Literatura Britânica

The Man Who Was Thursday

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Gosto muito da coleção Penguin English Library, tendo já comprado vários dos seus exemplares. Tratam-se de clássicos britânicos que qualquer amante da cultura inglesa gostaria de ler. Para além disso, as capas são artísticas, o tamanho é perfeito para ter nas mãos, a maior parte dos livros é leve e fácil de transportar e o papel é agradável ao tato. O (enorme) bónus é o facto de as lombadas serem muito coloridas e ficarem perfeitas numa estante. Por isso, quando vi esta obra de G. K. Chesterton e li a contracapa que dizia tratar-se de um livro de espiões, não hesitei e adquiri-a de imediato.

The Man Who Was Thursday (1908) passa-se em Londres num período em que a ameaça anarquista paira no ar e amedronta a população com o constante prenúncio terrorista. Syme, um homem que não acredita neste movimento, é abordado por um polícia que o convence a assistir a uma reunião anárquica (sob o pseudónimo de Thursday) e a tentar decifrar o que lá ocorre sob a chefia do temível Sunday. Nessa reunião, Syme acaba por descobrir que um dos objetivos do grupo é bombardear um encontro entre duas personalidades em França, e também se apercebe que, para além dele, todos os outros participantes são policias disfarçados, à exceção de Sunday.

Esta narrativa foi muitas vezes descrita como um thriller metafísico em que nada parece fazer sentido. O início é relativamente normal, mas a meio a história ganha contornos fantásticos que parecem não ter nexo. No final ficamos um pouco confusos e não percebemos bem o que acabámos de ler, quando nos damos conta de que o subtítulo do livro é O Pesadelo e nos apercebemos de que tudo não passa de um sonho decorrido numa realidade que não é a nossa. Se virmos a obra desta maneira ela acaba por ter alguma coerência. Pelo menos foi o que aconteceu comigo. De qualquer forma, é uma história estranha. Para quem espera um romance de espiões, desengane-se, este livro não o é. Para quem gosta de algo mais alternativo ao estilo de Alice no País das Maravilhas, acho que ficará maravilhado com Chesterton. Seja como for, até agora, foi o livro da Penguin English Library de que menos gostei. Não é mau, só não é para mim.

Bibliotecas do Mundo

Biblioteca Pública de Estocolmo

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A Biblioteca Pública de Estocolmo foi inaugurada no dia 31 de março de 1928. O seu arquitecto, Erik Gunnan Asplund, inspirou-se parcialmente no edifício francês Barrière de San Martin para criar um dos edifícios mais emblemáticos da cidade.

Para além da forma cilíndrica, a grande inovação que esta biblioteca trouxe foi o facto de os leitores não terem de pedir os livros que procuram aos funcionários, podendo retirá-los diretamente das prateleiras abertas. De um lado estão os livros em sueco, do outro os livros em línguas estrangeiras. As obras podem ser devolvidas em máquinas próprias que os recolhem automaticamente e emitem um comprovativo a dá-los como entregues.

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A Biblioteca Pública de Estocolmo possui mais de 2 milhões de livros, 2 milhões e meio de cassetes, CD e audiolivros. É um verdadeiro ponto de interesse da cidade, não só pelo seu desenho arrojado, como também pela vida que tem e pelo interessantíssimo conteúdo. Recomendo vivamente.

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Literatura Britânica

O Amante de Lady Chatterley

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Este livro foi pela primeira vez editado em 1928 e causou tanto espanto que acabou por ser censurado e proibido em Inglaterra. D. H. Lawrence quis escrever uma narrativa sobre sexo carnal não à moda do vulgaríssimo Marquês de Sade, mas num estilo erótico- realista que acabou por chocar muita gente num país ainda a recuperar dos ideais vitorianos. Hoje, é considerado uma obra-prima.

O Amante de Lady Chatterley (1928) conta a história de Connie, uma rapariga proveniente de uma família liberal, que desde cedo embarca em aventuras sexuais sem se importar com as convenções. Acaba por se apaixonar por Clifford, um aristocrata de categoria baixa ferido durante a guerra e confinado para sempre a uma cadeira de rodas. Connie não abandona o noivo, decidindo casar com ele e obter o título de Lady Chatterley, contudo, a vivência de ambos vai-se deteriorando e a intimidade inexistente começa a pesar na vida quotidiana da jovem. É neste momento de infelicidade que conhece Mellors, o guarda de caça do marido que também se revela uma pessoa frustrada e em busca de prazeres terrenos.

D. H. Lawrence soube construir uma premissa interessante e dar-lhe um toque de  vulgaridade inocente que pode ter chocado os seus contemporâneos mas que creio que hoje não choca ninguém. As relações sexuais que aparecem na obra são descritas recorrendo a metáforas e caricaturas, normalmente exultando simplesmente o corpo como algo de belo e de que não se deve ter vergonha. A própria relação entre Connie e Mellors dispara para mais do que o mero carnal fazendo com que o sexo não seja apenas uma atividade física entre pessoas frustradas, mas um passo para a comunhão profunda de existências. Apesar disto, creio que a história poderia ter beneficiado de um pouco mais de vontade afetuosa de Mellors e menos de tanta teoria política e existencialista. É um clássico importante, e, por isso, recomendo a sua leitura.

Literatura Norte-Americana

A Visita do Brutamontes

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Tinha este livro na minha estante desde 2011, ano em que foi galardoado com o prémio Pulitzer. Nunca me tinha apetecido lê-lo, mas, não sei porquê, no final do ano peguei nele e decidi torná-lo a minha última leitura de 2017.

A Visita do Brutamontes ou A Visit from the Goon Squad (2010), já que o li em inglês, é uma obra surpreendente graças sobretudo à maneira de como está escrita. Jennifer Egan brinca com a noção de tempo e escreve várias histórias que se vão entrelaçando não linearmente ao longo do livro e nos vão dando conta de como os anos passam para as personagens. É uma experiência muito interessante para o leitor que deve estar atento para não perder o fio à meada. O tema da obra é a mudança na cena e na indústria musicais americanas, desde os anos 70 até à atualidade, e, caso haja personagens principais eu diria que são Bennie, produtor musical, e Sasha, uma cleptomaníaca que, a certa altura, acaba por trabalhar como sua assistente. No final da história, há inclusive um capitulo engenhoso totalmente escrito em PowerPoint.

Trata-se de um livro muito curioso e original. A narrativa, embora estranha, prende-nos com grande facilidade e como exercício literário eu diria que está muito bem conseguido e que é diferente de tudo o resto, daí, creio, ter ganho o Pulitzer. É difícil afirmar se permanecerá no cânone ou se foi apenas uma divertida história passageira, só o tempo, que é um rufia, o dirá. De qualquer forma, enquanto este não nos apanha, recomendo a sua leitura.

Literatura Asiática · Literatura Britânica

O Tigre Branco

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Comprei este livro em 2008 (ano em que ganhou o Man Booker Prize) e deixei-o na estante até hoje. Não sei o que me fez pegar nele agora, mas ainda bem que o fiz. Foi um autêntico murro no estômago, justamente o que eu precisava: uma leitura com significado.

O Tigre Branco (2008) de Aravind Adiga é acima de tudo um livro sobre a Índia. A personagem principal é um homem jovem e pobre que ganha a vida como motorista de indianos ricos e influentes de Bangalore. Balram Halwai, como geralmente é chamado, tem um fundo bom e só quer trabalhar honestamente para evoluir, contudo, depara-se com inúmeras dificuldades e com um sistema completamente corrupto que não premeia o mérito nem a justiça, e se vende consoante quem paga mais. Esta sociedade suja e indecente vai fazer com que Balram abandone os seus valores e se torne um homem capaz do inimaginável para conseguir o que quer, tendo sempre a noção de que também ele teve de se “vender” para ser alguém.

Gostei muito deste livro. O que Aravind Adiga pretendeu fazer foi traçar um retrato atual da sociedade indiana ao contar-nos como se sobrevive num lugar que não considera os seus cidadãos iguais, que aceita subornos como prática aceitável e que explora as castas mais baixas sem qualquer respeito pelos direitos humanos. A leitura desta obra é um verdadeiro choque numa altura em que a cultura do zen, do yoga e do namaste está tão em voga. A certa altura recordou-me Money, de Martin Amis, embora mais interessante e com uma escrita mais clara. Uma crítica à sociedade local onde homens relativamente sãos e decorosos são arrastados para um mundo fétido e descontrolado. Não admira que tenha ganho o Man Booker Prize. Recomendo vivamente.

Literatura Britânica · Literatura Europeia

Jane Eyre

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Sempre quis muito ler este livro não só porque é um clássico, como também porque é o livro preferido de muitas pessoas cuja opinião respeito grandemente. O problema é que há uns anos vi na RTP2 a série da BBC com Ruth Wilson e Toby Stephens e fiquei completamente encantada. Tanto, que não consegui pegar na obra com medo que me estragasse os sentimentos que eu tinha em relação à série e com medo que a experiência de leitura não fosse autêntica por estar influenciada pela série. Deixei passar algum tempo. Este ano decidi lê-lo e adorei.

Jane Eyre (1847), de Charlotte Bronte, é considerado uma autêntica obra-prima tendo sido adaptado inúmeras vezes ao cinema e à televisão. Conta a história de Jane, uma rapariguinha orfã acolhida por uma tia que não gosta dela e que a envia para um colégio interno para aprender a ser preceptora. Aos dezanove anos, Jane decidi enviar cartas para trabalhar em casas particulares e acaba por ser aceite em Thornfield Hall, a mansão de Mr. Rochester que tanto tem de encantador como de misterioso.

O que mais me espantou no livro foi a escrita moderna e simples de Charlotte Bronte. A autora consegue prender o leitor a uma história cheia de reviravoltas com uma ligeireza textual impressionante para a época. Outra das características que muito apreciei foi o facto de sentir que Bronte entendia a alma humana na perfeição, levemente abrangendo temas como as classes sociais, a religião, e os direitos das crianças de uma forma desempoeirada embora clara.

Jane Eyre é tudo o que se quer num livro. Uma história de amor, um thriller, uma biografia, um clássico. Aconselho toda a gente a lê-lo pois creio que não deixa ninguém indiferente.

Feira do Livro · Literatura Portuguesa

A América do Norte

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Comprei este livro na Feira do Livro de Lisboa, o ano passado. O que me atraiu foi o facto de ser uma obra de não-ficção sobre um país que me fascina muitíssimo, os Estados Unidos da América. Quando cheguei a casa percebi, no entanto, que quem o escreveu foi um jornalista açoreano chamado Alfredo de Mesquita que, no início do século XX, trabalhou como embaixador em Nova Iorque. Como na altura não me apeteceu ler algo antigo sobre os EUA, adiei a leitura até hoje. Fiz mal, pois este país eternamente jovem não conhece a palavra “antigo”.

A história de Alfredo de Mesquita confunde-se com a da própria obra. No início do século XX, o jornalista e diplomata foi convidado a exercer de embaixador na Big Apple, uma das cidades do momento. Ao lá chegar, Mesquita ficou tão impressionado com o que viu que decidiu relatar tudo em livro, nascendo, então, A América do Norte (1928). Aqui retrata a vida do quotidiano dos americanos, como trabalham, o que fazem nos tempos livres, como são as suas casas, como se entretêm, como são as suas invenções e construções, a arquitetura, as grandes obras públicas, as indústrias emergentes, a sua relação com a família, com a religião, o papel da mulher, a ética no trabalho, a vontade que têm em aprender tudo e em cultivar-se, como são as suas universidades, alguns self-mademen que se tornaram célebres, e inclusivamente como foi a campanha presidencial que decorria aquando da sua visita e a consequente vitória de Theodore Roosevelt, por quem o autor nutria alguma simpatia.

Tudo é contado ao pormenor e com muito humor, numa escrita absolutamente deliciosa que não fica a dever nada aos melhores escritores. Mesquita tinha um olho clínico e percebe-se que se dava com pessoas interessantes e que era respeitado. Era também muitas vezes convidado para eventos públicos e privados, o que lhe dava acesso privilegiado a tudo o que ocorria. Uma das observações que Onésimo Teotónio de Almeida (autor do prefácio) faz é o facto de Mesquita só tecer elogios ao EUA sem nunca ver o seu lado negativo. Ao ler o relato, confesso não ter pensado ser o caso, contudo, após ler o prefácio (algo que faço sempre no fim), reparei ser verdade. No entanto, creio que aqui não é relevante, pois o leitor é contagiado pelo espanto constante do autor e pela sua ânsia de pôr tudo no papel de forma a dizer aos portugueses que um país jovem é capaz de ser incrível.

Gostei muito deste livro. Muitíssimo. A escrita de Alfredo de Mesquita é maravilhosa e os comentários que faz são impressionantes. É inacreditável que poucas sejam as diferenças entre os EUA do início do século XX e os do início do século XXI. Se quando lá vamos atualmente achamos tudo enorme e cheio de vida, imaginem uma pessoa do passado que habitava um dos países mais pobres da Europa. Amazing.

Feira do Livro · Literatura Europeia

Miguel Strogoff

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Comprei este livro em segunda mão na Feira do Livro de Lisboa há uns anos. Faz parte de  uma antiga coleção infantil da Verbo cujo objetivo era mostrar aos jovens leitores os clássicos da literatura adaptados para eles e com algumas gravuras da narrativa.

Miguel Strogoff (1876) é uma obra da autoria do escritor francês Jules Verne que retrata a viagem de um soldado que tem como missão entregar uma mensagem importantíssima ao irmão do Czar. O destino da própria Rússia pode depender do sucesso deste encargo.

A narrativa, no livro infantil da Verbo, desenvolve-se de forma rápida e cativante. As personagens que se vão cruzando no caminho do protagonista são interessantes e têm uma razão de ser. Trata-se de um livro de aventuras, o que nos leva a estar sempre com o coração nas mãos e a torcer para que Miguel Strogoff seja bem-sucedido apesar das adversidades que encontra. Pelo meio há ainda um pouco de romance, o que adiciona sempre algo mais a uma história de ação.

Gostei muito deste livro. Não consegui poisá-lo até acabar de o ler, o enredo é fascinante e as personagens admiráveis. Se a adaptação juvenil da Verbo é assim, tenho razões para crer que o “original” também é muito bom. Lembrou-me a série de desenhos animados que dava na televisão quando eu era pequena, e de cuja canção ainda me recordo. Já me intrigava na altura, agora percebi finalmente porquê.

Literatura Europeia

O Corcunda de Notre Dame

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Um dos meus filmes preferidos da Disney é O Corcunda de Notre Dame (1996). Lembro-me perfeitamente de o ter visto no cinema, duas vezes, com 12 anos e de me ter apaixonado pela sua história tão original. Pela primeira vez eu via um filme de desenhos animados sem príncipes nem princesas, que só queria passar a mensagem de que não faz mal ser-se diferente. Gostei tanto que me mascarei à personagem Esmeralda no carnaval e “obriguei” o meu pai a comprar o CD da banda sonora, que custou quase três contos. Ainda hoje sei as músicas todas de cor e as canto. Outro facto engraçado foi nessa páscoa termos ido de férias a Londres e comprado antecipadamente a VHS do filme na versão original não legendada. Apesar de eu e as minhas irmãs não dominarmos a língua inglesa na altura, ficámos entusiasmadíssimas por não termos de esperar pelo fim do verão para termos o filme. Claro que a primeira coisa que fizemos quando chegámos a Lisboa foi vê-lo. Por isso, sim, O Corcunda de Notre Dame tem um lugar muito especial no meu coração e, apesar de ser pouco conhecido, considero-o uma das melhores longas-metragens da Disney.

Devido a este meu historial, sempre quis ler O Corcunda de Notre Dame (1831) de Victor Hugo, que serviu de inspiração para o filme. Porém, ao mesmo tempo, tinha medo que o texto original não me fizesse sentido e estragasse a experiência que eu tinha tido. Uma das minhas irmãs leu-o e disse-me que foi um dos livros mais belos que lera. Este ano, e após  ter ido a Paris há alguns meses e visitado a própria casa de Victor Hugo, decidi lê-lo.

Foi inevitável que o meu pensamento estivesse bastante influenciado pelo filme. Imaginei as personagens que a Disney recriou e tive alguma dificuldade em aceitar que Claude Frollo se passasse a chamar Cláudio Frollo. No entanto, este obstáculo durou pouco tempo pois a escrita de Victor Hugo é tão sublime que rapidamente mergulhamos na sua narrativa e nos deixamos levar por ela. Há diversas personagens que não aparecem no filme, como Pedro Gringoire e a velha Chantefleurie (o que é inteiramente compreensível) e outras cujo papel é ligeiramente mais importante, como Clopin. Mesmo as personagens principais sofrem alterações: Frollo é arcediago e não juiz, Quasimodo é surdo e cego de um olho, Esmeralda tem dezasseis anos e não é tão forte nem independente, e Febo tem um papel mais secundário e digamos que muito menos simpático.

Nesta versão, Frollo salva Quasimodo do abandono para que ele um dia faça companhia ao seu irmão mais novo que está a ser criado num moinho. Leva-o para Notre Dame, local onde mora, e toma conta dele como se de um filho se tratasse. Ensina-o a ler, a escrever e a repicar os sinos da igreja. Quasimodo aceita a sua vida reservada e não sente desejo de ir “lá para fora”. Para dizer a verdade é uma personagem que se vai perdendo ao longo da narrativa e se recupera apenas em momentos chave. Esmeralda é uma linda cigana que dança na rua com uma cabra, Djali, e que um dia arrebata o coração de Frollo que a vê da catedral. Louco de culpa e paixão, Frollo tenta raptá-la uma noite com a ajuda de Quasimodo, mas ela é salva por Febo, um soldado que por acaso ia a passar e que também fica encantado com ela. Esmeralda apaixona-se perdidamente pelo seu salvador e concorda em encontrar-se com ele numa noite. Febo, noivo de uma rapariga burguesa, vai ter com ela a uma pensão duvidosa e tenta aproveitar-se. Frollo, que o seguiu, aparece por trás, esfaqueia-o e foge, pelo que Esmeralda é acusada de homicídio e bruxaria.

O que se segue é uma aventura que tem algumas parecenças com o filme, mas não muitas. Victor Hugo é um escritor excepcional que prende a nossa atenção de uma forma inteligente e nos dá informações históricas preciosas sobre a época, apesar de também ele não ter vivido nela. Através da sua escrita nota-se que era uma pessoa avançada para o seu tempo, com convicções sociais dignas do final do século XX. O Corcunda de Notre Dame é uma história de amor que também fala da diferença, do racismo, da loucura, da severidade religiosa, da desigualdade da justiça, do machismo. Tem tudo. E tudo perfeitamente enquadrado e transformado numa história original e bonita que só um génio pode conceber. Não é de admirar que os leitores de Victor Hugo lhe quisessem tanto bem, nem que, quase cem anos mais tarde, a Disney pegasse na sua história e no-la contasse com as suas transformações mágicas, prestando homenagem ao autor ao chamar duas das gárgulas de Victor e Hugo. É um romance maravilhoso que vale a pena ser lido, principalmente se vier numa edição tão bonita e bem traduzida como a da Civilização Editora (apesar de eu não ter compreendido a razão pela qual mudaram o nome de Notre Dame para Nossa Senhora de Paris). Recomendo vivamente.

Literatura Europeia

La Familia de Pascual Duarte

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No verão, tive a oportunidade de ir a Sevilha e, como ia lá passar uma semana, decidi levar um livro em espanhol para ler. Nunca tinha lido um livro em língua estrangeira no seu país de origem e devo dizer que foi uma experiência bastante interessante.

A obra que decidi levar foi La Familia de Pascual Duarte (1942) do prémio Nobel espanhol Camilo José Cela. Comprei-o precisamente numa viagem que fiz à Galiza em 2002, na loja da casa museu do escritor (infelizmente não tenho fotos para pôr no blogue). Passados tantos anos, achei que era a altura perfeita para o ler. Tinha algum receio de que a obra fosse complexa, mas não foi, de todo. Só melhorou a minha aptidão para o castelhano. O estilo de Cela é muito claro, rude e pragmático, expondo a crueldade por que passam as  suas personagens. Neste caso concreto é Pascual Duarte, um homem que está na prisão à espera do dia da sua execução e nos conta, em retrospetiva, a vida que teve e as razões pelas quais ali se encontra.

Cela descobriu no existencialismo e realismo extremo uma forma de relatar o que ocorria na Espanha do pós-guerra dos anos 30. As personagens com que nos deparamos são sujas, incultas, vivem em angustia e sofrimento, e tentam sobreviver num mundo difícil que não lhes dá esperança. É uma espécie de critica social com o objetivo de escandalizar o leitor para que este se aperceba de como era a sociedade provinciana de então.

Gostei do livro. Acho que Cela escreve muito bem e toca de maneira violenta e quase cómica em várias feridas que Espanha tinha naquela época. É uma narrativa crua mas ao mesmo tempo honesta sobre um pobre coitado que tentou sempre encontrar o melhor caminho para a sua felicidade. Recomendo.