Literatura Europeia

A Insustentável Leveza do Ser

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Comprei este livro em 2011 por ser um clássico muito referido no meu curso da faculdade. No entanto ainda não o tinha lido. Sempre me pareceu um pouco pesado e filosófico e nunca me tinha apetecido pegar-lhe. Não sei porque o fiz agora, mas a verdade é que apesar de ser intrigante, a minha ideia inicial não estava muito longe da verdade…

A Insustentável Leveza do Ser (1984) é um romance existencialista que se foca em quatro personagens principais, Tomas, Tereza, Sabina e Franz. Tomas e Tereza são um casal, mas Sabina é uma das amantes de Tomas e Franz um amante de Sabina. Todos eles são checos e assistem à invasão de Praga por parte dos comunistas russos. As suas vidas, até aqui estabilizadas e com boas profissões, sofrem grandes tumultos e eles vêem-se obrigados a fugir da República Checa por não concordarem com os ideias sovietes, ou a ficar para terem de recomeçar tudo de novo. No meio destes acontecimentos, ainda têm de lidar com questões pessoais profundas que os afetam imensamente.

O mote desta obra é a história do próprio Milan Kundera que enquanto jovem estudante checo foi expulso da universidade por não concordar com a invasão do seu país. Mais tarde, teve de se exilar em Paris onde foi acolhido quando também lhe retiraram a nacionalidade checa. Aqui, Kundera recupera um pouco do que se passou em 1968 para retratar a vida do cidadão comum e refletir sobre esse tempo através de personagens ambíguas que tentam sobreviver como podem. Trata-se de um texto filosófico e pesado que por vezes vai por caminhos inesperados e difíceis, pelo que o leitor deve estar atento de modo a não perder o fio à meada. Seja como for, é uma leitura interessante que nos ensina um pouco sobre a História da Republica Checa enquanto nos mostra como a natureza humana lida com a adversidade e os fantasmas interiores.

Literatura Britânica · Literatura Europeia

Jane Eyre

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Sempre quis muito ler este livro não só porque é um clássico, como também porque é o livro preferido de muitas pessoas cuja opinião respeito grandemente. O problema é que há uns anos vi na RTP2 a série da BBC com Ruth Wilson e Toby Stephens e fiquei completamente encantada. Tanto, que não consegui pegar na obra com medo que me estragasse os sentimentos que eu tinha em relação à série e com medo que a experiência de leitura não fosse autêntica por estar influenciada pela série. Deixei passar algum tempo. Este ano decidi lê-lo e adorei.

Jane Eyre (1847), de Charlotte Bronte, é considerado uma autêntica obra-prima tendo sido adaptado inúmeras vezes ao cinema e à televisão. Conta a história de Jane, uma rapariguinha orfã acolhida por uma tia que não gosta dela e que a envia para um colégio interno para aprender a ser preceptora. Aos dezanove anos, Jane decidi enviar cartas para trabalhar em casas particulares e acaba por ser aceite em Thornfield Hall, a mansão de Mr. Rochester que tanto tem de encantador como de misterioso.

O que mais me espantou no livro foi a escrita moderna e simples de Charlotte Bronte. A autora consegue prender o leitor a uma história cheia de reviravoltas com uma ligeireza textual impressionante para a época. Outra das características que muito apreciei foi o facto de sentir que Bronte entendia a alma humana na perfeição, levemente abrangendo temas como as classes sociais, a religião, e os direitos das crianças de uma forma desempoeirada embora clara.

Jane Eyre é tudo o que se quer num livro. Uma história de amor, um thriller, uma biografia, um clássico. Aconselho toda a gente a lê-lo pois creio que não deixa ninguém indiferente.

Feira do Livro · Literatura Europeia

Miguel Strogoff

MiguelStrogoff

Comprei este livro em segunda mão na Feira do Livro de Lisboa há uns anos. Faz parte de  uma antiga coleção infantil da Verbo cujo objetivo era mostrar aos jovens leitores os clássicos da literatura adaptados para eles e com algumas gravuras da narrativa.

Miguel Strogoff (1876) é uma obra da autoria do escritor francês Jules Verne que retrata a viagem de um soldado que tem como missão entregar uma mensagem importantíssima ao irmão do Czar. O destino da própria Rússia pode depender do sucesso deste encargo.

A narrativa, no livro infantil da Verbo, desenvolve-se de forma rápida e cativante. As personagens que se vão cruzando no caminho do protagonista são interessantes e têm uma razão de ser. Trata-se de um livro de aventuras, o que nos leva a estar sempre com o coração nas mãos e a torcer para que Miguel Strogoff seja bem-sucedido apesar das adversidades que encontra. Pelo meio há ainda um pouco de romance, o que adiciona sempre algo mais a uma história de ação.

Gostei muito deste livro. Não consegui poisá-lo até acabar de o ler, o enredo é fascinante e as personagens admiráveis. Se a adaptação juvenil da Verbo é assim, tenho razões para crer que o “original” também é muito bom. Lembrou-me a série de desenhos animados que dava na televisão quando eu era pequena, e de cuja canção ainda me recordo. Já me intrigava na altura, agora percebi finalmente porquê.

Literatura Europeia

O Corcunda de Notre Dame

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Um dos meus filmes preferidos da Disney é O Corcunda de Notre Dame (1996). Lembro-me perfeitamente de o ter visto no cinema, duas vezes, com 12 anos e de me ter apaixonado pela sua história tão original. Pela primeira vez eu via um filme de desenhos animados sem príncipes nem princesas, que só queria passar a mensagem de que não faz mal ser-se diferente. Gostei tanto que me mascarei à personagem Esmeralda no carnaval e “obriguei” o meu pai a comprar o CD da banda sonora, que custou quase três contos. Ainda hoje sei as músicas todas de cor e as canto. Outro facto engraçado foi nessa páscoa termos ido de férias a Londres e comprado antecipadamente a VHS do filme na versão original não legendada. Apesar de eu e as minhas irmãs não dominarmos a língua inglesa na altura, ficámos entusiasmadíssimas por não termos de esperar pelo fim do verão para termos o filme. Claro que a primeira coisa que fizemos quando chegámos a Lisboa foi vê-lo. Por isso, sim, O Corcunda de Notre Dame tem um lugar muito especial no meu coração e, apesar de ser pouco conhecido, considero-o uma das melhores longas-metragens da Disney.

Devido a este meu historial, sempre quis ler O Corcunda de Notre Dame (1831) de Victor Hugo, que serviu de inspiração para o filme. Porém, ao mesmo tempo, tinha medo que o texto original não me fizesse sentido e estragasse a experiência que eu tinha tido. Uma das minhas irmãs leu-o e disse-me que foi um dos livros mais belos que lera. Este ano, e após  ter ido a Paris há alguns meses e visitado a própria casa de Victor Hugo, decidi lê-lo.

Foi inevitável que o meu pensamento estivesse bastante influenciado pelo filme. Imaginei as personagens que a Disney recriou e tive alguma dificuldade em aceitar que Claude Frollo se passasse a chamar Cláudio Frollo. No entanto, este obstáculo durou pouco tempo pois a escrita de Victor Hugo é tão sublime que rapidamente mergulhamos na sua narrativa e nos deixamos levar por ela. Há diversas personagens que não aparecem no filme, como Pedro Gringoire e a velha Chantefleurie (o que é inteiramente compreensível) e outras cujo papel é ligeiramente mais importante, como Clopin. Mesmo as personagens principais sofrem alterações: Frollo é arcediago e não juiz, Quasimodo é surdo e cego de um olho, Esmeralda tem dezasseis anos e não é tão forte nem independente, e Febo tem um papel mais secundário e digamos que muito menos simpático.

Nesta versão, Frollo salva Quasimodo do abandono para que ele um dia faça companhia ao seu irmão mais novo que está a ser criado num moinho. Leva-o para Notre Dame, local onde mora, e toma conta dele como se de um filho se tratasse. Ensina-o a ler, a escrever e a repicar os sinos da igreja. Quasimodo aceita a sua vida reservada e não sente desejo de ir “lá para fora”. Para dizer a verdade é uma personagem que se vai perdendo ao longo da narrativa e se recupera apenas em momentos chave. Esmeralda é uma linda cigana que dança na rua com uma cabra, Djali, e que um dia arrebata o coração de Frollo que a vê da catedral. Louco de culpa e paixão, Frollo tenta raptá-la uma noite com a ajuda de Quasimodo, mas ela é salva por Febo, um soldado que por acaso ia a passar e que também fica encantado com ela. Esmeralda apaixona-se perdidamente pelo seu salvador e concorda em encontrar-se com ele numa noite. Febo, noivo de uma rapariga burguesa, vai ter com ela a uma pensão duvidosa e tenta aproveitar-se. Frollo, que o seguiu, aparece por trás, esfaqueia-o e foge, pelo que Esmeralda é acusada de homicídio e bruxaria.

O que se segue é uma aventura que tem algumas parecenças com o filme, mas não muitas. Victor Hugo é um escritor excepcional que prende a nossa atenção de uma forma inteligente e nos dá informações históricas preciosas sobre a época, apesar de também ele não ter vivido nela. Através da sua escrita nota-se que era uma pessoa avançada para o seu tempo, com convicções sociais dignas do final do século XX. O Corcunda de Notre Dame é uma história de amor que também fala da diferença, do racismo, da loucura, da severidade religiosa, da desigualdade da justiça, do machismo. Tem tudo. E tudo perfeitamente enquadrado e transformado numa história original e bonita que só um génio pode conceber. Não é de admirar que os leitores de Victor Hugo lhe quisessem tanto bem, nem que, quase cem anos mais tarde, a Disney pegasse na sua história e no-la contasse com as suas transformações mágicas, prestando homenagem ao autor ao chamar duas das gárgulas de Victor e Hugo. É um romance maravilhoso que vale a pena ser lido, principalmente se vier numa edição tão bonita e bem traduzida como a da Civilização Editora (apesar de eu não ter compreendido a razão pela qual mudaram o nome de Notre Dame para Nossa Senhora de Paris). Recomendo vivamente.

Literatura Europeia

La Familia de Pascual Duarte

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No verão, tive a oportunidade de ir a Sevilha e, como ia lá passar uma semana, decidi levar um livro em espanhol para ler. Nunca tinha lido um livro em língua estrangeira no seu país de origem e devo dizer que foi uma experiência bastante interessante.

A obra que decidi levar foi La Familia de Pascual Duarte (1942) do prémio Nobel espanhol Camilo José Cela. Comprei-o precisamente numa viagem que fiz à Galiza em 2002, na loja da casa museu do escritor (infelizmente não tenho fotos para pôr no blogue). Passados tantos anos, achei que era a altura perfeita para o ler. Tinha algum receio de que a obra fosse complexa, mas não foi, de todo. Só melhorou a minha aptidão para o castelhano. O estilo de Cela é muito claro, rude e pragmático, expondo a crueldade por que passam as  suas personagens. Neste caso concreto é Pascual Duarte, um homem que está na prisão à espera do dia da sua execução e nos conta, em retrospetiva, a vida que teve e as razões pelas quais ali se encontra.

Cela descobriu no existencialismo e realismo extremo uma forma de relatar o que ocorria na Espanha do pós-guerra dos anos 30. As personagens com que nos deparamos são sujas, incultas, vivem em angustia e sofrimento, e tentam sobreviver num mundo difícil que não lhes dá esperança. É uma espécie de critica social com o objetivo de escandalizar o leitor para que este se aperceba de como era a sociedade provinciana de então.

Gostei do livro. Acho que Cela escreve muito bem e toca de maneira violenta e quase cómica em várias feridas que Espanha tinha naquela época. É uma narrativa crua mas ao mesmo tempo honesta sobre um pobre coitado que tentou sempre encontrar o melhor caminho para a sua felicidade. Recomendo.

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Balanço de leitura 2016

2016 foi um ótimo ano, principalmente no que respeita a livros. Não me impus nenhuma meta porque não acredito na leitura por lazer como uma obrigação, leio porque me dá prazer e porque quero. Ainda assim, gosto de ir melhorando os meus hábitos de leitura e de acabar o ano com um maior número de livros lidos do que no ano anterior. Foi exatamente o que aconteceu. Em 2015 li 23 livros e em 2016 li 45. Não podia estar mais satisfeita.

No início do ano passado decidi que queria ultrapassar os 23 livros que li em 2015 e empenhar-me mais na leitura. Comecei com um clássico que sempre quis ler: E Tudo o Vento Levou. Como é um livro extenso demorei três meses a lê-lo, e pensei que as minhas expectativas de ler mais livros em 2016 estavam goradas. Escolhi, então, ler obras um pouco mais curtas para me motivar a ler mais. Resultou. O meu gosto pelos livros e o “BookTube” deram-me o empurrão que eu precisava para me concentrar na leitura. Acabei por ter um ano muito produtivo, em que a diversidade foi o ponto alto.

Lista de livros lidos (por ordem de leitura):

E Tudo o Vento Levou, Margaret Mitchell
3 contos de Hans C. Andersen (A Pequena Sereia, A Rainha das Neves, A Vendedora de Fósforos)
O Principe e o Pobre, Mark Twain
Paris, Julien Green
O mapa e o território, Michel Houllebecq
Divórcio em Buda, Sandor Marai
Flush – Uma Biografia, Virginia Woolf
Bom-dia, Meia-Noite, Jean Rhys
O Livro da Selva, Rudyard Kipling
O Caso do Segredo da Enteada, Erle Stanley Gardner
A Lebre de Vatanen, Arto Paasilinna
A honra perdida de Katharina Blum, Heinrich Boll
A familia dos Mumins, Tove Jansson
O último dia de um condenado, Victor Hugo
O espião que veio do frio, John Le Carré
O falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello
Peter Pan, J. M. Barrie
A verdade sobre o caso Harry Quebert, Joel Dicker
Dubliners, James Joyce
O Mundo Em Que Vivi, Ilse Losa
O Vento nos Salgueiros, Kenneth Graham
They Do It With Mirrors, Agatha Christie
Animal Farm, George Orwell
The Lost Symbol, Dan Brown
Wonder, R. J. Palacio
Anna dos Cabelos Ruivos, Lucy Maud Montgomery
A herança de Eszter, Sandor Marai
A familia de Pascual Duarte, Camilo José Cela
As mais belas fábulas africanas, vários autores
As duas irmãs, Agatha Christie
As crónicas de Fernão Lopes, Fernão Lopes
As desventuras do Sr. Pinfold, Evelyn Waugh
Washington Square, Henry James
The Pearl, John Steinbeck
As aventuras de Ton Sawyer, Mark Twain
As aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain
A tarde de um escritor, Peter Handke
The Invisible Man, H. G. Wells
O cometa dos Mumins, Tove Jansson
The Catcher in the Rye, J. D. Salinger
The Big Four, Agatha Christie
A joia das sete estrelas, Bram Stoker
Merry Christmas, Louisa May Alcott
The Nutcracker, E. T. A. Hoffman
A Festa de Halloween, Agatha Christie

Os autores mais lidos foram: Agatha Christie (como não podia deixar de ser), Mark Twain, Sandor Marai e Tove Jansson.

Os livros de que mais gostei foram: E Tudo o Vento Levou; Bom-dia, Meia-Noite; O espião que veio do frio; O mundo em que vivi; Animal Farm; Wonder; Anna dos cabelos ruivos; The Catcher in the Rye; The Big Four.

Os livros de que menos gostei foram: O Livro da Selva; O Vento nos Salgueiros; The Lost Symbol; A joia das sete estrelas; The Nutcracker.

Surpresa do Ano: The Catcher in the Rye. Foi o livro que este ano mais me marcou. Descobrir Salinger e a sua obra-prima foi um dos pontos altos do meu ano literário. Fiquei com muita vontade de ler as suas restantes obras.

Desilusão do Ano: The Lost Symbol. O pior livro do ano. Não teve ponta por onde se lhe pegasse. Uma boa ideia muito mal executada.

Conclusão: 2016 foi um ótimo ano de leituras. Nem todos os livros referidos têm crítica aqui no blogue, mas terão, pois planeio escrever sobre eles assim que puder. Também pretendo manter ou ultrapassar o número de livros lidos. Seria espetacular ler mais de 45 livros em 2017. Por vezes não depende só de mim, mas vou tentar, tenho as prateleiras cheias de excelentes propostas. Todas as segundas-feiras há novo artigo aqui no blogue.

Desejo-vos um ótimo 2017, cheio de ótimas leituras!

Literatura Europeia

A herança de Eszter

 

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Mais uma vez, Sandor Marai. É o meu terceiro livro do autor húngaro. Já sei ao que vou. E gosto.

Eszter é uma mulher de meia idade que vive uma existência monótona numa casa velha de aldeia e idealiza o reencontro com o que foi o grande amor da sua vida. Certo dia, esse homem aparece-lhe com a esposa glamorosa ao estilo atriz de Hollywood em decadência, e dois filhos adolescentes rabugentos e insatisfeitos com a realidade. Lajos volta, mas não é para ela, deseja o anel de noivado que lhe deu há vinte anos para o oferecer à filha como parte de um dote. Contudo, tal como todas as coisas em que Lajos toca, esse anel também se evaporou.

A herança de Ester (1939) é um romance curto sobre um triângulo amoroso e o poder que uma pessoa tem sobre outra. Lajos não sente pudor em regressar a casa de Eszter para, mais uma vez, lhe roubar o pouco que de valioso ela tem, e Eszter, mais uma vez, dar-lho-ia se tivesse. Numa Hungria devastada onde a classe média é mal vista e tenta sobreviver a todo o custo, os mais fracos são insultados e oprimidos não pelos mais poderosos mas, neste caso, por um certo chico-espertismo que faz de tudo para singrar.

O mais bonito da obra é vermos como os sentimentos de Eszter são expostos. Marai desarma os corações mais rijos com uma escrita crua e intensa. Não sentimos pena dela, nem revolta, nem angústia, apenas uma leve tristeza e esperança de que tudo possa acabar bem. Recomendo. Um grande romance em poucas páginas.

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O Vento nos Salgueiros

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Para mim, os clássicos são sempre uma ótima oportunidade não só para conhecer os livros considerados o cânone da literatura, mas também para compreender porque o são. O Vento nos Salgueiros (1908) é, há muito, considerado um livro de referência no género infantil, tendo sido adaptado para séries de animação e longas-metragens. Por isso, quis lê-lo.

O Vento nos Salgueiros, de Kenneth Grahame, sempre me intrigou. Sempre pensei nele como um romance ternurento passado no mundo dos animais, quiçá até um pouco triste. O que descobri, porém, não foi bem isso. É verdade que o primeiro capítulo é promissor, com um rato e uma doninha a partirem numa viagem de barco através do rio junto às suas casas, contudo, depois, parece que o livro ganha uma linguagem cómica e torna as aventuras destes amigos, de um sapo e uma toupeira, um pouco mais surreais. Creio que deve apelar a uma criança ler este tipo de brincadeiras, porém, o que me pareceu foi que as brincadeiras também são um pouco adultas para um público mais novo (como é, por exemplo, o caso da prisão do sapo).

Esta obra é interessante, mas não foi, de todo, uma das minhas preferidas. Acho que a minha ideia romantizada levou um pouco a melhor de mim e me estragou a experiência da leitura. De qualquer forma, devo referir que O Vento nos Salgueiros (cujo título é um dos mais bonitos no que a narrativas infantis diz respeito) é um livro muito bem escrito e querido para muita gente. Lá por eu não o ter adorado não quer dizer que seja mau. Não me arrependo de o ter lido, pelo contrário, é bom conhecer os clássicos e perceber o que leva tantas pessoas a a gostar deles. Neste caso em concreto compreendo que tenha sido uma obra para crianças inovadora para o início de século. Se perdurou até aos dias de hoje é porque há muita gente a apreciá-los. Infelizmente, não é bem o meu caso.

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A Jóia das Sete Estrelas

Gosto muito de livros de suspense. Thrillers, policiais, crime, gosto de todos estes géneros (principalmente se forem da autoria de Agatha Christie…). Contudo, o terror é uma categoria literária que não exploro porque não gosto de ficar sem dormir. Achava que isso me ia acontecer com esta obra em particular, mas não foi o caso.

A joia das sete estrelas (1903), de Bram Stoker, afamado escritor de Drácula (critica aqui no blogue) é supostamente um dos melhores livros de terror de todos os tempos. A história passa-se em Londres, no final do séc. XIX, quando um brilhante advogado em início de carreira é chamado a casa da filha de um historiador que, de súbito, entrou num transe do qual não consegue sair. Ninguém é capaz de explicar o facto e um perito em egiptologia e magia oculta é chamado para salvá-lo. Descobre-se então que este homem é um antigo amigo do historiador e que, com ele, explorou túmulos egípcios. Um desses túmulos era o da rainha Tera que, incomodada no seu sono e privada das relíquias que descansavam consigo (entre elas a sua mão de sete dedos), acaba por reencarnar no corpo de outra mulher. O que é estranho é que Margaret, a filha do historiador, tem, sem saber, muitas parecenças bizarras com a rainha Tera…

A premissa parece interessante e, depois de conhecermos o trabalho de Stoker, ficamos com vontade de saber como é que o escritor imaginou as suas outras obras. Para meu grande espanto, encontrei muitas semelhanças entre este livro e o próprio Drácula. Há muitas imagens parecidas como o facto de as vítimas serem mulheres desamparadas, normalmente vestidas de branco; a história é vista do ponto de um outsider com esperança de resolver o problema para poder ficar com a pessoa amada; um holandês perito em assuntos do oculto é mandado chamar para iluminar o grupo que tenta solucionar a questão. Apesar destas presenças, a história segue o seu fluxo, tornando-se por vezes demasiado repetitiva. Stoker demora-se em pormenores que são imediatamente claros ao leitor, fazendo com que o ritmo seja lento numa narrativa cheia de suspense e por isso frenética. É claro que devemos ter em conta de que se trata de um livro escrito no final do século XIX, pelo que a narrativa não poder ser igual às do século XXI.

Por outro lado, e novamente seguindo um pouco o que acontece em Drácula, o papel da mulher nesta obra é visto como pouco relevante, quase só serve para fazer de vítima. O autor chega mesmo a afirmar que os comentários infantis de Margaret são normais por ela ser de sexo feminino, algo que sem dúvida tem a ver com a época em que o escritor viveu, embora tal justificação não seja menos agradável às leitoras.

Resumindo, trata-se de um bom romance, especialmente se for visto à luz da época em que foi escrito. É notório que Stoker adorava lendas e mitos do oculto e que tentava transpor o seu gosto para histórias que chocassem o público. Não considero este livro assustador, nunca me tirou o sono (graças a Deus), mas é um bom ponto de partida para quem quer entrar neste género ou simplesmente ler um bom romance vitoriano. Só aconselho a não comprarem a edição da Editorial Estampa porque o grafismo não é bom e a tradução deixa um pouco a desejar.

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The Invisible Man

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Não gosto de ficção científica, nunca leio. Nem vejo na televisão, nem no cinema. É simplesmente um tema que não me atrai. No entanto, ao ler a premissa deste livro, fiquei com vontade de o ler e de sair um pouco da minha zona de conforto.

A primeira vez que ouvi falar da história do homem invisível foi no museu de cera Grévin, em Paris, tinha eu uns 11 anos. Tratava-se de uma estátua não-estátua, ou seja, de roupas penduradas por arames que de certa forma davam a ideia de um homem sem corpo. Deve ter sido mais ou menos o que os personagens sentiram quando viram a personagem principal pela primeira vez.

H. G. Wells escreveu o seu romance em 1897 e o que impressiona é a modernidade da ideia. Griffin é um jovem cientista que se dedica ao estudo da retracção dos corpos, algo que os impede de absorver e refletir a luz tornando-se, deste modo, invisíveis. Depois de utilizar um gato como cobaia, decidi experimentar a poção em si próprio e tornar-se invisível. A princípio, a sensação de poder e impunidade é incrível, e Griffin sente-se muito feliz. Todavia, não pensou que um corpo transparente também tem de vestir roupas para não ter frio, de comprar comida para não morrer à fome, e que cada vez que pega num objeto este flutua, parecendo estranho aos demais. A sua vida torna-se um inferno e ele ainda não tem um antídoto que o cure…

Esta ideia é simplesmente genial. Não é à toa que H. G. Wells é o escritor de ficção científica mais admirado e um dos mais prolíferos, com clássicos como A Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau. A sua imaginação é fascinante, a sua escrita é fluída e sem grandes floreados, uma vantagem em livros repletos de ação que por vezes mais parecem guiões de Hollywood (mesmo tendo sido escritos no séc. XIX). Precisamente por este motivo, creio que o autor peca por não desenvolver melhor as suas personagens a nível psicológico e em não explicar as suas ações.

Apesar disso, o livro é um prazer. A história é emocionante, a escrita é cativante e o factor “ficção científica” não incomoda os leitores menos habituados, como eu. É um clássico e eu recomendo-o.