Literatura Europeia

A Guerra das Salamandras

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Admito que não sou grande leitora de ficção cientifica, mas quando me recomendam um clássico do género, tenho dificuldade em recusar a leitura. Acho que é a minha vontade de saber e aprender mais sobre aquilo que não sei que me levou a ler A Guerra das Salamandras (1936), de Karel Capek.

Karel Capek (1890-1938) foi um prolífico escritor checo que se notabilizou no género de ficção cientifica (muitas vezes em colaboração com o seu irmão Josef). Ficou sobretudo conhecido pela peça de teatro R.U.R. (que deu origem à palavra ROBOT), e pelo romance A Guerra das Salamandras.

Este último é uma sátira ao momento e ao contexto político em que o autor vivia, no início do século XX, aquando da chegada ao poder de várias ditaduras autoritárias. Conta a história de um explorador que encontra uma salamandra no Pacífico e percebe que ela é suficientemente inteligente para seguir ordens e desenvolver-se intelectualmente. Como as salamandras se reproduzem em grandes quantidades e são ótimas trabalhadoras, muitos países as adotam para fazer os trabalhos pesados. Principalmente no que toca a ganhar território ao mar, algo em que são peritas. O problema, é que passados vários anos, as salamandras são mais numerosas do que os humanos e já não se deixam subjugar como dantes.

Mais do que um texto de ficção científica, A Guerra das Salamandras é uma crítica ao comportamento humano que pela sua ganância e ânsia de poder entra em guerras desnecessárias e destrói vidas inutilmente. Gostei muito deste livro. Realmente é diferente do que normalmente leio, mas de vez em quando é bom sairmos da nossa zona de conforto para descobrir obras que nos surpreendem e fazem pensar de uma nova forma. Recomendo.

Literatura Europeia

Um Artista da Fome

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Kafka está rapidamente a tornar-se um dos escritores mais interessantes que já conheci. Li O Processo (1925) há alguns anos, quando andava na universidade, e lembro-me de ter gostado, apesar de o ter achado um livro estranho. Acabei por ler A Metamorfose (1915) há uns meses, naquela que se tornou uma das minhas obras preferidas que acabou por despoletar esta jornada para ler os outros trabalhos de referência do autor. Seguiram-se estes textos de que vos vou falar.

Um Artista da Fome e outros textos (1924) é uma coletânea publicada pela chancela 11 17 da editora Bertrand que reune as melhores histórias curtas de Franz Kafka, com algumas delas ainda publicadas em tempo de vida do escritor. A que mais se destaca é, sem dúvida, a que lhe dá nome: Um Artista da Fome. Neste conto, Kafka conta a história de um “artista da fome” que se recusa a comer, ficando por isso extremamente magro e sendo uma atração num circo de horrores. Quando, no final, os fiscais que inspeccionam as jaulas o encontram dentro de uma das melhores, perguntam-lhe se ele continua a jejuar, ao que o artista responde que sim, que não pode fazer outra coisa, que está condenado a isso, porque nunca encontrou nada de que gostasse de comer.

Todos os textos desta coletânea são mais ou menos assim. Todos têm uma conclusão ou um contexto filosófico, aparentemente confuso ou estranho, cuja intenção creio que é fazer-nos pensar na vida e no nosso papel individual, e coletivo, no mundo. Não nos esqueçamos de que Kafka escreveu sobretudo no período entre guerras, uma época fortemente marcada pela Grande Depressão e por tensões sociais que acabaram por originar regimes autoritários e totalitários.

Gostei muito deste livrinho. E, apesar de não ser uma obra obrigatória, creio que deve ser lida como parte de um bom conhecimento sobre Kafka. A obra que se segue é O Castelo (1926).