Literatura Norte-Americana

A Letra Escarlate

IMG_9700

Eu adoro quando um livro me arrebata. Adoro. E estou sempre à procura de um que me tire o fôlego e seja um murro no estômago. A Letra Escarlate foi tudo isso e muito mais.

Nathaniel Hawthorne sempre quis ser escritor e foi com A Letra Escarlate (1850) que conseguiu entrar no panteão da posteridade. Hester Prynne surge à saída da prisão com um bebé nos braços e um “A” escarlate ao peito. Perguntam-lhe quem é o pai da sua filha, mas ela recusa-se a revelar, preferindo carregar o peso da responsabilidade sozinha. Entretanto, na multidão, um homem mais velho recém-chegado à colónia de Nova Inglaterra, onde decorre a acção, olha-a nos olhos e leva o dedo aos lábios pedindo-lhe silêncio…

Esta obra fala sobre a estigmatização social e a humilhação pública das personagens que cometem um crime aos olhos dos Puritanos, regentes da colónia segundo a Lei divina. Tudo o que seja pecado, tentação ou desvirtuamento é mal visto numa sociedade que não hesita em excluir e envergonhar os que não cumprem os costumes estabelecidos pela Igreja, neste caso, Anglicana. Nathaniel Hawthorne critica, assim, os cristãos radicais,  escusando-se numa narrativa ficcional a que chamou simplesmente de “Um Romance”.

Gostei muito, muito, muito deste livro. E Hester Prynne é a minha nova heroína feminina. A Letra Escarlate foi até agora foi um dos meus livros preferidos do ano e já é seguramente um dos preferidos de sempre. Recomendo vivamente.

Literatura Britânica · Literatura Europeia · Literatura Policial

Os Cadernos Secretos de Agatha Christie

AgathaChristiesSecretNotebooks-1

Sou uma fã incondicional de Agatha Christie. A primeira vez que li uma das suas obras foi no 11º ano, a nossa professora de Inglês quis testar o nível de Lingua escrita da turma e escolheu And There Were None (1939) para o fazer. O exercício consistia em lermos o livro e fazermos um teste com apenas quatro perguntas de interpretação. Na altura, as coisas não me correram muito bem, mas o bichinho da Rainha do Crime ficou e sigo-a desde então. É, de longe, a autora que mais leio.

Os livros de Agatha Christie não são difíceis de ler. A sua escrita é acessível e fácil de entender, o que permite ao leitor mergulhar na história, concentrar-se nos pormenores e deleitar-se com o ritmo do suspense. Este é um dos motivos que John Curran aponta para o sucesso da escritora, juntamente com a invenção de um detetive interessante e original que alcançou tanta fama que chegou mesmo a ultrapassar a da sua criadora. Nestes cadernos encontrados ao acaso numa das casas de Christie, Curran descortinou o seu método de trabalho, a forma como elabora as histórias, como escolhe as personagens e o género de crime que prefere aplicar. Reuniu tudo num livro a que chamou Os Cadernos Secretos de Agatha Christie (2009), uma obra mais consultiva do que propriamente para ler de fio a pavio onde o autor aborda quase todas as obras da Rainha do Crime.

Creio que este registo é muito curioso e intrigante para qualquer fã de Christie. Explica bem como a escritora pensava no delito e chegava ao assassino. Parece que entramos na sua mente e a vemos funcionar. Eu apenas aconselho a não lê-lo todo de seguida porque John Curran revela, por vezes, o final de algumas obras. A minha estratégia é ler o livro de Christie e consultar depois a obra de Curran. Desta forma, a leitura fica mais completa e enriquecida. E, como bónus, no final, estão publicados dois contos inéditos de Poirot. O que é que um fã quer mais?

Literatura Europeia

A Insustentável Leveza do Ser

AInsustentavelLevezaDoSer

Comprei este livro em 2011 por ser um clássico muito referido no meu curso da faculdade. No entanto ainda não o tinha lido. Sempre me pareceu um pouco pesado e filosófico e nunca me tinha apetecido pegar-lhe. Não sei porque o fiz agora, mas a verdade é que apesar de ser intrigante, a minha ideia inicial não estava muito longe da verdade…

A Insustentável Leveza do Ser (1984) é um romance existencialista que se foca em quatro personagens principais, Tomas, Tereza, Sabina e Franz. Tomas e Tereza são um casal, mas Sabina é uma das amantes de Tomas e Franz um amante de Sabina. Todos eles são checos e assistem à invasão de Praga por parte dos comunistas russos. As suas vidas, até aqui estabilizadas e com boas profissões, sofrem grandes tumultos e eles vêem-se obrigados a fugir da República Checa por não concordarem com os ideias sovietes, ou a ficar para terem de recomeçar tudo de novo. No meio destes acontecimentos, ainda têm de lidar com questões pessoais profundas que os afetam imensamente.

O mote desta obra é a história do próprio Milan Kundera que enquanto jovem estudante checo foi expulso da universidade por não concordar com a invasão do seu país. Mais tarde, teve de se exilar em Paris onde foi acolhido quando também lhe retiraram a nacionalidade checa. Aqui, Kundera recupera um pouco do que se passou em 1968 para retratar a vida do cidadão comum e refletir sobre esse tempo através de personagens ambíguas que tentam sobreviver como podem. Trata-se de um texto filosófico e pesado que por vezes vai por caminhos inesperados e difíceis, pelo que o leitor deve estar atento de modo a não perder o fio à meada. Seja como for, é uma leitura interessante que nos ensina um pouco sobre a História da Republica Checa enquanto nos mostra como a natureza humana lida com a adversidade e os fantasmas interiores.

Literatura Norte-Americana

Tolstoy and the Purple Chair

TolstoyAndThePurpleChair

Conheci a história de Nina Sankovitch há uns anos e fiquei completamente deliciada com ela. No entanto, não me atrevi a comprar o livro da autora até agora. Curiosamente, comecei a lê-lo no final de janeiro e, a meio da sua leitura, deu-se um acontecimento maravilhoso na minha vida: o nascimento do meu primeiro filho. Por isso, tal como os livros que Nina lê, esta obra ficará ligada à minha própria história para sempre.

Nina Sankovitch é uma pacata mulher americana que perdeu prematuramente a irmã mais velha para o cancro. Este acontecimento trágico afetou-a de tal modo que ela decidiu passar literalmente um ano inteiro a ler um livro por dia. Ia com frequência à biblioteca local levantar obras pouco extensas para poder cumprir a sua tarefa e, assim, lidar com o sofrimento que a perda de Anne-Marie lhe provocou. O resultado é Tolstoy and the Purple Chair (2011), uma linda ode aos livros e à leitura que estabelece uma intertextualidade curiosa com a própria existência da autora. Nesta obra, Nina narra-nos a sua vida através dos livros que mais a marcaram e ensinaram a lidar com a realidade contemporânea, nem sempre fácil de suportar. É um desabafo cândido e sincero de uma pessoa que adora livros e os vê como ferramentas importantes para lidar com a vida e aprender com ela.

Gostei muito deste livro. Trata-se de uma obra simples mas inocente e despretensiosa, cujo objetivo é apenas dizer que os livros nos marcam em várias alturas da nossa vida. Como já referi, este em particular esteve presente num momento muitíssimo importante da minha. Por isso mesmo nunca será esquecido.

Literatura Britânica

The Man Who Was Thursday

TheManWhoWasThursday

Gosto muito da coleção Penguin English Library, tendo já comprado vários dos seus exemplares. Tratam-se de clássicos britânicos que qualquer amante da cultura inglesa gostaria de ler. Para além disso, as capas são artísticas, o tamanho é perfeito para ter nas mãos, a maior parte dos livros é leve e fácil de transportar e o papel é agradável ao tato. O (enorme) bónus é o facto de as lombadas serem muito coloridas e ficarem perfeitas numa estante. Por isso, quando vi esta obra de G. K. Chesterton e li a contracapa que dizia tratar-se de um livro de espiões, não hesitei e adquiri-a de imediato.

The Man Who Was Thursday (1908) passa-se em Londres num período em que a ameaça anarquista paira no ar e amedronta a população com o constante prenúncio terrorista. Syme, um homem que não acredita neste movimento, é abordado por um polícia que o convence a assistir a uma reunião anárquica (sob o pseudónimo de Thursday) e a tentar decifrar o que lá ocorre sob a chefia do temível Sunday. Nessa reunião, Syme acaba por descobrir que um dos objetivos do grupo é bombardear um encontro entre duas personalidades em França, e também se apercebe que, para além dele, todos os outros participantes são policias disfarçados, à exceção de Sunday.

Esta narrativa foi muitas vezes descrita como um thriller metafísico em que nada parece fazer sentido. O início é relativamente normal, mas a meio a história ganha contornos fantásticos que parecem não ter nexo. No final ficamos um pouco confusos e não percebemos bem o que acabámos de ler, quando nos damos conta de que o subtítulo do livro é O Pesadelo e nos apercebemos de que tudo não passa de um sonho decorrido numa realidade que não é a nossa. Se virmos a obra desta maneira ela acaba por ter alguma coerência. Pelo menos foi o que aconteceu comigo. De qualquer forma, é uma história estranha. Para quem espera um romance de espiões, desengane-se, este livro não o é. Para quem gosta de algo mais alternativo ao estilo de Alice no País das Maravilhas, acho que ficará maravilhado com Chesterton. Seja como for, até agora, foi o livro da Penguin English Library de que menos gostei. Não é mau, só não é para mim.

Bibliotecas do Mundo

Biblioteca Pública de Estocolmo

Estocolmo2

A Biblioteca Pública de Estocolmo foi inaugurada no dia 31 de março de 1928. O seu arquitecto, Erik Gunnan Asplund, inspirou-se parcialmente no edifício francês Barrière de San Martin para criar um dos edifícios mais emblemáticos da cidade.

Para além da forma cilíndrica, a grande inovação que esta biblioteca trouxe foi o facto de os leitores não terem de pedir os livros que procuram aos funcionários, podendo retirá-los diretamente das prateleiras abertas. De um lado estão os livros em sueco, do outro os livros em línguas estrangeiras. As obras podem ser devolvidas em máquinas próprias que os recolhem automaticamente e emitem um comprovativo a dá-los como entregues.

Estocolmo1

A Biblioteca Pública de Estocolmo possui mais de 2 milhões de livros, 2 milhões e meio de cassetes, CD e audiolivros. É um verdadeiro ponto de interesse da cidade, não só pelo seu desenho arrojado, como também pela vida que tem e pelo interessantíssimo conteúdo. Recomendo vivamente.

Estocolmo5

Literatura Britânica

O Amante de Lady Chatterley

OAmanteDeLadyChatterley

Este livro foi pela primeira vez editado em 1928 e causou tanto espanto que acabou por ser censurado e proibido em Inglaterra. D. H. Lawrence quis escrever uma narrativa sobre sexo carnal não à moda do vulgaríssimo Marquês de Sade, mas num estilo erótico- realista que acabou por chocar muita gente num país ainda a recuperar dos ideais vitorianos. Hoje, é considerado uma obra-prima.

O Amante de Lady Chatterley (1928) conta a história de Connie, uma rapariga proveniente de uma família liberal, que desde cedo embarca em aventuras sexuais sem se importar com as convenções. Acaba por se apaixonar por Clifford, um aristocrata de categoria baixa ferido durante a guerra e confinado para sempre a uma cadeira de rodas. Connie não abandona o noivo, decidindo casar com ele e obter o título de Lady Chatterley, contudo, a vivência de ambos vai-se deteriorando e a intimidade inexistente começa a pesar na vida quotidiana da jovem. É neste momento de infelicidade que conhece Mellors, o guarda de caça do marido que também se revela uma pessoa frustrada e em busca de prazeres terrenos.

D. H. Lawrence soube construir uma premissa interessante e dar-lhe um toque de  vulgaridade inocente que pode ter chocado os seus contemporâneos mas que creio que hoje não choca ninguém. As relações sexuais que aparecem na obra são descritas recorrendo a metáforas e caricaturas, normalmente exultando simplesmente o corpo como algo de belo e de que não se deve ter vergonha. A própria relação entre Connie e Mellors dispara para mais do que o mero carnal fazendo com que o sexo não seja apenas uma atividade física entre pessoas frustradas, mas um passo para a comunhão profunda de existências. Apesar disto, creio que a história poderia ter beneficiado de um pouco mais de vontade afetuosa de Mellors e menos de tanta teoria política e existencialista. É um clássico importante, e, por isso, recomendo a sua leitura.

Literatura Norte-Americana

A Visita do Brutamontes

AVisitFromTheGoonSquad

Tinha este livro na minha estante desde 2011, ano em que foi galardoado com o prémio Pulitzer. Nunca me tinha apetecido lê-lo, mas, não sei porquê, no final do ano peguei nele e decidi torná-lo a minha última leitura de 2017.

A Visita do Brutamontes ou A Visit from the Goon Squad (2010), já que o li em inglês, é uma obra surpreendente graças sobretudo à maneira de como está escrita. Jennifer Egan brinca com a noção de tempo e escreve várias histórias que se vão entrelaçando não linearmente ao longo do livro e nos vão dando conta de como os anos passam para as personagens. É uma experiência muito interessante para o leitor que deve estar atento para não perder o fio à meada. O tema da obra é a mudança na cena e na indústria musicais americanas, desde os anos 70 até à atualidade, e, caso haja personagens principais eu diria que são Bennie, produtor musical, e Sasha, uma cleptomaníaca que, a certa altura, acaba por trabalhar como sua assistente. No final da história, há inclusive um capitulo engenhoso totalmente escrito em PowerPoint.

Trata-se de um livro muito curioso e original. A narrativa, embora estranha, prende-nos com grande facilidade e como exercício literário eu diria que está muito bem conseguido e que é diferente de tudo o resto, daí, creio, ter ganho o Pulitzer. É difícil afirmar se permanecerá no cânone ou se foi apenas uma divertida história passageira, só o tempo, que é um rufia, o dirá. De qualquer forma, enquanto este não nos apanha, recomendo a sua leitura.

Literatura Asiática · Literatura Britânica

O Tigre Branco

TheWhiteTiger

Comprei este livro em 2008 (ano em que ganhou o Man Booker Prize) e deixei-o na estante até hoje. Não sei o que me fez pegar nele agora, mas ainda bem que o fiz. Foi um autêntico murro no estômago, justamente o que eu precisava: uma leitura com significado.

O Tigre Branco (2008) de Aravind Adiga é acima de tudo um livro sobre a Índia. A personagem principal é um homem jovem e pobre que ganha a vida como motorista de indianos ricos e influentes de Bangalore. Balram Halwai, como geralmente é chamado, tem um fundo bom e só quer trabalhar honestamente para evoluir, contudo, depara-se com inúmeras dificuldades e com um sistema completamente corrupto que não premeia o mérito nem a justiça, e se vende consoante quem paga mais. Esta sociedade suja e indecente vai fazer com que Balram abandone os seus valores e se torne um homem capaz do inimaginável para conseguir o que quer, tendo sempre a noção de que também ele teve de se “vender” para ser alguém.

Gostei muito deste livro. O que Aravind Adiga pretendeu fazer foi traçar um retrato atual da sociedade indiana ao contar-nos como se sobrevive num lugar que não considera os seus cidadãos iguais, que aceita subornos como prática aceitável e que explora as castas mais baixas sem qualquer respeito pelos direitos humanos. A leitura desta obra é um verdadeiro choque numa altura em que a cultura do zen, do yoga e do namaste está tão em voga. A certa altura recordou-me Money, de Martin Amis, embora mais interessante e com uma escrita mais clara. Uma crítica à sociedade local onde homens relativamente sãos e decorosos são arrastados para um mundo fétido e descontrolado. Não admira que tenha ganho o Man Booker Prize. Recomendo vivamente.

Literatura Britânica · Literatura Europeia

Jane Eyre

JaneEyre

Sempre quis muito ler este livro não só porque é um clássico, como também porque é o livro preferido de muitas pessoas cuja opinião respeito grandemente. O problema é que há uns anos vi na RTP2 a série da BBC com Ruth Wilson e Toby Stephens e fiquei completamente encantada. Tanto, que não consegui pegar na obra com medo que me estragasse os sentimentos que eu tinha em relação à série e com medo que a experiência de leitura não fosse autêntica por estar influenciada pela série. Deixei passar algum tempo. Este ano decidi lê-lo e adorei.

Jane Eyre (1847), de Charlotte Bronte, é considerado uma autêntica obra-prima tendo sido adaptado inúmeras vezes ao cinema e à televisão. Conta a história de Jane, uma rapariguinha orfã acolhida por uma tia que não gosta dela e que a envia para um colégio interno para aprender a ser preceptora. Aos dezanove anos, Jane decidi enviar cartas para trabalhar em casas particulares e acaba por ser aceite em Thornfield Hall, a mansão de Mr. Rochester que tanto tem de encantador como de misterioso.

O que mais me espantou no livro foi a escrita moderna e simples de Charlotte Bronte. A autora consegue prender o leitor a uma história cheia de reviravoltas com uma ligeireza textual impressionante para a época. Outra das características que muito apreciei foi o facto de sentir que Bronte entendia a alma humana na perfeição, levemente abrangendo temas como as classes sociais, a religião, e os direitos das crianças de uma forma desempoeirada embora clara.

Jane Eyre é tudo o que se quer num livro. Uma história de amor, um thriller, uma biografia, um clássico. Aconselho toda a gente a lê-lo pois creio que não deixa ninguém indiferente.