Mrs. Dalloway

Quem tem medo de Virginia Woolf? Eu tinha. Aventurar-me nos seus livros sempre me pareceu intimidante, porém, como muitas pessoas aconselham as suas obras, resolvi que chegara finalmente a hora de atirar-me de cabeça em Mrs. Dalloway (1925).
Mrs. Dalloway, esta personagem tão conhecida da literatura, é uma senhora de 50 anos, que vive na Londres do pós I Guerra Mundial. Tem uma vida privilegiada, é casada com um homem endinheirado e influente, e tem uma filha jovem e bonita em idade casadoira. Contudo, Clarrissa não é feliz. Este sentimento de frustração resurge quando reaparece na sua vida Peter Walsh, o seu amor de adolescência. Clarissa declinou o seu pedido de casamento por achar que Peter era demasiado compulsivo e dominador. Ao casar com Richard Dalloway, ela adquire a desejada liberdade, mas não a chama que sentia com Peter.
O próprio Peter nunca se refez desta rejeição. Anda perdido, sem eira nem beira, casa aqui, descasa ali, não quer ter filhos e sente que não pertence a lugar nenhum. Esta é, aliás, a tónica do romance. Quase todas as personagens estão perdidas ou infelizes, e parecem não saber como resolver a sua situação. Não nos podemos esquecer de que Mrs. Dalloway foi escrito no período entre guerras, ou seja, num tempo em que a Europa estava a recuperar, em que as famílias se estavam a reencontrar e em que os hábitos e costumes conheceram muitas mudanças. Uma época de incerteza em relação ao passado e ao futuro.
Uma da personagens mais interessantes do livro é Septimus Warren Smith, um jovem que combateu na Grande Guerra e que ficou altamente traumatizado pelo que lá viveu. Este rapaz vai funcionar como um Duplo de Clarissa, ou seja, é ele quem vai exteriorizar, através da sua história e das suas ações, tudo o que Clarissa sente ao longo do romance. Eles não se conhecem nem nunca se cruzam, todavia os seus desfechos estão interligados e dão o mote para o final.
É patente o desabafo e a projeção de Virginia Woolf em Mrs. Dalloway. Sabemos que a escritora sofria de depressão e doença bipolar, e que a I Grande Guerra teve um grande impacto na sua sensibilidade. Uma das razões pelas quais se suicidou em 1941 foi precisamente a II Guerra Mundial e a tragédia que esta traria.
Ao longo da leitura deste livro não pude deixar de pensar em como o título não corresponde inteiramente à história. Não é só sobre Mrs. Dalloway que lemos, é sobre tantas outras personagens que também nos ocupam durante muito tempo com os seus choques e comoções. Sabe-se hoje que a autora queria dar ao romance o título de As Horas, o qual acho mais adequado.
Gostei muito deste livro. Ao início não foi fácil concentrar-me na forma de como está escrito (fluxo de consciência), no entanto, uma vez imersa, pareceu-me acessível.
Já percebi que Virginia Woolf é uma escritora que exige a nossa máxima atenção, mas também já percebi que o fruto desse requerimento é vantajoso porque nos proporciona um saber e uma empatia que nos toca profundamente. Não é preciso ter medo. Nenhum.
