Literatura Britânica · Literatura Europeia

A Inquilina de Wildfell Hall

*spoilers

Antes de iniciar o que, oficialmente, eu já chamo de “A Minha Jornada Brontë”, Anne Brontë era para mim uma autora desconhecida. Quando decidi ler as obras das irmãs Brontë, após a leitura de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, foi por Anne que comecei por ela ter escrito apenas dois livros. Depois do fantástico Agnes Grey, seguiu-se o maravilhoso A Inquilina de Wildfell Hall.

Uma pacata zona do Yorkshire é assolada pela repentina chegada de uma mulher desconhecida com um filho pequeno. Os habitantes ficam curiosos com a nova vizinha e tentam conhecê-la, mas Helen é a discrição em pessoa e mantém-se à margem de todos os encontros sociais. Rapidamente começam a surgir boatos de que ela fugiu do marido para se tornar amante do seu senhorio, o que leva William, um jovem rapaz local que se apaixonou perdidamente por ela, a querer saber o que aconteceu ao certo. Helen confia-lhe o seu diário e o que se segue é o relato triste e inacreditável de um casamento vitoriano falhado em que as mulheres, embora inocentes e muitas vezes com a razão do seu lado, não tinham quaisquer direitos.

Este livro foi uma autêntica surpresa para mim. Não só pela maneira de como está escrito (Anne escreveu-o um ano após Agnes Grey e a sua maturidade como escritora é notória), como também pela sua temática a roçar o feminismo, num período em que o termo e o conceito não existiam. As irmãs Brontë também são conhecidas por pensarem nos direitos das mulheres nas suas obras, e creio que nenhuma o faz melhor do que Anne, a mais nova das três. E é precisamente disso que trata A Inquilina de Wildfell Hall. Helen foge de uma situação injusta para tentar salvar o filho, mas a verdade é que ela própria não se sentia capaz de viver numa conjuntura desrespeitosa e infeliz só porque a sociedade o impunha. E, apesar de ter voltado para um marido alcoólico, depressivo e moribundo para tratar dele, e só depois de este falecer se ter permitido recomeçar de novo, não creio que o mérito de fortalecer as mulheres numa sociedade que as via como propriedade do esposo seja posto em causa, pois Helen voltou porque quis devido ao seu forte sentido de dever (não nos esqueçamos igualmente de que Anne Brontë era filha de um pároco e que, acima de tudo, a época em que vivia não estava assim tão desenvolvida para que Helen largasse tudo e deixasse o marido morrer sozinho em nome do feminismo.)

Não nos esqueçamos igualmente do contexto em que a obra foi escrita. O irmão de Anne, Branwell, também passou por uma grande provação amorosa que a autora terá usado como sua inspiração no livro.

Por tudo isto e muito mais A Inquilina de Wildfell Hall merece um lugar de destaque não só no portfolio das irmãs Brontë, como também no cânone da literatura inglesa e mundial. Recomendo vivamente a sua leitura.

Literatura Britânica

O Professor

*spoilers

Neste meu périplo para ler todas as obras das irmãs Brontë, deixei para último as que foram escritas por Charlotte. Li Jane Eyre (1847) o ano passado e agora recomecei os seus restantes livros por O Professor (1857).

Esta novela foi originalmente escrita quando Charlotte ainda era uma adolescente, sendo a sua primeira tentativa de romance. E nota-se. O Professor conta a história de William Crimsworth, um órfão que com o apoio desapegado dos tios estuda em Eton para um dia ingressar no clero. Como não o é de todo o seu desejo fazê-lo, os tios retiram-lhe a ajuda sendo este obrigado a procurar o irmão, Edward, que herdara a fábrica dos pais. Edward recebe-o mal e o emprego como escriturário que William consegue na empresa dura poucos meses. Tentando por Hunsden, um homem estranho e sombrio, a procurar novos rumos para a sua vida, William parte para a Béigica onde acaba por encontrar trabalho como professor numa escola de raparigas.

As descrições que faz das alunas são sempre superficiais e focadas no físico e nas suas  maneiras, principalmente se forem belgas. São “feias, malfeitas, ignorantes e sujas.” Só as três que se sentam sempre na primeira fila é que chamam a atenção do professor pela sua beleza, mas ainda assim são consideradas “ordinárias, desorientadas e estúpidas.” William acaba por desenvolver uma atração pela diretora da escola, Zoraide, que “brilhava no meio das alunas como uma estrela sobre um pântano coberto de fogos-fátuas profundamente convencida da sua superioridade.” Tudo nela é bom, tanto a nível fisico como psicológico, mas, apesar de dar esperanças ao professor, está comprometida com o Sr. Pelet, diretor da escola dos rapazes e dono da casa onde William se encontra hospedado.

Após esta grande desilusão, William vira a sua atenção para uma professora de lavores suíça que começa a frequentar as suas aulas com o objetivo de aprender inglês. Frances vai personificar o ideal da mulher vitoriana da classe média: inteligente, submissa q.b., não muito bonita mas agradável à vista, faz tudo corretamente de modo a agradar ao professor. A sua autoconfiança cresce sempre que William a elogia e quando ela começa a tirar as melhores notas da turma é subitamente despedida por Zoraide.

Com este despedimento, Frances vai-se embora fazendo com que William mova mundos e fundos para encontrar o seu paradeiro. Passado algum tempo, quando a alcança, descobre que ela trabalha como professora de francês, história e geografia, e que é bastante respeitada no meio. Os dois acabam por casar, partem para Inglaterra (sonho antigo de Frances cuja mãe era inglesa), e abrem uma das melhores escolas de raparigas no condado onde vivem, ficando a viver ao lado da propriedade de Hunsden, seu vizinho e amigo.

Na minha opinião, O Professor tinha um grande potencial para se tornar um clássico, mas peca sobretudo pela confusa narrativa de Charlotte Bronte. O romance demora muito a arrancar, sendo o primeiro terço dedicado à relação de William e Edward que acaba subitamente para regressar apenas num ou noutro comentário final. Parece que, à primeira vista, a premissa da história é uma e depois se torna outra completamente distinta. Creio igualmente que a descrição das mulheres e o papel do feminino deixa um tanto a desejar. A diferença de tratamento entre as raparigas belgas e Frances é enorme e, a meu ver, injustamente generalizada. No entanto, Charlotte faz uma critica interessante à sociedade inglesa, apelidando-a de superficial e enganadora, ao contrário da belga que, sendo latina, é mais consciente da dignidade que advém do trabalho. Trabalho esse muito valorizado ao longo de todo a história, ao ponto de, no final, Frances pedir ao marido William que a deixe continuar a leccionar pois: “gosto do descanso, mas prefiro a atividade. É preciso que trabalhe e que trabalhe consigo. Tenho observado que as pessoas que somente buscam o prazer de se acompanharem nunca se amam tanto como aquelas que trabalham e sofrem, conscientemente, por uma finalidade comum.”, numa clara critica à aristocracia.

Outro dos pontos fortes, porém pouco explorado, deste romance é a personagem de Hunsden. No início não entendemos bem a sua intenção, nem porque o preocupa tanto William e o seu estilo de vida. todavia, no final, apercebemo-nos de que esta figura é uma alusão ao diabo a quem William “vende a alma” de modo a encontrar o seu lugar no mundo. Esta comparação é um pouco lata porque o nosso protagonista nem sempre segue os concelhos de Hunsden e, no fim, até se torna seu amigo pessoal, contudo é a própria autora que o define como um Mefistófeles e uma víbora.

Muito mais haveria a dizer sobre O Professor, de Charlotte Brontë. Termino apenas com a ideia de que é um rascunho preparatório para o que viriam a ser os seus romances e que, na busca da perfeição, o escritor tem por vezes de falhar para aperfeiçoar a técnica de modo a escrever a sua obra-prima. Este falhanço é mau, ma non troppo.

Literatura Britânica

O Monte dos Vendavais

Se há um clássico inglês por excelência, eu diria que é O Monte dos Vendavais (1847), de Emily Bronte. Como é que eu ainda não o tinha lido? Como?

As Irmãs Bronte ficaram conhecidas tanto pelas suas obras literárias, que se tornaram autênticos clássicos da literatura inglesa, como pelas suas vidas cedo ceifadas pela tuberculose. Anne, a mais nova, escreveu Agnes Grey (1847), A Inquilina de Willfell Hall (1848) e alguns poemas, morrendo em 1849 com 29 anos. Charlotte foi a que viveu mais tempo, 39 anos, e a que deixou um maior espólio, nomeadamente Jane Eyre (1847), Shirley (1849), Villette (1853), O Professor (1857) e poesia. Também foi ela quem encorajou Emily a publicar os seus poemas e, mais tarde, um trabalho em prosa: O Monte dos Vendavais, o único que nos deixou e talvez o mais famoso dos livros Bronte.

Esta história ocorre nas charnecas selvagens do Yorkshire, no final do séc. XVIII e início do séc. XIX. A nossa narradora participante, Nelly Dean, conta como Mr. Earnshaw, após uma viagem a Liverpool, decide levar para casa o órfão Heathcliff, para espanto da família, principalmente dos filhos Hindley e Catherine. Catherine recebe o rapaz de braços abertos e forma com ele um elo tão forte que os dois acabam por se apaixonar, porém, quando Mr. Earnshaw falece, Hindley regressa da faculdade para assumir as suas responsabilidades de senhor da casa e decide rechaçar e maltratar Heathcliff. Entretanto, Catherine faz amizade com os filhos da casa vizinha, os Linton, e acaba por casar com Edgar, um jovem rico e passivo. Devastado com a união, Heathcliff decide ir-se embora, voltando três anos depois, refinado, endinheirado e com um ardente desejo de vingança.

Esta introdução é apenas o prelúdio do que acabará por acontecer. As personagens  principais são muito emotivas e encontram-se ambientadas numa atmosfera agreste e obscura que marca o ritmo e favorece a essência gótica do romance. Os comportamentos repetem-se de uma geração para a outra, quase como se os mais novos imitassem os mais velhos por via de exemplo, parando quando o limite e o amor superam o cansaço da crueldade e da frieza. O final é o que se espera, uma conclusão satisfatória e racional que dá um sinal de esperança ao futuro dos que resistem e acabam por ficar.

Gostei muito deste livro. A escrita de Emily Bronte é magnífica e a sua original história de amor, obsessão, depressão e crueldade é das mais únicas e profundas que já li. É incrível pensar que três irmãs tão jovens marcaram tão fortemente a literatura como as Bronte. Os seus romances são hoje mundialmente aclamados e alvo de inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas. Enquanto leitora, gostei tanto de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais que me sinto encorajada a ler todos os livros das Bronte.