Literatura Britânica · Literatura Europeia

A Jóia das Sete Estrelas

Gosto muito de livros de suspense. Thrillers, policiais, crime, gosto de todos estes géneros (principalmente se forem da autoria de Agatha Christie…). Contudo, o terror é uma categoria literária que não exploro porque não gosto de ficar sem dormir. Achava que isso me ia acontecer com esta obra em particular, mas não foi o caso.

A joia das sete estrelas (1903), de Bram Stoker, afamado escritor de Drácula (critica aqui no blogue) é supostamente um dos melhores livros de terror de todos os tempos. A história passa-se em Londres, no final do séc. XIX, quando um brilhante advogado em início de carreira é chamado a casa da filha de um historiador que, de súbito, entrou num transe do qual não consegue sair. Ninguém é capaz de explicar o facto e um perito em egiptologia e magia oculta é chamado para salvá-lo. Descobre-se então que este homem é um antigo amigo do historiador e que, com ele, explorou túmulos egípcios. Um desses túmulos era o da rainha Tera que, incomodada no seu sono e privada das relíquias que descansavam consigo (entre elas a sua mão de sete dedos), acaba por reencarnar no corpo de outra mulher. O que é estranho é que Margaret, a filha do historiador, tem, sem saber, muitas parecenças bizarras com a rainha Tera…

A premissa parece interessante e, depois de conhecermos o trabalho de Stoker, ficamos com vontade de saber como é que o escritor imaginou as suas outras obras. Para meu grande espanto, encontrei muitas semelhanças entre este livro e o próprio Drácula. Há muitas imagens parecidas como o facto de as vítimas serem mulheres desamparadas, normalmente vestidas de branco; a história é vista do ponto de um outsider com esperança de resolver o problema para poder ficar com a pessoa amada; um holandês perito em assuntos do oculto é mandado chamar para iluminar o grupo que tenta solucionar a questão. Apesar destas presenças, a história segue o seu fluxo, tornando-se por vezes demasiado repetitiva. Stoker demora-se em pormenores que são imediatamente claros ao leitor, fazendo com que o ritmo seja lento numa narrativa cheia de suspense e por isso frenética. É claro que devemos ter em conta de que se trata de um livro escrito no final do século XIX, pelo que a narrativa não poder ser igual às do século XXI.

Por outro lado, e novamente seguindo um pouco o que acontece em Drácula, o papel da mulher nesta obra é visto como pouco relevante, quase só serve para fazer de vítima. O autor chega mesmo a afirmar que os comentários infantis de Margaret são normais por ela ser de sexo feminino, algo que sem dúvida tem a ver com a época em que o escritor viveu, embora tal justificação não seja menos agradável às leitoras.

Resumindo, trata-se de um bom romance, especialmente se for visto à luz da época em que foi escrito. É notório que Stoker adorava lendas e mitos do oculto e que tentava transpor o seu gosto para histórias que chocassem o público. Não considero este livro assustador, nunca me tirou o sono (graças a Deus), mas é um bom ponto de partida para quem quer entrar neste género ou simplesmente ler um bom romance vitoriano. Só aconselho a não comprarem a edição da Editorial Estampa porque o grafismo não é bom e a tradução deixa um pouco a desejar.

Literatura Europeia

Dracula

Provavelmente teria sido mais adequado ler este livro em outubro, porém, como o descarreguei gratuitamente para o Kindle e li o primeiro capítulo de imediato, foi impossível deixá-lo. 
Dracula foi escrito pelo irlandês Bram Stoker e publicado pela primeira vez em 1897. Na altura, os leitores não souberam o que pensar do livro, porém, o jornal Daily Mail não teve dúvidas em classificá-lo como melhor do que as obras de Mary Shelley e Edgar Allan Poe. Segundo alguns historiadores literários, Dracula tem mais relevância para os leitores dos séculos XX e XXI do que para a geração que o viu nascer.
Este romance gótico começa por narrar a viagem do advogado inglês, Jonathan Harker, à Transilvânia, terra do Conde Dracula, para onde é enviado de modo a tratar da papelada na preparação da viagem do Conde a Londres e consequente compra de uma propriedade. No entanto, o jovem começa a ser alvo de acontecimentos estranhos e assustadores, e aos poucos vai-se apercebendo de que o conde é um vampiro e o mantém preso no seu castelo. Com receio de enlouquecer, Jonathan aponta tudo o que vive e presencia no seu diário, o que mais tarde se revela utilíssimo. Em Whitby, esperam-no a sua noiva, Mina Murray, e os seus amigos Lucy Wenstera, Dr. John Seward, Quincey Morris e Arthur Holmwood. Jonathan consegue escapar e é internado num hospital de freiras. Em Whitby, Lucy também começa a ser objeto de eventos bizarros, pelo que o Dr. Seward, um médico psiquiátrico que não sabe o que fazer, chama o seu antigo professor Abraham Van Helsing para o ajudar. É a partir daqui que se inicia uma verdadeira caça ao vampiro e aos porquês de todas aquelas ocorrências.  
Um dos pormenores mais engraçados do livro é o facto de todo ele ser escrito em forma de diário e/ou cartas. Todas as personagens vão contando o seu ponto de vista à vez, relatando ao leitor não só os acontecimentos que vão tendo lugar, mas também a forma de como estes as afetam psicológica e emocionalmente. Assim, o espectador tem uma visão privilegiada da história, entrando nela a fundo e apercebendo-se de tudo o que se passa em primeiríssima mão. Trata-se de uma narrativa que não tem pressa em ser contada, pelo contrário, vai-se desenrolando a um ritmo agradável, sem se tornar aborrecida, nem rápida demais. Creio que o leitor dá conta de que foi um prazer para Stoker escrever este livro.
Diz-se que o escritor se inspirou em Henry Irving, um dos atores mais conhecidos do seu tempo e para quem Stoker trabalhava, para escrever Dracula. A sua ideia era que a obra fosse transposta para o teatro (tendo o próprio Stoker feito a adaptação), e que o Conde tivesse sido interpretado por Irving. Porém, tal não aconteceu porque o ator não se sentiu à vontade para o fazer. Atualmente, a teoria mais aceite é a de que Bram Stoker se inspirou no principe de Valáquia, Vlad Draculea, o Empalador, para construir a personagem. Vlad foi um aristocrata romeno, famoso pelo seu desejo de independência dos impérios turco e otomano, e pelo sadismo e crueldade com que tratava os seus prisioneiros. No livro, Van Helsing chega a compará-lo ao vampiro, dizendo: “(…) He must, indeed, have been that Voivode Dracula who won his name against the Turk, over the great river on the very frontier of Turkey-land. (…)”. (Cap. 18, pg. 145). Ainda hoje o antigo castelo de Vlad é conhecido como o castelo de Drácula.

Gostei muito de ler este livro. Está muito bem escrito (o facto de ser um epistolário ajuda à  compreensão da história e faz com que sintamos uma empatia mais vincada em relação às personagens), tem um ritmo excelente e os acontecimentos são assustadoramente requintados. É uma obra que mexe connosco e nos acompanha mesmo depois de a termos terminado de ler. Não é por acaso que já foram feitas tantas adaptações cinematográficas (sendo as melhores a de 1931 com Bela Lugosi no melhor Dracula de sempre, e a de 1992, de Francis Ford Coppola), ajudando à mitificação da personagem. É, sem dúvida, um Clássico da literatura moderna.