Literatura Norte-Americana

Inferno

O primeiro livro que li de Dan Brown foi o Código Da Vinci. Vi-o na estante de uma pequena loja da Fnac que existia ao pé da minha casa antes de começar a histeria mundial pela obra. Pensei comprá-lo, sentindo-me atraída pelo título e pela capa, contudo, como tinha em casa muitos livros para ler, fui-me embora sem ele. Rendi-me finalmente quando chegou um ponto em que parecia que não se falava de outra coisa no mundo. Devorei-o em três dias, sem vergonha. Não consegui poisá-lo. As revelações (verdadeiras ou não) eram demasiado polémicas para lhes ficar indiferente e a forma como a história estava contada era suficientemente empolgante para não desviar a minha atenção. 
Depois de o Código Da Vinci li o Anjos e Demónios. Escrito previamente, mas publicado no nosso país depois da loucura do Código, foi um livro que deixou um pouco a desejar. A acção centrava-se novamente no Vaticano, onde vários bispos estavam a ser assassinados e Robert Langdon tinha de desvendar mais um mistério relacionado com a igreja. N\ao achei tanta graça e a minha curiosidade pelos livros de Brown parou aí.
Até que chegou Dante.
Subitamente, o mundo viu-se outra vez obcecado com um best-seller de Dan Brown. As livrarias ficaram cheias com cópias do livro, o Youtube não falava de outra coisa e a praia deixou ver quantas pessoas quiseram descer ao Inferno.
Decidi lê-lo por uma única razão: a história passa-se em Florença, cidade onde vivi durante dois meses e se tornou um dos meus lugares preferidos. A minha curiosidade prendia-se essencialmente com o facto de ver como Dan Brown a tratara. 
Não há dúvida de que a estudou e conheceu muito bem. As descrições são muito exactas e realistas, fazendo com que estabeleçamos um mapa mental e nos sintamos a resolver os enigmas com as personagens. No entanto, creio que ao longo dos capítulos se vão tornando enfadonhas e um tanto pesadas. Não é necessário descrever uma avenida inteira só para dizer que os protagonistas vão entrar num certo edifício, nem descrever exaustivamente uma praça irrelevante para a acção, mas importante para o turismo. Se para uma pessoa que conhece bem o lugar as descrições se tornam enfadonhas, imagino como será para outra que nunca tenha lá estado.
A história propriamente dita é mais do mesmo: muita acção e enigmas. Achei que, comparado com os livros anteriores de Dan Brown, este tem demasiadas perseguições. Os protagonistas estão sempre a fugir de alguém; chegam a um sítio e fogem, chegam a outro e voltam a fugir. A dada altura só me apetecia que se mantivessem num lugar qualquer e não fugissem. 
As personagens não são ricas e num livro de Dan Brown não precisam de ser (já sabemos ao que vamos). Contudo, uma delas, Vayentha, era a cópia descarada de Lisbeth, protagonista da trilogia de Stieg Larsson. Achei de mau gosto porque a apropriação não foi subtil e porque um autor como Brown não precisa de se apossar de personagens de outros autores. Para mim, Robert Langdon será sempre o Tom Hanks e não percebi bem a personalidade de Sienna (esquizofrénica? sobredotada? carente?), nem o nome espanhol (Marta Alvarez) da empregada de museu que, ao que tudo indicou, era italiana.
De uma forma geral, o Inferno de Dan Brown é um livro razoável. Gostei que tivesse como subtema a sobrepopulação do mundo (por ser pouco abordado) e que se centrasse em Florença. De resto, é apenas um livro leve que não muda a nossa vida, mas nos entretém na praia. 
E, por vezes, também são precisos livros assim. 
Literatura Norte-Americana

O Grande Gatsby

Desde pequena que via a capa do DVD de O Grande Gatsby, com o Robert Redford e a Mia Farrow, poisada junto à mesinha de cabeceira da minha mãe. Sempre olhei para ela com muita curiosidade, mas nunca me atrevi a abri-la para ver o filme. Não sei se por respeito, medo, receio de não compreender a história ou de defraudar as minhas expectativas. O que sabia ao certo é que um dia leria a obra de F. Scott Fitzgerald e veria as respectivas adaptações cinematográficas. Esse dia chegou. 
O Grande Gatsby ocorre no ano de 1922 e retrata a vida social de um grupo de pessoas ricas do leste americano. O narrador, Nick Carraway, é um ex aluno de Yale e ex combatente da I Guerra Mundial que aceita um emprego numa companhia de seguros em Nova Iorque e arrenda uma pequena casa em Long Island, ao lado da mansão do misterioso e extravagante Jay Gatsby. Nick é primo de Daisy, uma bela socialite casada com o igualmente rico Tom Buchanan. Um dia, Nick é convidado para uma das inúmeras e sonantes festas de Gatsby e é a partir daí que começa uma história de traições, crime e decadência.
Esta obra é um dos símbolos dos maravilhosos anos 20 americanos que conheceram grande prosperidade após a I Grande Guerra quando os Estados Unidos registaram um enorme desenvolvimento económico graças ao progresso das indústrias do armamento, do aço, da construção, do cinema, e de outras. Socialmente também se deram muitas mudanças como a proibição do consumo de álcool, a Era do Jazz, o contrabando, o nascimento de máfias e gangues, e o avanço das crenças comunistas. Numa época em que as pessoas desejavam celebrar o fim do conflito e desfrutar das oportunidades que ele trouxera de modo a subirem na vida, os traumas de guerra e as alterações comportamentais impediam  muitas vezes que a verdade e o amor sincero se sobrepusessem a uma vida de opulência, farsa e riqueza que veria o seu fim com o Crash da Bolsa de 1929 e consequente Grande Depressão.
F. Scott Fitzgerald conseguiu transpor para o papel o estilo de vida americano de uma das décadas mais interessantes e decadentes da História. Adorei o livro. Verei os filmes. 
Literatura Juvenil · Literatura Norte-Americana

Mulherzinhas e Anos Felizes

Sempre tive o livro Mulherzinhas (1868) em casa e nunca o li. Não por falta de motivação para a leitura, pois sempre li muito, mais por estranheza e ao mesmo tempo atracção pelo livro com capa de cartaz de cinema que se encontrava dentro de uma vitrine da sala, e que nem sequer era meu. 
Quando saí de casa, nunca mais pensei na obra, até que um dia, enquanto dava uma vista de olhos aos livros das Galveias, vi um exemplar de Louisa May Alcott chamado Anos Felizes (1869). Intrigada, peguei na obra e li a contracapa. Dizia ser a sequela do livro Mulherzinhas. E isso despertou muito a minha curiosidade. 
Mulherzinhas é normalmente um livro indicado para crianças, embora eu ache que se adequa mais a adolescentes. A obra retrata a história da familia March. O pai, pastor protestante e homem culto, vai servir para a guerra enquanto a mãe fica em casa a tomar conta das quatro filhas e as ajuda a crescer. As quatro meninas são as verdadeiras heroínas do livro e é através delas que o leitor vive o dia-a-dia das mulheres que ficaram para trás enquanto a guerra decorria. Todas diferentes mas muito amigas, as irmãs ajudam-se mutuamente e revelam-nos que muitos dos problemas das mulherzinhas do passado não são muito diferentes dos das mulherzinhas do presente. Na segunda parte, as meninas tornam-se mulheres e vê-mo-las florescer e seguir por caminhos diferentes.
Por vezes moralista e feminista no bom sentido, Mulherzinhas é a principal obra de Louisa May Alcott que provavelmente se inspirou na sua propria familia para escrever um clássico da literatura que devia fazer parte da biblioteca de todos. Gostei muito. Dos dois.
Literatura Norte-Americana

Anjos e Demónios


Gostei muito de O Código da Vinci e, apesar de Anjos e Demónios ter sido escrito antes do best-seller, não lhe fica muito atrás na imprevisibilidade, nem no suspense.
A história é simples, Robert Langdon, o famoso professor de História em Harvard que faz de «detective» nos livros de Dan Brown, é contactado pelo director de um laboratório suíço para desvendar um crime macabro que lá ocorreu. No cadáver encontrado, foi inscrita a palavra Illuminatti e é a partir dela que a trama começa.
O autor situa a história no coração de Roma, mais precisamente no Vaticano, e, como fez com O Código da Vinci, põe a sua personagem a desvendar crimes de carácter religioso, recorrendo aos arquivos da instituição e aos seus estudos e conhecimentos prévios.
O livro cumpre, sem pretensões, o seu propósito. É uma boa narrativa de aventuras, com uma linguagem fluída e informal, que prende a atenção do leitor até ao fim. Para além disso, dá-nos a conhecer curiosidades que provavelmente só os historiadores ou os mais interessados na matéria sabem, como, por exemplo, quem eram os membros da maçonaria ou de que se tratava a secreta Illuminatti.
Já mais para o final da obra, o diálogo dá a entender o fim, que perde o suspense e o interesse que adquiriu no inicio, e o último capítulo trata a relação de Lagdon com a personagem feminina, Vittoria Vetra, como se fosse uma cena à «James Bond». Creio que estes factores diminuem a história dando-lhe a marca de romance light ou guião de cinema que, ao longo do livro, não estava assim tão patente.
Anjos e Demónios não é nenhuma obra prima. É um bom livro de aventuras, quiçá mais adequado ao público adolescente, que entretém e desanuvia a mente do leitor adepto de clássicos ou de uma literatura mais exigente.
Ainda assim, é uma boa sugestão de Verão ou para um período em que não estejamos obrigados a reflectir realmente sobre o que lemos.
Literatura Norte-Americana

Freedom

Foi apelidado de melhor romance americano da década pela Time e, como consequência, o seu autor, Jonathan Franzen, teve a honra de ser um dos poucos escritores a aparecer recentemente na capa desta publicação. Justo para monstros como Paul Auster e Phillip Roth?
Na minha opinião, o romance de 568 páginas poderia ter sido escrito em 300. O tema principal do livro é a relação de Patty e Walter Berglund desde que se conheceram na faculdade, até à meia-idade. A sua história é muito americana, no sentido em que retrata uma família disfuncional de classe média, tendo como um dos tempos presentes os anos de 2002/2003, ou seja, o rescaldo do 11 de Setembro. Pelo meio, Franzen ainda tem engenho para abordar temas como a ecologia, a politica ou o modo de vida moderno, criticando as posições de Bush e dando a entender que a vida nos Estados Unidos poderia ter sido outra caso Kerry ou Al Gore tivessem ganho as eleições.
O que mais gostei no livro foi o facto de Franzen ter construído personagens muito diferentes (apesar de não serem ricas ou complexas, à excepção de Patty) para dar ao leitor o ponto de vista de cada uma delas em representação de uma camada da sociedade americana. Contudo, por vezes, sentia que alguns dos problemas mencionados ou das discussões tidas (bastante realistas e fluídas) poderiam ter saído de um programa televisivo como o Dr. Phil ou The Tyra Show.
Não é que não tenha gostado de ler Freedom, por vezes, gostei, por outras, nem por isso, mas fazer dele um marco na literatura americana moderna parece-me extremamente excessivo. O que dirão então de Auster e Roth? Que são génios? Pois… se calhar, são mesmo.
Literatura Norte-Americana

Homem na escuridão

Um murro no estômago. Mais uma vez foi este o efeito que um livro do escritor norte-americano Paul Auster teve em mim. E que bela sensação! Ser retirada do meu pequeno mundo, da minha comfortzone para ser arrastada para o conflito virtual de um homem que já não espera nada da vida e que conta histórias inventadas a si próprio para se distrair, adormecer ou, simplesmente, fazer o tempo passar mais depressa.
August Brill é um velhote de setenta e dois anos que recupera de um acidente de viação em casa da filha, e que, para se abster de pensar na morte da mulher, no divórcio da filha e no assassinato violento do namorado da neta no Iraque, inventa histórias a si mesmo. Todavia, essas histórias acabam sempre por tocar nos pontos que Bill tenta esquecer. Um homem que, de súbito, se vê encurralado numa América assolada por uma segunda guerra civil e que é obrigado a matar Bill (o autor da história) para sobreviver e salvar a esposa. Um suicídio imaginário que não chega a acontecer porque Bill decide matar a sua personagem fictícia. Mudança de ideias por causa de uma suposta esperança no futuro?
Nessa noite, e por acaso, a neta bate à porta do seu quarto e começa a falar com o avô sobre o passado da família. Uma conversa franca (e bastante liberal) onde os dois têm a oportunidade de desabafar sobre os seus fantasmas, de se conhecerem melhor e de se consolarem mutuamente. De madrugada, chega a filha que propõe o pequeno-almoço habitual. Bill interrompe-a e pede-lhe tudo o que tem direito numa refeição à lavrador. Os dois comentam o livro que a filha está a escrever sobre a poetisa (muito má, na opinião das personagens) Rose Hawthorne e Bill, antigo critico literário, diz-lhe que no meio de tanta porcaria houve um verso que verdadeiramente sobressaiu: Enquanto o bizarro mundo continua a girar.
É com este pensamento que Auster nos deixa num livro escrito em 2007 (em plena administração Bush e com laivos explícitos bastante críticos em relação à guerra do Iraque). Um pensamento que, depois de um livro pesado que nos afoga na mente cansada, mas lúcida, de uma homem velho e impotente, nos dá esperança e nos abre os olhos para a ideia de que aconteça o que acontecer neste estranho mundo, a vida continua, as pessoas seguem as suas vidas e nada, realmente nada, mudará isso.
Uma esperança que não nos deixa indiferentes. Uma esperança que dói. Mas, ainda assim, uma esperança.