Literatura Britânica · Literatura Europeia

A Inquilina de Wildfell Hall

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Antes de iniciar o que, oficialmente, eu já chamo de “A Minha Jornada Brontë”, Anne Brontë era para mim uma autora desconhecida. Quando decidi ler as obras das irmãs Brontë, após a leitura de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, foi por Anne que comecei por ela ter escrito apenas dois livros. Depois do fantástico Agnes Grey, seguiu-se o maravilhoso A Inquilina de Wildfell Hall.

Uma pacata zona do Yorkshire é assolada pela repentina chegada de uma mulher desconhecida com um filho pequeno. Os habitantes ficam curiosos com a nova vizinha e tentam conhecê-la, mas Helen é a discrição em pessoa e mantém-se à margem de todos os encontros sociais. Rapidamente começam a surgir boatos de que ela fugiu do marido para se tornar amante do seu senhorio, o que leva William, um jovem rapaz local que se apaixonou perdidamente por ela, a querer saber o que aconteceu ao certo. Helen confia-lhe o seu diário e o que se segue é o relato triste e inacreditável de um casamento vitoriano falhado em que as mulheres, embora inocentes e muitas vezes com a razão do seu lado, não tinham quaisquer direitos.

Este livro foi uma autêntica surpresa para mim. Não só pela maneira de como está escrito (Anne escreveu-o um ano após Agnes Grey e a sua maturidade como escritora é notória), como também pela sua temática a roçar o feminismo, num período em que o termo e o conceito não existiam. As irmãs Brontë também são conhecidas por pensarem nos direitos das mulheres nas suas obras, e creio que nenhuma o faz melhor do que Anne, a mais nova das três. E é precisamente disso que trata A Inquilina de Wildfell Hall. Helen foge de uma situação injusta para tentar salvar o filho, mas a verdade é que ela própria não se sentia capaz de viver numa conjuntura desrespeitosa e infeliz só porque a sociedade o impunha. E, apesar de ter voltado para um marido alcoólico, depressivo e moribundo para tratar dele, e só depois de este falecer se ter permitido recomeçar de novo, não creio que o mérito de fortalecer as mulheres numa sociedade que as via como propriedade do esposo seja posto em causa, pois Helen voltou porque quis devido ao seu forte sentido de dever (não nos esqueçamos igualmente de que Anne Brontë era filha de um pároco e que, acima de tudo, a época em que vivia não estava assim tão desenvolvida para que Helen largasse tudo e deixasse o marido morrer sozinho em nome do feminismo.)

Não nos esqueçamos igualmente do contexto em que a obra foi escrita. O irmão de Anne, Branwell, também passou por uma grande provação amorosa que a autora terá usado como sua inspiração no livro.

Por tudo isto e muito mais A Inquilina de Wildfell Hall merece um lugar de destaque não só no portfolio das irmãs Brontë, como também no cânone da literatura inglesa e mundial. Recomendo vivamente a sua leitura.

Literatura Britânica

O Professor

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Neste meu périplo para ler todas as obras das irmãs Brontë, deixei para último as que foram escritas por Charlotte. Li Jane Eyre (1847) o ano passado e agora recomecei os seus restantes livros por O Professor (1857).

Esta novela foi originalmente escrita quando Charlotte ainda era uma adolescente, sendo a sua primeira tentativa de romance. E nota-se. O Professor conta a história de William Crimsworth, um órfão que com o apoio desapegado dos tios estuda em Eton para um dia ingressar no clero. Como não o é de todo o seu desejo fazê-lo, os tios retiram-lhe a ajuda sendo este obrigado a procurar o irmão, Edward, que herdara a fábrica dos pais. Edward recebe-o mal e o emprego como escriturário que William consegue na empresa dura poucos meses. Tentando por Hunsden, um homem estranho e sombrio, a procurar novos rumos para a sua vida, William parte para a Béigica onde acaba por encontrar trabalho como professor numa escola de raparigas.

As descrições que faz das alunas são sempre superficiais e focadas no físico e nas suas  maneiras, principalmente se forem belgas. São “feias, malfeitas, ignorantes e sujas.” Só as três que se sentam sempre na primeira fila é que chamam a atenção do professor pela sua beleza, mas ainda assim são consideradas “ordinárias, desorientadas e estúpidas.” William acaba por desenvolver uma atração pela diretora da escola, Zoraide, que “brilhava no meio das alunas como uma estrela sobre um pântano coberto de fogos-fátuas profundamente convencida da sua superioridade.” Tudo nela é bom, tanto a nível fisico como psicológico, mas, apesar de dar esperanças ao professor, está comprometida com o Sr. Pelet, diretor da escola dos rapazes e dono da casa onde William se encontra hospedado.

Após esta grande desilusão, William vira a sua atenção para uma professora de lavores suíça que começa a frequentar as suas aulas com o objetivo de aprender inglês. Frances vai personificar o ideal da mulher vitoriana da classe média: inteligente, submissa q.b., não muito bonita mas agradável à vista, faz tudo corretamente de modo a agradar ao professor. A sua autoconfiança cresce sempre que William a elogia e quando ela começa a tirar as melhores notas da turma é subitamente despedida por Zoraide.

Com este despedimento, Frances vai-se embora fazendo com que William mova mundos e fundos para encontrar o seu paradeiro. Passado algum tempo, quando a alcança, descobre que ela trabalha como professora de francês, história e geografia, e que é bastante respeitada no meio. Os dois acabam por casar, partem para Inglaterra (sonho antigo de Frances cuja mãe era inglesa), e abrem uma das melhores escolas de raparigas no condado onde vivem, ficando a viver ao lado da propriedade de Hunsden, seu vizinho e amigo.

Na minha opinião, O Professor tinha um grande potencial para se tornar um clássico, mas peca sobretudo pela confusa narrativa de Charlotte Bronte. O romance demora muito a arrancar, sendo o primeiro terço dedicado à relação de William e Edward que acaba subitamente para regressar apenas num ou noutro comentário final. Parece que, à primeira vista, a premissa da história é uma e depois se torna outra completamente distinta. Creio igualmente que a descrição das mulheres e o papel do feminino deixa um tanto a desejar. A diferença de tratamento entre as raparigas belgas e Frances é enorme e, a meu ver, injustamente generalizada. No entanto, Charlotte faz uma critica interessante à sociedade inglesa, apelidando-a de superficial e enganadora, ao contrário da belga que, sendo latina, é mais consciente da dignidade que advém do trabalho. Trabalho esse muito valorizado ao longo de todo a história, ao ponto de, no final, Frances pedir ao marido William que a deixe continuar a leccionar pois: “gosto do descanso, mas prefiro a atividade. É preciso que trabalhe e que trabalhe consigo. Tenho observado que as pessoas que somente buscam o prazer de se acompanharem nunca se amam tanto como aquelas que trabalham e sofrem, conscientemente, por uma finalidade comum.”, numa clara critica à aristocracia.

Outro dos pontos fortes, porém pouco explorado, deste romance é a personagem de Hunsden. No início não entendemos bem a sua intenção, nem porque o preocupa tanto William e o seu estilo de vida. todavia, no final, apercebemo-nos de que esta figura é uma alusão ao diabo a quem William “vende a alma” de modo a encontrar o seu lugar no mundo. Esta comparação é um pouco lata porque o nosso protagonista nem sempre segue os concelhos de Hunsden e, no fim, até se torna seu amigo pessoal, contudo é a própria autora que o define como um Mefistófeles e uma víbora.

Muito mais haveria a dizer sobre O Professor, de Charlotte Brontë. Termino apenas com a ideia de que é um rascunho preparatório para o que viriam a ser os seus romances e que, na busca da perfeição, o escritor tem por vezes de falhar para aperfeiçoar a técnica de modo a escrever a sua obra-prima. Este falhanço é mau, ma non troppo.

Literatura Britânica

Agnes Grey

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Neste meu périplo pelas obras das irmãs Brontë, decidi ler o terceiro livro que me faltava dos três que foram publicados em 1847: Agnes Grey, de Anne Brontë. Apesar de não ser tão intenso nem magnânimo como Jane Eyre ou O Monte dos Vendavais, continua a merecer (fortemente) a nossa atenção.

O que Charlotte, Emily e Anne Brontë mais desejavam era ser autoras com trabalho publicado. Para isso, decidiram escrever uma prosa que mais tarde pudessem editar numa compilação conjunta. Charlotte escreveu Jane Eyre, Emily escreveu O Monte dos Vendavais, e Anne escreveu Agnes Grey. Curiosamente, este último foi o que, à época, teve mais aceitação por parte do editor e o que mais vendeu junto de um público que não se achava preparado para entender as outras duas obras. Hoje em dia, o livro de Anne é o menos conhecido dos três, tendo sido altamente ultrapassado pelos textos das irmãs que hoje são considerados verdadeiras obras de culto.

Agnes Grey (1847) conta a história de uma jovem preceptora que decide independentizar-se para poder ajudar a família e para se sentir, de certa forma, útil à sociedade. As casas por onde passa não são propriamente um paraíso, pelo que Agnes aprende a amadurecer depressa e sozinha, acabando por encontrar um equilíbrio emocional pouco comum à sua idade. Esta foi mesmo uma das características de que mais gostei no livro: Anne Brontë, na voz de Agnes, tece vários comentários sobre a vida, sobre como viver em harmonia consigo própria, com os outros, com a natureza e os animais, sobre como educar as crianças, e até sobre o casamento e a aparência das mulheres. Achei a sua mentalidade deveras moderna e edificante, especialmente tendo em conta o pensamento do séc. XIX no início da era vitoriana. Também apreciei a sua escrita, simples e indo ao cerne da questão, se bem que se nota não estar tão desenvolvida com a das irmãs. O final do livro foi o esperado, um pouco cliché, porém satisfatório.

Por todas estas razões creio que passar ao lado de um livro como Agnes Grey é um erro. Apesar de ser o menor dos três originalmente publicados, continua a ser bom, com uma história ternurenta e cheia de lições de vida que nos fazem pensar e encarar as personagens de um modo quase estóico. Recomendo vivamente.

Literatura Britânica

O Monte dos Vendavais

Se há um clássico inglês por excelência, eu diria que é O Monte dos Vendavais (1847), de Emily Bronte. Como é que eu ainda não o tinha lido? Como?

As Irmãs Bronte ficaram conhecidas tanto pelas suas obras literárias, que se tornaram autênticos clássicos da literatura inglesa, como pelas suas vidas cedo ceifadas pela tuberculose. Anne, a mais nova, escreveu Agnes Grey (1847), A Inquilina de Willfell Hall (1848) e alguns poemas, morrendo em 1849 com 29 anos. Charlotte foi a que viveu mais tempo, 39 anos, e a que deixou um maior espólio, nomeadamente Jane Eyre (1847), Shirley (1849), Villette (1853), O Professor (1857) e poesia. Também foi ela quem encorajou Emily a publicar os seus poemas e, mais tarde, um trabalho em prosa: O Monte dos Vendavais, o único que nos deixou e talvez o mais famoso dos livros Bronte.

Esta história ocorre nas charnecas selvagens do Yorkshire, no final do séc. XVIII e início do séc. XIX. A nossa narradora participante, Nelly Dean, conta como Mr. Earnshaw, após uma viagem a Liverpool, decide levar para casa o órfão Heathcliff, para espanto da família, principalmente dos filhos Hindley e Catherine. Catherine recebe o rapaz de braços abertos e forma com ele um elo tão forte que os dois acabam por se apaixonar, porém, quando Mr. Earnshaw falece, Hindley regressa da faculdade para assumir as suas responsabilidades de senhor da casa e decide rechaçar e maltratar Heathcliff. Entretanto, Catherine faz amizade com os filhos da casa vizinha, os Linton, e acaba por casar com Edgar, um jovem rico e passivo. Devastado com a união, Heathcliff decide ir-se embora, voltando três anos depois, refinado, endinheirado e com um ardente desejo de vingança.

Esta introdução é apenas o prelúdio do que acabará por acontecer. As personagens  principais são muito emotivas e encontram-se ambientadas numa atmosfera agreste e obscura que marca o ritmo e favorece a essência gótica do romance. Os comportamentos repetem-se de uma geração para a outra, quase como se os mais novos imitassem os mais velhos por via de exemplo, parando quando o limite e o amor superam o cansaço da crueldade e da frieza. O final é o que se espera, uma conclusão satisfatória e racional que dá um sinal de esperança ao futuro dos que resistem e acabam por ficar.

Gostei muito deste livro. A escrita de Emily Bronte é magnífica e a sua original história de amor, obsessão, depressão e crueldade é das mais únicas e profundas que já li. É incrível pensar que três irmãs tão jovens marcaram tão fortemente a literatura como as Bronte. Os seus romances são hoje mundialmente aclamados e alvo de inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas. Enquanto leitora, gostei tanto de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais que me sinto encorajada a ler todos os livros das Bronte.

Literatura Britânica · Literatura Norte-Americana

O Terceiro Homem

Decidi ler este livro porque faz parte da minha coleção Biblioteca Visão. Foi a primeira vez que li Graham Greene e, seguramente, não será a última.

Originalmente, O Terceiro Homem (1963) foi pensado como guião para um filme de Carol Reed, “para ser visto e não lido”, como o próprio Greene admite no prefácio da obra. Contudo, devido ao êxito estrondoso da película (nomeada para vários Óscares e vencedora do Bafta para Melhor Filme Britânico e do Grande Prémio do Festival de Cannes 1949), o autor decidiu romanceá-la.

Nesta história, cuja acção decorre pouco após o final da II Guerra Mundial, Rollo Martins vai a Viena, cidade ocupada pelas quatro forças vitoriosas, para descortinar o que aconteceu ao amigo de infância Harry Lime, que morrera em circunstâncias suspeitas. Quando começa a investigar o caso, Martins descobre diversas incongruências e percebe que talvez o que acreditara até então não seja inteiramente verdade.

Num thriller noire à boa maneira hollywoodesca e com uma escrita desenfreada que apela a que o leitor continue a virar as páginas, Greene desenvolve a sua narrativa de suspense sem deixar nada de fora, nem mesmo um twist no final que eu, confesso, não esperava.

Perfeito para ler em um ou dois dias, O Terceiro Homem é o romance ideal para os amantes de policiais ou para quem deseja simplesmente começar a ler a obra de Graham Greene. Recomendo. (E agora, ao filme!)

Literatura Norte-Americana

Circe

circe

Confesso que não estava nos meus planos ler este livro, porém quando o vi à venda na tabacaria do hotel em que fiquei hospedada este verão, decidi comprá-lo. Não sei se fiz bem…

Circe (2018), de Madeline Miller, foi um dos grandes eventos literários do ano, tendo sido nomeado para vários prémios, entre os quais o Women’s Prize For Fiction 2019, e tendo recebido inúmeras críticas altamente positivas na comunicação social. Nas redes sociais dedicadas à leitura, como o Booktube ou o Bookstagram, teve uma aceitação igualmente favorável. Estes foram os factores que me levaram a comprá-lo e a lê-lo.

A premissa do livro é simples: recontar a história de Circe através da ficção. A ninfa/deusa é fruto do casamento de Hélio com Perseis, acaba por ser rejeitada pelos pais e irmãos, e enviada para o exílio numa ilha onde desenvolve a sua feitiçaria através das ervas que encontra. Ao longo da história é visitada por diversas personagens (entre elas Ulisses, ou Odisseu, que vai a meio da sua Odisseia) que se relacionam com ela.

O exercício de narrar o mito de Circe parece-me bastante interessante, especialmente para dar a conhecer ao público um pouco da mitologia grega, no entanto creio que a narrativa de Madeline Miller ficou aquém das minhas expectativas. A sua escrita, a meu ver, é aborrecida e a forma como desenvolve as personagens é tão homogénea que todas elas parecem falar com a mesma voz, sem que nada as distinga em particular.

Não abandonei a leitura porque me custa fazê-lo. Prefiro ler a obra até ao fim para poder ter uma opinião válida sobre ela, todavia confesso que me custou chegar ao final, e que fiquei satisfeita quando o fiz.

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1001 livros para ler antes de morrer

Há uns anos, vi na Amazon um livro muito interessante para quem gosta de ler: Os 1001 Livros a Ler Antes de Morrer (2010). Claro que não passa da opinião subjetiva de um grupo de críticos internacionais que no-los deseja recomendar, porém para um leitor ávido não deixa de ser curioso verificar quais são os livros recomendados e/ou quantos  já leu.

O manual está dividido em períodos temporais, começando na Antiguidade com As Mil e Uma Noites (c. 850), e passando depois para os sécs. XIX, XX e XXI, onde termina com a obra The Children’s Book (2009), de A. S. Byatt. Os seus colaboradores provêm dos mais diversos ramos das Letras: Professores universitários de Línguas e Literaturas, editores de prestigiadas revistas literárias, escritores, editores, leitores universitários, jornalistas. As suas nacionalidades são igualmente variadas: americanos, ingleses, franceses, espanhóis, suecos, brasileiros, italianos, neo-zelandeses, alemães, portugueses. Creio que talvez façam falta latino-americanos, africanos e asiáticos, mas a verdade é que este guia revolve quase exclusivamente em redor da Literatura Ocidental.

Dos 1001 livros recomendados, seis são portugueses: Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões, O Crime do Padre Amaro (1875), de Eça de Queirós, O Livro do Desassossego (1982), de Fernando Pessoa, Fado Alexandrino (1987), de António Lobo Antunes, O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) e História do Cerco de Lisboa (1989), de José Saramago. É claro que estas escolhas são discutíveis, se tivesse sido eu a decidir, mudaria O Crime do Padre Amaro por Os Maias (1888) que me parece uma obra mais conhecida e significativa do legado de Eça de Queirós, no entanto, e tal como mencionei na introdução do artigo, estas escolhas são subjetivas.

Para finalizar, gostaria de referir que dos 1001 livros recomendados li 76 (7,6%). O número não parece nada de especial, todavia, para mim, é encorajador. Enquanto contava, reparei que tenho algumas das obras aconselhadas ainda por ler nas minhas estantes e, apesar da velha máxima: “Tanto para ler e tão pouco tempo”, a verdade é que tenho apenas 35 anos, o que significa que disponho de um longo caminho na leitura dos clássicos considerados vitais para quem quer ter uma cultura literária acima da média.

Evidentemente não vou apenas ler o que o guia sugere, contudo, de vez em quando, sabe bem marcarmos como lidos os clássicos que os entendidos consideram essenciais. Nem que seja por mero divertimento.

Fiódor Dostoiévski · Literatura Europeia · Uncategorized

Crime e Castigo

Aviso: Este texto contém spoilers.

Este foi o terceiro livro de Dostoievski que li, após Noites Brancas e O Jogador. Crime e Castigo é considerado uma das suas obras-primas e não é dificil perceber porquê.

De leitura obrigatória no 8º ano da escolaridade russa, Crime e Castigo (1866), de Fiodor Dostoievki, decorre na cidade de São Petersburgo e conta a história de Raskolnikov, um estudante pobre e desmotivado que penhora tudo o que possui a uma velha prestamista maldosa e mal encarada, de forma a conseguir subsistir. Raskolnikov sente tal aversão pela mulher que planeia assassiná-la com a “desculpa” de que está a fazer um favor à Humanidade e que as pessoas “extraordinárias” que cometem crimes, como ele, fazem-no por um bem maior e não devem, por isso, ser punidas. Quando finalmente se decide, Raskolnikov vai a casa da velha e mata-a com um machado. O que não espera é que a irmã desta apareça nesse preciso momento, passando pela porta que o jovem acidentalmente deixara aberta, o que fará com que ele a tenha de matar também.

Estes dois crimes pesarão na consciência de Raskolnikov ao longo do livro, e o jovem apenas confia o seu segredo a Sónia, uma prostituta de tenra idade que acaba de perder o pai alcoólico num acidente de carruagem e se vê obrigada a sustentar deste modo o resto da família. Contudo, e apesar de o chefe da polícia desconfiar sempre de que Raskolnikov é o autor do crime, e de Svidrigailov (vilão que acaba por se redimir) também o ter descoberto, o jovem estudante acaba por confessar o que fez e é punido com oito anos de trabalhos forçados na Sibéria. Sónia acompanha-o por vontade própria e espera que este cumpra a pena para poderem ficar juntos. No final, após um longo período sem ver a amada por motivo de doença, Raskolnikov senta-se a seu lado, poisa a cabeça no seu colo e chora desalmadamente, arrependendo-se assim do crime hediondo que cometeu.

Crime e Castigo é um daqueles clássicos que não nos sai da cabeça depois de o lermos. Dostoievski tem uma forma muito peculiar de expor a problemática da história, apresentando pontos de vista diferentes de modo a que o leitor consiga pensar por si sobre eles e chegar às suas próprias conclusões. Claro que neste caso estamos a falar de crime: será que pode ser cometido por um bem maior? Será que devemos ter compaixão do assassino? Será que compensa? Todas estas questões nos são apresentadas de vários prismas através das personagens que encontramos.

O que Dostoievski acha necessário mostrar é que um crime pesa sempre na consciência de quem o comete e acaba inevitavelmente por ser descoberto, sendo os seus efeitos trágicos tanto a nível psicológico como físico não só para o autor, como para as pessoas que o rodeiam. Creio que é por isso que os alunos russos de 14, 15 anos têm de estudar a obra na escola, para se aperceberem de que, afinal de contas, o crime não compensa. Recomendo vivamente.

P.S.: Eu já tive a felicidade de visitar a casa de Dostoievski em São Petersburgo. Podem ver as fotografias na secção Casa de Escritores.

Bibliotecas do Mundo · Uncategorized

Livraria Lello

No Porto, há uma livraria onde se paga para entrar e onde as filas de visitantes chegam a ser tão grandes como em algumas das atrações da Disneylândia. É a Livraria Lello.

Fundada em 1906 pelos irmãos José Pinto Sousa Lello e António Lello, esta livraria com edifício proeminente juntou na sua inauguração a presença de personalidades como Guerra Junqueiro e José Leite de Vasconcelos. Projeto familiar que foi passando através das gerações da família Lello, o seu grande objetivo sempre foi ser um importante polo cultural da cidade do Porto, com galeria de arte e de tertúlia, para além de simples livraria.

No início do século XXI, o edifício de estilo neogótico e repleto de vitrais foi totalmente restaurado, recuperando a sua essência original. A decorá-lo encontram-se bustos dos mais ilustres escritores portugueses, Antero de Quental, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Teófilo Braga, Tomás Ribeiro e Guerra Junqueiro; uma escadaria em madeira entalhada que dá acesso ao primeiro piso; e o teto elaborado em vitral com o símbolo da livraria, “Decus in Labore” (Formosura no Trabalho).

Reconhecida por muitos como uma das mais bonitas livrarias do mundo, acredita-se também que terá sido nela que a escritora J. K. Rowling se inspirou para criar a escola de Hogwarts da sua aclamada série, Harry Potter.

Estes e outros são os pontos de interesse que nos levam a aconselhar uma ida à Livraria Lello, que em 2016 foi visitada por um milhão de pessoas. Se puder dispensar algum tempo na fila e não se importar de pagar bilhete (que posteriormente poderá ser deduzido na compra de livros), verá uma livraria única no mundo.

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O Paraíso das Damas

O Paraíso das Damas (1883) (no original Au Bonheur des Dames) é uma obra do escritor francês Émile Zola, conhecido como o pai do naturalismo/ realismo. Zola cortou com o romantismo, ramo literário que se encontrava em vigor quando começou a escrever.

Este livro conta a história do nascimento daqueles que podem ser considerados os primeiros grandes armazéns de Paris, nomeados precisamente como o título do livro. A mega loja é um grande sucesso junto das mulheres parisienses, contudo, traz consigo enormes preocupações económicas aos pequenos e médios comerciantes da zona, tema que Zola explora na perfeição no seu texto. De que forma a vida quotidiana de Paris se altera com a “invenção” de um super estabelecimento que vende de tudo a preços muito mais convidativos, e como é que o público em geral a vê a recebe.

Para isso, Zola utiliza Denise, uma jovem da província órfã e responsável por dois irmãos mais novos que chega a Paris para viver com familiares e fica automaticamente encanta com os armazéns. É para lá que vai trabalhar, mesmo contra a vontade do tio, comerciante arruinado por eles. A vida de Denise muda por completo, tal como a de quase todos os que conhece.

Creio que Zola tentou fazer uma alegoria com o surgimento, em 1865, do Printemps, armazéns franceses por excelência que ainda hoje existem conservando a monumentalidade de então. A sua inauguração foi todo um acontecimento e as suas consequências precisamente aquelas que o escritor descreve em Au Bohneur des Dames. O próprio nome do livro me parece uma ironia engraçada, isto é, a cidade e a vida de Paris não se importam de mudar, desde que as mulheres possam ter um sítio onde satisfazer e comprar os seus caprichos. Também a inspiração para a personagem do Barão Hartmann não me parece um acaso se pensarmos no verdadeiro Barão Haussman, responsável pela abertura dos grandes boulevards parisienses e reconstrução da cidade.

Gostei do livro. É uma história original que serve quase como documento histórico para descrever os tempos modernos que o final do século XIX trouxe à capital francesa. A partir do meio torna-se, quiçá, um pouco repetitivo, no entanto o seu contexto realista é suficiente para que se o leia.