
A meu ver, o século XIX inglês foi um dos períodos mais interessantes da História Ocidental. Tiveram lugar muitos marcos importantes nestes 100 anos: a escravatura foi abolida, deram-se a primeira e a segunda revoluções industriais, houve uma urbanização massiva do campo para as cidades (o que levou à urbanização das mesmas), o Império Britânico conheceu um enorme crescimento de território resultando numa globalização sem precedentes, Napoleão foi derrotado e exilado, Jane Austen publicou Orgulho e Preconceito.
Foi também neste século que Elizabeth Gaskell, grande amiga de Charlotte Bronte e autora de uma das suas mais completas biografias, publica a sua obra-prima: Norte e Sul (1854).
Margaret, uma jovem culta e inteligente, vive com os pais e uma empregada numa pequena cidade campestre do Sul onde o pai tem um lugar privilegiado como pastor anglicano. Um dia, o pai revela-lhe que sente dúvidas em relação à sua vocação e resolve deixar o cargo e partir com a familia para o Norte industrial, onde trabalhará como tutor particular. Margaret fica desgostosa com a decisão. Não gosta do Norte, das fábricas, do fumo, das gentes pobres exploradas pelos patrões, nem dos sindicatos. É lá que conhece o Sr. Thornton, um reputado industrial têxtil que gere a sua fábrica com mão de ferro. As diferenças entre os dois são óbvias, porém eles acabam por sentir respeito e atração um pelo outro.
Um dos pontos fortes deste livro é a sua honestidade intelectual. Elizabeth Gaskell reflecte sobre a sua contemporaneidade e dá ao leitor os dois lados da moeda. Não defende nem uma visão nem outra, limita-se a explicar o que ocorria e deixa que o leitor decida de que lado está. Ao mesmo tempo concentra-se na personalidade e maneira de ser das personagens e desenvolve-as de maneira a que o leitor não veja, por exemplo, o industrial, mas o Sr. Thornton e a posição que este ocupa.
Gostei muito desta obra. A escrita é simples e sofisticada, embora possa por vezes ser repetitiva. A história está muito bem explicada, os acontecimentos fazem sentido, e, apesar do final ser previsível, é satisfatório e até tem uma pontada de humor.
Elizabeth Gaskell consagra-se assim como uma das grandes autoras do século XIX. Norte e Sul passa a ser leitura obrigatória para quem quiser aprender sobre a Revolução Industrial inglesa e as suas consequências sociais, e junta-se à literatura clássica do século timbrada por Jane Austen e as Irmãs Bronte. Recomendo.