Literatura Europeia

Carta ao Pai

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Depois de ler O Processo (1925), A Metamorfose (1915), O Artista da Fome (1924), e O Castelo (1926), só me faltava Carta ao Pai (1952) para completar a leitura das obras mais emblemáticas de Franz Kafka.

Carta ao Pai é um livro curto, de não ficção, no qual Kafka se dirige ao progenitor para lhe dizer que são os dois pessoas muito diferentes, e que, por isso, não vêem o mundo da mesma forma. Kafka acusa-o diretamente de ter sido um mau pai (embora não com termos tão directos), e critica as suas atitudes de déspota e arrogante não só para com os familiares, como também para com os funcionários da sua loja.

Kafka revela que a relação que o pai teve com as outras três filhas também não foi fácil, deixando assim transparecer o seu autoritarismo, e acrescenta que a vida familiar não foi fácil devido ao carácter mal formado e intolerante do progenitor. Franz faz igualmente mea culpa de modo a não acusar o pai de todos os males passados na infância, contudo fica subentendido que a (má) influência do pai terá sido decisiva para ele se considerar tímido e pouco confiante.

Carta ao Pai não é uma obra obrigatória, porém, para quem gosta de Kafka é um óptimo meio para conhecê-lo melhor e perceber como ele próprio se via como criança e adulto numa sociedade entre guerras, rapidamente em mudança. Uma leitura muito interessante que completou o meu ciclo Franz Kafka.

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O Castelo

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Depois de ler A Metamorfose (1915) e O Artista da Fome (1924), de Franz Kafka, resolvi comprar um dos seus livros mais famosos, O Castelo (1926). Hesitei porque Kafka nunca o terminou, contudo, e para minha surpresa, não me importei muito que a história não tivesse um final.

Nesta obra, Kafka relata o estranho episódio em que K, um agrimensor de fora da cidade, é contratado pelo Castelo para trabalhar na identificação dos terrenos locais. Contudo, os habitantes não ficam contentes com a sua chegada, pelo que o menosprezam e dificilmente lhe dão guarida. Quando K tenta ir ao Castelo para esclarecer a sua situação, nunca lá consegue entrar porque pelo caminho vai encontrando obstáculos bizarros.

Durante a leitura, achei esta história bastante parecida com a de O Processo (1925). Ambas as personagens têm o menos nome, ambas se vêem envolvidas em situações similares, e, no geral, o ambiente do livro parece o mesmo: claustrofóbico, caótico, desordenado. Creio que Kafka terá querido expressar nos seus livros o tempo confuso em que vivia. No período entre guerras, as tensões sociais e as incertezas (principalmente para os judeus) eram enormes, e o autor terá tentado demonstrar a falta de respostas e certezas perante o silêncio e a ambiguidade que sentia.

Nunca saberemos ao certo o que Kafka quis realmente dizer, a minha é uma de muitas interpretações. No entanto, é ao lê-lo que fazemos com que a sua memória permaneça viva, uma memória que põe o Estado burocrático e, por vezes, esmagador no centro da trama como um vilão. Creio que muitas pessoas sabem perfeitamente o que isso é.

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A Metamorfose

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Kafka sempre foi um escritor que me inspirou uma certa curiosidade. Enquanto andava na faculdade, li O Processo (1925) e gostei muito, apesar de achar que se tratava de um livro estranho. Há umas semanas li A Metamorfose (1915) e adorei ao ponto de querer ler todos os livros famosos do escritor (algumas deles já com opiniões aqui no blogue).

Gregor Samsa é um jovem caixeiro-viajante que tem de trabalhar num emprego que não gosta para ajudar financeiramente a família. Gregor mora com os pais e a irmã mais nova, mas passa a maior parte do tempo na estrada. Certo dia, quando acorda para ir apanhar o comboio, percebe que está transformado num insecto. O que se segue é um enorme rebuliço e a estupefação geral. Ninguém sabe como reagir, nem o que fazer. Com o passar do tempo, a família encontra outras formas de subsistência e Gregor fica confinado ao seu quarto sem que ninguém queira saber muito dele.

Apesar de eu achar que este pequeno texto de Kafka tem uma mensagem clara, creio que, por vezes, pode ser de difícil interpretação. Para mim, Gregor era visto pela família como uma bóia de salvação em termos económicos, pois viviam às suas custas, e, ao mesmo tempo, como alguém que lhes dizia o que fazer (sem má intenção) e os tinha, por isso, “presos”. Ele teve de se tornar dependente para que os familiares recuperassem a sua independência.

Gostei muito desta leitura. Há quem diga que as razões por detrás da sua escrita são religiosas (Kafka era judeu) ou uma alusão à autoridade que o pai exercia sobre ele. Seja o que for, A Metamorfose é um clássico da literatura que merece ser lido. Recomendo vivamente.

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Um Artista da Fome

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Kafka está rapidamente a tornar-se um dos escritores mais interessantes que já conheci. Li O Processo (1925) há alguns anos, quando andava na universidade, e lembro-me de ter gostado, apesar de o ter achado um livro estranho. Acabei por ler A Metamorfose (1915) há uns meses, naquela que se tornou uma das minhas obras preferidas que acabou por despoletar esta jornada para ler os outros trabalhos de referência do autor. Seguiram-se estes textos de que vos vou falar.

Um Artista da Fome e outros textos (1924) é uma coletânea publicada pela chancela 11 17 da editora Bertrand que reune as melhores histórias curtas de Franz Kafka, com algumas delas ainda publicadas em tempo de vida do escritor. A que mais se destaca é, sem dúvida, a que lhe dá nome: Um Artista da Fome. Neste conto, Kafka conta a história de um “artista da fome” que se recusa a comer, ficando por isso extremamente magro e sendo uma atração num circo de horrores. Quando, no final, os fiscais que inspeccionam as jaulas o encontram dentro de uma das melhores, perguntam-lhe se ele continua a jejuar, ao que o artista responde que sim, que não pode fazer outra coisa, que está condenado a isso, porque nunca encontrou nada de que gostasse de comer.

Todos os textos desta coletânea são mais ou menos assim. Todos têm uma conclusão ou um contexto filosófico, aparentemente confuso ou estranho, cuja intenção creio que é fazer-nos pensar na vida e no nosso papel individual, e coletivo, no mundo. Não nos esqueçamos de que Kafka escreveu sobretudo no período entre guerras, uma época fortemente marcada pela Grande Depressão e por tensões sociais que acabaram por originar regimes autoritários e totalitários.

Gostei muito deste livrinho. E, apesar de não ser uma obra obrigatória, creio que deve ser lida como parte de um bom conhecimento sobre Kafka. A obra que se segue é O Castelo (1926).