A herança de Eszter

Mais uma vez, Sandor Marai. É o meu terceiro livro do autor húngaro. Já sei ao que vou. E gosto.
Eszter é uma mulher de meia idade que vive uma existência monótona numa casa velha de aldeia e idealiza o reencontro com o que foi o grande amor da sua vida. Certo dia, esse homem aparece-lhe com a esposa glamorosa ao estilo atriz de Hollywood em decadência, e dois filhos adolescentes rabugentos e insatisfeitos com a realidade. Lajos volta, mas não é para ela, deseja o anel de noivado que lhe deu há vinte anos para o oferecer à filha como parte de um dote. Contudo, tal como todas as coisas em que Lajos toca, esse anel também se evaporou.
A herança de Ester (1939) é um romance curto sobre um triângulo amoroso e o poder que uma pessoa tem sobre outra. Lajos não sente pudor em regressar a casa de Eszter para, mais uma vez, lhe roubar o pouco que de valioso ela tem, e Eszter, mais uma vez, dar-lho-ia se tivesse. Numa Hungria devastada onde a classe média é mal vista e tenta sobreviver a todo o custo, os mais fracos são insultados e oprimidos não pelos mais poderosos mas, neste caso, por um certo chico-espertismo que faz de tudo para singrar.
O mais bonito da obra é vermos como os sentimentos de Eszter são expostos. Marai desarma os corações mais rijos com uma escrita crua e intensa. Não sentimos pena dela, nem revolta, nem angústia, apenas uma leve tristeza e esperança de que tudo possa acabar bem. Recomendo. Um grande romance em poucas páginas.
