Someone at a Distance

Há cerca de um ano comecei a comprar clássicos da editora inglesa Persephone Books. Esta editora especializa-se na edição de livros esquecidos do início do século XX, escritos por mulheres ou com histórias sobre mulheres. Uma das suas imagens de marca são as capas completamente lisas e cinzentas, com interiores de padrões coloridos. No entanto, também editam as suas melhores obras com capas de reproduções de quadros, as minhas preferidas. Já li três títulos: Little Boy Lost, de Marghanita Laski; Cheerful Weather For The Wedding, de Julia Strachey; e Someone at a Distance, de Dorothy Whipple.
Someone at a Distance (1953), de Dorothy Whipple, é um dos livros favoritos de muitas fãs da editora Persephone e conta igualmente com uma alta pontuação no site Goodreads. À luz desta reputação decidi comprá-lo e lê-lo. O início é muito forte. A acção passa-se em Inglaterra, onde uma viúva rica decide contratar uma rapariga francesa para lhe fazer companhia e ajudá-la a aperfeiçoar a Língua. Louise, uma jovem simples e ambiciosa que não consegue ultrapassar o facto de o herdeiro da sua cidade a ter rejeitado pela sua falta de dinheiro, chega à casa da idosa pronta a desfrutar das novas regalias. Não faz muitos amigos por ser rude e politicamente incorreta, contudo, como tem bom gosto e é bonita, a senhora pede-lhe para ficar.
O que se segue é uma interessante reviravolta que passa o foco para a família do filho da senhora rica. Avery e Ellen são um casal feliz com dois filhos, o rapaz está na tropa e a rapariga numa escola interna feminina. Avery é sócio e trabalha numa editora e Ellen é dona de casa. Tudo está aparentemente bem, só que quando Louise chega para ficar hospedada em casa do casal, tudo muda.
Dorothy Whipple não é uma grande escritora, contudo a sua escrita é suficientemente razoável para nos manter presos à páginas a desejar saber como se desenrola a história. Além disso, a autora revela-nos factos interessantes sobre o final de um casamento na década de 50. Como se via o divórcio, ainda pouco habitual, como eram tratadas as pessoas divorciadas, como é que uma mulher conseguia sobreviver sozinha economicamente, etc. É igualmente curioso ver a reação dos filhos.
O meu grande problema com este livro é o final. Após passarmos 450 páginas a ler sobre o sofrimento das personagens, as inesperadas mudanças radicais na sua vida, e a destruição de uma família feliz, no fim, com a escolha que Ellen faz, parece que foi tudo em vão. Avery fez o que fez, e nada lhe acontece. Arrependeu-se porque foi apanhado e, no final, teve a recompensa que tanto desejava. Porém, o mais extraordinário, foi a completa marginalização dos filhos em relação ao futuro dos pais. Eles, que estiveram lá quando a mãe mais precisou deles, foram descartados quando esta decide o seu futuro.
Someone at a Distance poderia ter sido disruptivo, destrutivo, um marco na literatura “de mulheres” se tivesse tido a coragem de dar a Ellen o poder de continuar a enfrentar o mundo sozinha. No entanto, com este final tão fraco e demeritório, é apenas mais uma história de traição em que a mulher traída decide ficar ao lado do marido porque é “boa”, esquecendo a dignidade e o respeito próprio que a caracterizaram ao longo de toda a obra. Uma autêntica decepção.
Como referi no início, este foi o terceiro título que li da editora Persephone Books. Little Boy Lost foi o meu preferido, tendo saltado rapidamente para a lista dos livros da minha vida. Os outros dois, Cheerful Weather for the Wedding e Someone at a Distance, foram desilusões pelos fracos finais que apresentaram. Lerei os restantes que comprei na esperança de me trazerem um saldo mais positivo em relação a esta editora inglesa com uma missão tão interessante e edições tão bonitas e especiais.