Feira do Livro · Literatura Portuguesa

A América do Norte

AAmericaDoNorte-1

Comprei este livro na Feira do Livro de Lisboa, o ano passado. O que me atraiu foi o facto de ser uma obra de não-ficção sobre um país que me fascina muitíssimo, os Estados Unidos da América. Quando cheguei a casa percebi, no entanto, que quem o escreveu foi um jornalista açoreano chamado Alfredo de Mesquita que, no início do século XX, trabalhou como embaixador em Nova Iorque. Como na altura não me apeteceu ler algo antigo sobre os EUA, adiei a leitura até hoje. Fiz mal, pois este país eternamente jovem não conhece a palavra “antigo”.

A história de Alfredo de Mesquita confunde-se com a da própria obra. No início do século XX, o jornalista e diplomata foi convidado a exercer de embaixador na Big Apple, uma das cidades do momento. Ao lá chegar, Mesquita ficou tão impressionado com o que viu que decidiu relatar tudo em livro, nascendo, então, A América do Norte (1928). Aqui retrata a vida do quotidiano dos americanos, como trabalham, o que fazem nos tempos livres, como são as suas casas, como se entretêm, como são as suas invenções e construções, a arquitetura, as grandes obras públicas, as indústrias emergentes, a sua relação com a família, com a religião, o papel da mulher, a ética no trabalho, a vontade que têm em aprender tudo e em cultivar-se, como são as suas universidades, alguns self-mademen que se tornaram célebres, e inclusivamente como foi a campanha presidencial que decorria aquando da sua visita e a consequente vitória de Theodore Roosevelt, por quem o autor nutria alguma simpatia.

Tudo é contado ao pormenor e com muito humor, numa escrita absolutamente deliciosa que não fica a dever nada aos melhores escritores. Mesquita tinha um olho clínico e percebe-se que se dava com pessoas interessantes e que era respeitado. Era também muitas vezes convidado para eventos públicos e privados, o que lhe dava acesso privilegiado a tudo o que ocorria. Uma das observações que Onésimo Teotónio de Almeida (autor do prefácio) faz é o facto de Mesquita só tecer elogios ao EUA sem nunca ver o seu lado negativo. Ao ler o relato, confesso não ter pensado ser o caso, contudo, após ler o prefácio (algo que faço sempre no fim), reparei ser verdade. No entanto, creio que aqui não é relevante, pois o leitor é contagiado pelo espanto constante do autor e pela sua ânsia de pôr tudo no papel de forma a dizer aos portugueses que um país jovem é capaz de ser incrível.

Gostei muito deste livro. Muitíssimo. A escrita de Alfredo de Mesquita é maravilhosa e os comentários que faz são impressionantes. É inacreditável que poucas sejam as diferenças entre os EUA do início do século XX e os do início do século XXI. Se quando lá vamos atualmente achamos tudo enorme e cheio de vida, imaginem uma pessoa do passado que habitava um dos países mais pobres da Europa. Amazing.

Feira do Livro · Literatura Europeia

Miguel Strogoff

MiguelStrogoff

Comprei este livro em segunda mão na Feira do Livro de Lisboa há uns anos. Faz parte de  uma antiga coleção infantil da Verbo cujo objetivo era mostrar aos jovens leitores os clássicos da literatura adaptados para eles e com algumas gravuras da narrativa.

Miguel Strogoff (1876) é uma obra da autoria do escritor francês Jules Verne que retrata a viagem de um soldado que tem como missão entregar uma mensagem importantíssima ao irmão do Czar. O destino da própria Rússia pode depender do sucesso deste encargo.

A narrativa, no livro infantil da Verbo, desenvolve-se de forma rápida e cativante. As personagens que se vão cruzando no caminho do protagonista são interessantes e têm uma razão de ser. Trata-se de um livro de aventuras, o que nos leva a estar sempre com o coração nas mãos e a torcer para que Miguel Strogoff seja bem-sucedido apesar das adversidades que encontra. Pelo meio há ainda um pouco de romance, o que adiciona sempre algo mais a uma história de ação.

Gostei muito deste livro. Não consegui poisá-lo até acabar de o ler, o enredo é fascinante e as personagens admiráveis. Se a adaptação juvenil da Verbo é assim, tenho razões para crer que o “original” também é muito bom. Lembrou-me a série de desenhos animados que dava na televisão quando eu era pequena, e de cuja canção ainda me recordo. Já me intrigava na altura, agora percebi finalmente porquê.

Literatura Europeia

O Corcunda de Notre Dame

nossasenhoradeparis

Um dos meus filmes preferidos da Disney é O Corcunda de Notre Dame (1996). Lembro-me perfeitamente de o ter visto no cinema, duas vezes, com 12 anos e de me ter apaixonado pela sua história tão original. Pela primeira vez eu via um filme de desenhos animados sem príncipes nem princesas, que só queria passar a mensagem de que não faz mal ser-se diferente. Gostei tanto que me mascarei à personagem Esmeralda no carnaval e “obriguei” o meu pai a comprar o CD da banda sonora, que custou quase três contos. Ainda hoje sei as músicas todas de cor e as canto. Outro facto engraçado foi nessa páscoa termos ido de férias a Londres e comprado antecipadamente a VHS do filme na versão original não legendada. Apesar de eu e as minhas irmãs não dominarmos a língua inglesa na altura, ficámos entusiasmadíssimas por não termos de esperar pelo fim do verão para termos o filme. Claro que a primeira coisa que fizemos quando chegámos a Lisboa foi vê-lo. Por isso, sim, O Corcunda de Notre Dame tem um lugar muito especial no meu coração e, apesar de ser pouco conhecido, considero-o uma das melhores longas-metragens da Disney.

Devido a este meu historial, sempre quis ler O Corcunda de Notre Dame (1831) de Victor Hugo, que serviu de inspiração para o filme. Porém, ao mesmo tempo, tinha medo que o texto original não me fizesse sentido e estragasse a experiência que eu tinha tido. Uma das minhas irmãs leu-o e disse-me que foi um dos livros mais belos que lera. Este ano, e após  ter ido a Paris há alguns meses e visitado a própria casa de Victor Hugo, decidi lê-lo.

Foi inevitável que o meu pensamento estivesse bastante influenciado pelo filme. Imaginei as personagens que a Disney recriou e tive alguma dificuldade em aceitar que Claude Frollo se passasse a chamar Cláudio Frollo. No entanto, este obstáculo durou pouco tempo pois a escrita de Victor Hugo é tão sublime que rapidamente mergulhamos na sua narrativa e nos deixamos levar por ela. Há diversas personagens que não aparecem no filme, como Pedro Gringoire e a velha Chantefleurie (o que é inteiramente compreensível) e outras cujo papel é ligeiramente mais importante, como Clopin. Mesmo as personagens principais sofrem alterações: Frollo é arcediago e não juiz, Quasimodo é surdo e cego de um olho, Esmeralda tem dezasseis anos e não é tão forte nem independente, e Febo tem um papel mais secundário e digamos que muito menos simpático.

Nesta versão, Frollo salva Quasimodo do abandono para que ele um dia faça companhia ao seu irmão mais novo que está a ser criado num moinho. Leva-o para Notre Dame, local onde mora, e toma conta dele como se de um filho se tratasse. Ensina-o a ler, a escrever e a repicar os sinos da igreja. Quasimodo aceita a sua vida reservada e não sente desejo de ir “lá para fora”. Para dizer a verdade é uma personagem que se vai perdendo ao longo da narrativa e se recupera apenas em momentos chave. Esmeralda é uma linda cigana que dança na rua com uma cabra, Djali, e que um dia arrebata o coração de Frollo que a vê da catedral. Louco de culpa e paixão, Frollo tenta raptá-la uma noite com a ajuda de Quasimodo, mas ela é salva por Febo, um soldado que por acaso ia a passar e que também fica encantado com ela. Esmeralda apaixona-se perdidamente pelo seu salvador e concorda em encontrar-se com ele numa noite. Febo, noivo de uma rapariga burguesa, vai ter com ela a uma pensão duvidosa e tenta aproveitar-se. Frollo, que o seguiu, aparece por trás, esfaqueia-o e foge, pelo que Esmeralda é acusada de homicídio e bruxaria.

O que se segue é uma aventura que tem algumas parecenças com o filme, mas não muitas. Victor Hugo é um escritor excepcional que prende a nossa atenção de uma forma inteligente e nos dá informações históricas preciosas sobre a época, apesar de também ele não ter vivido nela. Através da sua escrita nota-se que era uma pessoa avançada para o seu tempo, com convicções sociais dignas do final do século XX. O Corcunda de Notre Dame é uma história de amor que também fala da diferença, do racismo, da loucura, da severidade religiosa, da desigualdade da justiça, do machismo. Tem tudo. E tudo perfeitamente enquadrado e transformado numa história original e bonita que só um génio pode conceber. Não é de admirar que os leitores de Victor Hugo lhe quisessem tanto bem, nem que, quase cem anos mais tarde, a Disney pegasse na sua história e no-la contasse com as suas transformações mágicas, prestando homenagem ao autor ao chamar duas das gárgulas de Victor e Hugo. É um romance maravilhoso que vale a pena ser lido, principalmente se vier numa edição tão bonita e bem traduzida como a da Civilização Editora (apesar de eu não ter compreendido a razão pela qual mudaram o nome de Notre Dame para Nossa Senhora de Paris). Recomendo vivamente.

Literatura Europeia

La Familia de Pascual Duarte

lafamiliadepascualduarte

No verão, tive a oportunidade de ir a Sevilha e, como ia lá passar uma semana, decidi levar um livro em espanhol para ler. Nunca tinha lido um livro em língua estrangeira no seu país de origem e devo dizer que foi uma experiência bastante interessante.

A obra que decidi levar foi La Familia de Pascual Duarte (1942) do prémio Nobel espanhol Camilo José Cela. Comprei-o precisamente numa viagem que fiz à Galiza em 2002, na loja da casa museu do escritor (infelizmente não tenho fotos para pôr no blogue). Passados tantos anos, achei que era a altura perfeita para o ler. Tinha algum receio de que a obra fosse complexa, mas não foi, de todo. Só melhorou a minha aptidão para o castelhano. O estilo de Cela é muito claro, rude e pragmático, expondo a crueldade por que passam as  suas personagens. Neste caso concreto é Pascual Duarte, um homem que está na prisão à espera do dia da sua execução e nos conta, em retrospetiva, a vida que teve e as razões pelas quais ali se encontra.

Cela descobriu no existencialismo e realismo extremo uma forma de relatar o que ocorria na Espanha do pós-guerra dos anos 30. As personagens com que nos deparamos são sujas, incultas, vivem em angustia e sofrimento, e tentam sobreviver num mundo difícil que não lhes dá esperança. É uma espécie de critica social com o objetivo de escandalizar o leitor para que este se aperceba de como era a sociedade provinciana de então.

Gostei do livro. Acho que Cela escreve muito bem e toca de maneira violenta e quase cómica em várias feridas que Espanha tinha naquela época. É uma narrativa crua mas ao mesmo tempo honesta sobre um pobre coitado que tentou sempre encontrar o melhor caminho para a sua felicidade. Recomendo.

Literatura Britânica · Literatura Europeia · Literatura Juvenil · Literatura Norte-Americana · Literatura Portuguesa

Balanço de leitura 2016

2016 foi um ótimo ano, principalmente no que respeita a livros. Não me impus nenhuma meta porque não acredito na leitura por lazer como uma obrigação, leio porque me dá prazer e porque quero. Ainda assim, gosto de ir melhorando os meus hábitos de leitura e de acabar o ano com um maior número de livros lidos do que no ano anterior. Foi exatamente o que aconteceu. Em 2015 li 23 livros e em 2016 li 45. Não podia estar mais satisfeita.

No início do ano passado decidi que queria ultrapassar os 23 livros que li em 2015 e empenhar-me mais na leitura. Comecei com um clássico que sempre quis ler: E Tudo o Vento Levou. Como é um livro extenso demorei três meses a lê-lo, e pensei que as minhas expectativas de ler mais livros em 2016 estavam goradas. Escolhi, então, ler obras um pouco mais curtas para me motivar a ler mais. Resultou. O meu gosto pelos livros e o “BookTube” deram-me o empurrão que eu precisava para me concentrar na leitura. Acabei por ter um ano muito produtivo, em que a diversidade foi o ponto alto.

Lista de livros lidos (por ordem de leitura):

E Tudo o Vento Levou, Margaret Mitchell
3 contos de Hans C. Andersen (A Pequena Sereia, A Rainha das Neves, A Vendedora de Fósforos)
O Principe e o Pobre, Mark Twain
Paris, Julien Green
O mapa e o território, Michel Houllebecq
Divórcio em Buda, Sandor Marai
Flush – Uma Biografia, Virginia Woolf
Bom-dia, Meia-Noite, Jean Rhys
O Livro da Selva, Rudyard Kipling
O Caso do Segredo da Enteada, Erle Stanley Gardner
A Lebre de Vatanen, Arto Paasilinna
A honra perdida de Katharina Blum, Heinrich Boll
A familia dos Mumins, Tove Jansson
O último dia de um condenado, Victor Hugo
O espião que veio do frio, John Le Carré
O falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello
Peter Pan, J. M. Barrie
A verdade sobre o caso Harry Quebert, Joel Dicker
Dubliners, James Joyce
O Mundo Em Que Vivi, Ilse Losa
O Vento nos Salgueiros, Kenneth Graham
They Do It With Mirrors, Agatha Christie
Animal Farm, George Orwell
The Lost Symbol, Dan Brown
Wonder, R. J. Palacio
Anna dos Cabelos Ruivos, Lucy Maud Montgomery
A herança de Eszter, Sandor Marai
A familia de Pascual Duarte, Camilo José Cela
As mais belas fábulas africanas, vários autores
As duas irmãs, Agatha Christie
As crónicas de Fernão Lopes, Fernão Lopes
As desventuras do Sr. Pinfold, Evelyn Waugh
Washington Square, Henry James
The Pearl, John Steinbeck
As aventuras de Ton Sawyer, Mark Twain
As aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain
A tarde de um escritor, Peter Handke
The Invisible Man, H. G. Wells
O cometa dos Mumins, Tove Jansson
The Catcher in the Rye, J. D. Salinger
The Big Four, Agatha Christie
A joia das sete estrelas, Bram Stoker
Merry Christmas, Louisa May Alcott
The Nutcracker, E. T. A. Hoffman
A Festa de Halloween, Agatha Christie

Os autores mais lidos foram: Agatha Christie (como não podia deixar de ser), Mark Twain, Sandor Marai e Tove Jansson.

Os livros de que mais gostei foram: E Tudo o Vento Levou; Bom-dia, Meia-Noite; O espião que veio do frio; O mundo em que vivi; Animal Farm; Wonder; Anna dos cabelos ruivos; The Catcher in the Rye; The Big Four.

Os livros de que menos gostei foram: O Livro da Selva; O Vento nos Salgueiros; The Lost Symbol; A joia das sete estrelas; The Nutcracker.

Surpresa do Ano: The Catcher in the Rye. Foi o livro que este ano mais me marcou. Descobrir Salinger e a sua obra-prima foi um dos pontos altos do meu ano literário. Fiquei com muita vontade de ler as suas restantes obras.

Desilusão do Ano: The Lost Symbol. O pior livro do ano. Não teve ponta por onde se lhe pegasse. Uma boa ideia muito mal executada.

Conclusão: 2016 foi um ótimo ano de leituras. Nem todos os livros referidos têm crítica aqui no blogue, mas terão, pois planeio escrever sobre eles assim que puder. Também pretendo manter ou ultrapassar o número de livros lidos. Seria espetacular ler mais de 45 livros em 2017. Por vezes não depende só de mim, mas vou tentar, tenho as prateleiras cheias de excelentes propostas. Todas as segundas-feiras há novo artigo aqui no blogue.

Desejo-vos um ótimo 2017, cheio de ótimas leituras!

Literatura Europeia

A herança de Eszter

 

aherancadeeszter

Mais uma vez, Sandor Marai. É o meu terceiro livro do autor húngaro. Já sei ao que vou. E gosto.

Eszter é uma mulher de meia idade que vive uma existência monótona numa casa velha de aldeia e idealiza o reencontro com o que foi o grande amor da sua vida. Certo dia, esse homem aparece-lhe com a esposa glamorosa ao estilo atriz de Hollywood em decadência, e dois filhos adolescentes rabugentos e insatisfeitos com a realidade. Lajos volta, mas não é para ela, deseja o anel de noivado que lhe deu há vinte anos para o oferecer à filha como parte de um dote. Contudo, tal como todas as coisas em que Lajos toca, esse anel também se evaporou.

A herança de Ester (1939) é um romance curto sobre um triângulo amoroso e o poder que uma pessoa tem sobre outra. Lajos não sente pudor em regressar a casa de Eszter para, mais uma vez, lhe roubar o pouco que de valioso ela tem, e Eszter, mais uma vez, dar-lho-ia se tivesse. Numa Hungria devastada onde a classe média é mal vista e tenta sobreviver a todo o custo, os mais fracos são insultados e oprimidos não pelos mais poderosos mas, neste caso, por um certo chico-espertismo que faz de tudo para singrar.

O mais bonito da obra é vermos como os sentimentos de Eszter são expostos. Marai desarma os corações mais rijos com uma escrita crua e intensa. Não sentimos pena dela, nem revolta, nem angústia, apenas uma leve tristeza e esperança de que tudo possa acabar bem. Recomendo. Um grande romance em poucas páginas.

Literatura Britânica · Literatura Juvenil

Feliz Natal!

Feliz natal a todos!

Espero que tenham passado uma ótima quadra junto dos que mais gostam e com muitos livros no sapatinho!

Por cá, também recebi algumas leituras. Uns quantos livros de Agatha Christie que ainda não tinha, o Fates and Furies, de Lauren Groff, e um guia de episódios das séries de desenhos animados He-man e She-ra (que achei muito cool!).

No entanto, escrevo este post para vos falar de dois livros que li, antecipando-me ao Natal: A Merry Christmas, de Louisa May Alcott e O Quebra-nozes, de E. T. A. Hoffman.

A Merry Christmas

AMerryChristmas.jpg

Louisa May Alcott é sobretudo conhecida pela sua maravilhosa obra As Mulherzinhas. Porém, é também autora de alguns contos de Natal que foram agora compilados pela Penguin numa bonita edição especial. Estas histórias são muito parecidas com o seu livro principal. Falam de crianças ou jovens pobres que gostariam de ter um Natal quentinho ou de pessoas mais velhas que gostariam de o passar em família. Os valores que defende são sempre os mesmos: amizade, amor, gratidão, bondade, generosidade. Por vezes confesso que é um pouco cansativo ler sempre sobre as mesmas coisas, mas a verdade é que os seus finais são tão reconfortantes que nos enchem a alma. Não há dúvida de que Louisa May Alcott era uma defensora da paz e do bem, apregoando-os nos seus textos. A sensação que por vezes dá é a de nos querer mostrar que estes valores compensam e superam quaisquer outros. Gostei muito e recomendo vivamente.

O Quebra-nozes 

thenutcracker

Gosto muito de ballet e não há melhor época para assistir a um belo bailado do que o Natal. Por ter visto O Quebra-nozes diversas vezes, e inclusive ter tido uma cassette de desenhos animados com a história da peça, decidi comprar o livro para ler a versão original. Os primeiros capítulos são interessantes, dando um mote empolgante à narrativa e prometendo ação, contudo, confesso que o meio me custou um pouco a ler por ser repetitivo e não fazer grande sentido. Não há dúvida de que E. T. A. Hoffman escreve bem, porém, a linha condutora da sua narrativa é confusa e pouco explicativa. As personagens passam de uma situação para a outra num abrir e fechar de olhos, e os motivos por que o fazem não são claros para o leitor. Fora isso, trata-se de uma história bonita com a magia do Natal que creio ser mais indicada para crianças do que para adultos. Quem gosta do bailado é capaz de gostar dela também.

Uma nota especial para a coleção Penguin Christmas Classics. Seis clássicos natalícios com capas a condizer, a mesma fonte, notas biográficas e separadores com desenhos. Podem ser comprados separadamente ou todos juntos com caixa arquivadora. Este ano li estes dois e para o ano que vem espero ler os outros quatro. Recomendo. Dá gosto comprar livros assim.

Literatura Britânica · Literatura Europeia

O Vento nos Salgueiros

oventonossalgueiros

Para mim, os clássicos são sempre uma ótima oportunidade não só para conhecer os livros considerados o cânone da literatura, mas também para compreender porque o são. O Vento nos Salgueiros (1908) é, há muito, considerado um livro de referência no género infantil, tendo sido adaptado para séries de animação e longas-metragens. Por isso, quis lê-lo.

O Vento nos Salgueiros, de Kenneth Grahame, sempre me intrigou. Sempre pensei nele como um romance ternurento passado no mundo dos animais, quiçá até um pouco triste. O que descobri, porém, não foi bem isso. É verdade que o primeiro capítulo é promissor, com um rato e uma doninha a partirem numa viagem de barco através do rio junto às suas casas, contudo, depois, parece que o livro ganha uma linguagem cómica e torna as aventuras destes amigos, de um sapo e uma toupeira, um pouco mais surreais. Creio que deve apelar a uma criança ler este tipo de brincadeiras, porém, o que me pareceu foi que as brincadeiras também são um pouco adultas para um público mais novo (como é, por exemplo, o caso da prisão do sapo).

Esta obra é interessante, mas não foi, de todo, uma das minhas preferidas. Acho que a minha ideia romantizada levou um pouco a melhor de mim e me estragou a experiência da leitura. De qualquer forma, devo referir que O Vento nos Salgueiros (cujo título é um dos mais bonitos no que a narrativas infantis diz respeito) é um livro muito bem escrito e querido para muita gente. Lá por eu não o ter adorado não quer dizer que seja mau. Não me arrependo de o ter lido, pelo contrário, é bom conhecer os clássicos e perceber o que leva tantas pessoas a a gostar deles. Neste caso em concreto compreendo que tenha sido uma obra para crianças inovadora para o início de século. Se perdurou até aos dias de hoje é porque há muita gente a apreciá-los. Infelizmente, não é bem o meu caso.

Literatura Juvenil

As mais belas fábulas africanas

asmaisbelasfabulasafricanas

Tento ler o mais diversamente possível. As minhas preferidas são as literaturas britânica e americana, mas também tento ler portuguesa, espanhola, italiana, francesa, escandinava, russa, latina-americana. Da africana conheço pouco, aliás, o único livro que li foi Things Fall Apart, de Chinua Achebe, uma bela resposta à obra de Conrad, O Coração das Trevas. Logo, quando vi à venda As mais belas fábulas africanas, com prefácio de Nelson Mandela, não só achei que era uma excelente iniciativa da Nuvem de Letras, como a comprei.

Esta obra é uma compilação de fábulas de vários países africanos registas normalmente por professores, tradutores e escritores ocidentais que passaram algum tempo nesses lugares e quiseram pôr por escrito um valioso património oral que não queriam ver perdido. Segundo o prefácio de Nelson Mandela, muitas destas histórias são contadas às crianças africanas, como são contados os contos de fadas aos meninos ocidentais. Servem não só para estimular a sua imaginação e intensificar o sentimento de pertença, como também para servir de exemplo e fazer com que elas sejam capazes de distinguir o Bem e o Mal.

Confesso que algumas das fábulas são particularmente violentas, sem uma moral que valide o que referi acima, porém, a maior parte delas fala de valores partilhados universalmente como o amor, a amizade, o valor da vida e da morte. Duas das características mais vincadas nestas fábulas são o papel da mulher, que normalmente está associado à procriação e submissão perante um homem, e a superação ou sobrevivência que em África parece particularmente importante, seja através da força ou da inteligência.

Gostei deste livro. Não posso dizer que seja o meu preferido em termos de fábulas ou contos, mas é uma boa leitura para quem deseja conhecer mais um pouco da cultura africana e saber que histórias as crianças deste maravilhoso continente aprendem.

Literatura Britânica · Literatura Europeia

A Jóia das Sete Estrelas

Gosto muito de livros de suspense. Thrillers, policiais, crime, gosto de todos estes géneros (principalmente se forem da autoria de Agatha Christie…). Contudo, o terror é uma categoria literária que não exploro porque não gosto de ficar sem dormir. Achava que isso me ia acontecer com esta obra em particular, mas não foi o caso.

A joia das sete estrelas (1903), de Bram Stoker, afamado escritor de Drácula (critica aqui no blogue) é supostamente um dos melhores livros de terror de todos os tempos. A história passa-se em Londres, no final do séc. XIX, quando um brilhante advogado em início de carreira é chamado a casa da filha de um historiador que, de súbito, entrou num transe do qual não consegue sair. Ninguém é capaz de explicar o facto e um perito em egiptologia e magia oculta é chamado para salvá-lo. Descobre-se então que este homem é um antigo amigo do historiador e que, com ele, explorou túmulos egípcios. Um desses túmulos era o da rainha Tera que, incomodada no seu sono e privada das relíquias que descansavam consigo (entre elas a sua mão de sete dedos), acaba por reencarnar no corpo de outra mulher. O que é estranho é que Margaret, a filha do historiador, tem, sem saber, muitas parecenças bizarras com a rainha Tera…

A premissa parece interessante e, depois de conhecermos o trabalho de Stoker, ficamos com vontade de saber como é que o escritor imaginou as suas outras obras. Para meu grande espanto, encontrei muitas semelhanças entre este livro e o próprio Drácula. Há muitas imagens parecidas como o facto de as vítimas serem mulheres desamparadas, normalmente vestidas de branco; a história é vista do ponto de um outsider com esperança de resolver o problema para poder ficar com a pessoa amada; um holandês perito em assuntos do oculto é mandado chamar para iluminar o grupo que tenta solucionar a questão. Apesar destas presenças, a história segue o seu fluxo, tornando-se por vezes demasiado repetitiva. Stoker demora-se em pormenores que são imediatamente claros ao leitor, fazendo com que o ritmo seja lento numa narrativa cheia de suspense e por isso frenética. É claro que devemos ter em conta de que se trata de um livro escrito no final do século XIX, pelo que a narrativa não poder ser igual às do século XXI.

Por outro lado, e novamente seguindo um pouco o que acontece em Drácula, o papel da mulher nesta obra é visto como pouco relevante, quase só serve para fazer de vítima. O autor chega mesmo a afirmar que os comentários infantis de Margaret são normais por ela ser de sexo feminino, algo que sem dúvida tem a ver com a época em que o escritor viveu, embora tal justificação não seja menos agradável às leitoras.

Resumindo, trata-se de um bom romance, especialmente se for visto à luz da época em que foi escrito. É notório que Stoker adorava lendas e mitos do oculto e que tentava transpor o seu gosto para histórias que chocassem o público. Não considero este livro assustador, nunca me tirou o sono (graças a Deus), mas é um bom ponto de partida para quem quer entrar neste género ou simplesmente ler um bom romance vitoriano. Só aconselho a não comprarem a edição da Editorial Estampa porque o grafismo não é bom e a tradução deixa um pouco a desejar.