Literatura Britânica · Literatura Europeia

The Invisible Man

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Não gosto de ficção científica, nunca leio. Nem vejo na televisão, nem no cinema. É simplesmente um tema que não me atrai. No entanto, ao ler a premissa deste livro, fiquei com vontade de o ler e de sair um pouco da minha zona de conforto.

A primeira vez que ouvi falar da história do homem invisível foi no museu de cera Grévin, em Paris, tinha eu uns 11 anos. Tratava-se de uma estátua não-estátua, ou seja, de roupas penduradas por arames que de certa forma davam a ideia de um homem sem corpo. Deve ter sido mais ou menos o que os personagens sentiram quando viram a personagem principal pela primeira vez.

H. G. Wells escreveu o seu romance em 1897 e o que impressiona é a modernidade da ideia. Griffin é um jovem cientista que se dedica ao estudo da retracção dos corpos, algo que os impede de absorver e refletir a luz tornando-se, deste modo, invisíveis. Depois de utilizar um gato como cobaia, decidi experimentar a poção em si próprio e tornar-se invisível. A princípio, a sensação de poder e impunidade é incrível, e Griffin sente-se muito feliz. Todavia, não pensou que um corpo transparente também tem de vestir roupas para não ter frio, de comprar comida para não morrer à fome, e que cada vez que pega num objeto este flutua, parecendo estranho aos demais. A sua vida torna-se um inferno e ele ainda não tem um antídoto que o cure…

Esta ideia é simplesmente genial. Não é à toa que H. G. Wells é o escritor de ficção científica mais admirado e um dos mais prolíferos, com clássicos como A Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau. A sua imaginação é fascinante, a sua escrita é fluída e sem grandes floreados, uma vantagem em livros repletos de ação que por vezes mais parecem guiões de Hollywood (mesmo tendo sido escritos no séc. XIX). Precisamente por este motivo, creio que o autor peca por não desenvolver melhor as suas personagens a nível psicológico e em não explicar as suas ações.

Apesar disso, o livro é um prazer. A história é emocionante, a escrita é cativante e o factor “ficção científica” não incomoda os leitores menos habituados, como eu. É um clássico e eu recomendo-o.

Literatura Europeia · Literatura Portuguesa

As Crónicas de Fernão Lopes

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Decidi ler mais um livro português neste meu mar de literatura estrangeira.

Lembro-me de na escola e na faculdade grande parte dos professores de História e Português aconselharem a leitura de As Crónicas de Fernão Lopes a todos os alunos. Percebo porquê. Trata-se do trabalho de um dos primeiros “jornalistas” com informação privilegiada junto de governantes e pessoas influentes, que punha no papel (num tempo em que o alfabetismo era raro) o que acontecia nos mais alto círculos reais.

Apesar de ter passado grande parte da vida a relatar o que testemunhava, Fernão Lopes chega-nos sobretudo como autor de três crónicas essenciais para melhor entendermos a nossa História: as de D. Pedro, D. Fernando e D. João I. Nestes documentos, o cronista do reino conta-nos o que ocorria na corte destes três reis, como viviam, com quem conviviam, como arranjavam os seus casamentos e, principalmente, como viveram os conturbados anos da crise de sucessão de 1383-85. O leitor fica a saber o que de importante se passava nos bastidores e como até nesse tempo a política e o poder já estavam desenvolvidos.

A escrita de Fernão Lopes é, claro está, datada, porém as edições contemporâneas das Crónicas estão adaptadas ao português atual, o que faz com que qualquer pessoas as consiga ler. Ultrapassada a barreira linguística, o leitor depara-se com uma escrita clara, descritiva e até opinativa, ficando assim a saber o que Fernão Lopes pensava dos episódios ocorridos.

Recomendo vivamente a leitura das Crónicas de Fernão Lopes para quem gosta de ler sobre a monarquia, para quem gosta de História, ou simplesmente para quem tem curiosidade sobre o passado do nosso país.

Literatura Norte-Americana

The Catcher in the Rye

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Acabo de ler um livro inesquecível: The Catcher in the Rye (1951)

Holden Caulfield é um jovem adolescente nova-iorquino que acaba de ser expulso de um dos melhores colégios do país. Como não é a primeira vez que acontece, Holden receia ir para casa e enfrentar os pais, contudo, como também não quer ficar na escola até as férias de Natal começarem, decide ir-se embora e deambular pela cidade até descobrir o que fazer.

Sem rumo e desapontado com a vida, Holden instala-se num hotel barato, frequenta bares e discotecas, fuma e tenta beber álcool sempre que pode. Nessa noite, e contra os seus princípios, marca um encontro com uma prostituta para ver se perde a virgindade e ganha experiência sexual. No entanto, tudo o que recebe é uma discussão com o chulo e um murro na barriga. Deprimido, Holden liga a uma antiga amiga e pede-lhe para ela fugir com ele, algo que naturalmente não acontece. Decide, então, falar com a sua irmã mais nova, Phoebe, uma menina de dez anos que parece ser a única pessoa que o compreende. É com ela que Holden vai perceber o significado da metáfora que dá sentido à sua vida.

Não é por acaso que The Catcher in the Rye é considerado um dos melhores romances do século XX. O estilo de escrita de Salinger é absolutamente sublime e, na minha opinião, nada datado. O narrador é Holden Caulfield, um adolescente perdido e desiludido com o mundo em busca do sentido da vida nos diversos personagens com que se depara ao longo da sua deambulação por Nova Iorque. Acaba por encontrá-lo em Phoebe, uma criança ainda inocente que representa o otimismo e a espontaneidade que o jovem tanto procura.

Esta obra representa sobretudo a fase da adolescência, quando nos começamos a aperceber de que o mundo não é perfeito, de que há pessoas más e de que a cultura popular pode, por vezes, incapacitar a inteligência dos mais tenazes. J. D. Salinger descreve de forma tão crua e coloquial esta etapa da vida que o seu livro foi banido de escolas e bibliotecas americanas nas décadas de 60 e 70.

The Cather in the Rye é intemporal. Eu própria tive alguma dificuldade em idealizá-lo nos anos 50 e não atualmente. Salinger conseguiu retratar na perfeição, e sem caricaturismos, a adolescência. A perda da inocência. O jovem idealista e desiludido. O verdadeiro rebelde sem causa. Aquele que quer salvar todas as almas incorruptas de caírem no precipício da realidade. Recomendo vivamente.

Literatura Europeia · Literatura Portuguesa

O mundo em que vivi

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Uma das minhas irmãs mais novas teve de ler este livro no 9º ano. Disse que era muito bom e aconselhou-mo vivamente. Na altura, eu andava no secundário e tinha a minha dose de leitura para fazer, sendo da área de Humanidades. No entanto, fiquei sempre com curiosidade para ler O mundo em que vivi (1943), de Ilse Losa. Hoje, com 32 anos, matei o bichinho.

Rose, uma menina judia de tenra idade, vivia em casa dos avós no final da I Grande Guerra quando o pai vai buscá-la para que ela passe a viver com eles e os irmãos numa cidadezinha próxima, na mesma altura em que Hitler ganha as eleições alemãs e incita ao sentimento anti-semita. Pouco depois, estala a II Grande Guerra.

O mundo em que vivi foi a forma que Ilse Losa arranjou para fazer as pazes com o seu país natal. A história da infância e adolescência de Rose confude-se com a da própria autora, nascida em 1913 no seio de uma família judia alemã e obrigada a emigrar, neste caso para Portugal, para fugir ao Nazismo. Nesta história ficcional, porém autobiográfica, Rose descreve como é viver durante a transição das duas guerras e fazer parte de uma família judia que sempre foi respeitada e deixou de o ser. O relato é sempre na primeira pessoa, cru, honesto e surpreendido, mas com uma dose de bondade e empatia que nunca esmorecem.

Adorei este livro. Atrevo-me a dizer que foi uma das minhas leituras preferidas do ano. Ilse Losa escreve maravilhosamente, a história é fascinante e chega até a ser original, pois fala de um intervalo de tempo que não costuma surgir amiúde na literatura: os anos entre as guerras. A minha irmã tinha razão. E eu também o recomendo vivamente.

Literatura Europeia

A verdade sobre o caso Harry Quebert

Não costumo ler bestsellers. Não tenho nada contra eles, pelo contrário, já li vários, uns melhores, outros piores. Contudo, pela minha experiência, trata-se de livros com pouco conteúdo, excessivamente publicitados por grandes editoras que pretendem vender milhares de exemplares. Neste caso específico, o fenómeno de popularidade não foi tão elevado no nosso país como no resto do mundo ocidental. Talvez tenha sido por isso que o li.

A verdade sobre o caso Harry Quebert (2012) é  o segundo livro de Joel Dicker, um jovem escritor suíço que ganhou o prestigioso prémio Goncourt des Lycéens com esta obra. O protagonista é o jovem escritor Marcus Goldman (alter ego de Dicker), que, sem inspiração,   decide passar uns dias em casa do seu mentor, antigo professor universitário e escritor famoso Harry Quebert. Quando nesse preciso período de tempo o corpo de uma jovem adolescente é encontrado 33 anos após o seu bizarro desaparecimento, Harry transforma-se no principal suspeito. Marcus não acredita na acusação e decide fazer a sua própria investigação. O que conclui é absolutamente surpreendente e dá-lhe inspiração para escrever o seu livro.

A leitura de A verdade sobre o caso Harry Quebert é altamente viciante. Os capítulos são curtos e a escrita de Dicker é simples e clara, dando vontade de virar a página e ler só mais um bocadinho. Apesar de o autor ser suíço, a história é muito americana: a ação decorre no New Hampshire e todas as personagens são quase estereótipos que costumamos ver em filmes e séries sem, no entanto, caírem no lado caricatural. A narrativa está muito bem conseguida, anda para trás e para a frente no tempo sem nunca confundir o leitor, uma proeza de Dicker que, num livro tão longo, é capaz de manter a coerência e a linha de pensamento.

A minha única crítica tem a ver com a extensão do livro. É evidente que um enredo tão complexo e com tantos anos de intervalo tem de ser comprido, no entanto, creio que mais para o final da trama, o autor poderia ter rematado a história um pouco mais cedo e ter dado outro impacto ao desenlace. Foi demasiado quando pela segunda vez parecia ter-se encontrado o culpado que afinal não o era. Compreendo que o propósito seja criar mais suspense ao leitor, mas, após 500 páginas, já não tem tanta graça.

Gostei do livro, acho que é uma boa leitura para quem aprecia thrillers e policias (como eu). O final não é óbvio, não são deixadas pontas soltas, as personagens estão devidamente desenvolvidas, e a escrita de Dicker é clara e agradável, que é o que se pretende neste tipo de literatura. Recomendo.

Literatura Britânica

Flush

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A minha mãe tentou ler Os Anos (1937), de Virginia Woolf, mas não conseguiu acabar. Talvez isso me tenha afastado um pouco da autora ao longo dos anos, contudo, a minha curiosidade por lê-la sempre foi enorme. Resolvi, por isso, começar com Flush – Uma Biografia (1933), por ser uma obra curta. E acertei em cheio.

Flush – Uma Biografia conta a história de um cão que realmente existiu, o Flush, claro, cuja dona era a poetisa inglesa Elizabeth Barrett Browning, casada com o também poeta inglês Robert Browning. Nesta história, vemos como era a vida em Londres através dos olhos de um cocker spaniel. Virginia Woolf usou o animal para expressar a sua visão filosófica e as suas emoções em relação ao mundo em que vivia. Terá também escolhido o cão de Elizabeth Barrett porque provavelmente sentia alguma empatia para com ela, por ser doente, escritora e intelectual num tempo em que o papel da mulher era ficar em casa a receber visitas. Ao não se sentir compreendida pelos mais próximos, Elizabeth começa a ganhar uma ligação emocional a Flush traduzida por actos quase telepáticos que fortalecem o sentimento de puro afecto que nutrem um pelo outro.

Gostei muito deste livro. Numa história tão básica e ternurenta, Virginia Woolf consegue fazer uma crítica à sociedade, falar dos conflitos entre classes sociais, do feminismo, da intelectualidade e, claro, de um dos amores mais verdadeiros e antigos: o de um ser humano por um cão, e vice-versa.

Talvez se a minha mãe tivesse tentado ler Flush – Uma Biografia tê-lo-ia conseguido acabar. Recomendo vivamente e estou pronta para o próximo.

Literatura Europeia

A Lebre de Vatanen

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Conheço pouco a literatura escandinava e, como desejo conhecer melhor a sua cultura,  pensei que A Lebre de Vatanen (1975), de Arto Paasilinna, era um bom exemplar para eu me iniciar…

Vatanen é um homem de classe média, jornalista, casado, sem filhos, e habitante em Helsínquia que certo dia se vê envolvido num acidente de viação do qual resulta ferida uma lebre selvagem. Apesar de a lebre não ter morrido, e de Vatanen não ter sido o responsável pelo sucedido, sente-se obrigado a tratar dela. Diz ao colega que a atropelou que não é capaz de voltar à cidade sem assegurar-se de que o animal fica bem. Então, parte com ela para o bosque e é assim que a aventura de ambos começa.

A acção do romance leva-nos ao mais profundo coração da Finlândia, onde conhecemos as suas paisagens agrestes, que passam por todas as estações do ano, e as suas gentes rudes que, quiçá, estão um pouco longe da imagem que a maioria dos europeus tem dos finlandeses. Por vezes, a história torna-se tão surreal que é difícil acreditarmos nela, contudo, devemos ter em conta que os povos do norte têm este je ne sais quoi de pitoresco que faz com que as suas narrações pareçam autênticas sagas do arco-da-velha: um homem e uma lebre que ficam completamente dependentes um do outro e enfrentam um mundo complexo cheio de percalços.

A Lebre de Vatanen tornou-se um livro de culto na Escandinávia, o que não é de estranhar, pois tem tudo o que uma história a la norte da Europa gosta: amizade, natureza, suspense, bizarria, superação humana, descoberta pessoal. O padrão de um bom romance nortenho que também pode ser apreciado pelos demais. Recomendo.

Literatura Norte-Americana

O Caso do Segredo da Enteada

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Perry Mason é um detetive que muitos americanos reconhecerão devido à série televisiva dos anos sessenta. No entanto, trata-se de uma personagem literária criada pelo advogado Erle Stanley Gardner para fugir ao aborrecimento dos tribunais…

Não sabia quem Perry Mason era, só o conheci devido à coleção Mestres Policiais que a revista Visão lançou há uns anos. Não tenho os títulos todos, apenas dois, o que é de estranhar para alguém que gosta tanto de policiais. Um deles é O Caso do Segredo da Enteada (1963), de Erle Stanley Gardner.

O cliente de Perry é um homem abastado que recebe uma carta de chantagem que aparece como por magia no quarto da sua enteada. Ao pensar que a enteada conhece o seu segredo, o homem procura Mason que o aconselha a relatar tudo à polícia. Como ele tem medo de perder a sua reputação e de ser enxovalhado nos jornais decide ignorar o conselho do detetive e tenta, por si próprio, lidar com os chantagistas. A trama adensa-se quando um dos chantagista é encontrado morto.

No principio, a história é muito interessante e prende a atenção do leitor, contudo, creio que o seu desenvolvimento é um pouco básico e culmina em vários clichés. Devo confessar que esta tradução não é a melhor, parecendo utilizar termos portugueses e brasileiros ao mesmo tempo. Apesar de eu não o ter adorado, reconheço que este livro, e que provavelmente toda a série de Perry Mason, seja do agrado de muitos leitores que apreciam policiais.