Literatura Britânica

O Professor

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Neste meu périplo para ler todas as obras das irmãs Brontë, deixei para último as que foram escritas por Charlotte. Li Jane Eyre (1847) o ano passado e agora recomecei os seus restantes livros por O Professor (1857).

Esta novela foi originalmente escrita quando Charlotte ainda era uma adolescente, sendo a sua primeira tentativa de romance. E nota-se. O Professor conta a história de William Crimsworth, um órfão que com o apoio desapegado dos tios estuda em Eton para um dia ingressar no clero. Como não o é de todo o seu desejo fazê-lo, os tios retiram-lhe a ajuda sendo este obrigado a procurar o irmão, Edward, que herdara a fábrica dos pais. Edward recebe-o mal e o emprego como escriturário que William consegue na empresa dura poucos meses. Tentando por Hunsden, um homem estranho e sombrio, a procurar novos rumos para a sua vida, William parte para a Béigica onde acaba por encontrar trabalho como professor numa escola de raparigas.

As descrições que faz das alunas são sempre superficiais e focadas no físico e nas suas  maneiras, principalmente se forem belgas. São “feias, malfeitas, ignorantes e sujas.” Só as três que se sentam sempre na primeira fila é que chamam a atenção do professor pela sua beleza, mas ainda assim são consideradas “ordinárias, desorientadas e estúpidas.” William acaba por desenvolver uma atração pela diretora da escola, Zoraide, que “brilhava no meio das alunas como uma estrela sobre um pântano coberto de fogos-fátuas profundamente convencida da sua superioridade.” Tudo nela é bom, tanto a nível fisico como psicológico, mas, apesar de dar esperanças ao professor, está comprometida com o Sr. Pelet, diretor da escola dos rapazes e dono da casa onde William se encontra hospedado.

Após esta grande desilusão, William vira a sua atenção para uma professora de lavores suíça que começa a frequentar as suas aulas com o objetivo de aprender inglês. Frances vai personificar o ideal da mulher vitoriana da classe média: inteligente, submissa q.b., não muito bonita mas agradável à vista, faz tudo corretamente de modo a agradar ao professor. A sua autoconfiança cresce sempre que William a elogia e quando ela começa a tirar as melhores notas da turma é subitamente despedida por Zoraide.

Com este despedimento, Frances vai-se embora fazendo com que William mova mundos e fundos para encontrar o seu paradeiro. Passado algum tempo, quando a alcança, descobre que ela trabalha como professora de francês, história e geografia, e que é bastante respeitada no meio. Os dois acabam por casar, partem para Inglaterra (sonho antigo de Frances cuja mãe era inglesa), e abrem uma das melhores escolas de raparigas no condado onde vivem, ficando a viver ao lado da propriedade de Hunsden, seu vizinho e amigo.

Na minha opinião, O Professor tinha um grande potencial para se tornar um clássico, mas peca sobretudo pela confusa narrativa de Charlotte Bronte. O romance demora muito a arrancar, sendo o primeiro terço dedicado à relação de William e Edward que acaba subitamente para regressar apenas num ou noutro comentário final. Parece que, à primeira vista, a premissa da história é uma e depois se torna outra completamente distinta. Creio igualmente que a descrição das mulheres e o papel do feminino deixa um tanto a desejar. A diferença de tratamento entre as raparigas belgas e Frances é enorme e, a meu ver, injustamente generalizada. No entanto, Charlotte faz uma critica interessante à sociedade inglesa, apelidando-a de superficial e enganadora, ao contrário da belga que, sendo latina, é mais consciente da dignidade que advém do trabalho. Trabalho esse muito valorizado ao longo de todo a história, ao ponto de, no final, Frances pedir ao marido William que a deixe continuar a leccionar pois: “gosto do descanso, mas prefiro a atividade. É preciso que trabalhe e que trabalhe consigo. Tenho observado que as pessoas que somente buscam o prazer de se acompanharem nunca se amam tanto como aquelas que trabalham e sofrem, conscientemente, por uma finalidade comum.”, numa clara critica à aristocracia.

Outro dos pontos fortes, porém pouco explorado, deste romance é a personagem de Hunsden. No início não entendemos bem a sua intenção, nem porque o preocupa tanto William e o seu estilo de vida. todavia, no final, apercebemo-nos de que esta figura é uma alusão ao diabo a quem William “vende a alma” de modo a encontrar o seu lugar no mundo. Esta comparação é um pouco lata porque o nosso protagonista nem sempre segue os concelhos de Hunsden e, no fim, até se torna seu amigo pessoal, contudo é a própria autora que o define como um Mefistófeles e uma víbora.

Muito mais haveria a dizer sobre O Professor, de Charlotte Brontë. Termino apenas com a ideia de que é um rascunho preparatório para o que viriam a ser os seus romances e que, na busca da perfeição, o escritor tem por vezes de falhar para aperfeiçoar a técnica de modo a escrever a sua obra-prima. Este falhanço é mau, ma non troppo.

Literatura Britânica

Agnes Grey

AgnesGrey

Neste meu périplo pelas obras das irmãs Brontë, decidi ler o terceiro livro que me faltava dos três que foram publicados em 1847: Agnes Grey, de Anne Brontë. Apesar de não ser tão intenso nem magnânimo como Jane Eyre ou O Monte dos Vendavais, continua a merecer (fortemente) a nossa atenção.

O que Charlotte, Emily e Anne Brontë mais desejavam era ser autoras com trabalho publicado. Para isso, decidiram escrever uma prosa que mais tarde pudessem editar numa compilação conjunta. Charlotte escreveu Jane Eyre, Emily escreveu O Monte dos Vendavais, e Anne escreveu Agnes Grey. Curiosamente, este último foi o que, à época, teve mais aceitação por parte do editor e o que mais vendeu junto de um público que não se achava preparado para entender as outras duas obras. Hoje em dia, o livro de Anne é o menos conhecido dos três, tendo sido altamente ultrapassado pelos textos das irmãs que hoje são considerados verdadeiras obras de culto.

Agnes Grey (1847) conta a história de uma jovem preceptora que decide independentizar-se para poder ajudar a família e para se sentir, de certa forma, útil à sociedade. As casas por onde passa não são propriamente um paraíso, pelo que Agnes aprende a amadurecer depressa e sozinha, acabando por encontrar um equilíbrio emocional pouco comum à sua idade. Esta foi mesmo uma das características de que mais gostei no livro: Anne Brontë, na voz de Agnes, tece vários comentários sobre a vida, sobre como viver em harmonia consigo própria, com os outros, com a natureza e os animais, sobre como educar as crianças, e até sobre o casamento e a aparência das mulheres. Achei a sua mentalidade deveras moderna e edificante, especialmente tendo em conta o pensamento do séc. XIX no início da era vitoriana. Também apreciei a sua escrita, simples e indo ao cerne da questão, se bem que se nota não estar tão desenvolvida com a das irmãs. O final do livro foi o esperado, um pouco cliché, porém satisfatório.

Por todas estas razões creio que passar ao lado de um livro como Agnes Grey é um erro. Apesar de ser o menor dos três originalmente publicados, continua a ser bom, com uma história ternurenta e cheia de lições de vida que nos fazem pensar e encarar as personagens de um modo quase estóico. Recomendo vivamente.

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O Monte dos Vendavais

Se há um clássico inglês por excelência, eu diria que é O Monte dos Vendavais (1847), de Emily Bronte. Como é que eu ainda não o tinha lido? Como?

As Irmãs Bronte ficaram conhecidas tanto pelas suas obras literárias, que se tornaram autênticos clássicos da literatura inglesa, como pelas suas vidas cedo ceifadas pela tuberculose. Anne, a mais nova, escreveu Agnes Grey (1847), A Inquilina de Willfell Hall (1848) e alguns poemas, morrendo em 1849 com 29 anos. Charlotte foi a que viveu mais tempo, 39 anos, e a que deixou um maior espólio, nomeadamente Jane Eyre (1847), Shirley (1849), Villette (1853), O Professor (1857) e poesia. Também foi ela quem encorajou Emily a publicar os seus poemas e, mais tarde, um trabalho em prosa: O Monte dos Vendavais, o único que nos deixou e talvez o mais famoso dos livros Bronte.

Esta história ocorre nas charnecas selvagens do Yorkshire, no final do séc. XVIII e início do séc. XIX. A nossa narradora participante, Nelly Dean, conta como Mr. Earnshaw, após uma viagem a Liverpool, decide levar para casa o órfão Heathcliff, para espanto da família, principalmente dos filhos Hindley e Catherine. Catherine recebe o rapaz de braços abertos e forma com ele um elo tão forte que os dois acabam por se apaixonar, porém, quando Mr. Earnshaw falece, Hindley regressa da faculdade para assumir as suas responsabilidades de senhor da casa e decide rechaçar e maltratar Heathcliff. Entretanto, Catherine faz amizade com os filhos da casa vizinha, os Linton, e acaba por casar com Edgar, um jovem rico e passivo. Devastado com a união, Heathcliff decide ir-se embora, voltando três anos depois, refinado, endinheirado e com um ardente desejo de vingança.

Esta introdução é apenas o prelúdio do que acabará por acontecer. As personagens  principais são muito emotivas e encontram-se ambientadas numa atmosfera agreste e obscura que marca o ritmo e favorece a essência gótica do romance. Os comportamentos repetem-se de uma geração para a outra, quase como se os mais novos imitassem os mais velhos por via de exemplo, parando quando o limite e o amor superam o cansaço da crueldade e da frieza. O final é o que se espera, uma conclusão satisfatória e racional que dá um sinal de esperança ao futuro dos que resistem e acabam por ficar.

Gostei muito deste livro. A escrita de Emily Bronte é magnífica e a sua original história de amor, obsessão, depressão e crueldade é das mais únicas e profundas que já li. É incrível pensar que três irmãs tão jovens marcaram tão fortemente a literatura como as Bronte. Os seus romances são hoje mundialmente aclamados e alvo de inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas. Enquanto leitora, gostei tanto de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais que me sinto encorajada a ler todos os livros das Bronte.

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Jane Eyre

JaneEyre

Sempre quis muito ler este livro não só porque é um clássico, como também porque é o livro preferido de muitas pessoas cuja opinião respeito grandemente. O problema é que há uns anos vi na RTP2 a série da BBC com Ruth Wilson e Toby Stephens e fiquei completamente encantada. Tanto, que não consegui pegar na obra com medo que me estragasse os sentimentos que eu tinha em relação à série e com medo que a experiência de leitura não fosse autêntica por estar influenciada pela série. Deixei passar algum tempo. Este ano decidi lê-lo e adorei.

Jane Eyre (1847), de Charlotte Bronte, é considerado uma autêntica obra-prima tendo sido adaptado inúmeras vezes ao cinema e à televisão. Conta a história de Jane, uma rapariguinha orfã acolhida por uma tia que não gosta dela e que a envia para um colégio interno para aprender a ser preceptora. Aos dezanove anos, Jane decidi enviar cartas para trabalhar em casas particulares e acaba por ser aceite em Thornfield Hall, a mansão de Mr. Rochester que tanto tem de encantador como de misterioso.

O que mais me espantou no livro foi a escrita moderna e simples de Charlotte Bronte. A autora consegue prender o leitor a uma história cheia de reviravoltas com uma ligeireza textual impressionante para a época. Outra das características que muito apreciei foi o facto de sentir que Bronte entendia a alma humana na perfeição, levemente abrangendo temas como as classes sociais, a religião, e os direitos das crianças de uma forma desempoeirada embora clara.

Jane Eyre é tudo o que se quer num livro. Uma história de amor, um thriller, uma biografia, um clássico. Aconselho toda a gente a lê-lo pois creio que não deixa ninguém indiferente.