Hollywood (e Barfly)

Sempre senti alguma curiosidade em ler Bukowski, especialmente por não saber nada sobre ele, apenas que era considerado um autor à margem. Ao entrar numa livraria, vi as suas obras publicadas pela Alfaguara em lindas edições e decidi comprar a que me pareceu mais apelativa, Hollywood (1989). Apesar de não saber o que esperar, não me decepcionei.
Hollywood é uma história autobiográfica sobre como foi para Charles Bukowski escrever o guião para um filme. O autor é abordado pelo realizador de cinema Barbet Schroeder para escrever uma história baseada na sua vida, sendo arremessado para Hollywood e vivendo uma pseudo vida de estrela ao lado de actores, produtores, realizadores, etc. As curiosidades que conta e as críticas que faz àquele mundo e aos actores que conheceu são simultaneamente divertidas e bizarras.
Creio que o início do livro pode ser um pouco agressivo para quem não conhece o estilo do autor. Aparecem asneiras, piadas ordinárias explícitas e muito álcool. Depois, com o decorrer da acção, creio que estes recursos acabam por suavizar, contudo, a escrita de Bukowski é conhecida precisamente por ser direta, bruta e indesculpável. Tal como o próprio. Bukowski defendia que a literatura devia ser quase bombástica, cada frase um murro no estômago numa tentativa de imitar as amarguras da vida da classe trabalhadora. Os escritores descritivos que “perdem tempo a apresentar a cena”, são, para ele, “muito aborrecidos”.
E eis que surge Barfly (1987). Com Mickey Rourke e Faye Dunaway nos principais papéis, Barfly mostra Chinaski (Bukowski) tal como ele é: bêbedo, preguiçoso, sujo, idealista, rude, mas com um bom coração. O que o homem mais quer é beber álcool e escrever em paz. A estreia teve críticas boas e más, embora Dunaway tivesse sido nomeada para um Globe de Ouro no papel que ditou o seu regresso ao grande ecrã. Hoje em dia creio que o filme é considerado de culto, principalmente para os fãs do escritor. Uma coisa é certa, a experiência de leitura de Hollywood não fica completa sem ele.
Tal como referi no início, Hollywood foi o meu primeiro contacto com Charles Bukowski, mas certamente não será o último. As suas obras relatam um “realismo sujo” (dirty realism) que é, ao mesmo tempo, absurdo e apetecível.
