Literatura Asiática

Mil Grous

Confesso que a literatura asiática não é o meu forte. No entanto, como nos últimos anos têm surgido várias traduções dos clássicos daquela região do mundo, decidi aventurar-me na sua cultura. E só me ocorre uma citação de Pessoa: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.”

Yasunari Kawabata é um conhecido escritor japonês, famoso por ter sido o primeiro nipónico a ganhar o Prémio Nobel da Literatura, em 1968. De entre o seu vasto repertório encontram-se algumas obras clássicas, como o destacado Mil Grous (1949).

Kikuji, um jovem rapaz que acaba de perder os pais, é convidado para uma solene cerimónia do chá em casa de Chikako, uma das antigas amantes do seu falecido progenitor. O que Kikuji não espera é encontrar a Sra. Ota, igualmente antiga amante do pai, com quem ele se envolve e por quem acaba por se apaixonar. Não aguantando a vergonha, a Sra. Ota acaba por tomar uma decisão drástica, e Kikuji vê-se enredado numa teia que envolve a Sra. Chikako, Fumiko (a filha da Sra. Ota), e Yukiko (a rapariga que Chikako espera que ele despose).

A trama parece confusa, mas não é. Estas poucas personagens vêem-se envolvidas umas com as outras de uma maneira intima, mas, ao mesmo tempo, distante. Tudo parece uma ilusão, mas é real; o tempo parece parar, mas avança; as resoluções parecem extremas, mas são tão simples que quando o livro acaba é como se voltássemos a respirar.

A mestria de Kawabata está em comparar todas estas complexidades humanas com a tradicional cerimónia do chá japonesa. A sua sensualidade, o seu simbolismo, a sua forma, o seu final. Tudo tem uma razão de ser, e de acabar. O segredo é ter a valentia de escolher seguir em frente.

Como dizia na introdução, quem não está familiarizado com esta cultura é capaz de estranhá-la ao início, no entanto, depois de terminarmos o livro e de o digerirmos, percebemos que a natureza humana é igual em todo o lado, e que as questões da moral e do coração, do correcto e do incorrecto, não são muito díspares aqui ou do outro lado do mundo. E, no fundo, é isso que nos torna humanos. Boas leituras!

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Cisnes Selvagens

#marzoasiatico nasceu pela mão de uma youtuber espanhola (Magrat AjosTiernos) há já alguns anos no universo online com o objectivo de divulgar e promover a literatura asiática. Muitos youtubers e influencers aderem a esta iniciativa todos os meses de março, enchendo os nossos feeds com capas e nomes de autores daquela região do mundo. Como a literatura asiática não é o meu forte, nunca participei. Até hoje.

“Cisnes Selvagens” já me tinha sido recomendado, mas só quando o vi numa banca da Feira do Livro é que decidi comprá-lo. Não sabia o que esperar, que é como eu gosto de entrar nas minhas leituras. E o que me esperava… Jung Chang conta-nos a história do século XX chinês, e mais propriamente a da ditadura comunista de Mao Tsé Tung, através de três gerações da sua família: avó, mãe e filha (ela própria). Ficamos a conhecer o período de autêntico terror por que passaram, com ênfase na Revolução Cultural, e as consequências que tal teve não só para os chineses, como também para o seu passado histórico e futuro.

Posso dizer que este foi um dos livros mais duros e importantes que já li. Jung Chang foi muito corajosa ao reviver tudo o que sofreu para que o mundo não esqueça. De notar que este seu livro é, ainda hoje, proibido na China. Não poderia recomendá-lo mais. Eis a minha contribuição para o #marzoasiático. A partir de agora, vou ler o que quiser, sem #.

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O Tigre Branco

TheWhiteTiger

Comprei este livro em 2008 (ano em que ganhou o Man Booker Prize) e deixei-o na estante até hoje. Não sei o que me fez pegar nele agora, mas ainda bem que o fiz. Foi um autêntico murro no estômago, justamente o que eu precisava: uma leitura com significado.

O Tigre Branco (2008) de Aravind Adiga é acima de tudo um livro sobre a Índia. A personagem principal é um homem jovem e pobre que ganha a vida como motorista de indianos ricos e influentes de Bangalore. Balram Halwai, como geralmente é chamado, tem um fundo bom e só quer trabalhar honestamente para evoluir, contudo, depara-se com inúmeras dificuldades e com um sistema completamente corrupto que não premeia o mérito nem a justiça, e se vende consoante quem paga mais. Esta sociedade suja e indecente vai fazer com que Balram abandone os seus valores e se torne um homem capaz do inimaginável para conseguir o que quer, tendo sempre a noção de que também ele teve de se “vender” para ser alguém.

Gostei muito deste livro. O que Aravind Adiga pretendeu fazer foi traçar um retrato atual da sociedade indiana ao contar-nos como se sobrevive num lugar que não considera os seus cidadãos iguais, que aceita subornos como prática aceitável e que explora as castas mais baixas sem qualquer respeito pelos direitos humanos. A leitura desta obra é um verdadeiro choque numa altura em que a cultura do zen, do yoga e do namaste está tão em voga. A certa altura recordou-me Money, de Martin Amis, embora mais interessante e com uma escrita mais clara. Uma crítica à sociedade local onde homens relativamente sãos e decorosos são arrastados para um mundo fétido e descontrolado. Não admira que tenha ganho o Man Booker Prize. Recomendo vivamente.