Literatura Britânica

The Heart of the Matter (O Nó do Problema)

(spoilers)

Graham Greene é um escritor a que gosto de voltar de vez em quando. A maneira como expõe os problemas morais da sociedade do seu tempo é tão envolvente e certeira, que acaba por ser eterna e tocar a nossa modernidade.

Henry Scobie é um polícia britânico destacado numa colónia inglesa em tempo de guerra. Vive com a mulher e tenta dar o melhor de si na gestão desta difícil comunidade. Louise não gosta da vida que tem e tenta sempre fazer com que Scobie veja o seu descontentamento e queira mudar de estilo de vida. Profundamente católicos, vão à missa, confessam-se e tentam ser uma imitação de Cristo.

No entanto, numa terra tão diferente e austera, as tentações são mais que muitas. Corrupção, infidelidades, maledicência, traições. Scobie tenta sobrepor-se a tudo isso e ser o reflexo da dignidade e da idoneidade, mas, para fazer o Bem, tem muitas vezes de roçar o Mal. Por exemplo, para fazer com que Louise fique feliz, pede a um homem que nutre os mesmos interesses que ela que lhe faça companhia; quando Louise quer ir para a África do Sul, pede dinheiro emprestado a um malfeitor; quando se encontra só e abandonado, acaba por se apaixonar por outra mulher e comete adultério… E como no fundo não quer abandonar Deus, acaba por cometer o pior dos pecados, disfarçando-o de doença incurável.

E, apesar de tudo, enquanto leitores, compreendemos profundamente os sentimentos de Scobie. Ele quer ser um bom católico, perfeito na sua conduta, mas é humano, e por vezes as escolhas que faz, ainda que para obter o melhor resultado, não coincidem com a doutrina.

Na minha opinião, “O Nó do Problema” toca nesta dualidade de tentar ser-se sempre bom, negligenciado o lado mau. É verdade que o mundo é cruel e faz de tudo para nos testar, sendo que nesta altura pouca margem havia para mudar de caminho e tentar ser feliz de outra forma, todavia, um voto é um voto, uma promessa é uma promessa. E se não há nenhum acontecimento verdadeiramente desviante como uma traição ou um crime, sé é apenas a vida que se torna difícil e aborrecida, e a faísca da emoção está ausente, não me parece justificação suficiente para se largar as crenças e o que se construiu, e deitar tudo a perder.

Creio que foi isso que Scobie acabou por perceber, razão pela qual escolheu o caminho mais fácil. E para cúmulo de tudo, a pessoa que mais o compreendeu e se apiedou dele no fim, foi o Padre Rank. Gostei muito. Boas leituras!

Literatura Asiática

Mil Grous

Confesso que a literatura asiática não é o meu forte. No entanto, como nos últimos anos têm surgido várias traduções dos clássicos daquela região do mundo, decidi aventurar-me na sua cultura. E só me ocorre uma citação de Pessoa: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.”

Yasunari Kawabata é um conhecido escritor japonês, famoso por ter sido o primeiro nipónico a ganhar o Prémio Nobel da Literatura, em 1968. De entre o seu vasto repertório encontram-se algumas obras clássicas, como o destacado Mil Grous (1949).

Kikuji, um jovem rapaz que acaba de perder os pais, é convidado para uma solene cerimónia do chá em casa de Chikako, uma das antigas amantes do seu falecido progenitor. O que Kikuji não espera é encontrar a Sra. Ota, igualmente antiga amante do pai, com quem ele se envolve e por quem acaba por se apaixonar. Não aguantando a vergonha, a Sra. Ota acaba por tomar uma decisão drástica, e Kikuji vê-se enredado numa teia que envolve a Sra. Chikako, Fumiko (a filha da Sra. Ota), e Yukiko (a rapariga que Chikako espera que ele despose).

A trama parece confusa, mas não é. Estas poucas personagens vêem-se envolvidas umas com as outras de uma maneira intima, mas, ao mesmo tempo, distante. Tudo parece uma ilusão, mas é real; o tempo parece parar, mas avança; as resoluções parecem extremas, mas são tão simples que quando o livro acaba é como se voltássemos a respirar.

A mestria de Kawabata está em comparar todas estas complexidades humanas com a tradicional cerimónia do chá japonesa. A sua sensualidade, o seu simbolismo, a sua forma, o seu final. Tudo tem uma razão de ser, e de acabar. O segredo é ter a valentia de escolher seguir em frente.

Como dizia na introdução, quem não está familiarizado com esta cultura é capaz de estranhá-la ao início, no entanto, depois de terminarmos o livro e de o digerirmos, percebemos que a natureza humana é igual em todo o lado, e que as questões da moral e do coração, do correcto e do incorrecto, não são muito díspares aqui ou do outro lado do mundo. E, no fundo, é isso que nos torna humanos. Boas leituras!