Literatura Europeia

O último dia de um condenado

Um livro negro. É assim que poderíamos descrever esta pequena história de Victor Hugo sobre um homem condenado à morte pela guilhotina. 
Não sabemos o nome do condenado e não importa. O que sabemos é que cometeu um crime, provavelmente homicídio como é deixado no ar pelo autor, e que vai morrer dentro de poucas horas. Ele conta-nos, em jeito de diário, os seus últimos momentos passados entre a prisão, a Conciergerie e a Place de Gréve, atual Place de L’ Hôtel-de-Ville (uma das mais bonitas de Paris), onde será então executado. O tom do condenado é sempre muito angustioso e de incompreensão para com a sua situação, não entende por que razão a justiça o mata por ter cometido um crime e ainda menos por que motivo a sua execução é vista como um espectáculo pelos muitos populares que se dirigem à praça para aplaudir a morte de um condenado. Ao longo da narrativa, o seu desespero aumenta para refletir a aproximação do momento da morte. 
Victor Hugo sempre foi conhecido por ser um escritor defensor de causas sociais, como demonstram algumas das suas obras mais emblemáticas: Os Miseráveis (1862), Nossa Senhora de Paris (1831) (mais popularmente conhecido como O Corcunda de Notre Dame graças à adaptação da Disney), e O último dia de um condenado (1829). Esta última serviu para o escritor manifestar publicamente a sua posição contra a pena de morte. Victor Hugo esperava que a sua popularidade junto dos franceses pudesse abrir o debate senão mesmo abolir um tratamento que considerava desumano. Contudo, nem o maior escritor de França do seu tempo conseguiu parar a guilhotina. O último condenado à pena de morte pela guilhotina morreu em 1977, 148 anos após a publicação do seu livro. Sim, em 1977. Há 39 anos. 
Recomendo a leitura de O último dia de um condenado, não só porque é um clássico da literatura francesa, mas também porque revela o pensamento progressista de Victor Hugo para a sua época e nos mostra como, mesmo no pior dos casos, a pena de morte provavelmente não é sempre a melhor solução.
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O mapa e o território

Como já referi aqui no blogue, estive de lua-de-mel em França há cerca de um mês. Quando voltei para Portugal, tive uma enorme vontade de ler escritores franceses. O mais óbvio seria ter lido Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo, que já está há algum tempo na minha estante, mas, não sei porquê, apeteceu-me ler outro livro. Prémio Goncourt em 2010, O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq. 
A única referência que eu tinha da obra vinha na sua capa: um autocolante a dizer “Vencedor do Prémio Goncourt”, o prémio literário de França, e tradução de Pedro Tamen, e um comentário do jornal espanhol El Mundo a dizer que Michel Houellebecq é o maior escritor francês vivo. Prometia. E pouco desapontou. 
A escrita de Michel Houellebecq é hipnotizante, faz-nos querer virar a página mesmo quando a narrativa está um pouco perdida e não faz grande sentido. A história em si é uma critica ao mundo e aos ídolos do nosso tempo, feita através do meio artístico contemporâneo. O autor refere várias celebridades como agentes fazedores de uma cultura que não é carne nem peixe, centrada na veneração do “eu” para se fazer valer. Em contraposição, incluiu-se a si próprio como personagem na trama para refletir a imagem do último dos grandes pensadores que só quer ser deixado em paz para trabalhar a arte pela arte, e que se opõe inconscientemente aos que a trabalham como meio de choque gratuito para enriquecer.
O Mapa e o Território é um grande livro. Mais do que uma leitura diferente e agradável, é um murro no estômago por parte de um autor polémico, que critica a nossa sociedade quase pela calada, mas que é muito certeiro nos tiros que dá e nas perguntas que faz. Recomendo vivamente.
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Paris

Este livro desconhecido foi-me oferecido pela minha cara-metade antes de irmos de lua-de-mel, para Paris. Levei-o comigo e li-o lá.
Julien Green nasceu e morreu em Paris, mas nunca se sentiu verdadeiramente um parisiense, tendo conservado a cidadania americana e negado sempre a francesa ao longo da vida. No entanto, o amor que nutria pela cidade era tal que, já no fim, decidiu homenageá-la com uma obra.
Paris (1991) é uma ode à capital francesa. Fala de vários momentos que o autor lá passou, do que mais gostava de fazer quando lá vivia, de pessoas, dos turistas, e de vários problemas que parecem persistir ainda nos dias de hoje. Creio que quem nunca foi a Paris não poderá desfrutar do livro como uma pessoa que já lá tenha estado, e se o ler enquanto lá estiver, como foi o meu caso, tanto melhor porque a leitura ganha uma nova magia.
Gostei muito de Paris. Trata-se de um livro bem escrito e de um elogio merecido por parte de alguém que conheceu a cidade como ninguém e que quis partilhar a sua Paris com o resto das pessoas para quem também ela é especial. Recomendo, principalmente, in loco.
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Três contos de Andersen

Hans Christian Andersen é um dos mais conhecidos escritores de histórias para crianças. Muitos dos seus contos foram adaptados ao cinema, sendo a Disney o estúdio que mais divulgou o seu trabalho com clássicos como O Patinho Feio (1939), A Pequena Sereia (1989) e, mais recentemente, Frozen (2013), inspirado no conto A Rainha das Neves
Há cerca de dois meses, reli três das minhas histórias preferidas deste autor dinamarquês: A Vendedora de Fósforos, A Pequena Sereia e A Rainha das Neves.
A Vendedora de Fósforos (1845) narra a história de uma rapariga muito pobre que perdeu a avó, e que é obrigada pelo pai alcoólico a vender fósforos na noite de fim de ano. Como está muito frio e ela não tem como se aquecer, acende os fósforos. Todavia, sempre que uma chama aparece, surge a visão de algo que ela muito anseia. Até que os fósforos acabam. 
Este é um dos contos mais profundos e trágicos de Andersen, e normalmente as crianças que o lêem não percebem se tem ou não um final feliz. A meu ver, a conclusão não podia ser mais satisfatória e adequada pois, no fundo, a menina recebe o que deseja e termina com uma vida de sofrimento atroz. É, acima de tudo, uma história cheia de fé e esperança.
A Pequena Sereia (1837) de Andersen foi uma das mais bem-sucedidas adaptações cinematográficas da História. A Disney pegou no texto, modificou o final, e relançou assim a sua segunda época dourada, os anos 90 do séc. XX. 
No conto de Andersen, a sereia salva o príncipe, mas esconde-se nas rochas à espera que apareça alguém para socorrê-lo. Desta feita, o rapaz nunca chega a saber que foi ela quem o salvou e, apesar de agradecido, não nutre por ela o amor que esta tanto deseja receber. O pacto que a sereia faz com a Bruxa do Mar não tem êxito, e o final é, além de trágico, uma verdadeira prova de amor. 
O conto de Andersen foi tão bem recebido pelo público dinamarquês, que, em 1913, foi inaugurada, no porto de Copenhaga, uma estátua em bronze da Pequena Sereia, hoje um dos símbolos do país. 
A Rainha das Neves (1844) foi a narrativa que inspirou um dos filmes mais famosos dos últimos anos, Frozen. E, apesar de à primeira vista a adaptação não ser assim tão evidente, depois de lermos o texto, percebemos que a inspiração não pode ter tido outra fonte. 
Kai e Gerda são dois bons amigos que vivem um em frente ao outro e brincam juntos todos os dias. Certa manhã, dois estilhaços de um espelho quebrado por um troll malvado que não reflete as coisas boas e só amplia as más, alojam-se nos olhos e no coração de Kai. Este acontecimento faz com que o rapaz fuja de casa e siga a Rainha das Neves, que o mantém enfeitiçado. Gerda, ao saber da fuga do amigo, vai no seu encalço e não descansa enquanto não o encontra. É ajudada por forasteiros que lhe dão uma rena, conseguindo assim chegar ao longínquo palácio da Rainha das Neves para libertar o amigo.
A intertextualidade entre o conto e o filme é clara, embora se trate de uma adaptação livre e cheia de diferenças. É obvio que a Rainha das Neves e Kai são, ao mesmo tempo, a personagem Elsa, e que Gerda é Anna.
Recomendo vivamente os contos de Hans Christian Andersen a todos os adultos e, claro, a crianças a partir dos 8/9 anos. Embora sejam por vezes um pouco violentos, dão lições de moral preciosas que emocionam e fazem pensar. Uma menção muito honrosa para o conto O Patinho Feio (1843) que foi adaptado pela Disney numa brilhante curta-metragem. 
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Noites Brancas

Quero muito ler Dostoievki e Tolstoi. São daqueles autores clássicos quase obrigatórios. Porem, as suas obras são extensas, pesadas e requerentes de toda a atenção. Poucas são as exceções, contudo, para nosso gáudio, Dostoievski escreveu um conto no começo da sua carreira que se pode ler e desfrutar numa tarde: Noites Brancas (1848).
Quando comecei a ler este livro, notei que a escrita não era fácil de acompanhar. Muitas são as repetições e frases longas que, por vezes, nos fazem perder o fio à meada. No entanto, após este pequeno primeiro passo, a história ganha vida própria e avança a toda a velocidade. 
A ação decorre em São Petersburgo, à noite, onde um narrador sem nome nos relata um pouco da vida da cidade entrelaçando-a com a sua própria existência bucólica. De repente vê uma rapariga, Nastenka, a ser assaltada por um transeunte. O jovem não hesita em ir em seu auxilio e a partir desse momento o casal torna-se amigo e confidente. O narrador apaixona-se por ela, mas Nastenka já está comprometida…
Podia ser uma história de amor como outra qualquer, não fosse o final surpreendente de Noites Brancas que a distingue das demais. O bom do livro é mesmo a última parte, onde o leitor é confrontado com uma possibilidade pouco óbvia e um desenlace que faz todo o sentido ao mais puro estilo romântico. 
Gostei muito deste conto. Depois de ultrapassado o início menos convencional deparamo-nos com uma história bonita e um final digno de um grande escritor. Recomendo.
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A Túlipa Negra

Recebi de presente o livro “A Túlipa Negra” quando fiz 10 ou 11 anos. Era uma edição juvenil baseada no original, com gravuras bonitas e texto adaptado. Na altura, eu não era leitora, pelo que o livro não me interessou e o pus de lado. Contudo, anos mais tarde, depois de ter finalmente descoberto o que os livros podem fazer por mim, lembrei-me dele e fiquei com vontade de o ler. O problema é que não o encontrava à venda. Até agora.
A Túlipa Negra (1850), de Alexandre Dumas, conta a história de Corneille de Witt e do ser amor por flores, nomeadamente túlipas. Corneille é um jovem herdeiro abastado, sobrinho dos dois “governadores” da Holanda que acabam por sofrer as represálias de um povo encantado com Guilherme de Orange e farto dos franceses. Depois de serem ambos decapitados em praça pública, as autoridades seguem no encalço de Corneille e prendem-no, afastando-o das suas queridas túlipas. Corneille, completamente alheio às movimentações políticas que ocorrem, sofre por não poder dedicar-se ao que mais gosta. Na prisão, conhece a filha do carcereiro, Rosa, que, ao vê-lo, fica imediatamente apaixonada por ele e ajuda-o na sua missão de descobrir como plantar uma túlipa negra, desafio proposto pela Sociedade Hortícula holandesa. Só que o perigo espreita de perto, e um preso e uma jovem rapariga pouco podem fazer contra ele.
Este é o mote de um livro de aventuras à la “Os Três Mosqueteiros”. Apesar de a escrita não ser propriamente fácil de ler, com muitas vírgulas, interrupções, e comentários ao leitor, a narrativa desenrola-se com ritmo e deixa-nos algumas vezes em suspense e desejosos de querer saber o que vai acontecer. O final é o esperado e, na minha opinião, podia ter sido contado de uma forma mais pormenorizada e lenta para fazer jus à obra. Seja como for, trata-se de uma leitura agradável que agora nos chega pela editora Civilização, que apresenta uma coleção de clássicos da literatura nacional e estrangeira, com lindas capa a condizer. Aconselho. 
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A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia

Há já alguns anos que tinha este livro em casa e quando soube que estava incluido no Plano Nacional de Leitura para o 5º ano não hesitei em levá-lo para o Clube de Leitura lá da escola.
A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia (1909) foi escrito pela primeira mulher vencedora do Prémio Nobel da Literatura, a sueca Selma Lagerlof. E é fácil perceber porquê. Neste livro, a autora utiliza a premissa de um jovem mal comportado, que mais tarde é transformado em gnomo e recorre grande parte do território sueco, para louvar o seu país. Pelo meio da que parece ser uma história juvenil, Selma Lagerlof conta lendas e mitos de diversas regiões, relata como era o desenvolvimento da Suécia a todos os níveis: económico, social, educacional, e até discute algumas das diferenças dos diversos povos que, no início do século XX, habitavam uma nação independente e monárquica, onde, segundo a autora, já cerca de 90% da população era literata.
Ao lermos a obra, não podemos deixar de comparar Portugal ao país escandinavo e a verdade é que o que nos distinguia na altura é o que nos distingue agora.
Gostei muito do livro, mas creio que gostei porque já fui à Suécia. Reconheci alguns dos locais mencionados (nomeadamente Estocolmo e o Skansen), lembrei-me de algumas paisagens que vi, e reconheci a mentalidade do povo sueco nas personagens e na escrita direta e fluida da autora. Acima de tudo, achei a ideia da história muito bem articulada com o verdadeiro objetivo da narrativa, o que, para a altura, deve ter sido uma agradável inovação literária. Porém, para quem não conhece a Suécia e não tem ideia de como age e vive o seu povo, esta identificação é mais difícil de sentir. Creio que foi isso que aconteceu aos meus alunos. No final, achei que o livro fora um pouco longo (cerca de 300 páginas) e que as suas descrições tinham sido um fardo quando o que eles mais queriam era ler sobre as aventuras de Nils. Na minha opinião, a obra devia ter como público-alvo alunos mais velhos, com uma certa maturidade e conhecimento da Europa e da Escandinávia.
Sem ligar a este pormenor, acho que o livro se adequa a qualquer adolescente/adulto. É um clássico da literatura europeia que nos conta, por meio de situações hilariantes e quiçá profundas, o que era a Suécia e o ser-se sueco no final/início do século passado. Recomendo. 
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História da Beleza

Este livro foi-me aconselhado por um psicólogo. Eu não sabia da sua existência, o que é estranho para alguém que liga tanto ao tema da beleza! O que não esperava era uma verdadeira revelação.
História da Beleza (2004) é um livro de não-ficção organizado e pensado pelo reputado escritor italiano Umberto Eco, que compilou os “ideais” de beleza (principalmente feminina) desde os gregos até à atualidade. Para isso, recorreu à arte e à literatura de forma a exemplificar o que era considerado bonito durante as diferentes épocas. 
O que aprendi com a frutuosa leitura foi que ao longo dos séculos a beleza sempre esteve associada a valores bons (ou bonitos, se quisermos), como a verdade, a bondade, a inteligência, a liberdade, o sofrimento, etc. O papel do artista (pintor, escultor, escritor) era o de exaltar estas qualidades tidas como extraordinárias em personagens dignas de admiração. A partir da Revolução Industrial (meados do séc. XIX), quando as máquinas começaram, pela primeira vez, a usurpar empregos e a criar produtos em massa, o lugar do artista foi posto em causa porque o físico passou a ser considerado belo. Tudo era classificado como arte, a arquitetura, a engenharia, a moda, a fotografia, o estilo de vida, o cinema. Parece que deixou de existir uma idealização de arte para passar a haver uma arte elitista e uma arte de massas. Foi mais ou menos a partir deste momento que o artista começou a olhar para a fisionomia humana per se como algo bonito, e a enaltecer quem correspondia a determinados padrões estéticos. Tudo ganhou mais força com o poder de Hollywood e das casas de alta costura. Até que chegamos à atualidade. 
Hoje em dia, a maioria da população ocidental e desenvolvida pensa que a magreza é a forma maior de beleza e elegância, basta verificarmos as revistas dirigidas ao público feminino que é quem mais contribui para as indústrias da moda e beleza. Contudo, tal como o livro refere, se um marciano descesse à Terra daqui a cinquenta anos e estudasse a História da beleza do nosso tempo veria que nunca houve uma era estética tão democrática como a que vivemos. 
Atualmente, todos os padrões de beleza parecem ser aceites. E temos vários exemplos para demonstrá-lo. Há pessoas que acham a Kim Kardashian bonita (complexão escura, muito curvilínea, baixa) e quem ache a Gisele Bundchen bonita (alta, magra, loira). Há quem considere o Johnny Depp bonito (alto, moreno, de aspeto Bad Boy) e quem considere o Chris Hemsworth bonito (loiro, musculado, de aspeto angelical). Todas as pessoas têm os seus gostos e as suas preferências. Veja-se, a título de exemplo, os casos das mais gordinhas. Embora ainda não sejam tidas como um padrão estético a seguir (principalmente devido a questões de saúde), têm fãs, são bem-sucedidas, e aparecem frequentemente em capas de revistas, como Adele, Queen Latifah, Melissa McCarthy, ou até Oprah. 
A conclusão do livro foi uma agradável surpresa. Nunca tinha realmente pensado que há um lugar cativo para todas as formas e feitios, e que as pessoas têm gostos diferentes e se interessam por outras não racionalmente, mais emocionalmente. Nem todas acham bonito o que nos é “vendido” ou “imposto” pelas indústrias que lucram com o estético, e a personalidade é, uma vez mais, a âncora que prende um ser a outro. Na minha opinião, todas as raparigas (e rapazes) deviam ler este livro para aprenderem de onde vêm os ideias de beleza, o que os motiva, e que o belo é algo de muito relativo e pessoal. Nunca parece ter sido, nem parece que será, um único padrão.
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O Voluntário de Auschwitz

Não é ficção. É mesmo verdade. Witold Pilecki, um capitão do exército polaco, voluntariou-se para ir para um campo de concentração nazi de forma a organizar um motim junto dos prisioneiros e salvar os compatriotas que lá se encontravam detidos. 
Deixando para trás a mulher e os dois filhos, Pilecki deixou-se apanhar nas ruas de Varsóvia e seguiu com os restantes capturados para Auschwitz. Ali, conheceu todo o tipo de privações e torturas, tentando sobreviver enquanto punha em marcha o seu plano e mantinha os outros soldados motivados. Apesar de ter sido testemunha de inúmeros atos de violência e ter passado fome e frio, Pilecki nunca desistiu do seu objetivo e sempre fez de tudo para salvar os colegas e escapar.
As suas desventuras em Auschwitz chegam-nos através do relatório que o próprio escreveu para os seus superiores, e que compõe este livro. Trata-se do seu depoimento do que viveu nos três anos que passou no campo, desde como era acordado, até aos natais passados com os nazis.
Atrevo-me a dizer que o relatório de Witold Pilecki tem a mesma importância histórica do Diário de Anne Frank. É um documento precioso que nos relata não só como eram os dias em Auschwitz, mas também como a coragem de um homem o leva a escolher a miséria para salvar uma vida que seja. 
Nunca tinha ouvido falar de um voluntário em Auschwitz. Talvez porque o regime comunista que governou a Polónia após a II Guerra Mundial tenha abafado a história para não criar um mártir. Talvez por mera ignorância minha. Seja como for, agora que está editado em Portugal, creio que este livro é de leitura obrigatória para nos ajudar a não esquecer que em tempos de terror há sempre alguém que se manifesta e tenta impedir que a loucura de alguns faça mais vítimas. Heróis. 
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Dracula

Provavelmente teria sido mais adequado ler este livro em outubro, porém, como o descarreguei gratuitamente para o Kindle e li o primeiro capítulo de imediato, foi impossível deixá-lo. 
Dracula foi escrito pelo irlandês Bram Stoker e publicado pela primeira vez em 1897. Na altura, os leitores não souberam o que pensar do livro, porém, o jornal Daily Mail não teve dúvidas em classificá-lo como melhor do que as obras de Mary Shelley e Edgar Allan Poe. Segundo alguns historiadores literários, Dracula tem mais relevância para os leitores dos séculos XX e XXI do que para a geração que o viu nascer.
Este romance gótico começa por narrar a viagem do advogado inglês, Jonathan Harker, à Transilvânia, terra do Conde Dracula, para onde é enviado de modo a tratar da papelada na preparação da viagem do Conde a Londres e consequente compra de uma propriedade. No entanto, o jovem começa a ser alvo de acontecimentos estranhos e assustadores, e aos poucos vai-se apercebendo de que o conde é um vampiro e o mantém preso no seu castelo. Com receio de enlouquecer, Jonathan aponta tudo o que vive e presencia no seu diário, o que mais tarde se revela utilíssimo. Em Whitby, esperam-no a sua noiva, Mina Murray, e os seus amigos Lucy Wenstera, Dr. John Seward, Quincey Morris e Arthur Holmwood. Jonathan consegue escapar e é internado num hospital de freiras. Em Whitby, Lucy também começa a ser objeto de eventos bizarros, pelo que o Dr. Seward, um médico psiquiátrico que não sabe o que fazer, chama o seu antigo professor Abraham Van Helsing para o ajudar. É a partir daqui que se inicia uma verdadeira caça ao vampiro e aos porquês de todas aquelas ocorrências.  
Um dos pormenores mais engraçados do livro é o facto de todo ele ser escrito em forma de diário e/ou cartas. Todas as personagens vão contando o seu ponto de vista à vez, relatando ao leitor não só os acontecimentos que vão tendo lugar, mas também a forma de como estes as afetam psicológica e emocionalmente. Assim, o espectador tem uma visão privilegiada da história, entrando nela a fundo e apercebendo-se de tudo o que se passa em primeiríssima mão. Trata-se de uma narrativa que não tem pressa em ser contada, pelo contrário, vai-se desenrolando a um ritmo agradável, sem se tornar aborrecida, nem rápida demais. Creio que o leitor dá conta de que foi um prazer para Stoker escrever este livro.
Diz-se que o escritor se inspirou em Henry Irving, um dos atores mais conhecidos do seu tempo e para quem Stoker trabalhava, para escrever Dracula. A sua ideia era que a obra fosse transposta para o teatro (tendo o próprio Stoker feito a adaptação), e que o Conde tivesse sido interpretado por Irving. Porém, tal não aconteceu porque o ator não se sentiu à vontade para o fazer. Atualmente, a teoria mais aceite é a de que Bram Stoker se inspirou no principe de Valáquia, Vlad Draculea, o Empalador, para construir a personagem. Vlad foi um aristocrata romeno, famoso pelo seu desejo de independência dos impérios turco e otomano, e pelo sadismo e crueldade com que tratava os seus prisioneiros. No livro, Van Helsing chega a compará-lo ao vampiro, dizendo: “(…) He must, indeed, have been that Voivode Dracula who won his name against the Turk, over the great river on the very frontier of Turkey-land. (…)”. (Cap. 18, pg. 145). Ainda hoje o antigo castelo de Vlad é conhecido como o castelo de Drácula.

Gostei muito de ler este livro. Está muito bem escrito (o facto de ser um epistolário ajuda à  compreensão da história e faz com que sintamos uma empatia mais vincada em relação às personagens), tem um ritmo excelente e os acontecimentos são assustadoramente requintados. É uma obra que mexe connosco e nos acompanha mesmo depois de a termos terminado de ler. Não é por acaso que já foram feitas tantas adaptações cinematográficas (sendo as melhores a de 1931 com Bela Lugosi no melhor Dracula de sempre, e a de 1992, de Francis Ford Coppola), ajudando à mitificação da personagem. É, sem dúvida, um Clássico da literatura moderna.