O Labirinto da Saudade
Este ensaio foi dos mais lúcidos, claros e objectivos que já li.
Eduardo Lourenço, uma das figuras incontornáveis do pensamento contemporâneo português, discorre neste livro, editado em 1978, sobre a identidade portuguesa e a razão pela qual de sermos como somos. Diz que Portugal não se aceita como realmente é, e que ou está demasiado ligado a um passado glorioso ou a um futuro incerto e angustiante. Refere ainda que os intelectuais e escritores podem ter tido um papel preponderante na nossa actual corrente de pensamento, como, por exemplo, a flagrante Geração de 70, que reunia nomes como Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz ou Antero de Quental, e que se «queixava» constantemente de um país rural, sem inovação de máquinas nem de cultura, comparando-o a uma França que, nesse tempo, ditava as regras. Só com Fernando Pessoa, educado na África do Sul e sem grandes problemas identitários em relação à pátria mãe, é que a literatura começou a ganhar novos contornos e, por consequência, também a visão dos portugueses.
Em O labirinto da Saudade, Eduardo Lourenço discorre igualmente sobre a burguesia e a classe média, e sobre como o trabalho nunca foi visto como prioritário, nem como algo que engrandece o homem. Deixo-vos apenas com esta frase que, mais ou menos, resume a ideia do autor sobre o tema:
«Em princípio, todo o português que sabe ler e escrever se acha apto para tudo, e o que é mais espantoso é que ninguém se espante com isso.»
É impressionante como um livro que foi escrito no pós 25 de Abril, por um homem que se auto-exilou em França, continua, infelizmente, actual e verdadeiro. O labirinto da Saudade é uma obra que todos os portugueses deveriam ler. Recomendo vivamente.
