Literatura Europeia

O Corcunda de Notre Dame

nossasenhoradeparis

Um dos meus filmes preferidos da Disney é O Corcunda de Notre Dame (1996). Lembro-me perfeitamente de o ter visto no cinema, duas vezes, com 12 anos e de me ter apaixonado pela sua história tão original. Pela primeira vez eu via um filme de desenhos animados sem príncipes nem princesas, que só queria passar a mensagem de que não faz mal ser-se diferente. Gostei tanto que me mascarei à personagem Esmeralda no carnaval e “obriguei” o meu pai a comprar o CD da banda sonora, que custou quase três contos. Ainda hoje sei as músicas todas de cor e as canto. Outro facto engraçado foi nessa páscoa termos ido de férias a Londres e comprado antecipadamente a VHS do filme na versão original não legendada. Apesar de eu e as minhas irmãs não dominarmos a língua inglesa na altura, ficámos entusiasmadíssimas por não termos de esperar pelo fim do verão para termos o filme. Claro que a primeira coisa que fizemos quando chegámos a Lisboa foi vê-lo. Por isso, sim, O Corcunda de Notre Dame tem um lugar muito especial no meu coração e, apesar de ser pouco conhecido, considero-o uma das melhores longas-metragens da Disney.

Devido a este meu historial, sempre quis ler O Corcunda de Notre Dame (1831) de Victor Hugo, que serviu de inspiração para o filme. Porém, ao mesmo tempo, tinha medo que o texto original não me fizesse sentido e estragasse a experiência que eu tinha tido. Uma das minhas irmãs leu-o e disse-me que foi um dos livros mais belos que lera. Este ano, e após  ter ido a Paris há alguns meses e visitado a própria casa de Victor Hugo, decidi lê-lo.

Foi inevitável que o meu pensamento estivesse bastante influenciado pelo filme. Imaginei as personagens que a Disney recriou e tive alguma dificuldade em aceitar que Claude Frollo se passasse a chamar Cláudio Frollo. No entanto, este obstáculo durou pouco tempo pois a escrita de Victor Hugo é tão sublime que rapidamente mergulhamos na sua narrativa e nos deixamos levar por ela. Há diversas personagens que não aparecem no filme, como Pedro Gringoire e a velha Chantefleurie (o que é inteiramente compreensível) e outras cujo papel é ligeiramente mais importante, como Clopin. Mesmo as personagens principais sofrem alterações: Frollo é arcediago e não juiz, Quasimodo é surdo e cego de um olho, Esmeralda tem dezasseis anos e não é tão forte nem independente, e Febo tem um papel mais secundário e digamos que muito menos simpático.

Nesta versão, Frollo salva Quasimodo do abandono para que ele um dia faça companhia ao seu irmão mais novo que está a ser criado num moinho. Leva-o para Notre Dame, local onde mora, e toma conta dele como se de um filho se tratasse. Ensina-o a ler, a escrever e a repicar os sinos da igreja. Quasimodo aceita a sua vida reservada e não sente desejo de ir “lá para fora”. Para dizer a verdade é uma personagem que se vai perdendo ao longo da narrativa e se recupera apenas em momentos chave. Esmeralda é uma linda cigana que dança na rua com uma cabra, Djali, e que um dia arrebata o coração de Frollo que a vê da catedral. Louco de culpa e paixão, Frollo tenta raptá-la uma noite com a ajuda de Quasimodo, mas ela é salva por Febo, um soldado que por acaso ia a passar e que também fica encantado com ela. Esmeralda apaixona-se perdidamente pelo seu salvador e concorda em encontrar-se com ele numa noite. Febo, noivo de uma rapariga burguesa, vai ter com ela a uma pensão duvidosa e tenta aproveitar-se. Frollo, que o seguiu, aparece por trás, esfaqueia-o e foge, pelo que Esmeralda é acusada de homicídio e bruxaria.

O que se segue é uma aventura que tem algumas parecenças com o filme, mas não muitas. Victor Hugo é um escritor excepcional que prende a nossa atenção de uma forma inteligente e nos dá informações históricas preciosas sobre a época, apesar de também ele não ter vivido nela. Através da sua escrita nota-se que era uma pessoa avançada para o seu tempo, com convicções sociais dignas do final do século XX. O Corcunda de Notre Dame é uma história de amor que também fala da diferença, do racismo, da loucura, da severidade religiosa, da desigualdade da justiça, do machismo. Tem tudo. E tudo perfeitamente enquadrado e transformado numa história original e bonita que só um génio pode conceber. Não é de admirar que os leitores de Victor Hugo lhe quisessem tanto bem, nem que, quase cem anos mais tarde, a Disney pegasse na sua história e no-la contasse com as suas transformações mágicas, prestando homenagem ao autor ao chamar duas das gárgulas de Victor e Hugo. É um romance maravilhoso que vale a pena ser lido, principalmente se vier numa edição tão bonita e bem traduzida como a da Civilização Editora (apesar de eu não ter compreendido a razão pela qual mudaram o nome de Notre Dame para Nossa Senhora de Paris). Recomendo vivamente.

Literatura Europeia

O último dia de um condenado

Um livro negro. É assim que poderíamos descrever esta pequena história de Victor Hugo sobre um homem condenado à morte pela guilhotina. 
Não sabemos o nome do condenado e não importa. O que sabemos é que cometeu um crime, provavelmente homicídio como é deixado no ar pelo autor, e que vai morrer dentro de poucas horas. Ele conta-nos, em jeito de diário, os seus últimos momentos passados entre a prisão, a Conciergerie e a Place de Gréve, atual Place de L’ Hôtel-de-Ville (uma das mais bonitas de Paris), onde será então executado. O tom do condenado é sempre muito angustioso e de incompreensão para com a sua situação, não entende por que razão a justiça o mata por ter cometido um crime e ainda menos por que motivo a sua execução é vista como um espectáculo pelos muitos populares que se dirigem à praça para aplaudir a morte de um condenado. Ao longo da narrativa, o seu desespero aumenta para refletir a aproximação do momento da morte. 
Victor Hugo sempre foi conhecido por ser um escritor defensor de causas sociais, como demonstram algumas das suas obras mais emblemáticas: Os Miseráveis (1862), Nossa Senhora de Paris (1831) (mais popularmente conhecido como O Corcunda de Notre Dame graças à adaptação da Disney), e O último dia de um condenado (1829). Esta última serviu para o escritor manifestar publicamente a sua posição contra a pena de morte. Victor Hugo esperava que a sua popularidade junto dos franceses pudesse abrir o debate senão mesmo abolir um tratamento que considerava desumano. Contudo, nem o maior escritor de França do seu tempo conseguiu parar a guilhotina. O último condenado à pena de morte pela guilhotina morreu em 1977, 148 anos após a publicação do seu livro. Sim, em 1977. Há 39 anos. 
Recomendo a leitura de O último dia de um condenado, não só porque é um clássico da literatura francesa, mas também porque revela o pensamento progressista de Victor Hugo para a sua época e nos mostra como, mesmo no pior dos casos, a pena de morte provavelmente não é sempre a melhor solução.