Literatura Juvenil · Literatura Norte-Americana

Mulherzinhas e Anos Felizes

Sempre tive o livro Mulherzinhas (1868) em casa e nunca o li. Não por falta de motivação para a leitura, pois sempre li muito, mais por estranheza e ao mesmo tempo atracção pelo livro com capa de cartaz de cinema que se encontrava dentro de uma vitrine da sala, e que nem sequer era meu. 
Quando saí de casa, nunca mais pensei na obra, até que um dia, enquanto dava uma vista de olhos aos livros das Galveias, vi um exemplar de Louisa May Alcott chamado Anos Felizes (1869). Intrigada, peguei na obra e li a contracapa. Dizia ser a sequela do livro Mulherzinhas. E isso despertou muito a minha curiosidade. 
Mulherzinhas é normalmente um livro indicado para crianças, embora eu ache que se adequa mais a adolescentes. A obra retrata a história da familia March. O pai, pastor protestante e homem culto, vai servir para a guerra enquanto a mãe fica em casa a tomar conta das quatro filhas e as ajuda a crescer. As quatro meninas são as verdadeiras heroínas do livro e é através delas que o leitor vive o dia-a-dia das mulheres que ficaram para trás enquanto a guerra decorria. Todas diferentes mas muito amigas, as irmãs ajudam-se mutuamente e revelam-nos que muitos dos problemas das mulherzinhas do passado não são muito diferentes dos das mulherzinhas do presente. Na segunda parte, as meninas tornam-se mulheres e vê-mo-las florescer e seguir por caminhos diferentes.
Por vezes moralista e feminista no bom sentido, Mulherzinhas é a principal obra de Louisa May Alcott que provavelmente se inspirou na sua propria familia para escrever um clássico da literatura que devia fazer parte da biblioteca de todos. Gostei muito. Dos dois.
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Django Libertado

Fiquei um pouco desapontada com o novo filme de Tarantino. Esperava mais. A comunicação social falou tanto sobre ele (muito mais do que sobre qualquer outro nomeado para a categoria de Melhor Filme dos Óscares), que aumentou as minhas expectativas depois de um Inglourious Basterds fenomenal. 
O começo foi engraçado, com um irrepreensível Christoph Waltz numa carruagem de dentista a conquistar as primeiras gargalhadas do público. Cedo percebi que o filme ia ser violento (como são todos os do realizador), porém, essa violência só chegou verdadeiramente com Leonardo DiCaprio. O actor aparece pouco no filme (dando-lhe um nome de bilheteira mais sonante do que uma personagem memorável) e não arrebata corações, com um sotaque solista pouco convincente (ou forte demais ou fraco demais) e uma presença quase ausente. Quem faz com que ele sobressaia é o magnifico Samuel L Jackson que partilha quase todas as suas cenas com ele. Transformado num negro que se “vendeu” ao amo branco, Jackson consegue ornar a sua personagem com uma faceta cómica que faz lembrar os maneirismos da cultura afro-americana contemporânea. E por falar em contemporâneo, pouco foi o rigor histórico que Tarantino atribuiu ao filme. Desde música rap, a óculos de sol, a casacos de pele e demais adereços, vê-se que a preocupação do realizador não foi apresentar um documento histórico, mas fazer um western (que tem obrigatoriamente de ser antigo) a la Tarantino.
A impressão com que fiquei quando saí da sala de cinema foi a de que tinha visto um Kill Bill com cavalos e cowboys, e que em vez de ver uma Uma Thurman forte e ágil a vingar-se dos maus, vi um Jamie Foxx competente, mas sem nada de especial. Um filme onde a violência começa a parecer gratuita, e que não trouxe nada de novo ao universo alternativo e cool que Tarantino gosta de apresentar. Não aqueceu nem arrefeceu. 
Literatura Britânica

O Agente Secreto

O Agente Secreto é um romance de 1907 da autoria do escritor polaco, naturalizado inglês, Joseph Conrad (O Coração das Trevas, Lord Jim). A história tem lugar em Inglaterra, onde um pequeno comerciante de uma loja suspeita faz serviços secretos para uma embaixada sem o conhecimento da sua familia, apenas do grupo de anarquistas que o segue. Nesta missão em particular, Verloc é chamado pelo primeiro secretário da embaixada que, após vários anos de trabalho e lealdade para com a causa, diz-lhe que os serviços secretos não são uma instituição filantrópica e que sem acção não há pagamento. Por isso, para justificar a sua utilidade, pede-lhe que elabore uma “actividade com toda a insensatez chocante de uma blasfémia gratuita” e que faça explodir o edificio do Observatório de Greenwich, simbolo da ciência (“fetiche sacrossanto actual”), da classe média “estúpida” que se deixa levar pelos sucessivos governos que lhes atira areia para os olhos e alvo preferencial dos anarquistas. Com medo das consequências do acto, mas sem coragem para desistir porque precisa do dinheiro, Verloc decide usar o cunhado Stevie (rapaz novo e deficiente mental que só quer agradá-lo e cair-lhe nas graças), que sustenta juntamente com a mulher e a sogra, para executar o plano. Porém, como o rapaz não é expedito como os demais, tropeça com a bomba na mão e faz-se explodir em plena rua, um pouco antes de chegar ao Observatório de Greenwich. Após o incidente, Verloc é seguido pela policia, que encontra a sua morada na etiqueta de um pedaço do casaco da vitima, e prepara um plano para fugir com a mulher. No entanto, Winnie, ao saber da verdade, que o marido é um agente secreto e que por causa dele o seu irmão, por quem ela nutria um carinho especial, está morto, perde a cabeça e esfaqueia-o até à morte. 
Graças a Ossipon, companheiro anarquista de Verloc, Winnie consegue fugir, para escapar à forca, mas acaba por suicidar-se a bordo do barco que a leva para a outra margem do canal da mancha. O livro termina com Ossipon (apelidado de Doutor) devaneando pela rua. Após uma conversa com o Professor, outro membro do grupo, percebe que o crime foi abafado pela policia e que os seus companheiros anarquistas pensam que foi esta que matou Verloc. Por causa disso, acham que a humanidade não tem remédio e que a sua mediocridade justifica a escolha dos “patetas que mandam”. No entanto, como Ossipon sabe o que realmente aconteceu, começa a pôr tudo em causa e sente-se doente ao pensar que a sua “carreira revolucionária, sustentada pelo sentimento e confiança de muitas mulheres, estava ameaçada por um mistério impenetrável – o mistério de um cérebro humano que pulsa equivocamente ao ritmo de frases jornalísticas.” É um fraco comparado com o Professor que continua a lutar. Um anarquista abalado por alguém que considerava fraco e que cometeu um acto forte, e vice-versa.
O Agente Secreto, ao contrário do que a capa da edição da chancela da Bertrand, 1117, pode fazer parecer não é um livro de mistério convencional. Trata-se de um thriller “politico” inteligente que prende o leitor do inicio ao fim. A linguagem não é complicada (apesar de a tradução e revisão portuguesas denotarem algumas falhas) e a estrutura do livro é bastante fácil de seguir sem que tenhamos sempre de estar sempre a recuar para termos a certeza de que nada nos escapou. Embora não tão impactante como o O Coração das Trevas, é um livro forte, interessante, hábil, que nos faz reflectir sobre as regras sociais que nos regem e a nossa disposição ou vontade de as mudar ou de as seguir. Gostei muito.  
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Os Miúdos Estão Bem

Os Miúdos Estão Bem conta a história de um casal de lésbicas (Julianne Moore e Annette Bening) com dois filhos adolescentes, Joni de 18 anos e Laser de 15, que cada uma deu à luz através do mesmo dador de esperma. Certo dia, Laser pede à irmã que ligue para a clinica de inseminação artificial e que peça a informação necessária para que consigam conhecer o pai biológico (Mark Ruffalo). Depois de o pai consentir a autorização para tal, a familia não convencional conhece-se e começa a relacionar-se de forma caótica pondo em causa o próprio relacionamento entre si e a sua privacidade.
Os Miúdos Estão Bem mais do que um filme sobre uma familia gay é um filme sobre as relações entre os membros familiares, constantemente testadas pelas vicissitudes da vida e, neste caso, também por uma entidade externa que ameaça a até então fervente harmonia familiar.
É um bom filme, entre a comédia romântica e o drama sério, capaz de provocar risos mas também de nos pôr a pensar sobre as questões mais profundas e fundamentais da vida a quatro, ou a cinco. 
Em 2011, arrebatou quatro nomeações para os Óscares: 
Melhor Filme
Melhor Actriz – Annette Bening
Melhor Actor Secundário – Mark Ruffalo
Melhor Argumento Original.
Não sei se dá para tanto… 
Literatura Britânica

Charles Dickens

Como este ano se comemora o bicentenário de Charles Dickens, que nasceu em Portsmouth, sul de Inglaterra, a 7 de fevereiro de 1812, resolvi ler as suas obras mais emblemáticas. Já lera a versão juvenil de Oliver Twist no secundário e quis agora alargar o meu leque de conhecimentos sobre este autor tão relevante do século XIX.
Comecei por comprar três livros que me atraíram, sobretudo, pela sua relação qualidade/preço: Um Cântico de Natal, uma edição de bolso portuguesa; e duas versões originais publicadas em conjunto e a baixo preço: A tale of two cities e Great Expectations. Mais tarde, comprei Os Cadernos Pickwick por fazer parte da colecção de humor que Ricardo Araújo Pereira seleccionou para a editora Tinta da China.
Devo dizer que estou a meio caminho da minha cruzada Dickens: no natal passado li o Cântico, de que gostei bastante e no qual me inspirei para baptizar o meu gato: Marley (em homenagem à personagem  Jacob Marley, que avisa Scrooge dos perigos da avareza, do egoismo e do seu comportamento pouco simpático). O último livro que li foi A tale of two cities, que me deu algum trabalho por estar escrito no inglês do século dezanove e que, apesar de não ser tremendamente diferente do actual, tem algumas características estranhas a um olho português pouco habituado. 
Neste momento vou no inicio de Os Cadernos Pickwick, de que também estou a gostar. As peripécias do Sr. Pickwick e da sua trupe têm sido bastante engraçadas, com sarcasmos e mal entendidos sociais pelo caminho. Muito divertido e muito “Dickens”, com os habituais dialectos e maneirismos de certas personagens que nos dão uma ideia não só de como seria a personagem em si, mas também de como seria, mais ou menos, o tipo de pessoas que se podiam encontrar na Inglaterra desses tempos. 
Devo confessar que o que mais me está a agradar no meu período Dickens é o facto de me concentrar especificamente num autor. Gosto de acabar um livro e de começar um novo escrito pelas mesmas mãos e pela mesma cabeça. Parece que consigo dissecar mais facilmente o seu género, escrita, humor e distinções. Estou a gostar tanto que acho que vou fazê-lo para os restantes escritores que desejo ler. Uma pessoa fica muito mais alerta e especializada num autor deste modo do que se ler as suas obras com pausas e interrupções. Parece que assim se retém muito mais. Pelo menos, eu retenho. 
Depois de Pickwick acho que me vou aventurar no Hard Times e em David Copperfield, que já vi existirem na biblioteca local. Se o fizer, Charles Dickens passará a ser um dos autores mais lidos por mim e acompanhar-me-à até ao final deste ano. Nada mau para comemorar um bicentenário, não acham?
Literatura Europeia · Literatura Juvenil

O Diário de Anne Frank

Devo confessar que só agora é que li este livro. E que pena não tê-lo feito mais cedo. Trata-se de um testemunho magnifico sobre as vitimas do Holocausto que não se encontravam nos campos de concentração, mas que tentavam fugir deles.

Anne dá-nos a imagem perfeita de como era viver com medo dos alemães, num anexo pobre, sem condições, com cada vez menos comida, e com pessoas desconhecidas que se revelaram ser difíceis de conviver. Também nos dá informações históricas como o facto de eles saberem o que se passava nos campos de concentração e de terem a consciência de que se fossem apanhados teriam o mesmo destino que os restantes judeus.
No meio deste testemunho surgem ainda as angústias e as aflições de uma adolescente que entra para o anexo aos 13 anos e que sai de lá para um campo de concentração, onde morre, aos 15.
O Diário de Anne Frank é um livro obrigatório para não se deixar cair no esquecimento aquele que foi um dos episódios mais horrendos da História da Humanidade. E, se por acaso forem a Amesterdão, não podem deixar de visitar a casa de Anne Frank, ou seja, o anexo onde Anne viveu com a familia, os Van Daan e o Sr. Dussel durante dois anos.
Uma história que vale a pena conhecer para não se tornar a repetir.
Literatura Europeia

Eu não tenho medo

Brincando com os amigos numa tarde de muito sol, Michele acaba por esbarrar numa casa abandonada que contem um segredo macabro. Está lá escondido um menino da sua idade, raptado por pessoas da aldeia e deixado a definhar num buraco escuro, sujo e frio, sem água, nem comida.
Este é o ponto de partida de Io non ho paura (Eu não tenho medo), um romance de 2001 da autoria do escritor italiano, premiado em 2007 com o prémio Strega, Niccolo Ammaniti. A acção da história decorre em 1978, numa cidade imaginária do Sul de Itália chamada Acqua Traverse. Tem como personagem principal Michele Amitrano, um rapaz pré-adolescente, curioso e destemido, que desafia os valores dos adultos sofridos e conformados, e tenta encontrar dentro de si o bom senso que lhes falta.
Muito bem escrito e com um ritmo fluente, Io non ho paura espelha a realidade complicada das gentes do sul italiano, que prezam a família acima de tudo, mas que sentem grandes dificuldades em entender-se, em falar sobre os seus sentimentos, e em pôr comida na mesa.
Com um desfecho inesperado mas bonito e ternurento, revelando, mais uma vez, que a força interior, o bom senso e o amor são os motores do ser humano, o livro encerra com um final meio aberto, meio fechado, permitindo várias interpretações ao leitor, mas deixando-o, ao mesmo tempo, com uma dica sobre o que provavelmente terá acontecido. Muito bonito.
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Ler é preciso… E muito.

Why should we bother reading a book? All children say this occasionally. Many of the 12 million adults in Britain with reading difficulties repeat it to themselves daily. But for the first time in the 500 years since Johannes Gutenberg democratised reading, many among our educated classes are also asking why, in a world of accelerating technology, increasing time poverty and diminishing attention spans, should they invest precious time sinking into a good book?
The beginnings of an answer lie in the same technology that has posed the question. Psychologists from Washington University used brain scans to see what happens inside our heads when we read stories. They found that “readers mentally simulate each new situation encountered in a narrative“. The brain weaves these situations together with experiences from its own life to create a new mental synthesis. Reading a book leaves us with new neural pathways.
The discovery that our brains are physically changed by the experience of reading is something many of us will understand instinctively, as we think back to the way an extraordinary book had a transformative effect on the way we viewed the world. This transformation only takes place when we lose ourselves in a book, abandoning the emotional and mental chatter of the real world. That’s why studies have found this kind of deep reading makes us more empathetic, or as Nicholas Carr puts it in his essay, The Dreams of Readers, “more alert to the inner lives of others”.
This is significant because recent scientific research has also found a dramatic fall in empathy among teenagers in advanced western cultures. We can’t yet be sure why this is happening, but the best hypothesis is that it is the result of their immersion in the internet and the quickfire virtual world it offers. So technology reveals that our brains are being changed by technology, and then offers a potential solution – the book.
Rationally, we know that reading is the foundation stone of all education, and therefore an essential underpinning of the knowledge economy. So reading is – or should be – an aspect of public policy. But perhaps even more significant is its emotional role as the starting point for individual voyages of personal development and pleasure. Books can open up emotional, imaginative and historical landscapes that equal and extend the corridors of the web. They can help create and reinforce our sense of self.
If reading were to decline significantly, it would change the very nature of our species. If we, in the future, are no longer wired for solitary reflection and creative thought, we will be diminished. But as a reader and a publisher, I am optimistic. Technology throws up as many solutions as it does challenges: for every door it closes, another opens. So the ability, offered by devices like e-readers, smartphones and tablets, to carry an entire library in your hand is an amazing opportunity. As publishers, we need to use every new piece of technology to embed long-form reading within our culture. We should concentrate on the message, not agonise over the medium. We should be agnostic on the platform, but evangelical about the content.
We must also get better at harnessing the ability of the internet to inform readers, and potential readers, about all the extraordinary new books that are published every year, and to renew their acquaintance with the best of Britain’s rich literary tradition. The research shows that if we stop reading, we will be different people: less intricate, less empathetic, less interesting. There can hardly be a better reason for fighting to protect the future of the book.
by Gail Rebuck (The Guardian)