Literatura Europeia

Um Artista da Fome

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Kafka está rapidamente a tornar-se um dos escritores mais interessantes que já conheci. Li O Processo (1925) há alguns anos, quando andava na universidade, e lembro-me de ter gostado, apesar de o ter achado um livro estranho. Acabei por ler A Metamorfose (1915) há uns meses, naquela que se tornou uma das minhas obras preferidas que acabou por despoletar esta jornada para ler os outros trabalhos de referência do autor. Seguiram-se estes textos de que vos vou falar.

Um Artista da Fome e outros textos (1924) é uma coletânea publicada pela chancela 11 17 da editora Bertrand que reune as melhores histórias curtas de Franz Kafka, com algumas delas ainda publicadas em tempo de vida do escritor. A que mais se destaca é, sem dúvida, a que lhe dá nome: Um Artista da Fome. Neste conto, Kafka conta a história de um “artista da fome” que se recusa a comer, ficando por isso extremamente magro e sendo uma atração num circo de horrores. Quando, no final, os fiscais que inspeccionam as jaulas o encontram dentro de uma das melhores, perguntam-lhe se ele continua a jejuar, ao que o artista responde que sim, que não pode fazer outra coisa, que está condenado a isso, porque nunca encontrou nada de que gostasse de comer.

Todos os textos desta coletânea são mais ou menos assim. Todos têm uma conclusão ou um contexto filosófico, aparentemente confuso ou estranho, cuja intenção creio que é fazer-nos pensar na vida e no nosso papel individual, e coletivo, no mundo. Não nos esqueçamos de que Kafka escreveu sobretudo no período entre guerras, uma época fortemente marcada pela Grande Depressão e por tensões sociais que acabaram por originar regimes autoritários e totalitários.

Gostei muito deste livrinho. E, apesar de não ser uma obra obrigatória, creio que deve ser lida como parte de um bom conhecimento sobre Kafka. A obra que se segue é O Castelo (1926).

Literatura Norte-Americana

O Sentido na Vida

Comecei a ler este livro quando o meu gatinho morreu. Foi uma época muito estranha para mim porque, apesar de o meu gato ter dezoito anos e aparentar cada vez mais fragilidades, nunca pensei que o seu desaparecimento pudesse realmente acontecer. Entristeceu-me muito. Talvez por isso eu tenha querido refletir sobre o sentido na vida. Não de um ponto de vista de autoajuda, mas de um ponto de vista filosófico. 
Susan Wolf é professora catedrática na Universidade da Carolina do Norte e dedica o seu trabalho à filosofia moderna. Entre os vários temas que trata está o sentido na vida. Nesta obra, a autora argumenta que apesar de o sentido na vida ser diferente para todas as pessoas, tem uma característica geral a todas: fazer as coisas por amor e o desejo de realização. Quando fazemos algo por amor ou hedonismo sentimo-nos realizados, mas será que isso basta para que haja sentido na nossa vida? Susan Wolf acha que não e dá o exemplo de uma mulher que vive para alimentar o peixinho dourado e de um homem que tem como objetivo de vida fazer cópias manuscritas do livro Guerra e Paz, de Tolstoi. Questiona a autora: “(…) do ponto de vista do interesse próprio – e desde que, talvez, os seus afectos e valores sejam estáveis, (…) – estas vidas são tão boas quanto possível? (…)”. 
A professora argumenta ainda que o outro lado da moeda é fazermos algo “mais vasto do que nós”, ou seja “(…) algo cujo valor seja independente de nós e tenha a sua fonte fora de nós. (…)”. Contudo, argumenta, lembrando-se do caso de Sísifo, condenado interminavelmente a carregar uma pedra até ao cimo de um monte, “(…) mesmo uma vida que satisfaça completamente a condição subjetiva pode ser tal que hesitaríamos em descrevê-la como dotada de sentido, se objetivamente não tiver qualquer conexão a algo ou alguém cujo valor esteja para lá da própria pessoa em causa. (…)”. 
Isto é, a concepção de sentido na vida para Susan Wolf é, ao mesmo tempo, objetiva e subjetiva, tem a ver com o amor que depositamos no que é importante para nós e nas tarefas que fazemos em prol da comunidade. Segundo a sua visão, o discutível é se damos valor ao que é correto, um assunto inteiramente novo.
Confesso que achei o livro um pouco aborrecido devido à repetição dos conceitos descritos. Não nos podemos esquecer que a obra é o conjunto de uma série de conferências que Susan Wolf deu sobre o tema, ainda assim, poderia ter sido encurtado. Algo que achei curioso foi o facto de a autora ter acrescentado as opiniões de colegas seus, nem sempre concordantes com o seu ponto de vista, e as ter rebatido no final. É, acima de tudo, um livro filosófico e académico, que pede uma leitura atenta. Não tem uma conclusão fechada sobre o sentido na vida, mas dá-nos argumentos interessantes para o começo de uma reflexão. Afinal, não é para isso que serve a filosofia?