Literatura Portuguesa

O Ensino do Português

Este pequeno livrinho de Maria do Carmo Vieira, o primeiro da colecção Ensaios da Fundação, (uma parceria entre a Fundação Francisco Manuel dos Santos e a editora Relógio d´Água), faz uma abordagem geral do estado do ensino da Língua Portuguesa na escola de hoje.
Com conhecimento de causa por ser professora há mais de vinte anos, Maria do Carmo Vieira faz um balanço das políticas educativas que se foram fazendo ao longo das décadas, referindo-se ao ensino em todos os ciclos escolares, ao perfil do «novo» professor, às matérias leccionadas e ainda à iniciativa Novas Oportunidades.
Este ensaio critico esmaga sem piedade as últimas reformas introduzidas pelo Ministério da Educação, referindo exemplos concretos que foram vividos pela própria ou por colegas próximos, e apresentando soluções que, aparentemente, seriam, pelo menos, boas de se ouvir. Por exemplo, a autora critica bastante o facto de se ter retirado a Literatura da sala de aula (como a leitura integral de Os Lusíadas ou obras de escritores como Sophia, Miguel Torga ou Cesário Verde) para se dar lugar a textos mediocres de nenhuma importância, como analisar reclamações ou textos de carácter informativo sobre os Morangos com açúcar e o Big Brother. Outra mudança que pode chocar, pela razão apresentada, é o facto de os alunos já não lerem a Aparição de Vergilio Ferreira por o Ministério considerar que é um texto demasiado difícil porque fala sobre a morte «quando o que os aolescentes desejam é a vida».
Em suma, a visão que Maria do Carmo Vieira nos dá é a de que a escola trata os alunos como mentalmente incapazes, incutindo-lhes uma politica de facilitismo e desleixe que desencentiva os melhores a continuarem a ser bons, e afasta os mais fracos pela falta de interesse.
Apesar de O Ensino do Português representar, apenas e só, a opinião de uma professora respeitável, não deixa de nos alarmar para questões sociais graves que, no presente e no futuro, nos dizem e dirão respeito a todos.
Literatura Portuguesa

Sinto Muito

Confesso que sou um pouco céptica em relação à literatura portuguesa contemporânea, prefiro clássicos. No entanto, devo abrir uma (grande) excepção a este livro.
Sinto Muito (Verso de Kapa; 248 páginas) é composto por vários textos independentes que relatam a vida de um neurologista pediátrico em Nova Iorque e em Lisboa. Para além de estar muitíssimo bem escrito (ou não fosse o autor um Lobo Antunes), é de uma ternura comovente que nos faz pensar sobre a natureza humana, a vida, a rotina de um médico, a apreensão de um doente, a perda dos familiares. Como cada história tem a duração de, mais ou menos, duas/três páginas, é quase impossível poisá-lo, pois queremos saber o que vem a seguir.
Para quem se quer aventurar em boa literatura nacional contemporânea, recomendo vivamente esta obra.
P.S.: Tenho ainda de fazer referência à linda capa da edição comemorativa dos 60.000 exemplares vendidos. Muito bonita.
Literatura Portuguesa

A mulher que prendeu a chuva

Este livro de contos foi uma agradável surpresa. Não só porque a literatura portuguesa não tem uma grande oferta deste género literárioexcepção de Miguel Torga, e de um ou outro livro de contos de autores portugueses como, por exemplo, Eça de Queiróz), como também por ter sido escrito com uma grande sensibilidade e com alguns dados biográficos da própria escritora.

A escrita de Teolinda Gersão denota uma temporalidade passada que é sempre engraçado reler e uma suavidade que transparece uma feminilidade confortável e prazenteira. Também denuncia várias situações sociais como a violência doméstica (praticada tanto por homens como por mulheres), a ganância, a velhice, a emigração, a doença, o desconhecido, o amor. Um conto, uma história, uma emoção.

Aconselho a sua leitura.