Literatura Norte-Americana

O Ensaio



O Ensaio, de Eleanor Catton, é um livro estranho. Começa com um possível assédio sexual por parte de um professor de música a uma aluna menor e as implicações que o caso tem na escola e na família dessa aluna. Ao mesmo tempo, a escola de teatro que existe ao lado da escola de música ensaia uma peça baseada no que aconteceu. 
A premissa da história até parece normal, contudo, a autora usa um método invulgar de interação entre personagens que a torna fresca e complexa. Trata-se de um livro maduro e completamente ausente de lugares comuns (um feito, visto o tema já estar bastante vulgarizado). Para além da frescura da escrita, o que mais me impressionou na narrativa foi realmente a maturidade. As personagens estão bem construídas, pensadas e humanizadas e a história discorre com naturalidade, algo que provavelmente não se espera de uma escritora de 25 anos. O caso da professora de música foi o mais enigmático para mim. No início não a compreendia bem, nem sabia o que procurava, apesar de ser o elo comum a todas as personagens e, tal como o leitor, estar a par de tudo o que acontece. No entanto, no final, fui capaz de entender a sua razão de ser e as suas motivações. É uma personagem perfeita que espelha as complexidades que todas as personagens principais deviam ter.
É através de características como esta que percebemos que estamos perante um grande livro. Apesar de não ter sido umas das minhas leituras preferidas até à data, reconheço que se trata de uma obra boa, diferente, fresca, e com um estilo muito próprio e humano. O Ensaio é a primeira publicação de Eleanor Catton, foi nomeada para vários prémios, incluindo o Orange Prize, e elevou muito a fasquia para uma autora que não desiludiu e escreveu o mais recente vencedor do Man Booker Prize: The Luminaries. Definitivamente a ler.
Literatura Britânica

O Deus das Moscas

Uma das melhores leituras do ano. Só assim é que consigo descrever este maravilhoso livro que tão bem retrata a natureza humana. 
O Deus das Moscas, do escritor inglês premiado com um Nobel da literatura em 1980, William Golding, narra a história de um grupo de rapazes que fica perdido numa ilha, sem adultos, após um acidente que lhes matou os pais. Estes meninos, de várias idades, vão tentar criar uma sociedade de forma a sobreviverem aos perigos de um território novo e satisfazerem as suas necessidades básicas. O problema é que nem todos concordam com as regras estabelecidas e o grupo acaba por se dividir, impedindo-os de viverem em paz. 
Esta obra fala essencialmente sobre a natureza humana. Há rapazes com personalidades mais fortes do que outros que acabam por se autodenominarem líderes e subjugarem os outros por estes serem diferentes ou simplesmente mais novos e fracos. A voz da razão nem sempre está presente e, quando está, é ouvida com preconceito e arrogância.
O que creio que William Golding quis mostrar com este livro, e com um exemplo tão básico como rapazes perdidos numa ilha, foi que a natureza humana não é igual em todos os homens. Uns são mais pacíficos, outros mais violentos, uns são mais sensatos, outros mais aventureiros. O problema é que quando não se sabe conversar e a anarquia se instala, o grupo torna-se violento e selvagem per se, perde a noção da sensatez e acaba por praticar ações más que provavelmente nunca praticaria num ambiente civilizado.
Aconselho vivamente a leitura de O Deus das Moscas, um clássico de 1954 que ainda hoje dá que pensar. 
Literatura Britânica

A mulher que decidiu passar um ano na cama

Não há como negá-lo: o que me “vendeu” o livro foi o título. Não há dúvida. Quem é que muitas vezes não pensou em esquecer tudo e simplesmente passar uma temporada na cama, a dormir, a ler, a ver tv, ou a fazer outras coisas? Pois eram tantas as possibilidades de uma história diferente que devo ter elevado demasiado as minhas expectativas. 

A Mulher Que Decidiu Passar Um Ano Na Cama conta a história de Eva, uma mulher que abdicou de uma carreira para cuidar dos filhos gémeos e do marido e que, passados 18 anos, quando os rebentos vão para a universidade numa outra cidade, decide passar um ano na cama. Durante esse período acontece-lhe de tudo: descobre que o marido, que já não ama, a trai com uma colega do trabalho, que a sogra nunca gostou dela, que a mãe não a entende, e que o homem que lhe faz as obras no quarto e por quem se apaixona não está disposto a largar tudo por ela.
Este devia ser um livro trágico-cómico, com situações caricatas que nos deveriam levar às lágrimas de tanto rir. No entanto o que me pareceu é que a autora, Sue Townsend, (mãe do famoso Adrian Mole), se esforçou demasiado e não conseguiu passar para o papel as peripécias que o livro merecia. Eva está constantemente a sentir pena de si própria porque tudo de ruim lhe acontece. É um azar atrás de outro que em vez de nos produzir gargalhadas faz com sintamos pena da protagonista e não tenhamos curiosidade em saber o que lhe acontece a seguir. Não gostei de nenhuma personagem em particular porque todas me pareceram vazias e caricaturadas ao extremo. 
Apesar de eu ter ficado um pouco desiludida com o livro, admito que há algumas passagens interessantes e que a história possa agradar a muita gente. Eu é que esperava mais. E com um título destes o livro merecia seguramente bastante mais.
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…e o que os miúdos leem hoje em dia.

Um dos grandes sucessos infantojuvenis da atualidade é, sem dúvida, a série Cherub, do autor britânico Robert Muchamore. Com cerca de duas dezenas de livros publicados, esta coleção provou que os meninos e meninas afinal também gostam de histórias de espiões à la 007.
O primeiro livro da coleção, e provavelmente o que conheceu mais êxito, é O Recruta. Aqui conhecemos o protagonista da série, James, e a forma de como ele vai parar à Cherub, uma organização secreta que em vez de alistar espiões adultos alicia crianças por serem agentes “menos óbvios”. A história está cheia de momentos de ação, e a sua narrativa é parecida à de um filme. Enquanto pretende cativar o público-alvo com cenas divertidas e episódios tumultuosos, deseja, ao mesmo tempo, mostrar-lhe um pouco do passado recente inglês e ajudá-lo a compreender como funciona o atual mundo da política e da grandes organizações mundiais.
De forma geral, compreendo que o livro seja cativante para os mais novos porque tem cenas engraçadas que os fazem rir e fala de um miúdo da idade deles que se torna espião ao serviço do seu país, uma fantasia interessante e íntima que faz sonhar qualquer adolescente. No entanto, enquanto leitora mais experiente, devo admitir que achei o livro violento, preconceituoso para com os mais gordinhos e com uma história pouco original. Os clichés sucedem-se e as cenas acontecem tão rapidamente e de maneira tão desconcertada que por vezes não percebemos como passámos de um episódio para outro. As personagens, à exceção de James, são vazias, sem história, e acrescentam pouco à obra.
Não creio que O Recruta seja um livro que encha a vida de um adolescente nem que, muito menos, o marque nessa fase tão importante. É apenas mais um passatempo, divertido e cativante, sem dúvida, mas com pouco conteúdo e não muito memorável. Resumindo: O Corsário Negro 1 – 0 O Recruta.
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O que líamos antigamente…

Há vinte anos, a oferta de literatura infantil não era comparável à de hoje. Atualmente, a maioria das livrarias tem uma secção bastante grande de livros infantis e juvenis que às vezes até a mim dão vontade de ler. De autores portugueses a estrangeiros, de banda desenhada a romances, de mistérios a biografias… A gama é absolutamente esmagadora, apelando a um público cada vez mais difícil de cativar. 
Quando eu era criança ainda não havia computadores, telemóveis, consolas de jogos… Os gadgets que então possuíamos eram Game Boy, aparelhagens, walkmans, discmans, beeps, e pouco mais. A televisão conservava-se, assim, rainha e senhora do nosso tempo livre, e não líamos mais do que os jovens de hoje. Líamos diferente: Os Cinco, Uma Aventura…, Os Sete, os obras de Alice Vieira, A Lua de Joana, os almanaques da Turma da Mónica… Ou o mais comum: adaptações das grandes obras clássicas da literatura universal para jovens.
Uma dessas adaptações foi O Corsário Negro, de Emilio Salgari (autor de Sandokan), editado pela Verbo (hoje Babel). Este livro conta a história de um corsário que deseja vingar a morte dos três irmãos, assassinados pelo mesmo homem: o governador de Maracaibo, Duque Van Guld. Temido por todos, o Corsário Negro é uma lenda do alto-mar. Consegue sempre o que quer e segue um código de conduta que valoriza a honra e a justiça acima de tudo. Jurou há muito matar o Duque e todos os membros da sua família. No entanto, sofre o azar de se apaixonar, sem saber, pela filha do inimigo… 
O Corsário Negro é uma série clássica italiana do final do século XIX, cheia de aventura e romance que apela tanto a jovens como a adultos mais exigentes. Lê-se num ápice e deixa-nos com vontade de retroceder no tempo e brincar aos corsários. A escrita é apaixonante, com descrições lindas da selva e das primeiras cidades espanholas da América Latina. As personagens principais estão muito bem construídas, e cada uma tem um papel importantíssimo na trama, o que leva a crer que se lá não estivesse a história perderia. É, sem dúvida, um livro memorável que agrada a miúdos de ontem e a miúdos de hoje. Recomendo-o vivamente.
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Autógrafos

A 84ª Feira do Livro de Lisboa não serviu apenas para comprar livros, foi também um espaço de encontro entre leitores e escritores que puderam trocar ideias sobre livros, leituras e experiências de vida. Eu também gosto de me encontrar com autores cuja obra é importante para mim, e, neste ano, quis pedir o autógrafo a dois que claramente se destacaram no meu percurso literário de 2013.
A primeira é uma senhora que eu já encontrei várias vezes em fóruns e apresentações de livros:  Teolinda Gersão. Na minha tese de mestrado, usei o seu livro A Cidade de Ulisses como exemplo de obra a ler numa aula de PLE. Quando lhe pedi o autógrafo dei-lhe uma cópia da tese, que ela recebeu com grande surpresa e carinho. Espero que tenha gostado da análise literária que fiz ao seu livro.
O segundo é um escritor juvenil norte-americano que está muito em voga entre os jovens do nosso país: Robert Muchamore. Ficou famoso com a série CHERUB, uma sucessão de livros que contam a história de uma organização secreta que em vez de ter agentes adultos tem agentes adolescentes, pois as crianças levantam menos suspeitas quando espiam. O primeiro livro da série, O Recruta, foi o escolhido pelos alunos do 5º e 6º ano para lermos na segunda parte do Clube de Leitura do cessante ano letivo.

Gostei muito de falar com os dois escritores e de trocar impressões sobre os seus livros. É uma forma muito enriquecedora de perceber o ponto de vista de quem escreve e de o comparar com o de quem lê.

 

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84ª Feira do Livro de Lisboa

E eis a minha perdição deste ano da Feira do Livro de Lisboa. 20 obras fresquinhas e acabadinhas de chegar à minha estante, que terão de esperar um pouco até serem lidas, pois os primos foram adquiridos antes e estão à frente na fila. Alguns destes livros foram comprados sem aviso e com desconto, outros foram comprados de propósito, com um preço que fez oscilar um pouco a minha carteira, que passeou mais na minha mão do que é costume (sortuda). Contudo, são todos muito bem-vindos e todos me deixam com uma grande vontade de os ler.

São eles:

The GoldFinch, Donna Tartt
As Aventuras de Augie March, Saul Bellow
Nós, os afogados, Carsten Jensen
O Som e a Fúria, William Faulkner
Fúria, Salman Rushdie
Middlesex, Jeffrey Eugenides
Bem me quer, Mal me quer, Pearl S. Buck
O Sol Nasce Sempre (Fiesta), Ernest Hemingway
Triologia dos Senhores da Guerra, Bernard Cornwell
Rebelde, Bernard Cornwell
As Desventuras do Sr. Pinfold, Evelyn Waugh
A Lebre de Vatanen, Arto Paasilinna
Flush, Uma Biografia, Virginia Woolf
Histórias de Londres, Enric González
A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Washington Irving
O livro da Selva, Rudyard Kipling
O Vento nos Salgueiros, Kenneth Grahame
O falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello

Literatura Europeia

Dracula

Provavelmente teria sido mais adequado ler este livro em outubro, porém, como o descarreguei gratuitamente para o Kindle e li o primeiro capítulo de imediato, foi impossível deixá-lo. 
Dracula foi escrito pelo irlandês Bram Stoker e publicado pela primeira vez em 1897. Na altura, os leitores não souberam o que pensar do livro, porém, o jornal Daily Mail não teve dúvidas em classificá-lo como melhor do que as obras de Mary Shelley e Edgar Allan Poe. Segundo alguns historiadores literários, Dracula tem mais relevância para os leitores dos séculos XX e XXI do que para a geração que o viu nascer.
Este romance gótico começa por narrar a viagem do advogado inglês, Jonathan Harker, à Transilvânia, terra do Conde Dracula, para onde é enviado de modo a tratar da papelada na preparação da viagem do Conde a Londres e consequente compra de uma propriedade. No entanto, o jovem começa a ser alvo de acontecimentos estranhos e assustadores, e aos poucos vai-se apercebendo de que o conde é um vampiro e o mantém preso no seu castelo. Com receio de enlouquecer, Jonathan aponta tudo o que vive e presencia no seu diário, o que mais tarde se revela utilíssimo. Em Whitby, esperam-no a sua noiva, Mina Murray, e os seus amigos Lucy Wenstera, Dr. John Seward, Quincey Morris e Arthur Holmwood. Jonathan consegue escapar e é internado num hospital de freiras. Em Whitby, Lucy também começa a ser objeto de eventos bizarros, pelo que o Dr. Seward, um médico psiquiátrico que não sabe o que fazer, chama o seu antigo professor Abraham Van Helsing para o ajudar. É a partir daqui que se inicia uma verdadeira caça ao vampiro e aos porquês de todas aquelas ocorrências.  
Um dos pormenores mais engraçados do livro é o facto de todo ele ser escrito em forma de diário e/ou cartas. Todas as personagens vão contando o seu ponto de vista à vez, relatando ao leitor não só os acontecimentos que vão tendo lugar, mas também a forma de como estes as afetam psicológica e emocionalmente. Assim, o espectador tem uma visão privilegiada da história, entrando nela a fundo e apercebendo-se de tudo o que se passa em primeiríssima mão. Trata-se de uma narrativa que não tem pressa em ser contada, pelo contrário, vai-se desenrolando a um ritmo agradável, sem se tornar aborrecida, nem rápida demais. Creio que o leitor dá conta de que foi um prazer para Stoker escrever este livro.
Diz-se que o escritor se inspirou em Henry Irving, um dos atores mais conhecidos do seu tempo e para quem Stoker trabalhava, para escrever Dracula. A sua ideia era que a obra fosse transposta para o teatro (tendo o próprio Stoker feito a adaptação), e que o Conde tivesse sido interpretado por Irving. Porém, tal não aconteceu porque o ator não se sentiu à vontade para o fazer. Atualmente, a teoria mais aceite é a de que Bram Stoker se inspirou no principe de Valáquia, Vlad Draculea, o Empalador, para construir a personagem. Vlad foi um aristocrata romeno, famoso pelo seu desejo de independência dos impérios turco e otomano, e pelo sadismo e crueldade com que tratava os seus prisioneiros. No livro, Van Helsing chega a compará-lo ao vampiro, dizendo: “(…) He must, indeed, have been that Voivode Dracula who won his name against the Turk, over the great river on the very frontier of Turkey-land. (…)”. (Cap. 18, pg. 145). Ainda hoje o antigo castelo de Vlad é conhecido como o castelo de Drácula.

Gostei muito de ler este livro. Está muito bem escrito (o facto de ser um epistolário ajuda à  compreensão da história e faz com que sintamos uma empatia mais vincada em relação às personagens), tem um ritmo excelente e os acontecimentos são assustadoramente requintados. É uma obra que mexe connosco e nos acompanha mesmo depois de a termos terminado de ler. Não é por acaso que já foram feitas tantas adaptações cinematográficas (sendo as melhores a de 1931 com Bela Lugosi no melhor Dracula de sempre, e a de 1992, de Francis Ford Coppola), ajudando à mitificação da personagem. É, sem dúvida, um Clássico da literatura moderna.
Literatura Juvenil · Literatura Norte-Americana

Archie Comics

Como já tenho escrito neste blogue, estou a descobrir o mundo da banda desenhada. Quando era pequena gostava muito dos almanaques da Turma da Mónica e devo ter lido centenas (se não milhares) ao longo dos anos da minha adolescência. Agora que já sou adulta, apetece-me ver que tipo de banda desenhada existe no mercado para os mais velhos. Já li Maus, Calvin & Hobbes e tenho vontade de ler Corto Maltese. Porém, numa visita recente a Nova Iorque, dei de caras com uma das bandas desenhadas mais antigas e icónicas dos Estados Unidos: Archie Comics.
Editada no inicio dos anos 40 do século vinte, Archie Comics é uma banda desenhada que tem como personagens principais um grupo de adolescentes: Archie Andrews, Betty Cooper, Veronica Lodge, Reggie Mantle e Jughead Jones, todos amigos e membros da banda de rock&roll, The Archies. A personagem principal, Archie, é um adolescente desastrado e mau aluno, sempre metido em sarilhos devido à má sorte ou às suas ideias mirabolantes. Como é de esperar sai dessas situações quase sempre ileso e num contexto quase cómico-trágico. 
Pode definir-se o grupo de amigos como tipicamente americano, isto é, cada um à sua maneira representa um esteriótipo do americano branco que aparecia muito no cinema dos anos 30 e 40. Archie é o adolescente de classe média que não quer estudar e se vê dividido entre duas raparigas: Betty e Veronica, Betty é uma loira estonteante que deseja subir na vida, ter uma apartamento no Upper East Side, passear o cão e vestir nas melhores lojas, Veronica já faz tudo isso, pois é a filha coquete de um politico influente de Washington, Reggie é claramente Republicano e deseja tornar-se politico ou advogado, e Jughead é o músico/artista relaxado do Soho que deseja criar e ser reconhecido por isso. Algumas destas personagens tiveram tanto sucesso que conseguiram ter as suas próprias publicações em BD como Betty e Veronica.
As histórias são leves, cómicas e feitas a pensar no público adolescente. Ainda assim, se um adulto não tiver mais nada para ler e der de caras com um livrinho do Archie, ou de outra personagem do grupo, não ficará aborrecido. Afinal, estas histórias tolas, de vez em quando, também animam a alma.