Literatura Britânica · Literatura Juvenil

The Ocean at the End of the Lane

Neil Gaiman é um dos autores preferidos dos “booktubers”. Mais conhecido por escrever livros para crianças e jovens adultos, tem estatuto de estrela no Reino Unido (onde nasceu e reside) e não há obra que publique que não seja um sucesso.
Incluindo The Ocean at the End of the Lane (2013). Bestseller em vários países, decidi comprá-lo por ter tido uma grande aceitação na comunidade de leitores do Youtube. Contudo, foi uma das leituras de que menos gostei este ano. A história centra-se na infância do próprio Neil Gaiman que nos conta como foi viver numa família aparentemente disfuncional e encontrar um novo sentido para a vida junto a umas vizinhas estranhas, possuidoras de poderes mágicos. Tudo começa quando o pai trai a mãe com a babysitter que Gaiman detesta, e este engendra um plano com as vizinhas para afastá-la da sua casa e da sua vida.
No início, a leitura foi bastante agradável. A narrativa tinha pés e cabeça e a história era interessante. No entanto, quando as vizinhas revelam que têm poderes e que podem fazer desaparecer a babysitter, que na realidade é uma bruxa, a história deixou de fazer sentido para mim. A linha condutora perdeu-se completamente, houve questões que foram deixadas em suspenso sem nenhuma conclusão, e, apesar de o final não ter sido mau, foi mais do que esperado. 
Como este livro de Neil Gaiman não me entusiasmou particularmente, acho que não continuarei a seguir a sua obra. É pena, pois este escritor sempre me despertou uma grande curiosidade devido ao êxito que tem junto dos “booktubers”. Mas, enfim, embora parecidos, os gostos nunca são iguais. 
Literatura Britânica

O Deus das Moscas

Uma das melhores leituras do ano. Só assim é que consigo descrever este maravilhoso livro que tão bem retrata a natureza humana. 
O Deus das Moscas, do escritor inglês premiado com um Nobel da literatura em 1980, William Golding, narra a história de um grupo de rapazes que fica perdido numa ilha, sem adultos, após um acidente que lhes matou os pais. Estes meninos, de várias idades, vão tentar criar uma sociedade de forma a sobreviverem aos perigos de um território novo e satisfazerem as suas necessidades básicas. O problema é que nem todos concordam com as regras estabelecidas e o grupo acaba por se dividir, impedindo-os de viverem em paz. 
Esta obra fala essencialmente sobre a natureza humana. Há rapazes com personalidades mais fortes do que outros que acabam por se autodenominarem líderes e subjugarem os outros por estes serem diferentes ou simplesmente mais novos e fracos. A voz da razão nem sempre está presente e, quando está, é ouvida com preconceito e arrogância.
O que creio que William Golding quis mostrar com este livro, e com um exemplo tão básico como rapazes perdidos numa ilha, foi que a natureza humana não é igual em todos os homens. Uns são mais pacíficos, outros mais violentos, uns são mais sensatos, outros mais aventureiros. O problema é que quando não se sabe conversar e a anarquia se instala, o grupo torna-se violento e selvagem per se, perde a noção da sensatez e acaba por praticar ações más que provavelmente nunca praticaria num ambiente civilizado.
Aconselho vivamente a leitura de O Deus das Moscas, um clássico de 1954 que ainda hoje dá que pensar. 
Literatura Britânica

A mulher que decidiu passar um ano na cama

Não há como negá-lo: o que me “vendeu” o livro foi o título. Não há dúvida. Quem é que muitas vezes não pensou em esquecer tudo e simplesmente passar uma temporada na cama, a dormir, a ler, a ver tv, ou a fazer outras coisas? Pois eram tantas as possibilidades de uma história diferente que devo ter elevado demasiado as minhas expectativas. 

A Mulher Que Decidiu Passar Um Ano Na Cama conta a história de Eva, uma mulher que abdicou de uma carreira para cuidar dos filhos gémeos e do marido e que, passados 18 anos, quando os rebentos vão para a universidade numa outra cidade, decide passar um ano na cama. Durante esse período acontece-lhe de tudo: descobre que o marido, que já não ama, a trai com uma colega do trabalho, que a sogra nunca gostou dela, que a mãe não a entende, e que o homem que lhe faz as obras no quarto e por quem se apaixona não está disposto a largar tudo por ela.
Este devia ser um livro trágico-cómico, com situações caricatas que nos deveriam levar às lágrimas de tanto rir. No entanto o que me pareceu é que a autora, Sue Townsend, (mãe do famoso Adrian Mole), se esforçou demasiado e não conseguiu passar para o papel as peripécias que o livro merecia. Eva está constantemente a sentir pena de si própria porque tudo de ruim lhe acontece. É um azar atrás de outro que em vez de nos produzir gargalhadas faz com sintamos pena da protagonista e não tenhamos curiosidade em saber o que lhe acontece a seguir. Não gostei de nenhuma personagem em particular porque todas me pareceram vazias e caricaturadas ao extremo. 
Apesar de eu ter ficado um pouco desiludida com o livro, admito que há algumas passagens interessantes e que a história possa agradar a muita gente. Eu é que esperava mais. E com um título destes o livro merecia seguramente bastante mais.
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Mary Poppins

Nunca fui uma grande conhecedora de Mary Poppins. Aos 10 anos, quando estive pela primeira vez de férias na EuroDisney, apareceu-me à frente um casal de personagens vestido à anos 20 que eu não reconheci. Seria possível existir um filme da Disney que nunca vira? Para meu espanto, que me considerava uma perita em filmes de animação, sim, vários. E um deles era precisamente Mary Poppins.
Vi-o mais tarde, já adolescente, e devo dizer que apesar de ter gostado muito nunca foi dos meus preferidos. No entanto, no inicio deste ano, apareceu no cinema um filme bastante original sobre a realização de Mary Poppins, com dois atores fenomenais: Tom Hanks e Emma Thompson. Não podia perder. Adorei Saving Mr. Banks (fiz inclusive uma critica ao filme neste meu blogue de livros) e, como tal, resolvi ler o que esteve na base de tudo: o livro Mary Poppins escrito por P. L. Travers. 
A obra foi publicada em 1934 e deu início a uma série infantil que obteve grande êxito na sua geração e se tornou um clássico infantil também devido ao filme. Conta a história da família Banks e da sua curiosa ama, Mary Poppins, que surge com os ventos de leste (daí o nome Poppins, de alguém que pops, aparece) e cuida das quatro crianças da casa. No dia a dia, Mary mostra-lhes um mundo de fantasia que elas muitas vezes põem em causa por não acreditarem que algo de tão fantástico possa realmente existir. Conhecem personagens estranhas, viajam para lugares onde os animais falam e chegam mesmo a tomar chá com parentes de Mary. Algo que as intriga é o facto de desconhecerem em absoluto a origem de Mary Poppins. Não sabem de onde vem, onde vive, ou o que pensa, sabem apenas que é muito vaidosa, pouco simpática, senhora do seu nariz e que aparece de vez em quando. Apesar de ser assim, ela leva-os a sítios onde eles podem ser crianças no verdadeiro sentido do termo e gozar de uma liberdade que os tempos de principio de século não permitem. É por isso que acabam por gostar dela e querem que fique para sempre, o que acaba por não acontecer.
Diz-se que este livro é auto-biográfico e que a personagem de Mary Poppins foi inspirada numa tia de P. L. Travers que apareceu num dia de muito vento, após a terrível morte do seu pai, para ajudar na lida da casa e na educação das crianças. O filme Saving Mr. Banks pega igualmente nesta versão para justificar a escrita da série infantil. Eu não posso afirmar que assim seja porque nunca li a biografia de P. L Travers, contudo parece-me bastante plausível que tal pudesse ter sido o caso. Seja como for, Mary Poppins é um livro mágico que nos transporta para um mundo encantado, por vezes parecido com o do filme da Disney, e nos mostra que ser criança e poder sonhar é realmente a melhor coisa do mundo. Recomendo. 
Literatura Britânica

Persuasão

Este foi o primeiro livro de Jane Austen que li por prazer, e tudo graças ao Facebook. Sim, Facebook. Estava eu um belo dia a navegar pela rede social quando me surgiu a oportunidade de fazer um teste para ver a que heroína de Jane Austen mais me assemelhava. O resultado foi Anne Eliot, de Persuasão. Comecei logo a ler o livro para perceber porquê.

Anne é filha do Barão Eliot, um homem vaidoso e egocêntrico que depois de perder a mulher gasta a fortuna em extravagâncias, vendo-se obrigado a alugar o palacete e a mudar-se para uma casa mais modesta em Bath. Ao contrário do pai e das irmãs que vivem para as aparências, Anne é mais modesta e valoriza a inteligência e a bondade de espírito acima de tudo. Aos dezanove anos vive um romance com Frederik Wentworth, um jovem incompatível para o casamento por ser de estatuto social inferior, o que a obriga a terminar a relação. Ele ingressa na Marinha e torna-se Capitão, criando nome e fazendo fortuna. Apesar de não se terem visto durante muitos anos, Anne não o esquece e anseia pelo seu regresso. Até que, certo dia, isso acontece. Apesar de muito feliz, Anne não sabe se os sentimentos do Capitão se mantêm…
Persuasão, como quase todos os romances de Jane Austen, fala-nos de uma história de amor atribulada pelas convenções da época. Quando jovem, Anne é persuadida a terminar o namoro com a pessoa de quem gosta por não ter o mesmo prestígio social da família Eliot. Porém, é persuadida a casar com um homem falso e de passado duvidoso por ele ter bom nome e ligações importantes a famílias nobres. 
De certa forma, este livro recordou-me a história da Bela e o Monstro, pois faz um contraste entre o valor da beleza e riqueza em oposição ao da inteligência e bondade. Primeiro, Anne escolhe de acordo com o que se espera dela, vivendo uma vida pouco feliz, depois segue o coração e escolhe quem realmente ama, independentemente de ser bonito ou rico, e de agradar às expectativas da sociedade.
Com esta obra, Jane Austen chama a nossa atenção para o que é mais importante nas relações humanas: quem é bom e verdadeiro tem uma vida satisfatória e feliz, e quem é ignorante e valoriza as aparências vive uma vida vazia e pouco recompensadora. “(…) but they must long feel that to flatter and follow others, without being flattered and followed in turn, is but a state of half enjoyment. (…)”
Gostei do livro, achei que, apesar de ser sobre uma história de amor tem muitas camadas intrínsecas sobre temas modernos como a posição da mulher na sociedade, a livre escolha, o deixar-se influenciar ou não para agradar aos outros, etc.
Se sou parecida com Anne? Apenas direi que percebi o resultado do teste…
Literatura Britânica

Agatha Christie

Como não podia deixar de ser, este ano li mais dois livros da autora Agatha Christie. Dead Man’s Folly e Come, Tell Me How You Live (Na Síria).

Dead Man’s Folly (1956)

Para contrastar com o Inferno, de Dan Brown, esta foi uma grande leitura de verão. Uma típica aventura Poirot.
O detetive recebe o telefonema de uma amiga de longa data e escritora de romances policiais, Mrs. Ariadne Oliver, para se juntar a ela na propriedade de Nasse House, onde decorrerá uma caça ao tesouro policial. Este jogo consiste em descobrir o assassino que terá matado um dos convidados. Porém, a família de Nasse House parece querer dar muitas dicas e opiniões sobre a brincadeira, o que leva Mrs. Ariadne a pensar que está alguma coisa errada e, consequentemente, à chamada de Poirot. Quando o detetive chega percebe de imediato que algo de estranho se passa. Espera pelo dia da festa. A rapariga que deveria fazer de cadáver está realmente morta. E é então que começa a investigação do detetive belga.

Uma grande história que me deixou colada ao livro durante dois ou três dias, Dead Man’s Folly é original, está muito bem escrito e inclui um leque de personagens bem ao estilo Agatha Christie: tresloucadas, suspeitas, com problemas psicológicos e emocionais, e muito inglesas na sua essência. 
É do principio ao fim um autêntico deleite que faz com que o leitor queira pular páginas só para desvendar o crime mais depressa.

Come, Tell Me How You Live (1946)

Agatha Christie nunca me deixa de surpreender, e talvez seja isso que eu gosto nela. Para além de escrever magníficas histórias de detetives, a escritora também se aventurou noutros modelos de escrita: teatro, romances (sob o pseudónimo Mary Westmacott) e diários de viagem. Come, tell me how you live enquadra-se neste último. 

O segundo marido de Agatha Christie, Max Mallowan, era arqueólogo de profissão e tinha de passar muito tempo fora de casa a fazer as suas pesquisas. Na altura, estas ocorriam maioritariamente no Médio Oriente, e por vezes a esposa acompanhava-o. Este livro é o relato da expedição que o casal fez à Síria. 
Numa crónica biográfica muito bem escrita e extremamente cómica (outro lado da autora que se calhar poucos conhecem), Agatha Christie conta-nos o dia a dia da sua equipa, os seus falhanços e sucessos, o tratamento/ relacionamento dos ocidentais com os habitantes locais e as diferenças culturais flagrantes e próprias que criam cenas absolutamente inesperadas e deliciosas. 
O livro também está pejado de curiosidades engraçadas como, por exemplo, o aparecimento do fecho éclair (e a estranheza que causava), e a obsessão da autora por sapatos. Para além disso, é também  muito interessante ver como se vivia num país que hoje em dia é presença assídua nos noticiários pelas piores razões. 

Uma leitura super agradável, fluída, cómica e extremamente moderna, escrita num período em que a autora fazia de enfermeira e socorria os soldados feridos da II Guerra Mundial em Londres, e o marido se encontrava no Egipto, colocado ali pelo British Council. Bela forma de matar saudades.
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O Coelho Pedro e outras histórias

O Coelho Pedro, ou Peter Rabbit, é uma personagem clássica da literatura infantil que faz parte do imaginário de muitas crianças e adultos. Conheci este adorável coelhinho através de uns desenhos animados que davam na RTP2. Contudo, quando mais tarde vi o filme Miss Potter, com Renée Zelleweger e Ewan McGregor, percebi que estas histórias representavam mais do que uma mera diversão para os pequenitos. 
Helen Beatrix Potter nasceu em 1866, na cidade de Londres, no seio de uma abastada família burguesa que vivia dos rendimentos dos avós maternos, antigos comerciantes de algodão. Foi educada em casa com o irmão, porém, quando este prosseguiu os estudos numa escola para rapazes, Beatrix permaneceu em casa (como quase todas as meninas), tendo por companhia os animais domésticos. Gostava de os observar e começou a desenhá-los com apenas nove anos. As férias da família eram passadas na Escócia e em Lake District onde Beatrix aprendeu a apreciar a natureza e a vida animal. Mais tarde acabaria por estudar Arte e História Natural. 
Beatrix tentou editar as suas histórias e desenhos mais de cinquenta vezes, sem sucesso. Contudo, houve um editor que apostou nela: Norman Warne. Os livros foram muito bem recebidos pelo público e permitiram a Beatrix comprar uma propriedade em Near Sawrey, que chamou de Hill Top e integrou nos seus contos. Os pais, vitorianos, não achavam adequado que uma menina de família vivesse da publicação de livros, pelo que exigiram que ela se casasse. O que não sabiam, no entanto, era que Norman Warne pedira Beatrix em casamento e ela aceitara com muito entusiasmo. Porém, um mês depois do pedido, Norman morreria de anemia, o que deixou Beatrix bastante deprimida. Concentrou-se no trabalho e escreveu mais do que nunca.
Acabaria por casar em 1913 com William Heelis, um procurador local e amante da natureza, tal como ela. Foram viver para Sawrey onde se dedicaram à criação animal e preservação ambiental. Quando Beatrix morreu, em 1943, deixou ao National Trust mais de 1600 ha de terras e quinze quintas. 
Diz-se que J. K. Rowling deu o apelido Potter a Harry em honra de Beatrix, e chamou a escritora infantil que aparece nos livros da saga de Beatrix Bloxam, em homenagem a Potter. 
O Coelho Pedro
É um livro pequeno que narra em onze histórias as peripécias dos animais de uma quinta.
As personagens são sempre as mesmas: os Coelhinhos Flopsi, o esquilo Trinca-Trinca, os Dois Ratos Traquinas, o Bernardo Bichano, a Genoveva Patareca, a Senhora Janota, o Timóteo Pezinhos-de-Lã, Ruivo e Pickles, a Senhora Tira- Nódoas e o Senhor Jeremias Pescador. 
Há contos mais bonitos do que outros, mas todos tendem a mostrar uma moral que, a meu ver, nem sempre é clara (principalmente para crianças). Nota-se que a obra está um pouco desactualizada em relação aos livros infantis de hoje, mas, na minha opinião, é um livro a ter em conta ou não fosse ele um clássico. 
Creio que parte da sua magia se deve ao facto de ter sido um dos primeiros livros infantis da literatura moderna a ser escrito por uma mulher, e ter ilustrações absolutamente magníficas e ternurentas apreciadas por pessoas de todas as idades. 
Diz-se que o quarto do Principe George de Inglaterra, filho dos Duques de Cambridge, foi decorado com figuras do Coelho Pedro. 
Literatura Britânica

O rapaz do pijama às riscas

Ainda no rescaldo de Alone in Berlin, decidi ler outro livro que tinha como tema a vida quotidiana durante a II Guerra Mundial.
O rapaz do pijama às riscas é um sucesso literário, transformado em filme, que aborda as mudanças na vida de um rapazinho de nove anos chamado Bruno que deixa Berlim com a familia para ir viver para uma casa ao lado do campo de concentração de “Acho-Vil”. 
A principio, Bruno não gosta da promoção que o pai recebeu do “Fúria”, pois fez com que todos tivessem de se mudar e de deixar os amigos na capital, contudo, as coisas mudam quando ele se aventura ao longo da cerca do lado onde estranhamente só vivem pessoas de pijama às riscas, e conhece Shmuel, um rapaz da sua idade que passa a ser o seu novo melhor amigo.
Esta história fala da ingenuidade infantil num mundo que parece mau demais para ser verdadeiro. Bruno é o único que não tem noção de onde está, do que se passa atrás da vedação e do porquê daquelas pessoas serem todas magras e estarem vestidas da mesma maneira. Só sabe que a sua familia teve de ir para ali senão o Fúria ficaria zangado com o pai, e que a avó era terminantemente contra tudo o que ocorria. 
O rapaz do pijama às riscas “é uma pequena maravilha de livro” (The Guardian) que em 190 páginas nos faz reflectir sobre a monstruosidade de uma guerra que não deixou ninguém indiferente. Muito bonito.
Literatura Britânica

O Agente Secreto

O Agente Secreto é um romance de 1907 da autoria do escritor polaco, naturalizado inglês, Joseph Conrad (O Coração das Trevas, Lord Jim). A história tem lugar em Inglaterra, onde um pequeno comerciante de uma loja suspeita faz serviços secretos para uma embaixada sem o conhecimento da sua familia, apenas do grupo de anarquistas que o segue. Nesta missão em particular, Verloc é chamado pelo primeiro secretário da embaixada que, após vários anos de trabalho e lealdade para com a causa, diz-lhe que os serviços secretos não são uma instituição filantrópica e que sem acção não há pagamento. Por isso, para justificar a sua utilidade, pede-lhe que elabore uma “actividade com toda a insensatez chocante de uma blasfémia gratuita” e que faça explodir o edificio do Observatório de Greenwich, simbolo da ciência (“fetiche sacrossanto actual”), da classe média “estúpida” que se deixa levar pelos sucessivos governos que lhes atira areia para os olhos e alvo preferencial dos anarquistas. Com medo das consequências do acto, mas sem coragem para desistir porque precisa do dinheiro, Verloc decide usar o cunhado Stevie (rapaz novo e deficiente mental que só quer agradá-lo e cair-lhe nas graças), que sustenta juntamente com a mulher e a sogra, para executar o plano. Porém, como o rapaz não é expedito como os demais, tropeça com a bomba na mão e faz-se explodir em plena rua, um pouco antes de chegar ao Observatório de Greenwich. Após o incidente, Verloc é seguido pela policia, que encontra a sua morada na etiqueta de um pedaço do casaco da vitima, e prepara um plano para fugir com a mulher. No entanto, Winnie, ao saber da verdade, que o marido é um agente secreto e que por causa dele o seu irmão, por quem ela nutria um carinho especial, está morto, perde a cabeça e esfaqueia-o até à morte. 
Graças a Ossipon, companheiro anarquista de Verloc, Winnie consegue fugir, para escapar à forca, mas acaba por suicidar-se a bordo do barco que a leva para a outra margem do canal da mancha. O livro termina com Ossipon (apelidado de Doutor) devaneando pela rua. Após uma conversa com o Professor, outro membro do grupo, percebe que o crime foi abafado pela policia e que os seus companheiros anarquistas pensam que foi esta que matou Verloc. Por causa disso, acham que a humanidade não tem remédio e que a sua mediocridade justifica a escolha dos “patetas que mandam”. No entanto, como Ossipon sabe o que realmente aconteceu, começa a pôr tudo em causa e sente-se doente ao pensar que a sua “carreira revolucionária, sustentada pelo sentimento e confiança de muitas mulheres, estava ameaçada por um mistério impenetrável – o mistério de um cérebro humano que pulsa equivocamente ao ritmo de frases jornalísticas.” É um fraco comparado com o Professor que continua a lutar. Um anarquista abalado por alguém que considerava fraco e que cometeu um acto forte, e vice-versa.
O Agente Secreto, ao contrário do que a capa da edição da chancela da Bertrand, 1117, pode fazer parecer não é um livro de mistério convencional. Trata-se de um thriller “politico” inteligente que prende o leitor do inicio ao fim. A linguagem não é complicada (apesar de a tradução e revisão portuguesas denotarem algumas falhas) e a estrutura do livro é bastante fácil de seguir sem que tenhamos sempre de estar sempre a recuar para termos a certeza de que nada nos escapou. Embora não tão impactante como o O Coração das Trevas, é um livro forte, interessante, hábil, que nos faz reflectir sobre as regras sociais que nos regem e a nossa disposição ou vontade de as mudar ou de as seguir. Gostei muito.  
Literatura Britânica

Charles Dickens

Como este ano se comemora o bicentenário de Charles Dickens, que nasceu em Portsmouth, sul de Inglaterra, a 7 de fevereiro de 1812, resolvi ler as suas obras mais emblemáticas. Já lera a versão juvenil de Oliver Twist no secundário e quis agora alargar o meu leque de conhecimentos sobre este autor tão relevante do século XIX.
Comecei por comprar três livros que me atraíram, sobretudo, pela sua relação qualidade/preço: Um Cântico de Natal, uma edição de bolso portuguesa; e duas versões originais publicadas em conjunto e a baixo preço: A tale of two cities e Great Expectations. Mais tarde, comprei Os Cadernos Pickwick por fazer parte da colecção de humor que Ricardo Araújo Pereira seleccionou para a editora Tinta da China.
Devo dizer que estou a meio caminho da minha cruzada Dickens: no natal passado li o Cântico, de que gostei bastante e no qual me inspirei para baptizar o meu gato: Marley (em homenagem à personagem  Jacob Marley, que avisa Scrooge dos perigos da avareza, do egoismo e do seu comportamento pouco simpático). O último livro que li foi A tale of two cities, que me deu algum trabalho por estar escrito no inglês do século dezanove e que, apesar de não ser tremendamente diferente do actual, tem algumas características estranhas a um olho português pouco habituado. 
Neste momento vou no inicio de Os Cadernos Pickwick, de que também estou a gostar. As peripécias do Sr. Pickwick e da sua trupe têm sido bastante engraçadas, com sarcasmos e mal entendidos sociais pelo caminho. Muito divertido e muito “Dickens”, com os habituais dialectos e maneirismos de certas personagens que nos dão uma ideia não só de como seria a personagem em si, mas também de como seria, mais ou menos, o tipo de pessoas que se podiam encontrar na Inglaterra desses tempos. 
Devo confessar que o que mais me está a agradar no meu período Dickens é o facto de me concentrar especificamente num autor. Gosto de acabar um livro e de começar um novo escrito pelas mesmas mãos e pela mesma cabeça. Parece que consigo dissecar mais facilmente o seu género, escrita, humor e distinções. Estou a gostar tanto que acho que vou fazê-lo para os restantes escritores que desejo ler. Uma pessoa fica muito mais alerta e especializada num autor deste modo do que se ler as suas obras com pausas e interrupções. Parece que assim se retém muito mais. Pelo menos, eu retenho. 
Depois de Pickwick acho que me vou aventurar no Hard Times e em David Copperfield, que já vi existirem na biblioteca local. Se o fizer, Charles Dickens passará a ser um dos autores mais lidos por mim e acompanhar-me-à até ao final deste ano. Nada mau para comemorar um bicentenário, não acham?