sorte e seguisse caminho para uma vida difícil e arriscada onde praticamente só os mais fortes e aptos sobreviviam. E é exatamente este o tema de The Call Of The Wild.
Buck é uma cria de São Bernardo cruzado com Collie e vive em casa de um juiz californiano. Não é um cão de família, mas é bem tratado e não sente falta de nada. Contudo, após o seu rapto, Buck vai encontrar-se nas piores das condições. Todos os homens o maltratam, fazem-no andar quilómetros a fio no meio de temporais e a escassez de comida é uma realidade de todos os dias. Para piorar, os outros cães não o aceitam e ele vê-se obrigado a lutar pelo seu lugar, assumindo a liderança da matilha. São todas estas privações que vão fazer com que o seu lado selvagem venha ao de cima. Ele sente-se cada mais um animal ligado à natureza.
Gostei muito desta história. Jack London é rude e cru na sua escrita. Muito frontal e violento. Conta as coisas como elas são, como a natureza as fez e as faz funcionar. A natureza dos animais e dos homens, todos em conexão num dos lugares mais primitivos e inabitáveis do planeta. É a lei do mais forte, do mais cruel e do mais selvagem.
Nesta bonita edição da Penguin English Library em particular, The Call Of The Wild é seguido de três contos soberbos de London. Gostei particularmente do último, Love of Life (1907), cujas imagens grotescas ainda me assaltam a mente. Gostaria agora de ler White Fang (1906) pelo mesmo autor, uma história contada ao contrário: um cão selvagem que se deixa domar. Parece interessante, não acham?
Sempre quis ler “Middlemarch” (1871), de George Eliot, mas o seu número de páginas (809 na tradução da Relógio d´Água) sempre me desmotivou. No entanto, após ter cumprido o meu objetivo de leituras para este ano, e ainda com dois meses livres para findar o mesmo, resolvi que chegara a altura de mergulhar naquele que é considerado o romance vitoriano por excelência.
“Middlemarch” é o nome de uma cidadezinha inglesa fictícia onde se passa a acção da história. Apesar de ter na personagem de Dorothea Brooke a heroína principal, creio que esta obra não é sobre ninguém em particular, mas sobre muitas pessoas que fazem parte do mesmo círculo social e familiar, as suas convivências e a História que se vai desenrolando em torno delas. E há de tudo. Romance, política, traição, desilusão, casamentos felizes, casamentos infelizes, crescimento pessoal, ética e moral, mortes, nascimentos. Tudo o que acontece na vida de alguém está de certa forma espelhado nas personagens de “Middlemarch”. E é aí que reside a grandeza deste livro.
Apesar de ter como contexto histórico e social a época vitoriana, George Eliot consegue o feito impressionante de retratar a vida tal como ela é. Um leitor do século XXI consegue entender, e quem sabe até identificar-se, com o que ocorre às personagens, ganhando ao mesmo tempo uma noção histórica de como era a vida naquele tempo e lugar. A escrita de Eliot é clara e direta, dando-nos em muitos instantes citações impossíveis de não reter, como, por exemplo: “Tem dó do fardo alheio, porque o seu peso errante poderá visitar-te a ti e a mim”; ou “o carácter não é uma peça de mármore… não é algo de sólido e inalterável. É algo que está vivo e se transforma, e pode adoecer, como também acontece com o corpo.”
Gostei muito deste livro. Provavelmente não achamos que nos marca assim que o terminamos, contudo, depois, reparamos que fica connosco e que nos lembramos de várias cenas e acontecimentos relevantes. E o que dizer da conclusão e, em particular, do último parágrafo? Dos melhores que já li em toda a literatura. Recomendo vivamente esta leitura. Como se costuma dizer, se se tiver de ler um romance vitoriano, não há dúvida de que tem de ser “Middlemarch”.
O fim-de-semana passado vi o filme “A Herdeira” (1947), de William Wyler (Ben-Hur; The Children’s Hour) com os maravilhosos Olivia de Havilland e Montgomery Clift. Não sabia nada sobre a história, que é como gosto de escolher os filmes que vejo e os livros que leio, pelo que fiquei muito surpreendida ao ver que se tratava de uma adaptação da obra “Washington Square”(1888), de Henry James.
Eu já tinha lido este livro há alguns anos, mas lembrava-me pouco da história, pelo que após o visionamento do filme decidi lê-lo outra vez. “Washington Square” narra o romance entre Catherine Sloper, uma rapariga pouco atraente, desajustada e rica que vive com o pai, Dr. Sloper, médico cirurgião bem sucedido, e Morris Townsend, um jovem cavalheiro bem parecido, pobre e sem recursos. Catherine não acredita na sua sorte quando se vê alvo do interesse de Morris, e o seu pai desconfia logo do rapaz e diz à filha que ele só a quer por causa do dinheiro. A partir daqui, estas três personagens, juntamente com Mrs. Penniman, tia de Catherine e grande impulsionadora do namoro, vão confrontar-se ao longo do tempo para se defenderem umas das outras.
Enquanto no livro as razões do interesse de Morris são bastante explícitas, no filme, que é muito fiel ao texto, o espectador é deixado na penumbra. Todas as personagens dão o seu ponto de vista e são guiadas pelos seus interesses e fraquezas, e, apesar de parecer não existir personagem principal, é sem dúvida Catherine que conhece a maior transformação e que dita o desenrolar da história e o desenlace da mesma.
Gostei muito do livro e do filme. Como referi, são os dois muito parecidos e, de certa forma, complementares. Henry James escreve maravilhosamente enquanto aborda um tema diferente e mais original do que é costume, e Olivia de Havilland e Montgomery Clift são divinos no ecrã (ela inclusive ganhou o seu segundo Óscar de melhor actriz com esta longa-metragem). Recomendo.
Como estamos no mês do Halloween (uma festa de que gosto muito), costumo ler um livro alusivo ao tema: crime, thriller e terror, desde que não assuste muito… Este ano, escolhi uma colectânea de contos de Angela Carter intitulada “The Bloody Chamber” (1979), nesta bonita edição da Penguin Deluxe que comprei há uns meses numa Feira do Livro. Todavia, e para meu grande desgosto, arrependi-me amargamente da minha escolha.
“The Bloody Chamber” reune adaptações de contos clássicos e infantis como O Barba Azul, A Bela e o Monstro, O Gato das Botas, O Capuchinho Vermelho, entre outros, rescritos com características mágicas, fantásticas, de terror e supostamente feministas. Contudo, a primeira adaptação (O Barba Azul) é a única que faz jus a esse objetivo.
Angela Carter foi uma escritora e jornalista britânica, conhecida sobretudo pela sua defesa do feminismo. É por isso de admirar que os contos deste livro, considerado a sua obra-prima, sejam tão degradantes para as mulheres. As personagens femininas que aqui encontramos são meros objectos sexuais para os homens, animais, e restantes criaturas fantásticas. Quase todas as histórias roçam o pornográfico e, na mais curta de todas (graças a Deus), há até a profanação e violação de um cadáver, adicionado a uma pitada de voyeurismo.
Estive quase a abandonar esta leitura, só não o fiz porque felizmente o livro é curto e eu queria ficar com uma opinião mais forte e fundamentada acerca do meu desprezo por ele. Não teve nada do que eu procurava: sustos, terror, suspense… Não, foi apenas a destruição completa dos contos que todos nós conhecemos através do que é mais cliché, sexual e sado-masoquista. Uma coisa é certa: foi de fugir.
Nunca fui muito de redes sociais. Tive contas privadas no Facebook e no Instagram onde publicava uma ou outra fotografia, mas nunca perdi muito tempo com a minha vida digital, nem com a dos meus amigos. Até conhecer o Booktube e o Bookstagram.
Quando me apercebi de que existiam estas duas comunidades de leitores que publicam sobre os seus livros preferidos, fiquei encantada. Podia finalmente “falar” com pessoas cujos interesses eram iguais ao meus, partilhar opiniões, descobrir novos autores e, quem sabe, até fazer alguns amigos. Decidi, então, criar uma segunda conta (pública) no Instagram dedicada unicamente às minhas leituras. No início foi tudo muito subtil. Publicava poucas vezes (sempre que lia um livro), tinha poucos seguidores, e era capaz de passar dias sem entrar na aplicação.
Comecei a notar uma diferença nos meus hábitos quando surgiu a funcionalidade das stories, e quando comecei a seguir e a ser seguida por pessoas com gostos semelhantes aos meus. A partir daí, a importância que passei a dar à minha conta do Bookstagram foi aumentando. Tal como tudo o resto. O meu número de seguidores aumentou, o meu tempo passado na aplicação aumentou, o meu dinheiro gasto em livros aumentou, a minha TBR aumentou. O que não parecia aumentar, no entanto, era o tempo que eu dedicava à leitura…
Inevitavelmente, estes hábitos pioraram com a pandemia. Como tivemos de passar dois confinamentos com crianças pequenas em casa, as redes sociais eram uma espécie de escape para o difícil período que estávamos a viver. Era bom poder ver os outros a ler e a aproveitar o tempo (confinados ou não), e saber que ainda havia uma réstia de vida normal lá fora. E como estas vidas parecem interessantíssimas, as minhas compras online dispararam ao ponto de eu ter vergonha de mencionar o número de livros que tenho por ler nas minhas estantes. Alguns deles provavelmente não teria comprado caso não tivesse tido um momento de fraqueza e comparação.
Fraqueza. Era precisamente isso que eu sentia. Sentia-me fraca perante o meu telefone e perante os outros. Parecia incapaz de passar cinco minutos sem ir ao Instagram. A primeira coisa que fazia ao acordar era verificar o Instagram e a última coisa que fazia ao deitar era verificar o Instagram. Às vezes até me zangava com os meus filhos por eles não me darem uns minutos para publicar qualquer coisa no Instagram… E não parecia certo. Não parecia certo. E eu refletia: a minha vida não é desinteressante ao ponto de eu estar sempre a querer fugir dela. E que me interessa a vida dos outros? Que me interessa o que os outros lêem? Pessoas com quem eu nunca falei, que nunca vi, e que provavelmente nunca chegarei a conhecer? Pessoas que só interagem comigo porque fazem like numa fotografia ou vêem a minha story… Nem sequer comentam. É para as agradar que tenho Instagram? Eu nem simpatizo com o Sr. Zuckerberg… Perdia noites nisto.
Tais exames de consciência começaram a fazer com que eu pensasse em afastar-me das redes sociais. Mas não sabia como, o que me assustava. Decidi então comprar dois livros: Ten Arguments For Deleting Your Social Media Accounts Right Now (2018), de Jaron Lanier; e Digital Minimalism (2019), de Cal Newport. O primeiro explica como funcionam as redes sociais e os algoritmos que nos viciam, o segundo abre as portas para um novo conceito chamado minimalismo digital, ensinando não só a usar as redes sociais de forma mais responsável e consciente, como também a substitui-las por actividades mais benéficas e significativas. Creio que um complementa o outro.
Após estas leituras, e a visualização de testemunhos e documentários como o TheSocial Dilemma (2020), da Netflix (disponível no Youtube), a minha decisão foi ganhando forma. Primeiro apaguei a aplicação do telefone e depois fui pensando em apagar definitivamente as minhas contas. O meu objetivo era voltar a uma vida não digital. Uma vida mais autêntica, em que o meu primeiro pensamento ao entrar numa livraria ou após ler um livro, não fosse publicá-lo imediatamente na Internet. Queria voltar a fazer as coisas por mim e para mim. Queria ser eu a descobrir novos livros, queria ser eu a ler ao meu ritmo, queria ser eu a dar a aprovação sem me importar se os outros gostam ou não.
Mas não é fácil. Principalmente para quem está habituado a ter um ecrã sempre por perto. Nos primeiros dias o silêncio é uma benção, mas, depois, vamos sentindo falta do que gostávamos, e é nesse momento que temos de ser fortes. Muito fortes. Temos de voltar a pensar nas razões que nos levaram a apagar as contas e naquilo que valorizamos na nossa “nova” vida. A calma, a autenticidade, a genuinidade, a reserva, o silêncio, a empatia. Estarmos presentes no momento e termos consciência disso. Fazermos as coisas para nós e não para aprovação alheia. Tirarmos uma fotografia para mais tarde recordar, e não para mostrar ao mundo. Apreciar todos os sítios pelos quais passamos, ainda que não sejam “Instagramáveis.” Acordar e ir às apalpadelas até à casa de banho, apagar a luz após lermos o nosso livro. Na minha opinião, tudo isto supera a vaidade e a curiosidade que sentimos por pessoas com quem simpatizamos, mas que nunca chegaremos a conhecer.
Por isso, e também após a leitura destes dois livros que recomendo vivamente a todos os que tenham redes sociais, posso dizer que estou novamente a tentar não ser de redes sociais (só o Goodreads que não vicia ninguém). Apaguei as minhas contas, mas só daqui a um mês será definitivo. Já não quero perder tempo com vidas digitais, anúncios ou páginas sugeridas. Quero dar um bom exemplo aos meus filhos e continuar a falar sobre livros no meu blogue, um projeto com treze anos que tanto prezo. Dizem que o “desmame” completo ocorre passados três meses. Não parece muito, pois não? Até lá, é tentar viver autenticamente e voltar às origens.
Conheci Willa Cather através das redes sociais. Nunca tinha ouvido falar dela e, numa pesquisa mais pormenorizada, descobri que foi uma importante escritora americana do início do século XX, que concentrou a sua obra sobretudo no tema dos pioneiros e no da sociedade norte-americana que entretanto se estava a formar.
No seu pequeno O Meu Inimigo Mortal (1926), Cather narra a história de Myra, uma jovem de boas famílias que, ao contrário do desejo do tio, decide trocar o seu bem-estar pelo amor ao fugir com Oswald, um rapaz pobre que a arrebata. Voltamos a encontrar o casal 25 anos depois num hotel barato numa zona artística de Nova Iorque, numa situação precária, decadente e infeliz.
Apesar de curta, esta novela é bastante curiosa porque, a meu ver, trata do tema do arrependimento. Na sua juventude, Myra achava que sabia o que era melhor para si e, após enfrentar tudo e todos, consegue levar a sua vontade avante para se dar conta, anos mais tarde, de que cometera um erro monumental. Myra não gosta de ser pobre e culpa o marido devotado pela vida que tem e que, no fundo, ela escolheu. É uma mulher infeliz e torna a vida dos que a rodeiam igualmente infeliz.
Gostei deste livro embora o tenha achado parecido com a primeira obra que li de Cather, Uma Mulher Perdida (1923). O tema é quase idêntico: mulheres jovens, casadas com homens que não amam e aparentemente presas a uma vida dura que não as satisfaz. O seu destino é quase uma fatalidade, o que pode não apenas ser frustrante para elas, mas também para o leitor que dá consigo a pensar: “Mas porque é que elas não fazem nada para alterar a sua condição?”
Émile Zola chamou-me particularmente a atenção quando li o seu maravilhoso O Paraíso das Damas (1883), há uns anos. Decidi então continuar a ler a sua obra, razão pela qual se tornou obrigatório ler aquela que é considerada a sua obra-prima.
Germinal (1885) seria escrito dois anos depois e faria parte, claro está, da série Les Rougon-Macquart, 20 livros dedicados a dois veios diferentes de uma mesma família do século XIX, um deles pertencente à classe alta, outro à classe baixa. Neste livro em particular, a personagem principal é Etienne Lantier, descendente direto da história de L’Assommoir (1887).
Etienne é um jovem mecânico do norte de França que, ao ver-se sem trabalho, decide arranjar emprego numa mina das redondezas. O que o espera é algo que o abala profundamente. Os mineiros vivem mal, num cortiço disponibilizado pela própria empresa, e têm péssimas condições de trabalho, não ganhando o suficiente para conseguirem sobreviver. Esta exploração impressiona tanto Étienne que ele decide aprofundar os seus conhecimentos sobre uma teoria recente que andava a circular pela Europa: o comunismo. Juntou-se a um emigrante russo, também ele trabalhador na mina, e com esta troca de ideias resolveu incitar os companheiros à greve. Ora, o resultado foi desastroso. Apesar de os mineiros em peso, e em desespero, terem alinhado na novidade, encontraram-se ainda em piores circunstâncias do que anteriormente por já não ganharem nem o pouco que dantes levavam para casa. Como consequência, o pior da sua humanidade veio ao de cima e foram praticados actos quase indescritíveis.
Para escrever Germinal, durante três meses Zola trabalhou numa mina e viveu perto dos mineiros de modo a conseguir descrever o que ali se passava. E como o descreve! O leitor fica com uma noção muito nítida de como era ser mineiro e pobre (para não dizer miserável) no século XIX, onde conceitos como segurança social, higiene e segurança no trabalho, horário de trabalho e de descanso, não existiam. Era uma exploração não só por dinheiro, mas também por ser simplesmente assim que as coisas se faziam naquela altura. Realidade que, gostando-se ou não, as ideias Marxistas vieram alterar.
Gostei muito de Germinal. Apesar de Zola ser um escritor demorado e levar o seu tempo a contar a história, fá-lo com muita técnica e clareza, pelo que não parece aborrecido nem maçudo. Os seus livros são extensos porque ele não quer deixar nenhum pormenor de fora, o que, na minha opinião, só enriquece a experiência de leitura. Recomendo vivamente este livro e, claro, prosseguirei com os livros do autor. O próximo da lista é Nana (1880).