Literatura Britânica · Literatura Juvenil

Um Cântico de Natal

Desde pequeninos que vamos tendo conhecimento, através da televisão, do cinema ou do chamado boca-a-boca, de histórias que se tornaram clássicos e que, por isso, todos acabamos por conhecer porque vão sendo passadas de geração em geração. O que por vezes não sabemos, é que muitas dessas histórias surgiram da imaginação de escritores dotados, com mais ou menos relevância na sua própria época, e cujos livros foram sendo reeditados ao longo dos tempos e adaptados a formatos mais modernos. É o caso de Um Cântico de Natal, de Charles Dickens.
O que eu já sabia sobre este conto, escrito em 1843, era que um velho rabugento chamado Scrooge (que mais tarde viria a emprestar o nome ao célebre Tio Patinhas [Scrooge McDuck, na versão original], também ele rabugento e somítico), não gostava do Natal e, como tal, receberia a visita de três espíritos do Natal, o do passado, o do presente e o do futuro. Contudo, depois de ler o livro fiquei a conhecer a história completa e a compreender o porquê da sua longevidade e do seu fascínio.
Um Cântico de Natal não é apenas um manifesto que nos diz que o Natal é uma época de amor, paz e harmonia e que, por isso, devemos olhar mais para os outros e tentar adoptar uma atitude fraterna para com eles. Com esta obra, Dickens diz-nos que nunca é tarde para mudar e que apesar de termos tido uma infância difícil e de a vida por vezes ser muito complicada graças aos seus obstáculos naturais que todos encontramos pelo caminho, podemos olhar para ela como algo de bom e dar à nossa família, aos nossos amigos e aos demais o amor e a amizade de que todos precisamos enquanto seres humanos.
Longe de ser um livro moralista ou puramente religioso, Um Cântico de Natal é apenas a visão de um homem sobre a natureza humana e sobre aquilo que mais nos une e nos deixa felizes: a amizade e o gosto pela vida que, segundo ele, apesar de tudo, vale a pena.
Literatura Britânica

Winston Churchill

Nas últimas semanas, o jornal semanário Expresso tem editado a segunda série (bem mais interessante do que a primeira, devo dizer) de biografias de algumas das personagens mais famosas e influentes da História: Hemingway, Churchill, Picasso, Keynes, Dalai Lama e John Lennon. Apesar de querer ler todas, comecei por aquela que mais curiosidade me suscitou, a de Churchill.
Nunca soube verdadeiramente porque é que Churchill teve um papel preponderante não só na História britânica, como na mundial. Sabia apenas que tinha sido crucial para a vitória dos Aliados na II Grande Guerra.
Apesar de estas biografias serem um pouco básicas e concisas, revelam os factos mais importantes da vida destas pessoas, ajudando-nos a compreender a razão da sua relevância. Aprendi que Churchill foi um homem teimoso que fez da politica o seu oficio (à parte da literatura, pela qual ganhou um prémio Nobel em 1953), e que fez de tudo para se manter no poder, como trocar várias vezes de partido (do conservador para o liberal, e vice versa), conforme a «crista da onda», isto é, quem se encontrava no poder ou tinha mais hipóteses de lá chegar. Apesar disso, Churchill, um senhor da guerra, foi alguém que viu mais além do que os outros, que guiou as tropas para a vitória sobre Hitler engendrando planos e tomando decisões sem pedir opinião a quase ninguém. Finda a guerra, porém, perdia as eleições para primeiro-ministro (com quase setenta anos) e acaba por morrer de velhice e de vários AVCs em 1965.
Uma biografia interessante, acompanhada por diversas fotografias e escrita por um jornalista alemão, Sebastian Haffner, que viveu no tempo de Churchill.
Esta série não deseja ser pretensiosa, nem substituir as grandes biografias dos seus visados, trata-se somente de uma abordagem ligeira para um público massificado que tem vontade de descobrir e de saber mais sobre algumas das personalidades que fazem parte do nosso imaginário colectivo. Recomendo.
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Rob Roy

Rob Roy é um romance de 1817 e foi escrito pelo maior nome da literatura escocesa, Sir Walter Scott, um importante escritor (criador do romance histórico), dramaturgo e advogado de Edimburgo que para além desta obra escreveu ainda Ivanhoe, O Talismã e Waverley.
«Rob Roy trata-se de um romance histórico de suspense e ousadia, passado nas vésperas da sublevação jacobita de 1715. Francis Osbaldistone é enviado, no seguimento de uma desavença com o pai, para a propriedade de Sir Hildebrand Osbaldistone, seu tio, em Northumberland. Quando Francis descobre que o seu traiçoeiro primo, Rasleigh, um intruso jacobita, está interessado na bela Diane Vernon e planeia provocar a ruína financeira da família, Francis dirige-se à Escócia em busca do auxilio do temível fora da lei Rob Roy MacGregor (que só aparece a meio do livro).
Rob Roy move-se ao longo de uma vigorosa e colorida tela que liga o mundo da firma mercantil de Londres, Osbaldistone e Tresham, ao remoto esconderijo nas montanhas de Rob Roy e dos membros do seu clã, numa maravilhosa historia de heroísmo, romance e aventura.»
Várias vezes adaptado ao cinema, este clássico da literatura britânica consta ainda do livro Os 1001 livros que deve ler antes de morrer.
Decididamente a não perder. Adorei.
Literatura Britânica

Scottish Folk and Fairy Tales

Ainda no rescaldo da minha viagem à Escócia, acabei de ler este livrinho (que comprei numa das principais ruas de Glasgow e que me custou apenas dois euros numa loja da Oxfam, uma ONG que luta contra a pobreza e injustiça nos países subdesenvolvidos), e que é nada mais, nada menos do que uma compilação dos principais contos tradicionais escoceses.
Dividido em cinco partes (magia; monstros e gigantes; aparições, visões e bruxas; um clássico vitoriano e uma anedota especial) esta antologia é uma boa introdução à cultura escocesa e ao inicio da sua literatura, que depois nos veio a dar grandes nomes como Walter Scott, Robert Louis Stevenson ou Arthur Conan Doyle (que é, aliás, autor de um dos contos, intitulado Through the veil).
Gostei muito de ler esta edição da Penguin Classics, não só porque me fez sair da rotina dos romances, como também, e sobretudo, me ajudou a conhecer e a compreender um pouco mais o espírito escocês.
Para vos matar um pouco a curiosidade, deixo-vos uma tradução que fiz do conto The BrownieFerneden (é um pouco grande, mas vale a pena ler).
Enjoy.

Já houve muitos elfos conhecidos na Escócia, e já se escreveram muitas histórias sobre o Elfo de Bodsbeck e o Elfo de Blednock, contudo, nenhuma delas é tão bonita como a história que eu vos vou contar sobre o Elfo de Ferneden.
Ferneden era uma quinta, que ganhou o nome devido ao pequeno vale, ou monte, no cimo do qual se situava, e, pelo qual, quem quisesse ir para a sua casa tinha de passar.
Dizia-se que nessa quinta vivia um elfo que nunca aparecia durante o dia, mas que era visto por vezes à noite, como uma sombra desajeitada, a roubar coisas, andando de árvore em árvore e tentando manter-se fora da vista das pessoas, sem nunca, mesmo nunca, magoar ninguém.
Como todos os elfos que são deixados em paz e tratados como deve ser, também ele não magoava ninguém, e só queria retribuir de forma positiva aqueles que precisavam da sua ajuda. O dono da quinta dizia muitas vezes que não sabia o que faria sem ele, pois se por acaso deixava trabalho por fazer ao fim do dia, este aparecia feito de manhã, como colher milho ou peneirá-lo, metê-lo em sacos, aparar a relva, lavar a roupa, tratar do jardim ou arrancar as ervas daninhas. Tudo o que o dono da quinta e a mulher tinham de fazer era deixar a porta do celeiro ou do estábulo aberta antes de irem para a cama, e uma garrafa de leite fresco à entrada para o elfo beber. Depois, quando acordassem no dia seguinte, a garrafa estaria fazia e o trabalho estava terminado, e muito mais bem feito do que se tivessem sido eles a fazê-lo.
No entanto, e apesar de tudo isto que provava que a criatura era muito gentil e bondosa, todas as pessoas que lá viviam tinham medo dele e preferiam dar uma volta maior no escuro em redor da quinta, quando vinham do mercado ou da missa, do que atravessar o vale e correr o risco de dar de caras com ele.
Eu disse que todos tinham medo dele, mas não é verdade, a esposa do dono da quinta era tão doce e generosa que não tinha medo de nada, e por isso, sempre que punha a garrafa do lado de fora da porta, enchia-a com o melhor leite que tinha e adicionava-lhe uma colher de natas, dizendo,
– O elfo trabalha tanto para nós, sem pedir nada em troca, que merece a melhor refeição que lhe possamos dar.
Uma noite, a gentil senhora adoeceu gravemente e todos temeram que ela morresse. É claro que o marido ficou muito preocupado, mas os criados também ficaram, pois ela era uma patroa muito boa e eles viam-na quase como uma mãe. Porém, eram todos muito novos e nenhum sabia grande coisa sobre doenças, pelo que todos concordaram que seria melhor enviar alguém a casa de uma velhota que viva do outro lado do rio e que era conhecida por ser uma enfermeira muito prendada.
Mas, quem iria? Era esse o problema. Já era noite cerrada e o caminho até à casa da velhota ficava na outra ponta do vale. E, quem quer que viajasse nessa estrada corria o risco de se encontrar com o elfo.
O dono da quinta teria ido de boa vontade, não fosse o facto de não se atrever a deixar a mulher; por sua vez, os criados tinham formado vários grupos na cozinha, uns dizendo aos outros quem deveria ir, mas sem que ninguém se voluntariasse.
Mal sabiam eles que a causa de todo aquele pânico, um homenzinho pequeno, esquisito, feio, peludo, com uma longa barba, olhos vermelhos, marreco, com pés chatos que faziam lembrar os de uma rã e braços tão longos que tocavam no chão, mesmo quando ele se mantinha de pé, se encontrava a poucos metros deles, a ouvir a sua conversa com uma expressão curiosa, por trás da porta da cozinha.
Tinha aparecido, como sempre, do seu esconderijo no vale para ver se havia alguma tarefa para fazer e para beber a sua garrafa de leite. Percebeu, pela porta escancarada e pelas janelas iluminadas, que havia algo de errado dentro da quinta, que normalmente àquela hora já estava às escuras, quieta e em silêncio, e aproximou-se sorrateiramente da entrada para tentar descobrir o que era.
Quando entendeu pela conversa dos criados que a patroa, que também ele adorava, e que sempre fora tão generosa para com ele, estava doente, ficou com o coração destroçado. E quando ouviu que nenhum dos patetas dos criados enfrentaria o seu medo absurdo para ir buscar a enfermeira ao outro lado do vale, ficou cheio de raiva e fúria.
– Tolos, idiotas, cobardes! – murmurou para si próprio, batendo com os pés chatos e compridos no chão. – Falam como se um corpo estivesse pronto a tirar-lhes um pedaço assim que dessem de caras com ele. Se soubessem o trabalho que me dá desviar-me do seu caminho, não seriam tão tontos. Mas, se continuarem assim, a bondosa senhora vai morrer debaixo dos seus narizes. Logo, tem de ser o elfo a tomar a iniciativa.
Com estas palavras, levantou o braço e pegou numa capa castanha do dono da quinta que estava pendurada num cabide da parede. Colocando-a por cima da cabeça e dos ombros, de forma a esconder a estranha forma do seu corpo, correu até ao estábulo e preparou e selou um dos cavalos que lá se encontrava.
Quando terminou, levou o cavalo até à porta e montou-o.
– Se alguma vez correste rápido, corre rápido agora – disse ele, e foi como se o animal o entendesse, pois relinchou, abanou as orelhas e correu como uma seta em direcção à escuridão da noite.
Pouco tempo depois, como num abrir e fechar de olhos, o Elfo chegou a casa da velhota.
Ela estava deitada, a dormir, mas ele bateu na janela com tanta força que a acordou. Quando ela se levantou e encostou o rosto enrugado ao vidro para perguntar quem era, ele encolheu-se e disse-lhe ao que ia.
– Tendes de vir comigo, Boa Enfermeira, e depressa – ordenou ele, numa voz profunda e áspera, – pois a esposa do dono da quinta está muito doente e não há lá ninguém que a possa salvar.
– Mas como vou para lá? Alguém enviou uma carruagem? – perguntou a velhota ansiosa, pois, tanto quanto podia perceber, não havia mais ninguém à sua porta a não ser um cavalo e o respectivo cavaleiro.
– Não, ninguém enviou carruagem nenhuma – respondeu o Elfo, de forma clara. – Tenderás de subir para cima do cavalo e agarrar-vos à minha cintura, e prometo-vos que vos deixo em Ferneden sã e salva.
A voz dele era tão dominadora que a velhota não se atreveu a recusar a ordem. Para além disso, já tinha andado muitas vezes de cavalo quando era jovem, por isso, vestiu-se de maneira adequada, e depois de sair e de trancar a porta, montou o cavalo e agarrou-se ao estranho de capa escura.
Nenhum disse nada durante a viagem. Depois, ao aproximarem-se do vale, a velhota sentiu-se a perder a coragem.
– Achais que poderemos encontrar o Elfo? – perguntou ela, timidamente. – Não gostaria nada de correr esse risco, pois as pessoas dizem que ele é uma criatura que dá azar.
O seu companheiro riu-se.
– Não tenhais medo, pois juro-vos que esta noite não verás ninguém mais feio do que o estranho ao qual ides agarrada.
– Oh, então não há problema – respondeu a velhota, aliviada, – pois, embora eu ainda não tenha visto o vosso rosto, já percebi que sois um homem bom, por vos terdes preocupado com aquela pobre mulher.
Ela voltou a ficar em silêncio até passarem pelo vale e o cavalo ter chegado até à quinta. Em seguida, o cavaleiro desceu e, virando-se para ela, ajudou-a cuidadosamente a desmontar com os seus braços compridos e fortes. Ao fazê-lo, a capa escorregou e revelou o seu corpo pequeno, marreco e esquisito.
– Meu Deus! Mas que espécie de homem sois vós? – perguntou ela, olhando para o rosto dele através da luz fraca e cinzenta do amanhecer que começava agora a despontar. – Porque são os vossos olhos assim tão grandes? E o que fizestes aos vossos pés? Parecem mais pés de sapo do que de outra coisa qualquer.
O estranho homem voltou a rir.
– Caminhei muito durante toda a vida sem a ajuda de um cavalo, e ouvi dizer que andar demais deforma os pés – respondeu ele. – Mas, não percais tempo, Boa Enfermeira, entrai em casa e, se por acaso alguém vos perguntar quem vos foi buscar tão depressa ao outro lado do rio, dizei que havia falta de homens e que, por isso, teve de ser o Elfo de Ferneden a fazê-lo.
Literatura Britânica

O Canto dos Pássaros

Este meu livro tem uma história bastante engraçada por trás.
Em 2009, numa pequena estada em Florença para melhorar os meus conhecimentos sobre a língua e cultura italianas, conheci uma rapariga inglesa chamada Harriet Good que, naquele preciso momento, andava a ler um livro intitulado Birdsong. Um dia, ao ver o livro em sua casa, li a contracapa e perguntei-lhe se estava a gostar. Ela respondeu que sim e aconselhou-me vivamente a sua leitura.

De volta a Lisboa, decidi comprar a obra para ter algo que me recordasse Harriet e também para ver se era assim tão bom como ela dizia. Percorri mundos e fundos numa busca incessante por Birdsong, que parecia nunca ter existido neste cantinho à beira-mar. Uma tarde, sentei-me na cama a ver televisão e olhei, por acaso, para a minha estante. Reparei num livro chamado O Canto dos Pássaros escrito por um tal Sebastian Faulks. Sebastian Faulks? Tu queres ver… Mal pude acreditar, o livro na minha estante era a tradução portuguesa do livro que Harriet me recomendara e que eu tinha comprado, em saldos, cerca de três anos antes, mas que nunca lera.

Falando agora propriamente da obra, devo dizer que foi uma agradável descoberta. Apesar de não ser um romance Nobel, é um livro que tenta dar uma perspectiva diferente e sem pretensões de um dos períodos negros da História.

A narrativa percorre vários períodos temporais mas centra-se sobretudo no ciclo da I Guerra Mundial, de 1914-1918. Conta-nos a história de um jovem chamado Stephen que, de um momento para outro, vê a sua vida virada do avesso quando é obrigado a alistar-se na guerra.

O que mais gostei foi o relato pormenorizado acerca da rotina dos soldados ingleses colocados em França. Temos tendência para saber mais sobre a II Grande Guerra devido à proximidade temporal e à tecnologia da época que nos ajuda a reconstituir o que realmente aconteceu. No caso da I, sabemos apenas que se tratou de uma acção militar mais física, travada, quase sempre, corpo a corpo. É esta percepção que Faulks tenta dar no seu livro e que, a meu ver, consegue. O leitor fica com uma visão mais abrangente das condições difíceis em que aquelas pessoas eram forçadas a viver, e dos traumas psicológicos que sofriam no terreno e que depois transportavam para as suas vidas.

Se há um contra na obra é o facto de o autor ter feito descrições bastante detalhadas e longas sobre o dia-a-dia de Stephen nas trincheiras, perdendo pouco tempo para as outras cenas e desenvolvimentos da história que parece terem ficado resolvidos em apenas três ou quatro páginas.

Contudo, não creio que seja razão para deixar de ler O Canto dos Pássaros (Difel; 488 páginas).
Tal como Harriet, eu também aconselho a sua leitura.