Literatura Norte-Americana

Catch 22

É muito comum ouvirmos na língua inglesa a expressão “It’s a catch 22”, que eu traduziria pela expressão portuguesa “preso por ter cão e por não ter”. Este dito “apareceu” na gíria americana pela mão, ou pela cabeça, de Joseph Heller, autor do clássico Catch 22 (1961). 
A obra conta-nos a história do capitão Yossarian, destacado em Itália durante a II Guerra Mundial, e profundamente irritado com o artigo 22 (catch 22) que diz que um homem é doido se continuar a participar voluntariamente em perigosos voos de combate, mas se apresentar um pedido formal de dispensa para não voar, é declarado mentalmente são, pelo que esta lhe é negada. Yossarian tenta voar o número oficial de vezes, porém, este está sempre a aumentar tornando-lhe impossível cumprir o seu objetivo e regressar a casa em segurança. Sendo assim, tenta sobreviver no campo como pode, assistindo à morte de colegas e a estratagemas por parte de membros do exército para se esquivarem ao seu dever.
Confesso que a leitura deste livro foi um pouco complicada. Acho que a tradução da D. Quixote não é a melhor, e que Heller poderia ter encurtado a narrativa (inspirada na sua própria experiência, já que ele foi piloto da Força Aérea Americana e esteve destacado em Itália na II Guerra Mundial) que, pelo meio, se arrasta desnecessariamente. No entanto, reconheço que se trata de um livro hilariante, bem escrito, com passagens dignas dos Monty Python, e com uma moral muito interessante. É fácil perceber por que razão se tornou um clássico da literatura americana e como a expressão entrou tão naturalmente na linguagem dos seus habitantes. 
Literatura Europeia

O Voluntário de Auschwitz

Não é ficção. É mesmo verdade. Witold Pilecki, um capitão do exército polaco, voluntariou-se para ir para um campo de concentração nazi de forma a organizar um motim junto dos prisioneiros e salvar os compatriotas que lá se encontravam detidos. 
Deixando para trás a mulher e os dois filhos, Pilecki deixou-se apanhar nas ruas de Varsóvia e seguiu com os restantes capturados para Auschwitz. Ali, conheceu todo o tipo de privações e torturas, tentando sobreviver enquanto punha em marcha o seu plano e mantinha os outros soldados motivados. Apesar de ter sido testemunha de inúmeros atos de violência e ter passado fome e frio, Pilecki nunca desistiu do seu objetivo e sempre fez de tudo para salvar os colegas e escapar.
As suas desventuras em Auschwitz chegam-nos através do relatório que o próprio escreveu para os seus superiores, e que compõe este livro. Trata-se do seu depoimento do que viveu nos três anos que passou no campo, desde como era acordado, até aos natais passados com os nazis.
Atrevo-me a dizer que o relatório de Witold Pilecki tem a mesma importância histórica do Diário de Anne Frank. É um documento precioso que nos relata não só como eram os dias em Auschwitz, mas também como a coragem de um homem o leva a escolher a miséria para salvar uma vida que seja. 
Nunca tinha ouvido falar de um voluntário em Auschwitz. Talvez porque o regime comunista que governou a Polónia após a II Guerra Mundial tenha abafado a história para não criar um mártir. Talvez por mera ignorância minha. Seja como for, agora que está editado em Portugal, creio que este livro é de leitura obrigatória para nos ajudar a não esquecer que em tempos de terror há sempre alguém que se manifesta e tenta impedir que a loucura de alguns faça mais vítimas. Heróis. 
Literatura Norte-Americana

To Kill a Mockingbird

Grande livro. Harper Lee realmente não precisou de escrever mais nada. 
Embora tenha sido publicado em 1960, a ação da obra passa-se no decorrer dos anos 1933-35, logo após a Grande Depressão, e aborda o tema do racismo.
Atticus Finch, um advogado de 50 anos, viúvo, e pai de dois filhos (Jem e Scout) é nomeado pelo juiz do tribunal local para defender um jovem negro, Tom Robinson, de uma acusação de violação a uma jovem branca de reputação duvidosa. As hipóteses de defesa e absolvição são praticamente nulas devido ao sentimento antinegro que se vive na cidade de Maycomb, no sul dos Estados Unidos. Ainda assim, e apesar de saber que a sua família poderá sofrer consequências graves por parte de pessoas intolerantes, Atticus decide defender o jovem porque acredita na inocência dele. 
Ora, Atticus não se engana em relação às consequências que tanto ele como a sua família acabam por sofrer, sendo o desfecho do julgamento, e do que lhe segue, o que de melhor a obra tem.
To Kill a Mockingbird é provavelmente o melhor livro sobre a segregação racial americana. Diz-se que Harper Lee se inspirou num episódio verídico que sucedeu na sua cidade natal e na recusa de Rosa Parks em levantar-se num autocarro para dar o lugar a um branco. Seja o que tenha sido, o tema do racismo é tratado com uma sensibilidade objetiva quase histórica, numa narrativa impressionantemente fluida.
Para mim, Atticus Finch é, sem dúvida, Gregory Peck. E este é um dos poucos exemplos em que vos aconselho a lerem o livro e, depois, a verem o filme (hoje um clássico do cinema), que a própria autora apelidou de “obra de arte”. Ambos são excelentes e deviam ser obrigatórios para quem gosta de ler e ver cinema. 
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13 Contos de Terror…

O Halloween foi há uma semana, contudo, quero falar-vos de um livro fantasmagórico…

13 Tales from the Dead of Night é uma obra composta por treze contos sobre fantasmas, organizada por Cecily Gayford. A estudiosa de literatura inglesa escolheu trabalhos de escritores famosos como Edith Wharton e Rudyard Kipling, e de outros menos conhecidos (pelo menos, para mim) como E. Nesbit e Ruth Rendell. Apesar de a temática ser a mesma, os contos são diversificados, passados em épocas distintas, e de diferentes tamanhos. 
Confesso que os melhores foram os primeiros e os últimos. O livro começa por prometer-nos histórias estranhas sobre acontecimentos sobrenaturais inexplicáveis, mas acaba por cair no aborrecimento com histórias confusas, um pouco mais difíceis de acompanhar e muito menos assustadoras. Após a superação do meio, volta ao brilhantismo inicial, deixando o leitor com sede de mais. 
Os meus contos preferidos foram, sem dúvida, The Clock, de W. F. Harvey, The Crown Derby Plate, de Marjorie Bowen, The Haunting of Shawley Rectory, de Ruth Rendell e The Phantom Rickshaw, de Rudyard Kipling. 
Apesar de apenas ter mencionado quatro, creio que todos os contos estão muito bem escritos e merecem ser lidos. A edição de capa dura da Profile Books está linda e convida-nos a sentarmo-nos no sofá para sermos assustados. Bons pesadelos…
Literatura Norte-Americana

O Ensaio



O Ensaio, de Eleanor Catton, é um livro estranho. Começa com um possível assédio sexual por parte de um professor de música a uma aluna menor e as implicações que o caso tem na escola e na família dessa aluna. Ao mesmo tempo, a escola de teatro que existe ao lado da escola de música ensaia uma peça baseada no que aconteceu. 
A premissa da história até parece normal, contudo, a autora usa um método invulgar de interação entre personagens que a torna fresca e complexa. Trata-se de um livro maduro e completamente ausente de lugares comuns (um feito, visto o tema já estar bastante vulgarizado). Para além da frescura da escrita, o que mais me impressionou na narrativa foi realmente a maturidade. As personagens estão bem construídas, pensadas e humanizadas e a história discorre com naturalidade, algo que provavelmente não se espera de uma escritora de 25 anos. O caso da professora de música foi o mais enigmático para mim. No início não a compreendia bem, nem sabia o que procurava, apesar de ser o elo comum a todas as personagens e, tal como o leitor, estar a par de tudo o que acontece. No entanto, no final, fui capaz de entender a sua razão de ser e as suas motivações. É uma personagem perfeita que espelha as complexidades que todas as personagens principais deviam ter.
É através de características como esta que percebemos que estamos perante um grande livro. Apesar de não ter sido umas das minhas leituras preferidas até à data, reconheço que se trata de uma obra boa, diferente, fresca, e com um estilo muito próprio e humano. O Ensaio é a primeira publicação de Eleanor Catton, foi nomeada para vários prémios, incluindo o Orange Prize, e elevou muito a fasquia para uma autora que não desiludiu e escreveu o mais recente vencedor do Man Booker Prize: The Luminaries. Definitivamente a ler.
Literatura Britânica

O Deus das Moscas

Uma das melhores leituras do ano. Só assim é que consigo descrever este maravilhoso livro que tão bem retrata a natureza humana. 
O Deus das Moscas, do escritor inglês premiado com um Nobel da literatura em 1980, William Golding, narra a história de um grupo de rapazes que fica perdido numa ilha, sem adultos, após um acidente que lhes matou os pais. Estes meninos, de várias idades, vão tentar criar uma sociedade de forma a sobreviverem aos perigos de um território novo e satisfazerem as suas necessidades básicas. O problema é que nem todos concordam com as regras estabelecidas e o grupo acaba por se dividir, impedindo-os de viverem em paz. 
Esta obra fala essencialmente sobre a natureza humana. Há rapazes com personalidades mais fortes do que outros que acabam por se autodenominarem líderes e subjugarem os outros por estes serem diferentes ou simplesmente mais novos e fracos. A voz da razão nem sempre está presente e, quando está, é ouvida com preconceito e arrogância.
O que creio que William Golding quis mostrar com este livro, e com um exemplo tão básico como rapazes perdidos numa ilha, foi que a natureza humana não é igual em todos os homens. Uns são mais pacíficos, outros mais violentos, uns são mais sensatos, outros mais aventureiros. O problema é que quando não se sabe conversar e a anarquia se instala, o grupo torna-se violento e selvagem per se, perde a noção da sensatez e acaba por praticar ações más que provavelmente nunca praticaria num ambiente civilizado.
Aconselho vivamente a leitura de O Deus das Moscas, um clássico de 1954 que ainda hoje dá que pensar. 
Literatura Britânica

A mulher que decidiu passar um ano na cama

Não há como negá-lo: o que me “vendeu” o livro foi o título. Não há dúvida. Quem é que muitas vezes não pensou em esquecer tudo e simplesmente passar uma temporada na cama, a dormir, a ler, a ver tv, ou a fazer outras coisas? Pois eram tantas as possibilidades de uma história diferente que devo ter elevado demasiado as minhas expectativas. 

A Mulher Que Decidiu Passar Um Ano Na Cama conta a história de Eva, uma mulher que abdicou de uma carreira para cuidar dos filhos gémeos e do marido e que, passados 18 anos, quando os rebentos vão para a universidade numa outra cidade, decide passar um ano na cama. Durante esse período acontece-lhe de tudo: descobre que o marido, que já não ama, a trai com uma colega do trabalho, que a sogra nunca gostou dela, que a mãe não a entende, e que o homem que lhe faz as obras no quarto e por quem se apaixona não está disposto a largar tudo por ela.
Este devia ser um livro trágico-cómico, com situações caricatas que nos deveriam levar às lágrimas de tanto rir. No entanto o que me pareceu é que a autora, Sue Townsend, (mãe do famoso Adrian Mole), se esforçou demasiado e não conseguiu passar para o papel as peripécias que o livro merecia. Eva está constantemente a sentir pena de si própria porque tudo de ruim lhe acontece. É um azar atrás de outro que em vez de nos produzir gargalhadas faz com sintamos pena da protagonista e não tenhamos curiosidade em saber o que lhe acontece a seguir. Não gostei de nenhuma personagem em particular porque todas me pareceram vazias e caricaturadas ao extremo. 
Apesar de eu ter ficado um pouco desiludida com o livro, admito que há algumas passagens interessantes e que a história possa agradar a muita gente. Eu é que esperava mais. E com um título destes o livro merecia seguramente bastante mais.
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…e o que os miúdos leem hoje em dia.

Um dos grandes sucessos infantojuvenis da atualidade é, sem dúvida, a série Cherub, do autor britânico Robert Muchamore. Com cerca de duas dezenas de livros publicados, esta coleção provou que os meninos e meninas afinal também gostam de histórias de espiões à la 007.
O primeiro livro da coleção, e provavelmente o que conheceu mais êxito, é O Recruta. Aqui conhecemos o protagonista da série, James, e a forma de como ele vai parar à Cherub, uma organização secreta que em vez de alistar espiões adultos alicia crianças por serem agentes “menos óbvios”. A história está cheia de momentos de ação, e a sua narrativa é parecida à de um filme. Enquanto pretende cativar o público-alvo com cenas divertidas e episódios tumultuosos, deseja, ao mesmo tempo, mostrar-lhe um pouco do passado recente inglês e ajudá-lo a compreender como funciona o atual mundo da política e da grandes organizações mundiais.
De forma geral, compreendo que o livro seja cativante para os mais novos porque tem cenas engraçadas que os fazem rir e fala de um miúdo da idade deles que se torna espião ao serviço do seu país, uma fantasia interessante e íntima que faz sonhar qualquer adolescente. No entanto, enquanto leitora mais experiente, devo admitir que achei o livro violento, preconceituoso para com os mais gordinhos e com uma história pouco original. Os clichés sucedem-se e as cenas acontecem tão rapidamente e de maneira tão desconcertada que por vezes não percebemos como passámos de um episódio para outro. As personagens, à exceção de James, são vazias, sem história, e acrescentam pouco à obra.
Não creio que O Recruta seja um livro que encha a vida de um adolescente nem que, muito menos, o marque nessa fase tão importante. É apenas mais um passatempo, divertido e cativante, sem dúvida, mas com pouco conteúdo e não muito memorável. Resumindo: O Corsário Negro 1 – 0 O Recruta.
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O que líamos antigamente…

Há vinte anos, a oferta de literatura infantil não era comparável à de hoje. Atualmente, a maioria das livrarias tem uma secção bastante grande de livros infantis e juvenis que às vezes até a mim dão vontade de ler. De autores portugueses a estrangeiros, de banda desenhada a romances, de mistérios a biografias… A gama é absolutamente esmagadora, apelando a um público cada vez mais difícil de cativar. 
Quando eu era criança ainda não havia computadores, telemóveis, consolas de jogos… Os gadgets que então possuíamos eram Game Boy, aparelhagens, walkmans, discmans, beeps, e pouco mais. A televisão conservava-se, assim, rainha e senhora do nosso tempo livre, e não líamos mais do que os jovens de hoje. Líamos diferente: Os Cinco, Uma Aventura…, Os Sete, os obras de Alice Vieira, A Lua de Joana, os almanaques da Turma da Mónica… Ou o mais comum: adaptações das grandes obras clássicas da literatura universal para jovens.
Uma dessas adaptações foi O Corsário Negro, de Emilio Salgari (autor de Sandokan), editado pela Verbo (hoje Babel). Este livro conta a história de um corsário que deseja vingar a morte dos três irmãos, assassinados pelo mesmo homem: o governador de Maracaibo, Duque Van Guld. Temido por todos, o Corsário Negro é uma lenda do alto-mar. Consegue sempre o que quer e segue um código de conduta que valoriza a honra e a justiça acima de tudo. Jurou há muito matar o Duque e todos os membros da sua família. No entanto, sofre o azar de se apaixonar, sem saber, pela filha do inimigo… 
O Corsário Negro é uma série clássica italiana do final do século XIX, cheia de aventura e romance que apela tanto a jovens como a adultos mais exigentes. Lê-se num ápice e deixa-nos com vontade de retroceder no tempo e brincar aos corsários. A escrita é apaixonante, com descrições lindas da selva e das primeiras cidades espanholas da América Latina. As personagens principais estão muito bem construídas, e cada uma tem um papel importantíssimo na trama, o que leva a crer que se lá não estivesse a história perderia. É, sem dúvida, um livro memorável que agrada a miúdos de ontem e a miúdos de hoje. Recomendo-o vivamente.
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Autógrafos

A 84ª Feira do Livro de Lisboa não serviu apenas para comprar livros, foi também um espaço de encontro entre leitores e escritores que puderam trocar ideias sobre livros, leituras e experiências de vida. Eu também gosto de me encontrar com autores cuja obra é importante para mim, e, neste ano, quis pedir o autógrafo a dois que claramente se destacaram no meu percurso literário de 2013.
A primeira é uma senhora que eu já encontrei várias vezes em fóruns e apresentações de livros:  Teolinda Gersão. Na minha tese de mestrado, usei o seu livro A Cidade de Ulisses como exemplo de obra a ler numa aula de PLE. Quando lhe pedi o autógrafo dei-lhe uma cópia da tese, que ela recebeu com grande surpresa e carinho. Espero que tenha gostado da análise literária que fiz ao seu livro.
O segundo é um escritor juvenil norte-americano que está muito em voga entre os jovens do nosso país: Robert Muchamore. Ficou famoso com a série CHERUB, uma sucessão de livros que contam a história de uma organização secreta que em vez de ter agentes adultos tem agentes adolescentes, pois as crianças levantam menos suspeitas quando espiam. O primeiro livro da série, O Recruta, foi o escolhido pelos alunos do 5º e 6º ano para lermos na segunda parte do Clube de Leitura do cessante ano letivo.

Gostei muito de falar com os dois escritores e de trocar impressões sobre os seus livros. É uma forma muito enriquecedora de perceber o ponto de vista de quem escreve e de o comparar com o de quem lê.