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Saving Mr. Banks

Mais do que um filme sobre a realização de Mary Poppins, Saving Mr. Banks é quase uma biopic sobre P. L Travers. 
P. L. Travers, neé Helen Lyndon Goff, nasceu a 9 de agosto de 1899, em Queensland, Austrália. O seu pai, um banqueiro alcoólico com dificuldade em manter um emprego estável, incutiu-lhe o gosto pelas histórias e pela aventura. Brincava com ela e as outras filhas sempre que podia e dizia-lhes para nunca crescerem, pois a vida de adulto não era divertida e estava cheia de responsabilidades. Morreu de tuberculose quando P. L. Travers ainda era criança, tendo a sua mãe chamado a irmã, Sue, para a ajudar a tomar conta da família. Sue foi a inspiração para a personagem Mary Poppins. 
Saving Mr. Banks pega na história de P. L. Travers e intercala-a com a da realização do filme de animação Mary Poppins, feito por Walt Disney (Tom Hanks). A escritora, interpretada por uma espantosa Emma Thompson, é uma pessoa amarga e embirrenta que não gosta da Disney nem do ideal de mundo perfeito que a marca patrocina. Dá-se mal com toda a gente e rejeita as ideias que os produtores têm para o filme, como a casa da família Banks, os pinguins dançantes, a banda sonora e até o ator Dick Van Dyke. A única pessoa com quem simpatiza é o motorista (Paul Giamatti) que nunca lhe dá uma resposta torta, apesar da sua antipatia, e lhe confessa que tem uma filha deficiente que adora os seus livros. 
Ao longo do filme perguntamo-nos por que razão P. L. Travers se tornou uma pessoa tão desagradável quando teve uma infância com um pai que a adorava e lhe dizia sempre para sonhar. Uma das respostas possível é o facto de ele ter morrido e ter sido “substituído” por uma tia “preceptora” que apregoava a disciplina e que, no fundo, levou a responsabilidade e as regras para o seio familiar. Parece que os sonhos de criança desvaneceram para darem lugar à realidade cruel do mundo verdadeiro. P. L. Travers desencantou-se com a vida e vestiu uma armadura para conseguir atravessá-la com mais facilidade.
Em 1933 emigrou para Inglaterra e adotou um menino irlandês, Camellius. Em 1977 recebeu a medalha da Ordem do Império Britânico. Morreu em Londres, em 1996, sem amar ninguém e sem ninguém que a amasse. 
Saving Mr. Banks é o filme sobre a sua vida, Mary Poppins e a Disney. Sobre como a infância pode moldar a nossa personalidade e mostrar o que de melhor e pior há em nós.
Recomendo vivamente. 
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Book Tag: Os 7 Pecados da Leitura

Ganância: Qual é o teu livro mais caro? E qual é o teu livro mais barato?

R: Não tenho nenhum livro que tenha sido especialmente caro, normalmente os livros mais caros que compro custam cerca de 25 ou 30 euros. Os meus livros mais baratos são da editora Europa-América ou da Penguin (Popular Classics) e custaram cerca de 2 ou 3 euros.

Ira: Com que escritor tens uma relação de amor-ódio?

R: Dan Brown. Sempre que sai um livro seu fico curiosa e leio-o, porém, acabo quase sempre por não gostar…

Gula: Que livro devoraste sem vergonha nenhuma?

R: Vários, mas o primeiro que me lembro de não conseguir pousar foi o Código da Vinci, de Dan Brown (cujo final foi um pouco decepcionante).

Orgulho: De que livro costumas falar para pareceres inteligente?
R: De nenhum, pois quando falo de livros não é para parecer inteligente, é porque gosto deles.

Preguiça: Que livro negligenciaste devido à preguiça?

R: É muito raro abandonar um livro de que não estou a gostar, tenho sempre a esperança de que melhore. No entanto, um que me deu muita luta foi o Freedom, de Jonathan Franzen.

Luxúria: Que características achas mais atraentes numa personagem?

R: Depende da personagem. Na ficção gosto de personagens boas e más, depende de como estão construídas. Por vezes há personagens muito interessantes nos livros que seriam pessoas insuportáveis na vida real.

Inveja: Que livros gostarias de receber como presente?

R: Neste momento: Mary Poppins, de P. L. Travers e The Luminaires, de Eleanor Catton. Ainda bem que faço anos daqui a um mês!
Literatura Norte-Americana

Fahrenheit 451

O poder dos livros. 
Este poderia ser o mote de um clássico escrito numa máquina de escrever alugada na cave da biblioteca da UCLA.
Fahrenheit 451 conta a história de Montag, um bombeiro cuja função é queimar livros. Desconfortável com a sua profissão, Montag conhece Clarisse, uma rapariga que vive na casa ao lado da sua e lhe mostra os prazeres da vida que se foram perdendo na sociedade cada vez mais digital onde o livre pensamento é mal visto. Certo dia, Clarisse deixa de aparecer, levando Montag a pensar que as autoridades a mataram por ela constituir uma ameaça à sua governação ditatorial e censuradora. É nessa altura que Montag se apercebe que não deseja viver num mundo controlado e começa, ele próprio, a esconder livros em casa e a absorver o seu conhecimento.
Esta história é o resultado de outros três contos (Bonfire, The Pedestrian e The Fireman) previamente escritos por Ray Bradbury e recusados pelas grandes revistas literárias da época. Fala-nos da importância dos livros e no seu incrível poder de dotar as pessoas de ideias próprias e ajudá-las a ver o mundo com mais clareza e esperança. Bradbury refere que um mundo sem livros é um mundo de mentes vazias e almas ocas que não sabem pensar livremente e aceitam tudo o que lhes dão:
“Because you don’t have to burn books, do you, if the world starts to fill up with non-readers, non-learners, non-knowers? If the world widescreen basketballs and footballs itself to drown in MTV, no Beattys are needed to ignite the kerosene or hunt the reader.”
Uma história muito interessante e atual que nos ajuda a olhar para o futuro e a refletir sobre o mundo em que queremos viver. 
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Book Tag: The Happy Bookaholic Tag

Uma das “resoluções” que este ano gostaria de fazer no blogue tem a ver com Tags. 
Para quem possa não estar familiarizado, uma Tag é uma espécie de questionário a que várias pessoas, que se “tagam”, respondem. É uma boa maneira de ficarmos a conhecer a pessoa que responde, e de reflectirmos sobre as nossas próprias respostas. Uma Tag pode ser sobre qualquer coisa. Neste blogue, serão sobre livros, claro!
Como primeira Tag escolhi The Happy Bookaholic (O Viciado em Livros Feliz):

1. De que mais gostas quando compras livros novos?

R: Gosto do objeto novo, gosto da sensação de possuir mais um livro e da perspetiva de ler uma nova história.

2. Com que frequência compras livros novos?

R: Não tenho uma rotina para comprar livros. Posso comprar durante vários dias seguidos, como posso passar meses sem comprar nenhum. Depende do que encontrar nas livrarias. 

3. O que preferes – comprar online ou comprar numa livraria física?

R: Normalmente gosto mais de comprar numa livraria física porque posso manusear o objeto à vontade e fazer uma escolha mais racional. No entanto, se encontrar descontos que valham a pena ou livros estrangeiros que não encontro em mais lado nenhum, compro nas livrarias online.

4. Tens uma livraria preferida?

R: Gosto das Fnac e da livraria do El Corte Inglés. Têm uma maior variedade de livros e os clientes podem circular livremente sem serem abordados pelos lojistas.

5. Costumas pré-requisitar livros?
R: Não, nunca o fiz.

6. Tens um orçamento mensal para gastar em livros?

R: Não. Normalmente quando vejo um livro que quero muito compro-o na altura, se achar que é caro vejo na Internet se consigo arranjá-lo por um melhor preço. Se é um livro que me desperta alguma curiosidade mas que, ao mesmo tempo, me deixa com dúvidas, procuro-o na biblioteca. Se não o encontrar, não o leio na altura e espero por uma melhor oportunidade de compra.

7. Proibição de comprar livros – diz-te alguma coisa?

R: Infelizmente, sim! Neste momento estou a viver o meu segundo período de proibição de comprar livros. O ano passado tentei não comprar, mas não resisti. Este ano vou ter mesmo de me conter (à exceção da viagem que farei na Páscoa). Isto porque tenho mais de 100 livros não lidos em casa…
8. A tua lista de leituras é muito grande?
R: Bastante… Para além dos mais de 100 livros que tenho em casa, gostaria de ler muitos outros que ainda não adquiri. Porém, agora, não são uma prioridade.
9. Quais os três livros da tua lista de leitura, ou outra, que gostarias de possuir AGORA?
R: Gostaria de possuir O Príncipe e o Pobre, de Mark Twain, A Jangada, de Jules Verne e Where’d you go, Bernadette?, de Maria Semple.
10. Quem gostarias de “Tagar”?
R: Quem quiser responder a esta Tag. 🙂
Literatura Europeia

O Assassinato do Arquiduque

E o primeiro livro do ano está lido!
O Assassinato do Arquiduque, de Greg King e Susan Woolman, foi um presente de natal que pedi à minha irmã para ler como continuação de Os Três Imperadores, de Miranda Carter. 

O livro é uma espécie de biografia sobre o arquiduque Francisco Fernando e todos os factos que levaram ao seu assassinato em Sarajevo, em 1914, e ao início da Primeira Guerra Mundial. 
Francisco Fernando não era o herdeiro natural ao trono austro-húngaro, mas sobrinho do imperador Francisco José e quarto na linha de sucessão. Quando o príncipe herdeiro, Rodolfo, se suicidou, e o pai de Francisco Fernando se recusou a ser o sucessor devido à idade avançada, o arquiduque teve de assumir a sua “responsabilidade de Habsburgo” e assegurar a governação do reino. 


Francisco Fernando era um aristocrata diferente. Casou com a mulher que amava, Sophie Chotek, queria dividir o reino em regiões para garantir uma governação mais fácil e eficaz, e era mais instruído do que a maior parte dos membros da aristocracia. O imperador Francisco José não gostava das suas ideias por achar que eram demasiado liberais, e temia que o império se desfizesse sob o reinado de um arquiduque que nunca fora educado para reinar. 


O facto de o arquiduque ter desposado Sophie Chotek também não agradou ao tio, nem à nobreza. Apesar de ter nascido condessa, Sophie viveu uma vida de poucos luxos, pois a sua família perdera a fortuna e sobrevivia com o salário pouco abastado do pai, embaixador. Muitos viram no casamento uma forma de Sophie subir na vida e, por isso, não gostavam dela e humilhavam-na sempre que possível. Devido ao casamento morganático, o arquiduque foi forçado a fazer um juramento em como não incluía a mulher e os filhos na linha de sucessão. Quando morresse, o reino passaria automaticamente para o seu primo, Otto. 

O Assassinato do Arquiduque dá-nos uma ideia muito clara de como era para esta família viver na corte Habsburgo enquanto a Europa atravessava um período de grande agitação social. Muitas monarquias colapsaram no começo do século XX, pelo que o grande desafio, e desejo, das casas reais era manterem-se no poder sem muita instabilidade. 

Apesar de ser um livro histórico, de não-ficção, é notório que os autores não são completamente imparciais. Isto é, ao longo do livro, apercebemo-nos de que Greg King e Susan Woolman estão do lado de Francisco Fernando e Sophie quando dizem que eles foram vítimas de uma conspiração perpetrada por pessoas sem moral e sem escrúpulos. Se aceitarmos esta premissa conseguimos compreender melhor a visão que os autores têm dos acontecimentos históricos. Devo dizer que, para mim, não constituiu nenhum obstáculo à leitura nem à formação de uma opinião própria.

Conclusão: gostei muito deste livro. Está muito bem escrito, tem um ritmo agradável e, apesar de ser um livro de História, não é nem pouco mais ou menos aborrecido. Fiquei a saber mais sobre o arquiduque cuja morte despontou um dos maiores massacres da Humanidade, e sobre o contexto político-social europeu da primeira metade do século XX. Recomendo!
Casas de Escritores · Fiódor Dostoiévski

Casa Museu Fiódor Dostoiévski

Em 2012 tive a felicidade de visitar São Petersburgo, a segunda maior cidade da Rússia. A ex-capital do país tem muitos pontos de interesse como, por exemplo, o Museu Hermitage, o rio Neva, a Catedral do Sangue Derramado ou a Avenida Nevski. No entanto, como admiradora incondicional de Dostoiévski, também quis conhecer a antiga casa do escritor que hoje é um museu aberto ao público.

Localizada num canto entre as ruas Kuznechny 5/2 e Dostoevskogo Ulitsa, o apartamento reconstruido e mobilado de acordo com as recordações da segunda mulher do autor e de amigos próximos, foi a casa de Dostoiévski durante dois períodos da sua vida. O primeiro em 1846, no início da sua carreira, e o segundo desde o final de 1878 até à sua morte. Terá sido aqui que Dostoiévski escreveu Os Demónios (1871) e Os Irmãos Karamazov (1880).

A casa está muito bem conservada e exibe objectos pessoais como cigarros, móveis, pratos, papéis, brinquedos e até um chapéu. Gostei muito de conhecer este espaço intimo de Dostoievski e da sua família, recomendando, claro está, uma visita ao local a todos os amantes dos seus livros. A sinalizar o museu está uma estátua em homenagem ao escritor na rua que também tem o seu nome.

 

 

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2013 Wrap Up!

Apesar de prosseguir com as críticas aos livros que li em 2013, vou fazer o meu wrap up do ano!

2013 foi um ano de leituras razoável. Li 19 livros (mais um do que no ano passado), mas só dois ou três me cativaram verdadeiramente. A maioria não teve grande impacto e provavelmente não será relida no futuro nem ficará na minha memória a longo prazo. Enfim, creio que isto significa um regresso aos clássicos!
Tenho três “resoluções” para o novo ano de 2014:

– Ler mais clássicos
– Ler cerca de 25 livros
– Não comprar mais livros
No outro dia estive a contar os meus TBR (To Be Read = livros que ainda não li). Cheguei à triste conclusão de que tenho 211 livros comprados e não lidos em casa. Como me sinto envergonhada em apresentar semelhante número, tomei logo uma decisão: este ano vou não vou comprar livros. Digo “não vou” porque o ano passado disse “tentar” e não consegui manter a promessa, pois tinha a margem de manobra que o verbo tentar sempre dá. Porém, este ano, vou ter mesmo de conseguir não comprar livros, caso contrário serei uma “hoarder” de literatura em vez de uma leitora assídua, o que não quero. Não gosto que os objetos, sejam eles quais forem, tomem conta da minha vida. O que entra em minha casa é usado, senão é apenas dinheiro gasto e espaço ocupado. 
Contudo, abrirei uma exceção: este ano vou fazer a minha viagem de sonho a Nova Iorque! Durante esses dias não vou olhar a gastos, nem a números, nem a estantes pejadas de livros para ler. Vou perder a cabeça e comprar o que quiser. Vou deliciar-me naquelas livrarias gigantes e trazer comigo os livros que me deixem curiosa e as edições mais bonitas. E isto é uma promessa! Sem ser esta exceção, não vou comprar livros.
Sem mais demora, o meu Wrap Up do ano (por ordem cronológica de leitura):
What I Loved, Siri Hustvedt
O Século XX Português, José Miguel Sardica
Alone in Berlin, Hans Fallada
O Rapaz do Pijama às Ricas, John Boyne
Blankets, Craig Thompson
Living Alone and Liking It, Barbara Feldon
Noturno Indiano, Antonio Tabucchi
A Year in the Merde, Stephen Clarke
O Isqueiro de Oiro, Dick Haskins
A Cidade de Ulisses, Teolinda Gersão
Inferno, Dan Brown
O Coelho Pedro e outras histórias, Beatrix Potter
Dead Man’s Folly, Agatha Christie
Na Síria, Agatha Christie
Os Três Imperadores, Miranda Carter
O Álibi Perfeito, Patricia Highsmith
O Caso Jane Eyre, Jasper Fforde
The Testament of Mary, Colm Toibin
Voo na Noite, Saint-Exupéry
Literatura Britânica

Agatha Christie

Como não podia deixar de ser, este ano li mais dois livros da autora Agatha Christie. Dead Man’s Folly e Come, Tell Me How You Live (Na Síria).

Dead Man’s Folly (1956)

Para contrastar com o Inferno, de Dan Brown, esta foi uma grande leitura de verão. Uma típica aventura Poirot.
O detetive recebe o telefonema de uma amiga de longa data e escritora de romances policiais, Mrs. Ariadne Oliver, para se juntar a ela na propriedade de Nasse House, onde decorrerá uma caça ao tesouro policial. Este jogo consiste em descobrir o assassino que terá matado um dos convidados. Porém, a família de Nasse House parece querer dar muitas dicas e opiniões sobre a brincadeira, o que leva Mrs. Ariadne a pensar que está alguma coisa errada e, consequentemente, à chamada de Poirot. Quando o detetive chega percebe de imediato que algo de estranho se passa. Espera pelo dia da festa. A rapariga que deveria fazer de cadáver está realmente morta. E é então que começa a investigação do detetive belga.

Uma grande história que me deixou colada ao livro durante dois ou três dias, Dead Man’s Folly é original, está muito bem escrito e inclui um leque de personagens bem ao estilo Agatha Christie: tresloucadas, suspeitas, com problemas psicológicos e emocionais, e muito inglesas na sua essência. 
É do principio ao fim um autêntico deleite que faz com que o leitor queira pular páginas só para desvendar o crime mais depressa.

Come, Tell Me How You Live (1946)

Agatha Christie nunca me deixa de surpreender, e talvez seja isso que eu gosto nela. Para além de escrever magníficas histórias de detetives, a escritora também se aventurou noutros modelos de escrita: teatro, romances (sob o pseudónimo Mary Westmacott) e diários de viagem. Come, tell me how you live enquadra-se neste último. 

O segundo marido de Agatha Christie, Max Mallowan, era arqueólogo de profissão e tinha de passar muito tempo fora de casa a fazer as suas pesquisas. Na altura, estas ocorriam maioritariamente no Médio Oriente, e por vezes a esposa acompanhava-o. Este livro é o relato da expedição que o casal fez à Síria. 
Numa crónica biográfica muito bem escrita e extremamente cómica (outro lado da autora que se calhar poucos conhecem), Agatha Christie conta-nos o dia a dia da sua equipa, os seus falhanços e sucessos, o tratamento/ relacionamento dos ocidentais com os habitantes locais e as diferenças culturais flagrantes e próprias que criam cenas absolutamente inesperadas e deliciosas. 
O livro também está pejado de curiosidades engraçadas como, por exemplo, o aparecimento do fecho éclair (e a estranheza que causava), e a obsessão da autora por sapatos. Para além disso, é também  muito interessante ver como se vivia num país que hoje em dia é presença assídua nos noticiários pelas piores razões. 

Uma leitura super agradável, fluída, cómica e extremamente moderna, escrita num período em que a autora fazia de enfermeira e socorria os soldados feridos da II Guerra Mundial em Londres, e o marido se encontrava no Egipto, colocado ali pelo British Council. Bela forma de matar saudades.
Literatura Britânica · Literatura Juvenil

O Coelho Pedro e outras histórias

O Coelho Pedro, ou Peter Rabbit, é uma personagem clássica da literatura infantil que faz parte do imaginário de muitas crianças e adultos. Conheci este adorável coelhinho através de uns desenhos animados que davam na RTP2. Contudo, quando mais tarde vi o filme Miss Potter, com Renée Zelleweger e Ewan McGregor, percebi que estas histórias representavam mais do que uma mera diversão para os pequenitos. 
Helen Beatrix Potter nasceu em 1866, na cidade de Londres, no seio de uma abastada família burguesa que vivia dos rendimentos dos avós maternos, antigos comerciantes de algodão. Foi educada em casa com o irmão, porém, quando este prosseguiu os estudos numa escola para rapazes, Beatrix permaneceu em casa (como quase todas as meninas), tendo por companhia os animais domésticos. Gostava de os observar e começou a desenhá-los com apenas nove anos. As férias da família eram passadas na Escócia e em Lake District onde Beatrix aprendeu a apreciar a natureza e a vida animal. Mais tarde acabaria por estudar Arte e História Natural. 
Beatrix tentou editar as suas histórias e desenhos mais de cinquenta vezes, sem sucesso. Contudo, houve um editor que apostou nela: Norman Warne. Os livros foram muito bem recebidos pelo público e permitiram a Beatrix comprar uma propriedade em Near Sawrey, que chamou de Hill Top e integrou nos seus contos. Os pais, vitorianos, não achavam adequado que uma menina de família vivesse da publicação de livros, pelo que exigiram que ela se casasse. O que não sabiam, no entanto, era que Norman Warne pedira Beatrix em casamento e ela aceitara com muito entusiasmo. Porém, um mês depois do pedido, Norman morreria de anemia, o que deixou Beatrix bastante deprimida. Concentrou-se no trabalho e escreveu mais do que nunca.
Acabaria por casar em 1913 com William Heelis, um procurador local e amante da natureza, tal como ela. Foram viver para Sawrey onde se dedicaram à criação animal e preservação ambiental. Quando Beatrix morreu, em 1943, deixou ao National Trust mais de 1600 ha de terras e quinze quintas. 
Diz-se que J. K. Rowling deu o apelido Potter a Harry em honra de Beatrix, e chamou a escritora infantil que aparece nos livros da saga de Beatrix Bloxam, em homenagem a Potter. 
O Coelho Pedro
É um livro pequeno que narra em onze histórias as peripécias dos animais de uma quinta.
As personagens são sempre as mesmas: os Coelhinhos Flopsi, o esquilo Trinca-Trinca, os Dois Ratos Traquinas, o Bernardo Bichano, a Genoveva Patareca, a Senhora Janota, o Timóteo Pezinhos-de-Lã, Ruivo e Pickles, a Senhora Tira- Nódoas e o Senhor Jeremias Pescador. 
Há contos mais bonitos do que outros, mas todos tendem a mostrar uma moral que, a meu ver, nem sempre é clara (principalmente para crianças). Nota-se que a obra está um pouco desactualizada em relação aos livros infantis de hoje, mas, na minha opinião, é um livro a ter em conta ou não fosse ele um clássico. 
Creio que parte da sua magia se deve ao facto de ter sido um dos primeiros livros infantis da literatura moderna a ser escrito por uma mulher, e ter ilustrações absolutamente magníficas e ternurentas apreciadas por pessoas de todas as idades. 
Diz-se que o quarto do Principe George de Inglaterra, filho dos Duques de Cambridge, foi decorado com figuras do Coelho Pedro.