Categoria: Literatura Europeia
As crianças não são adultos
As Lições dos Mestres
Non ti muovere
A primeira vez que ouvi falar neste romance foi na aula de gramática italiana, em Florença, onde a professora nos aconselhou vivamente a sua leitura.
O livro começa com o acidente de viação de uma rapariga de quinze anos que, por coincidência, é transferida para o hospital onde o pai trabalha como cirurgião. Moribunda, Angela está entre a vida e a morte e depende da equipa médica que a viu nascer. Assim que Timoteo é avisado do acidente da filha, deixa tudo para assistir de perto à sua operação de risco. Durante a espera interminável, começa slenciosamente a contar-lhe a história do grande amor da sua vida, que conheceu quando ainda namorava a futura esposa, mãe de Angela. Uma prostituta chamada Itália (interpretada por uma brilhante Penélope Cruz).
Este é o apetecível e curioso mote que dá inicio a uma história de desejo e de medo. Pela mão de uma mulher vamos desvendando aos poucos tudo o que vai na mente e no coração de um homem, que não deseja outra coisa senão ser feliz ao lado daquela que ama. O problema é que essa mulher é prostituta, não tem formação, vive num bairro de lata, e não seria bem vista nem aceite na sociedade como esposa de um conceituado cirurgião. Para Timoteo é uma escolha difícil entre a harmonia e o conforto de um lar junto a uma bela e simpática Elsa, e uma vida cheia de preconceitos e com um futuro incerto junto a uma Itália que o ama incondicionalmente.
A princípio, o herói enfraquece e faz a escolha mais fácil. Depois, quando decide ganhar coragem para enfrentar o destino, é tarde demais.
Non ti muovere é um romance muito bonito que nos faz pensar sobre a natureza frágil do ser humano, e da sociedade que este constrói para se integrar e viver. Lembra-nos de que há ocasiões na vida em que devemos prestar mais atenção às nossas vontades, e magoar momentaneamente os outros, em vez de nos arriscarmos a passar o resto do tempo que nos falta a pensar como teria sido se tivéssemos optado pelo outro caminho.
Margaret Mazzantini escreveu uma história sem género, sem idade e sem preconceitos, conseguindo, ao mesmo tempo, fazer uma maravilhosa e conseguida critica à sociedade italiana ao dar o nome do país a uma personagem inocente, querida e tão imerecidamente maltratada por aqueles que dizem amá-la. Fantástica é também a interpretação de Penélope Cruz, que justifica plenamente o seu Donatello.
Apesar de ter gostado do filme em geral, acho que há um detalhe que o transforma radicalmente: o facto de não ser claro de que foi Timoteo a pedir a Itália que fizesse o aborto. Sem este pormenor, a película não foi fiel ao livro e perdeu, pelo menos, metade da sua magia e do seu interesse.
Ainda assim, tal como fez a minha professora, aconselho vivamente a leitura deste romance. Está muito bem escrito, dá que pensar, e tem o ingrediente que mais prezo nos livros que leio e nos filmes que vejo: é comovente.




