Literatura Europeia

O Leopardo (livro e filme)

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O Leopardo (1958), de Tomasi di Lampedusa, foi uma das minhas leituras preferidas de 2019. Gostei tanto do livro que mal podia esperar para ver a adaptação cinematográfica que Luchino Visconti faria alguns anos mais tarde. Devo dizer que os dois são uma experiência cultural brilhante.

O Leopardo conta a história do fim da aristocracia siciliana através dos olhos de Don Fabrizio, principe de Salina. No final do séc. XIX, a península Itálica era composta por diversos estados governados por várias potências, como a Áustria, os Bourbons, a casa de Sabóia, e o Papa. Estes mantinham um poder quase absolutista e sem apoio popular, pelo que começaram a propagar-se ideias revolucionárias e a criar-se vários movimentos com a intenção de formar um estado uno. Algumas fações queriam uma república, outras desejavam uma monarquia. Após várias guerras que duraram décadas, em 1861, Vitor Emanuel da casa Sabóia foi proclamado rei de Itália com o reconhecimento de deputados de todos os Estados envolvidos.

É sobre esta última fase do Risorgimento de que fala o livro. Lampedusa, ele próprio um príncipe siciliano sem reino, conta a história de um antepassado seu e de como este terá vivido os últimos anos de uma época que terminaria com a aristocracia estatutária. Apesar de ser o fim, Don Fabrizio comporta-se sempre com uma dignidade extrema, aceitando os novos tempos e tentando minimizar as consequências negativas tanto para a sua família, como para as pessoas que viviam nos seus territórios. E embora a população quisesse uma Itália unida e democrática, com representação popular no Senado, nunca deixaram de admirar Don Fabrizio e o papel importante que este teve no desenvolvimento das suas terras. O papel da Igreja também é simbolicamente descrito, pois Lampedusa traça um cenário em que o Clero preferia que estas pequenas aristocracias vingassem, mas que rapidamente “se vende” à burguesia para não perder o seu poder local.

O Leopardo é um livro excepcional. Não só retrata muito bem o período final das guerras e o quase início da unificação de Itália, como também transmite brilhantemente o sentimento triste, melancólico e resignado de uma aristocracia que perdeu o seu lugar no mundo.

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Em 1963, ou seja, cinco anos após a publicação do livro, o realizador italiano Luchino Visconti apresentaria a sua versão com o actor americano Burt Lancaster no papel de Don Fabrizio. Esta superprodução italo-francesa é uma das melhores adaptações cinematográficas que eu já vi. Visconti consegue transmitir o espírito do livro numa narrativa calma, mas ao mesmo tempo sufocante. Os cenários e o guarda-roupa são impressionantes e o casting não poderia ter sido mais bem escolhido. Alain Delon teve aqui a sua grande estreia, e Claudia Cardinale reforçou o seu papel de estrela e de diva. Não foi por acaso que o filme ganhou a Palma de Ouro, em Cannes.

Nota: O Leopardo faz-me lembrar o E Tudo o Vento Levou. Ambos os livros retratam um período histórico real, conturbado e de mudança por meio de personagens fictícias, e os filmes estão extremamente bem feitos sendo hoje considerados clássicos do cinema. Recomendo vivamente os dois, tanto na forma escrita como na forma visual. Obras-primas.

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