Literatura Asiática · Literatura Britânica

O Tigre Branco

TheWhiteTiger

Comprei este livro em 2008 (ano em que ganhou o Man Booker Prize) e deixei-o na estante até hoje. Não sei o que me fez pegar nele agora, mas ainda bem que o fiz. Foi um autêntico murro no estômago, justamente o que eu precisava: uma leitura com significado.

O Tigre Branco (2008) de Aravind Adiga é acima de tudo um livro sobre a Índia. A personagem principal é um homem jovem e pobre que ganha a vida como motorista de indianos ricos e influentes de Bangalore. Balram Halwai, como geralmente é chamado, tem um fundo bom e só quer trabalhar honestamente para evoluir, contudo, depara-se com inúmeras dificuldades e com um sistema completamente corrupto que não premeia o mérito nem a justiça, e se vende consoante quem paga mais. Esta sociedade suja e indecente vai fazer com que Balram abandone os seus valores e se torne um homem capaz do inimaginável para conseguir o que quer, tendo sempre a noção de que também ele teve de se “vender” para ser alguém.

Gostei muito deste livro. O que Aravind Adiga pretendeu fazer foi traçar um retrato atual da sociedade indiana ao contar-nos como se sobrevive num lugar que não considera os seus cidadãos iguais, que aceita subornos como prática aceitável e que explora as castas mais baixas sem qualquer respeito pelos direitos humanos. A leitura desta obra é um verdadeiro choque numa altura em que a cultura do zen, do yoga e do namaste está tão em voga. A certa altura recordou-me Money, de Martin Amis, embora mais interessante e com uma escrita mais clara. Uma crítica à sociedade local onde homens relativamente sãos e decorosos são arrastados para um mundo fétido e descontrolado. Não admira que tenha ganho o Man Booker Prize. Recomendo vivamente.

Literatura Norte-Americana

The Goldfinch

A minha última leitura de 2015 foi The Goldfinch (2013) (O Pintassilgo), vencedor do prémio Pulitzer 2014, e um monstro de 771 páginas. A sua autora, Donna Tart, é uma reconhecida escritora norte-americana, famosa por publicar livros de dez em dez anos. 

O início da obra é fascinante. Encontramos Theo Decker num quarto de hotel em Amesterdão, a explicar a razão pela qual se encontra ali, e que a repentina morte da mãe durante a sua adolescência o fez perder qualquer tipo de ambição ou orientação. Um pouco mais adiante, ficamos a saber o que tudo isto significa e o que o levou até àquele momento. 
A mãe de Theo era uma amante de arte e passava muitas tardes no museu Metropolitano de Nova Iorque, cidade onde ambos viviam. Certa manhã, antes de se dirigirem à escola de Theo onde o diretor ia repreender o rapaz por uma má ação que este cometera, resolveram passar pelo museu para a mãe admirar mais uma vez um quadro de que gostava muito, O Pintassilgo do pintor neerlandês Carel Fabritius. De súbito, o edifício é alvo de um ataque terrorista. A mãe de Theo morre e o rapaz sobrevive. Sem pensar, Theo põe o quadro dentro da mochila, sai do museu, e a sua aventura começa. Sozinho nas ruas de Nova Iorque, Theo vai pulando de casa em casa e acaba por dar início a uma vida de crime, uma vida vazia, uma vida confusa. 
The Goldfinch é uma obra complexa, mas, a meu ver, ao mesmo tempo simples. A morte da mãe muda radicalmente a vida de Theo, faz com que ele se perca em plena adolescência e divague sobre o que é melhor para si. Contudo, a sua essência boa nunca desvanece e o seu sofrimento acaba por apaziguar assim que ele começa a tomar as decisões certas. 
Esta é uma obra com várias temáticas: a ligação entre mãe e filho, o amor pela arte, a diferença entre o bem e o mal, os traumas que sofremos, a responsabilidade das decisões que tomamos. Mas também é uma ode à esperança se conseguirmos perceber o que é melhor para nós e tivermos força para concretizá-lo. The Goldfinch é um livro muito belo, bem escrito, e com uma profundidade atroz. Recomendo e aguardo o filme.