Literatura Norte-Americana

A Luz em Agosto

Sempre tive curiosidade em ler William Faulkner. Dois dos seus livros mais famosos, A Luz em Agosto e O Som e a Fúria, fazem parte de duas coleções que fiz: a velhinha Biblioteca Visão/Novis; e a mais recente Livros RTP. Surgiu a oportunidade de ler A Luz em Agosto devido à leitura conjunta do blog “O que vi do mundo”, e não hesitei.

A Luz em Agosto (1932) conta a história de Joe Christmas, um rapaz mestiço abandonado num orfanato e adoptado aos cinco anos por uma casal fanático religioso. Christmas não tem uma vida fácil. Vive no Sul dos Estados Unidos, no período entreguerras, onde o racismo (Jim Crow), a Lei Seca e o fanatismo cristão imperavam abertamente e guiavam as vidas da maioria das pessoas. Após alguns episódios de violência, acaba por fugir e torna-se um nómada, sem eira nem beira.

Este livro é um autêntico festival de violência física e psicológica. Todas as personagens são párias da sociedade, todas parecem esquecidas por Deus, e todas têm problemas que não sabem como resolver. As suas adversidades advêm da história e da cultura do local onde estão inseridas. A meu ver, Faulkner quis alertar de uma forma crua, rude e impiedosa para o que se passava no Sul dos Estados Unidos. Por exemplo, o que faz com que Christmas seja perseguido e perseguidor é o facto de achar que tem “sangue negro” e reagir conforme isso é recebido pelos outros (e por ele próprio).

Acredita-se que Faulkner baseou a sua história no Evangelho Segundo São João, tendo Christmas representado a figura de Jesus Cristo. É óbvio que algumas personagens são baseadas em figuras religiosas, o que dá uma sensação mais profunda de injustiça e desespero à história.

A Luz em Agosto não é para todos. Quando estava a lê-lo achava-o muito violento, uma realidade para a qual por vezes me custava regressar. Contudo, agora que já o terminei e digeri, creio que se trata de uma murro no estômago do leitor cuja dor permanece durante algum tempo porque não é fácil esquecê-la. Aliás, não é de admirar que a Academia Sueca lhe tenha concedido o Nobel da Literatura em 1949. Se hoje em dia o livro é impactante, faço ideia nos anos 30 do séc. XX.

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Tag “Escritores”

Por vezes gosto de ler as Tags dos meus blogs preferidos, pois revelam um pouco os interesses literários das pessoas que sigo e a forma de como se iniciaram na leitura. Decidi, por isso, responder à Tag Escritores que encontrei no blog Literamenteblog.wordpress.com. Trata-se de seis perguntas (adaptadas à minha realidade e a última acrescentada por mim) sobre escritores.

  1. Que escritor te iniciou no mundo da leitura?

Alice Vieira. Esta antiga professora e escritora portuguesa é especializada em Enid Blython (Os Cinco e Noddy) e escreve sobretudo livros infanto-juvenis. Comecei a lê-la quando era adolescente e a verdade é que foram os seus livros que me abriram a porta da literatura. Títulos como Rosa, minha irmã Rosa (1979); Lote 12, 2º Fte (1980), Chocolate à chuva (1982); e Se perguntarem por mim digam que voei (2001) eram os meus preferidos. O que sobretudo me atraía em Alice Vieira era a sua escrita intimista e um profundo sentido de “portugalidade” com o qual muitas pessoas da minha geração se identificavam.

2. Um escritor que te perdeu.

Dan Brown. Li O Código Da Vinci (2003) quando saiu e gostei muito. Li mais três títulos seus e foi de mal a pior. A sua escrita não evolui, é pouco trabalhada e demasiado simples, e os seus personagens são quase caricaturas. As descrições que faz são realistas, mas não chegam para aguentar o livro.

3. Um escritor português e um escritor estrangeiro.

O meu escritor português preferido é Eça de Queirós. Já li quase toda a sua obra, faltando-me apenas três ou quatro títulos para a completar. Leio um livro seu por ano e estudei quatro deles na escola e na universidade. O meu conto favorito também é da sua autoria (A Aia). Nomear um escritor estrangeiro é mais complicado porque a possibilidade de escolha é muito maior. Talvez Emily Bronte ou Dostoievski.

4. Um escritor “confort zone”.

Agatha Christie. Apesar de eu achar que os seus livros têm alguns problemas, é rara a obra de sua autoria de que eu não goste. A série Hercule Poirot é das minhas predilectas.

5. Que escritor ressuscitarias dos mundo dos mortos?

A já referida Emily Bronte. É extraordinário que tenha escrito uma obra como O Monte dos Vendavais aos 27 anos. Que mais nos poderia ter deixado? Ressuscitá-la-ia para ficar a saber.

6. Que escritor convidarias para jantar?

Muitos, mas para referir um que ainda está vivo: Paul Auster. Apesar de eu ter uma visão do mundo diferente da sua, acho os seus livros maravilhosos e muito íntimos. Para além disso também é amante de cinema, pelo que creio poderia ser um jantar deveras interessante.

E aqui estão as minhas respostas à Tag Escritores (junho, 2021). Convido-vos a responder e, se quiserem, a deixarem as vossas repostas nos comentários abaixo. Até breve

Literatura Britânica

Someone at a Distance

Há cerca de um ano comecei a comprar clássicos da editora inglesa Persephone Books. Esta editora especializa-se na edição de livros esquecidos do início do século XX, escritos por mulheres ou com histórias sobre mulheres. Uma das suas imagens de marca são as capas completamente lisas e cinzentas, com interiores de padrões coloridos. No entanto, também editam as suas melhores obras com capas de reproduções de quadros, as minhas preferidas. Já li três títulos: Little Boy Lost, de Marghanita Laski; Cheerful Weather For The Wedding, de Julia Strachey; e Someone at a Distance, de Dorothy Whipple.

Someone at a Distance (1953), de Dorothy Whipple, é um dos livros favoritos de muitas fãs da editora Persephone e conta igualmente com uma alta pontuação no site Goodreads. À luz desta reputação decidi comprá-lo e lê-lo. O início é muito forte. A acção passa-se em Inglaterra, onde uma viúva rica decide contratar uma rapariga francesa para lhe fazer companhia e ajudá-la a aperfeiçoar a Língua. Louise, uma jovem simples e ambiciosa que não consegue ultrapassar o facto de o herdeiro da sua cidade a ter rejeitado pela sua falta de dinheiro, chega à casa da idosa pronta a desfrutar das novas regalias. Não faz muitos amigos por ser rude e politicamente incorreta, contudo, como tem bom gosto e é bonita, a senhora pede-lhe para ficar.

O que se segue é uma interessante reviravolta que passa o foco para a família do filho da senhora rica. Avery e Ellen são um casal feliz com dois filhos, o rapaz está na tropa e a rapariga numa escola interna feminina. Avery é sócio e trabalha numa editora e Ellen é dona de casa. Tudo está aparentemente bem, só que quando Louise chega para ficar hospedada em casa do casal, tudo muda.

Dorothy Whipple não é uma grande escritora, contudo a sua escrita é suficientemente razoável para nos manter presos à páginas a desejar saber como se desenrola a história. Além disso, a autora revela-nos factos interessantes sobre o final de um casamento na década de 50. Como se via o divórcio, ainda pouco habitual, como eram tratadas as pessoas divorciadas, como é que uma mulher conseguia sobreviver sozinha economicamente, etc. É igualmente curioso ver a reação dos filhos.

O meu grande problema com este livro é o final. Após passarmos 450 páginas a ler sobre o sofrimento das personagens, as inesperadas mudanças radicais na sua vida, e a destruição de uma família feliz, no fim, com a escolha que Ellen faz, parece que foi tudo em vão. Avery fez o que fez, e nada lhe acontece. Arrependeu-se porque foi apanhado e, no final, teve a recompensa que tanto desejava. Porém, o mais extraordinário, foi a completa marginalização dos filhos em relação ao futuro dos pais. Eles, que estiveram lá quando a mãe mais precisou deles, foram descartados quando esta decide o seu futuro.

Someone at a Distance poderia ter sido disruptivo, destrutivo, um marco na literatura “de mulheres” se tivesse tido a coragem de dar a Ellen o poder de continuar a enfrentar o mundo sozinha. No entanto, com este final tão fraco e demeritório, é apenas mais uma história de traição em que a mulher traída decide ficar ao lado do marido porque é “boa”, esquecendo a dignidade e o respeito próprio que a caracterizaram ao longo de toda a obra. Uma autêntica decepção.

Como referi no início, este foi o terceiro título que li da editora Persephone Books. Little Boy Lost foi o meu preferido, tendo saltado rapidamente para a lista dos livros da minha vida. Os outros dois, Cheerful Weather for the Wedding e Someone at a Distance, foram desilusões pelos fracos finais que apresentaram. Lerei os restantes que comprei na esperança de me trazerem um saldo mais positivo em relação a esta editora inglesa com uma missão tão interessante e edições tão bonitas e especiais.

Literatura Norte-Americana

O Céu É Dos Violentos

Flannery O’Connor (1925-1964) foi uma escritora norte-americana conhecida maioritariamente pelos seus contos. Estes tiveram tanta importância que hoje em dia o nome da autora dá título ao prémio de contos mais prestigiante dos Estados Unidos, o Flannery O’Connor Award for Short Fiction. No entanto, O’Connor também escreveu dois romances que eu já tive oportunidade de ler. Esta publicação é sobre o segundo, entitulado: O Céu É Dos Violentos (1960).

Flannery O’Connor nasceu na Georgia no seio de uma família irlandesa católica. O seu pai morreu prematuramente de lúpus, pelo que ela e a mãe foram viver para a quinta Andalusia, em Milledgeville, entretanto convertida em museu. O’Connor frequentou a escola pública local e mais tarde ingressou na Universidade Estatal Para Mulheres da Georgia, onde estudou sociologia e literatura inglesa. Começou a escrever contos para revistas e a ser notada pelos seus pares, especialmente por Andrew Lyttle, mais tarde seu editor e amigo.

É impossível desassociar a fé religiosa de O’Connor da sua literatura. Sendo católica praticante, escreveu mais de cem críticas literárias de textos religiosos para dois jornais diocesanos da Georgia. Esta devoção é patente nos seus dois romances.

Em O Céu É Dos Violentos conhecemos Mason Tarwater, um velho evangelista afastado da sociedade que tem como preocupação principal batizar e converter. Autodenomina-se profeta e quando a sua irmã e restante familia morrem num acidente de viação decide adotar o seu sobrinho-neto bebé para fazer dele o seu discípulo. No entanto, Rayber, o seu sobrinho adulto que também sobreviveu ao acidente, tenta resgatar o bebé, sem êxito. Francis é assim educado pelo profeta que lhe faz uma “lavagem cerebral” e o obriga a prometer que o enterra em solo sagrado quando morrer. Ora, Tarwater morre e Francis, após tentar cumprir a promessa, resolve pegar fogo à casa e ao velho, e fugir ao encontro do seu tio Rayber. Este recebe-o de braços abertos, disposto a ajudá-lo a esquecer o passado e os ensinamentos de Tarwater, contudo, Francis já está muito doutrinado e influenciado, percebendo que é muito difícil, senão mesmo impossível, libertar-se.

Para mim, este livro tem como temática o fanatismo religioso e como este afeta uma pessoa desde tenra idade. No entanto, e ao mesmo tempo, Flannery O’Connor expressa através deste fanatismo as suas convicções religiosas e a razão pela qual pensa que o catolicismo deve ser transmitido e assimilado. Francis teve uma vida rude, árdua e custosa para poder mostrar aos outros os ensinamentos de Cristo e, assim, salvá-los. Sacrificou-se, tal como Jesus e os apóstolos, por uma causa maior. Foi vítima de violência, de negligência e de maus tratos para poder cumprir o seu desígnio. Foi quase “um mal necessário” para salvar o resto da comunidade de uma vida secular e sem sentido.

O título da obra refere-se a um versículo do Evangelho Segundo S. Mateus (11:12): “Desde os dias de João Baptista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e violentos são os que se apoderam dele.” Estas palavras foram várias vezes interpretadas, sendo uma das explicações a de que quando se comete um ato de violência com vista ao bem maior, a vontade de Deus, esse ato de violência é justificado. Há uma cena óbvia no livro em que tal acontece, quando Francis ao tentar batizar Bishop o afoga sem querer. Trata-se de um homicídio acidental, mas, como o objetivo era o de batizar a criança para que ela entrasse no céu e se convertesse ao catolicismo, o ato foi justificado.

Há muito mais a dizer sobre O Céu É Dos Violentos. Na minha opinião, Flannery O’Connor é uma escritora brilhante que, em poucas páginas, nos faz sentir inúmeras emoções ao mesmo tempo e nos faz duvidar do que pensamos. As suas histórias são violentas, agressivas, cruéis, obscuras e satíricas. Não queremos parar de lê-las nem de nos espantarmos com a maturidade da sua escrita. Só temos pena que não tenha escrito mais pois, tal como o seu pai, o lúpus tirou-lhe a vida aos 39 anos. Ficam os contos e os livros que, a meu ver, deveriam ser mais conhecidos.

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Norte e Sul

A meu ver, o século XIX inglês foi um dos períodos mais interessantes da História Ocidental. Tiveram lugar muitos marcos importantes nestes 100 anos: a escravatura foi abolida, deram-se a primeira e a segunda revoluções industriais, houve uma urbanização massiva do campo para as cidades (o que levou à urbanização das mesmas), o Império Britânico conheceu um enorme crescimento de território resultando numa globalização sem precedentes, Napoleão foi derrotado e exilado, Jane Austen publicou Orgulho e Preconceito.

Foi também neste século que Elizabeth Gaskell, grande amiga de Charlotte Bronte e autora de uma das suas mais completas biografias, publica a sua obra-prima: Norte e Sul (1854).

Margaret, uma jovem culta e inteligente, vive com os pais e uma empregada numa pequena cidade campestre do Sul onde o pai tem um lugar privilegiado como pastor anglicano. Um dia, o pai revela-lhe que sente dúvidas em relação à sua vocação e resolve deixar o cargo e partir com a familia para o Norte industrial, onde trabalhará como tutor particular. Margaret fica desgostosa com a decisão. Não gosta do Norte, das fábricas, do fumo, das gentes pobres exploradas pelos patrões, nem dos sindicatos. É lá que conhece o Sr. Thornton, um reputado industrial têxtil que gere a sua fábrica com mão de ferro. As diferenças entre os dois são óbvias, porém eles acabam por sentir respeito e atração um pelo outro.

Um dos pontos fortes deste livro é a sua honestidade intelectual. Elizabeth Gaskell reflecte sobre a sua contemporaneidade e dá ao leitor os dois lados da moeda. Não defende nem uma visão nem outra, limita-se a explicar o que ocorria e deixa que o leitor decida de que lado está. Ao mesmo tempo concentra-se na personalidade e maneira de ser das personagens e desenvolve-as de maneira a que o leitor não veja, por exemplo, o industrial, mas o Sr. Thornton e a posição que este ocupa.

Gostei muito desta obra. A escrita é simples e sofisticada, embora possa por vezes ser repetitiva. A história está muito bem explicada, os acontecimentos fazem sentido, e, apesar do final ser previsível, é satisfatório e até tem uma pontada de humor.

Elizabeth Gaskell consagra-se assim como uma das grandes autoras do século XIX. Norte e Sul passa a ser leitura obrigatória para quem quiser aprender sobre a Revolução Industrial inglesa e as suas consequências sociais, e junta-se à literatura clássica do século timbrada por Jane Austen e as Irmãs Bronte. Recomendo.

Literatura Russa

O Eterno Marido

*spoilers

Dostoiévski é um dos meus escritores preferidos. O Eterno Marido (1870) foi o quarto livro que li do autor.

Esta novella, publicada originalmente na revista literária Zarya, conta a história de dois homens que têm em comum a mesma mulher: Pável Pávlovitch é o marido, e Veltchanínov é um dos amantes. O livro começa a meio da narrativa (in media res) quando Pável vai subtilmente ao encontro de Veltchanínov para lhe dizer que a esposa morreu. Não está sozinho, leva a filha, Lisa, que Veltchanínov percebe logo que é sua. Pável trata mal a menina, e Veltchanínov sugere-lhe que a levem para casa de um casal seu amigo, conhecido por gostar muito de crianças. Apesar da mudança de ambiente e do bom tratamento, Lisa acaba por morrer.

Veltchanínov fica muito afetado com esta morte e passa a odiar Pável, mas este encontra-se numa escalada descendente, embebedando-se todos os dias e aparecendo em casa de Veltchanínov a altas horas da noite, sem ser convidado. Até que decide voltar a casar. Pede a Veltchanínov que vá com ele a casa da futura noiva. O encontro corre bastante mal. Pável é renegado pela menina, que se sente atraída por Veltchanínov. Após esta aventura, os dois homens regressam a casa de Veltchanínov, onde, a meio da noite, Pável o tenta matar com uma faca de barbear. Veltchanínov antevê o golpe e escapa apenas com um ferimento na mão.

Anos mais tarde, os dois acabam por reencontrar-se por acaso numa estação de comboio. Veltchanínov vai a caminho de casa de uma senhora que deseja muito conhecer, e Pável está com a sua nova esposa. Esta é uma mulher muito bonita e atraente, mas de más maneiras e conduta duvidosa. É óbvio que trai Pável com outros homens e está disposta a fazê-lo com Veltchanínov.

Apesar de pequeno, este livro é muito interessante. Tal como já referi em relação a outras obras do escritor, o grande talento de Dostoiévski é compreender e dissecar maravilhosamente a psique humana. Não admira que Freud o tivesse como grande inspiração. O leitor sente-se imerso nos pensamentos de Veltchanínov e percebe perfeitamente o que ele sente e para onde se dirige. É um homem gingão e masculino, sem pudor em relacionar-se com mulheres alheias, enquanto Pável é o que Dostoiévski chama de “eterno marido”, alguém que não consegue viver sem estar casado e a quem todas as mulheres traem com homens mais poderosos e aliciantes. Os comportamentos de um e de outro são aqui expostos de uma forma honesta, infantil e quase ridícula. Dois exemplos a não seguir, mas que proliferam na, então, sociedade moderna do final do século XIX.

Pouco mais há a dizer sobre Dostoiévski. Foi um dos grandes escritores visionários da sua geração cujos livros impactaram devido a uma moralidade intrínseca que nos faz refletir e, no fundo, desejar ser pessoas melhores. Recomendo vivamente.

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Anne of Windy Willows

E o quinto livro da série Anne of Green Gables (Ana dos Cabelos Ruivos, em português) está oficialmente lido!

Enganei-me na ordem da série e li o quinto (Anne’s House of Dreams) antes do quarto (Anne of Windy Willows) mas pouca (ou nenhuma) diferença me fez.

Em Anne of Windy Willows, de L. M. Montgomery, Anne, já formada, decide aceitar o cargo de diretora da escola secundária de Summerside enquanto espera que Gilbert termine os seus estudos de medicina, em Kingsport. Passará ali os três anos seguintes da sua vida. O livro tem uma estrutura praticamente epistolar, está dividido entre capítulos formados por cartas que Anne envia a Gilbert a contar como vai a sua vida, e capítulos onde um narrador não participante nos relata episódios vividos por ela própria.

Alguns leitores da série dizem que este quarto volume é aborrecido e irrelevante para compreender o percurso da nossa heroína. Eu discordo totalmente. É neste livro que vemos Anne a ter as suas primeiras experiências como professora, a desenvolver (ainda que por carta) a sua relação com Gilbert, e a antecipar a sua próxima etapa como esposa e mãe. Estes três anos não são apenas um importante período de transição entre a menina cheia de sonhos e a mulher trabalhadora e noiva já segura de si, também nos mostram como a sua personalidade amadurece e o seu carácter se reforça.

Já sofro por saber que só me faltam três livros para terminar a série. L. M. Montgomery criou uma personagem fascinante que tem o dom de nos mostrar que, apesar de mau, o mundo também tem muitas coisas boas que vale a pena explorar. Anne faz na ficção o que faz na realidade: dá esperança àqueles que têm a felicidade de cruzar o seu caminho. Recomendo.

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Do Lado de Swann

*spoilers

Sempre quis ler Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Há alguns anos que tenho a série completa da Relógio D’Água, traduzida por Pedro Tamen (o meu primeiro exemplar está inclusivamente autografado pelo tradutor), e decidi começar a lê-la, um livro por ano.

Do Lado de Swann (1913), o primeiro volume, está dividido em três partes. Em “Combray” um jovem Marcel conta-nos como passava os dias em casa da tia paterna, em Combray (nome fictício para a pequena cidade de Illiers que mais tarde se auto-rebatizou de Illiers-Combray em homenagem ao escritor), como era a sua família, os vizinhos e a paisagem local. Refere um grande medo de adormecer sem que a mãe lhe dê um beijo de boa-noite, confessa que ao comer uma madalena se recordou de muitas memórias de infância, e fala ainda de um vizinho, Swann, que era por vezes recebido pelos seus pais.

Na segunda parte, “Um Amor de Swann”, o autor concentra-se neste personagem. Charles Swann não era membro da aristocracia nem da alta burguesia, apesar de ser respeitado e recebido em algumas casas. Apaixona-se por Odette de Crécy, uma mulher vulgar e libertina, por quem sente muitos ciúmes e tormentos. Ela parece não corresponder como ele ao amor de ambos e acaba por mostrar-se desinteressada ao ponto de desaparecer. A grande conclusão a que Swann chega, e que é a beleza deste capítulo, é a de que perdeu tempo e energia com uma pessoa que não lhe merecia essa dedicação.

Na terceira parte, “Nomes de Terras: o nome”, encontramos um narrador mais velho e desejoso de um tempo passado que não mais voltará. Num desfile acaba por reencontrar personagens (como um amor de infância) que o leitor não esperava encontrar.

Do Lado de Swann é um grande livro. Proust descreve em 450 páginas a saudade, a nostalgia, a memória, a recordação e o apreço que temos pelos objetos e pessoas que vão fazendo parte da nossa vida. A sua escrita não é a mais fácil de seguir. É muito descritivo, faz inúmeras comparações, pausas e parêntesis. Trata-se de uma história muito densa que precisa da máxima concentração do leitor. Tive de reler frequentemente trechos que já tinha lido porque me distraí e perdi o fio à meada. Contudo, se persistirmos na leitura acabamos com uma grande sensação de preenchimento e com imagens que farão parte do nosso imaginário durante um longo período de tempo.

Foi o primeiro de uma série de sete volumes que vou decididamente prosseguir.

Arte · Literatura Europeia

Peter Paul Rubens

Rubens

Sempre gostei muito de pintura. Desde pequena que frequento museus e me interesso por saber sobre a História da Arte e os seus movimentos artísticos. Há pouco tempo, comecei a ver um documentário na televisão sobre a Guerra dos 30 Anos e descobri, para meu espanto, que o pintor flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640) fez parte dela… Como espião.

Durante a sua vida, Rubens gozou de uma popularidade imensa devido aos brilhantes quadros que pintava. Começou a desenhar ainda pequeno e desenvolveu a sua arte a tal ponto que era um dos pintores preferidos da aristocracia. Era tão popular que para conseguir dar resposta aos pedidos montou um atelier com aprendizes que o ajudavam a pintar os seus quadros. Um deles foi o também aclamado Van Dyck.

A sua fama fez com que a rainha Isabel de Espanha (que no início do séc. XVII governava também o sul da Holanda, de onde Rubens provinha) angariasse os seus serviços como espião/diplomata. A ideia era fazer com que Rubens espiasse e fizesse acordos com nações inimigas quando fosse chamado a uma dessas cortes para pintar os retratos de reis. O pintor tinha uma personalidade agradável e era muito sensato, pelo que foi quase sempre bem sucedido nas suas missões. O seu grande objetivo foi a paz na Europa e “lutou” por ela até ao fim dos seus dias.

Enquanto artista, Rubens destacou-se no movimento Barroco, onde os exageros, as formas generosas das mulheres e a sensualidade são as maiores características. Pintou quase todos os temas: religiosos, míticos, cenas de guerra, cenas campestres, paisagens de cidades, retratos de família, de grandes personalidades e auto-retratos. Em todos eles era um mestre. A sua segunda mulher, Helena Fourment, foi a sua grande musa. Casaram quando ela tinha 16 anos e ele 53, tiveram cinco filhos e foram felizes naquela que foi a última década de vida do pintor. Quadros como Os Horrores da Guerra (1637-38), As Três Graças (1636-38); e O Casaco de Peles (1638), por exemplo, têm-na como protagonista. No Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, encontra-se um dos seus retratos feitos pelo marido.

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Anne’s House of Dreams

AnnesHouseOfDreams

Quando era pequena via muitos desenhos animados na televisão: Kissyfur, Pif e Hercule, Inspector Gadget, As mulherzinhas, Zorro, A Floresta Verde, Joaninha, Bocas, e, é claro, Ana dos Cabelos Ruivos.

Só relativamente mais tarde é que descobri que a série animada Ana dos Cabelos Ruivos era uma adaptação de uma série de literatura juvenil da autora canadiana, Lucy M. Montgomery. O primeiro livro, Ana dos Cabelos Ruivos (1908), está traduzido em português, os restantes não.

Esta série acompanha a vida de Anne Shirley, uma orfã de 10 anos que é enviada por engano para casa dos irmãos Marilla e Mathew Cuthbert e que acaba por ficar devido à sua atitude positiva perante a vida e ao seu bom coração. Anne mostra um grande potencial e os irmãos, já com alguma idade, incentivam-na a frequentar a escola para a jovem conseguir ter um futuro melhor do que aquele que em princípio lhe está reservado. A partir daqui seguimos toda a vida de Anne até aos seus 50 anos.

Não direi muito mais para não estragar os livros, mas refiro que neste em particular, Anne´s House of Dreams (1917), Anne está a iniciar o seu percurso de jovem mulher adulta. Pelo caminho vive coisas boas e más, e perde e ganha amizades e amores. A sua atitude perante tudo o que lhe ocorre é fascinante e, apesar de mais madura, conserva sempre o positivismo, a bondade e a inteligência a que nos tem habituado. É um autêntico prazer fazer parte do seu mundo. Quando terminamos o livro ficamos com a sensação de que se a nossa realidade tivesse mais pessoas como Anne, seríamos todos um pouco mais felizes.

Já li os primeiros quatro livros da série e lerei certamente os quatro que faltam. Visito esta história adorável uma vez por ano, normalmente no verão, e espero voltar a fazê-lo em 2021. É a leitura perfeita para quando queremos submergir em algo bonito que nos transporte para um “mundo ideal” no qual muitos de nós, eu incluída, não nos importaríamos de viver. Recomendo.