Literatura Europeia

A honra perdida de Katharina Blum

Nunca tinha ouvido falar deste livro, nem do seu autor, o prémio Nobel Heinrich Boll. Li-o porque faz parte da minha coleção Visão/Novis e porque a premissa me pareceu interessante.
A honra perdida de Katharina Blum (1974) fala do sensacionalismo de um jornal tablóide e do clima político radical que se vivia na Alemanha dividida. Katharina Blum é uma jovem governanta que vê a sua vida arruinada por um jornal tablóide devido a um crime cometido pelo homem com quem se acaba de relacionar. Zeitung, o jornal em causa e um disfarçado Bild-Zeitung, aproveita o escândalo para promover as suas próprias mensagens políticas sem se importar com a vida de Katharina, nem com a vida dos que a rodeiam.
A história é muito interessante, uma das mais originais que já li. Não há muitas obras de ficção que se debrucem sobre o poder da comunicação social, especialmente o tablóide, nem com as consequências que as suas ações têm na vida das pessoas. Por isso, quando nos deparamos com uma, ainda por cima passada num período histórico instável e crítico, a leitura torna-se mais cativante. A escrita de Henrich Boll não me seduziu (e a tradução desta edição em particular não é a melhor), porém, a narrativa segue-se bem e mantém o ritmo stressante ao longo do livro.
Achei esta obra muito bem pensada, original, atual, e relevante para a nossa contemporaneidade. Recomendo-a vivamente.
Literatura Europeia · Literatura Juvenil

A Família dos Mumins

 

Como sabem, por vezes gosto de ler literatura infanto-juvenil. Acho que é para “recuperar” algum tempo perdido da infância e também por mera curiosidade, pois as crianças e os jovens de hoje em dia têm tanta oferta que ocasionalmente fazem ciúmes aos adultos. Desta vez, o livro escolhido foi um clássico da literatura finlandesa: A Família dos Mumins, de Tove Jansson.
Sempre senti um grande fascínio pela Escandinávia. Já conheço todas as suas capitais e um dos meus sonhos é conhecer outras cidades mais desconhecidas, porém igualmente interessantes. Após uma viagem de trabalho à Finlândia, o meu marido trouxe-me um peluche deveras engraçado que eu nunca tinha visto: um Mumin. Disse-me que se tratam de personagens muito famosas e apreciadas pelas crianças escandinavas e que se encontram em todas as livrarias e lojas de brinquedos. Fiquei contente por aprender um pouco mais sobre a cultura finlandesa e, alguns anos após este episódio, quando vi na minha livraria local as edições portuguesas de A Família dos Mumins fiquei agradavelmente surpreendida e, claro, tive de as comprar.
A Família dos Mumins conta as peripécias de uma família de Mumins e respetivos amigos, que vivem num universo fantástico criado para satisfazer o imaginário infantil. As suas aventuras, apesar de um pouco estranhas, são uma homenagem às brincadeiras das próprias crianças, incutindo-lhes ao mesmo tempo valores importantes como a amizade, o amor, o respeito e o instinto de sobrevivência. São histórias diferentes das dos restantes livros para crianças tradicionais, o que faz com que a leitura se torne uma experiência diferente para adultos e miúdos.

Recomendo vivamente estas obras a todos os graúdos que as queiram ler e especialmente às mães e pais que gostam de ler com os filhos. As obras estão repletas de ilustrações divertidas, feitas pela própria autora, e as edições da Relógio D’ Água são muito bonitas.

Literatura Europeia

O Falecido Mattia Pascal

Quando andava a estudar italiano, a minha professora disse-me que um dia tinha de ler este livro, um dos mais hilariantes da literatura italiana. Este ano, li-o. E, sim, é mesmo hilariante.
O Falecido Mattia Pascal (1904) de Luigi Pirandello, prémio Nobel em 1934, é um clássico da literatura moderna italiana. Conta a história trágica, embora cómica, de Mattia Pascal, um homem que aproveita o equívoco da família que pensa que ele está morto para começar uma nova vida afastada de tudo e de todos. Mattia parte para Monte Carlo onde acaba por fazer fortuna nos casinos. Decide então viajar pelo mundo e assentar no quarto alugado da casa de uma família respeitada situada numa cidade onde ninguém o conhece. Acaba por se apaixonar pela filha do senhorio e apercebe-se de que não pode continuar a viver incógnito, pois tal impede-o de desfrutar plenamente da vida. Quando conclui que tem de enfrentar os seus antigos fantasmas e dizer à sociedade que sempre o conheceu que afinal se encontra vivo, tem uma grande surpresa.
A temática trágica-cómica desta obra não é única no universo da literatura europeia. Livros como Dom Quixote, Cândido ou Os cadernos de Pickwick são exemplos disso, histórias onde os protagonistas, por culpa própria ou não, dão consigo em situações bizarras que acabam por conduzi-los a caminhos obscuros mas jocosos.
Foi um prazer ler O Falecido Mattia Pascal. É uma narrativa divertida, fácil de seguir e com muitas camadas filosóficas que acabam por dar à história uma profundidade maior. Recomendo.
Literatura Britânica · Literatura Juvenil

Peter Pan

Quando eu era pequena, o filme da Disney Peter Pan era um dos meus preferidos. Adorava a personagem Wendy, que achava muito bonita e madura para a idade, e as peripécias do Capitão Gancho com Mr. Smee e o crocodilo. 
Peter Pan ou o rapaz que não queria crescer, de J. M. Barrie, começou por ser uma peça de teatro, adaptada a romance pelo próprio Barrie, seis anos depois, com o nome de Peter Pan e Wendy. A personagem de Peter Pan terá sido inspirada em David, irmão do escritor que morreu enquanto fazia esqui um dia antes de cumprir os 14 anos. Barrie e a mãe sempre se recordaram dele enquanto criança pelo que Peter Pan ganhou a alcunha de rapaz que nunca cresceu. 
Na história, Peter Pan terá cerca de 11, 12 anos e fugiu de casa quando bebé para não crescer. Levou consigo os Meninos Perdidos, de quem é lider, um grupo de crianças abandonadas pelos pais após terem “caído dos carrinhos de bebé”. Peter expulsa-os da Terra do Nunca assim que eles começam a crescer, pelo que o grupo nunca é o mesmo. Na ilha, também vivem os peles vermelhas, as fadas, os piratas e os animais selvagens. A fada mais famosa é Sininho, companheira de Peter Pan, e o capitão dos piratas é Gancho, o arqui-inimigo de Peter. O rapaz cortou-lhe a mão direita e deu-a de comer ao crocodilo, que agora deseja o resto. Ainda não conseguiu comê-lo por ser sempre denunciado pelo tique-taque de um relógio que engoliu.
O mais interessante na leitura do livro é o facto de compreendermos melhor as personagens. Na obra de Barrie, os protagonistas são muito mais profundos e intensos do que, por exemplo, nas adaptações cinematográficas da Disney. Peter Pan é um menino imaturo e convencido, que não sente grande empatia pelos outros. O Capitão Gancho e os pitaras são pessoas cruéis que matam sem dó nem piedade. Wendy tem um papel preponderante, pois serve de elo de ligação entre o mundo real e o imaginário, estando sempre consciente de onde veio e de quem é, e incentivando os Meninos Perdidos a saírem da ilha e a terem uma mãe e uma vida normal. Aliás, nesta obra, as mulheres, principalmente Wendy e a mãe, Mrs. Darling, são retratadas como a voz da razão e da responsabilidade. É com elas e por causa delas que a história se resolve e todos têm um final feliz. Também é curioso que, no final, Peter regresse sempre para levar para a Terra do Nunca as filhas e nunca os filhos. Nenhuma das personagens masculinas tem boa reputação. Nem Mr. Darling, que acaba por ser apresentado como alguém snob e demasiado preocupado com a opinião dos outros.
Gostei muito deste livro. Barrie compreende perfeitamente as crianças e o mundo infantil, e consegue expô-los de uma forma divertida e direta que reflete a admiração que sentia pela família Llewelyn Davies, inspiração da sua obra. Apesar de ser, por vezes, um pouco violento, Peter Pan é um livro juvenil original e engraçado. Recomendo.
Literatura Europeia

O último dia de um condenado

Um livro negro. É assim que poderíamos descrever esta pequena história de Victor Hugo sobre um homem condenado à morte pela guilhotina. 
Não sabemos o nome do condenado e não importa. O que sabemos é que cometeu um crime, provavelmente homicídio como é deixado no ar pelo autor, e que vai morrer dentro de poucas horas. Ele conta-nos, em jeito de diário, os seus últimos momentos passados entre a prisão, a Conciergerie e a Place de Gréve, atual Place de L’ Hôtel-de-Ville (uma das mais bonitas de Paris), onde será então executado. O tom do condenado é sempre muito angustioso e de incompreensão para com a sua situação, não entende por que razão a justiça o mata por ter cometido um crime e ainda menos por que motivo a sua execução é vista como um espectáculo pelos muitos populares que se dirigem à praça para aplaudir a morte de um condenado. Ao longo da narrativa, o seu desespero aumenta para refletir a aproximação do momento da morte. 
Victor Hugo sempre foi conhecido por ser um escritor defensor de causas sociais, como demonstram algumas das suas obras mais emblemáticas: Os Miseráveis (1862), Nossa Senhora de Paris (1831) (mais popularmente conhecido como O Corcunda de Notre Dame graças à adaptação da Disney), e O último dia de um condenado (1829). Esta última serviu para o escritor manifestar publicamente a sua posição contra a pena de morte. Victor Hugo esperava que a sua popularidade junto dos franceses pudesse abrir o debate senão mesmo abolir um tratamento que considerava desumano. Contudo, nem o maior escritor de França do seu tempo conseguiu parar a guilhotina. O último condenado à pena de morte pela guilhotina morreu em 1977, 148 anos após a publicação do seu livro. Sim, em 1977. Há 39 anos. 
Recomendo a leitura de O último dia de um condenado, não só porque é um clássico da literatura francesa, mas também porque revela o pensamento progressista de Victor Hugo para a sua época e nos mostra como, mesmo no pior dos casos, a pena de morte provavelmente não é sempre a melhor solução.
Literatura Juvenil · Literatura Norte-Americana

O Príncipe e o Pobre


Este foi o segundo livro que li de Mark Twain, depois de A Viagem dos Inocentes. Não desapontou e até foi engraçado. 
O Príncipe e o Pobre conta a história de duas crianças parecidas como gostas de água, o príncipe herdeiro ao trono inglês, Eduardo, e um rapaz pobre de Offal Court chamado Tom Canty. Desde que o Padre Andrews começou a ensinar Tom a ler e a escrever que a admiração do menino pela monarquia aumentou, talvez para fugir à sua própria realidade miserável. Certo dia, após brincar aos reis, o seu jogo preferido, Tom dirigiu-se ao Pálacio de Westmisnter onde, por acaso, viu o verdadeiro Príncipe Eduardo a ter uma aula de esgrima. Espantado por ver um membro da realeza, Tom acaba por se juntar demasiado ao gradeamento do palácio e é agredido por um guarda. Depois de ver a cena, Eduardo repreende fortemente o vigia e convida Tom a entrar para comer e descansar. Já nos aposentos reais, os dois rapazes reparam em como são parecidos e, por brincadeira, decidem trocar de roupa. Nesse momento, Eduardo, vestido como um maltrapilho, desce até ao gradeamento para, mais uma vez, repreender o guarda, contudo, este não o reconhece e acaba por expulsá-lo do Palácio sob os risos de uma multidão enorme. É aqui que começa a aventura. 
A escrita de Mark Twain, apesar de um pouco datada, é simples e cativante. Percebe-se que a sua ideia de trocar de lugar dois meninos com destinos tão diferentes o divertiu imenso e lhe deu a oportunidade de criticar a corte inglesa e algumas das suas leis desumanas e incompreensíveis. Ao mesmo tempo, recuperou uma personagem histórica, Eduardo VI, que apesar de ser filho e irmão de dois dos maiores monarcas ingleses, Enrique VIII e Isabel I, respetivamente, passou completamente despercebido na História por ter sido coroado aos nove anos de idade e por ter morrido aos quinze. Twain valeu-se deste facto para fazer dele uma personagem fictícia que aprende a viver como os seus súbditos e que precisamente por isso, acaba por se tornar um rei demasiado bondoso e brando (o completo oposto do que foi na realidade o seu reinado, governado pelo Concelho de Regência devido à menoridade do rei). 
Este clássico, tantas vezes adaptado ao cinema, é um livro muito bonito que certamente encantará miúdos e graúdos. Recomendo. 
Literatura Britânica

O espião que saiu do frio

Estava um pouco reticente ao pegar neste livro porque, como escrevi aqui no blogue, não gostei do único livro que lera de John le Carré, O Espião Perfeito. Contudo, decidi dar uma segunda oportunidade ao escritor e arriscar esta obra que já estava há algum tempo na minha estante. Ainda bem que o fiz.
O espião que saiu do frio é um romance sobre a espionagem no tempo da Guerra Fria. A personagem principal, Alec Leamas, é um agente de campo britânico responsável pela espionagem da Alemanha Ocidental contratado para eliminar Mundt, líder dos Serviços Secretos da Alemanha de Leste e suspeito de ser um agente duplo britânico. 
A narrativa está muito bem desenvolvida, o leitor acompanha Leamas ao longo da história sabendo apenas o que ele sabe e vendo apenas o que ele vê, pelo que as reviravoltas são surpreendentes tanto para um como para outro. Le Carré soube criar uma atmosfera de desconfiança e suspeição que gera momentos de pura adrenalina em que por vezes senti o meu coração a bater um pouco mais depressa com a ansiedade de saber o que se passaria a seguir. O final é inesperado e absolutamente brilhante, brilhante, perfeito para uma trama frenética e bastante verosímil em que a espionagem e a contra-espionagem são rainhas. 
Como Graham Greene uma vez disse sobre O espião que saiu do frio: “O melhor romance de espionagem que alguma vez li.”
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Feira do Livro de Lisboa 2016

Este sábado, dia 28 de maio, fui à recém inaugurada Feira do Livro de Lisboa 2016. O dia estava bonito e a lista de autores para as sessões de autógrafos (o que verdadeiramente me interessava) era bastante apelativa. 
Fui em busca dos meus livros que queria ver autografados e recolhi três: O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa; A Nau de Ícaro, de Eduardo Lourenço; A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Joel Dicker. Destes, ainda só li o primeiro. 
Nas sessões de autógrafos fico geralmente muito envergonhada e não consigo manter uma conversa decente com o escritor. Limito-me a cumprimentá-lo, a dizer que gostei muito do livro, caso o tenha lido, a dizer o meu nome, a agradecer, quiçá a tirar uma fotografia e a ir-me embora porque há mais gente na fila. Foi o que aconteceu desta vez. Os escritores foram muito simpáticos e amáveis, o Eduardo Lourenço comentou comigo o ambiente da feira e o Joel Dicker, ao ouvir-me cumprimentá-lo em francês, perguntou-me se eu falava a sua língua e fico contente quando lhe pedi o autógrafo em francês. 
Também aproveitei para comprar alguns livros a preço de saldo. Poucos, porque estou a tentar reduzir ao máximo a minha pilha de livros para ler. Foram eles;
Silas Marner, de George Eliot
A Pair of Blue Eyes, de Thomas Hardy
Rob Roy, de Sir Walter Scott (já o li mas não tinha a cópia do livro)
Peter Pan, de J. M. Barrie
A Arte da Guerra, de Sun Tzu
No próximo sábado voltarei à Feira do Livro para assinar outras obras.
Até já!

Literatura Europeia

O mapa e o território

Como já referi aqui no blogue, estive de lua-de-mel em França há cerca de um mês. Quando voltei para Portugal, tive uma enorme vontade de ler escritores franceses. O mais óbvio seria ter lido Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo, que já está há algum tempo na minha estante, mas, não sei porquê, apeteceu-me ler outro livro. Prémio Goncourt em 2010, O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq. 
A única referência que eu tinha da obra vinha na sua capa: um autocolante a dizer “Vencedor do Prémio Goncourt”, o prémio literário de França, e tradução de Pedro Tamen, e um comentário do jornal espanhol El Mundo a dizer que Michel Houellebecq é o maior escritor francês vivo. Prometia. E pouco desapontou. 
A escrita de Michel Houellebecq é hipnotizante, faz-nos querer virar a página mesmo quando a narrativa está um pouco perdida e não faz grande sentido. A história em si é uma critica ao mundo e aos ídolos do nosso tempo, feita através do meio artístico contemporâneo. O autor refere várias celebridades como agentes fazedores de uma cultura que não é carne nem peixe, centrada na veneração do “eu” para se fazer valer. Em contraposição, incluiu-se a si próprio como personagem na trama para refletir a imagem do último dos grandes pensadores que só quer ser deixado em paz para trabalhar a arte pela arte, e que se opõe inconscientemente aos que a trabalham como meio de choque gratuito para enriquecer.
O Mapa e o Território é um grande livro. Mais do que uma leitura diferente e agradável, é um murro no estômago por parte de um autor polémico, que critica a nossa sociedade quase pela calada, mas que é muito certeiro nos tiros que dá e nas perguntas que faz. Recomendo vivamente.
Literatura Europeia

Paris

Este livro desconhecido foi-me oferecido pela minha cara-metade antes de irmos de lua-de-mel, para Paris. Levei-o comigo e li-o lá.
Julien Green nasceu e morreu em Paris, mas nunca se sentiu verdadeiramente um parisiense, tendo conservado a cidadania americana e negado sempre a francesa ao longo da vida. No entanto, o amor que nutria pela cidade era tal que, já no fim, decidiu homenageá-la com uma obra.
Paris (1991) é uma ode à capital francesa. Fala de vários momentos que o autor lá passou, do que mais gostava de fazer quando lá vivia, de pessoas, dos turistas, e de vários problemas que parecem persistir ainda nos dias de hoje. Creio que quem nunca foi a Paris não poderá desfrutar do livro como uma pessoa que já lá tenha estado, e se o ler enquanto lá estiver, como foi o meu caso, tanto melhor porque a leitura ganha uma nova magia.
Gostei muito de Paris. Trata-se de um livro bem escrito e de um elogio merecido por parte de alguém que conheceu a cidade como ninguém e que quis partilhar a sua Paris com o resto das pessoas para quem também ela é especial. Recomendo, principalmente, in loco.