Literatura Britânica · Literatura Policial

O Signo dos Quatro

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Sendo uma fã incondicional de Agatha Christie, é quase inconcebível ainda não ter lido nada daquele que é considerado o pai da literatura policial, Sir Arthur Conan Doyle. Há já algum tempo que tinha cá por casa o livro O Signo dos Quatro (1890), pelo que decidi começar por ele.

Nesta história, das mais de cinquenta que Conan Doyle criou, deparamo-nos com um Sherlock Holmes entediado por nada digno do seu gabarito aparecer para o fazer pensar. Eis senão quando surge à sua porta uma jovem rapariga que lhe pede auxílio para descobrir algo de bizarro que lhe acontece todos os anos. Em todos os dias do seu aniversário, Mary recebe de presente um pequeno embrulho anónimo com uma caixa pequena contendo uma valiosa pérola lá dentro. Ela não sabe quem lhas envia, nem o motivo por que lhe são enviadas. A única pista que dá a Holmes é a de que o seu pai fora militar na Índia e morrera há alguns anos em circunstâncias misteriosas. A partir daqui, o detetive ganha um novo “interesse pela vida” e dispõe-se a ajudá-la com a colaboração do Dr. Watson.

Esta história de Sherlock Holmes era tudo o que eu esperava que fosse. Cheia de suspense, intriga, acção e com um curioso background baseado no início do declínio do império britânico. A narrativa de Conan Doyle é tão fluida que quase parece moderna, algo muito atípico para o final do séc. XIX. Temos a sensação de estar a ler o guião de um filme de acção, o que provavelmente justifica o facto de tantos dos seus livros terem sido adaptados ao cinema e à televisão, com mais ou menos sucesso.

Não é por acaso as histórias de Sherlock Holmes não só se terem tornado clássicos da literatura policial, mas também da literatura mundial. Holmes e Watson são uma dupla dinâmica e incomum, e o mundo e os enredos nos quais se envolvem são obscuros e interessantes. Creio que ficou claro que O Signo dos Quatro foi, para mim, o primeiro de muitos. Venham os restantes.

Literatura Britânica · Literatura Europeia

A Inquilina de Wildfell Hall

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Antes de iniciar o que, oficialmente, eu já chamo de “A Minha Jornada Brontë”, Anne Brontë era para mim uma autora desconhecida. Quando decidi ler as obras das irmãs Brontë, após a leitura de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, foi por Anne que comecei por ela ter escrito apenas dois livros. Depois do fantástico Agnes Grey, seguiu-se o maravilhoso A Inquilina de Wildfell Hall.

Uma pacata zona do Yorkshire é assolada pela repentina chegada de uma mulher desconhecida com um filho pequeno. Os habitantes ficam curiosos com a nova vizinha e tentam conhecê-la, mas Helen é a discrição em pessoa e mantém-se à margem de todos os encontros sociais. Rapidamente começam a surgir boatos de que ela fugiu do marido para se tornar amante do seu senhorio, o que leva William, um jovem rapaz local que se apaixonou perdidamente por ela, a querer saber o que aconteceu ao certo. Helen confia-lhe o seu diário e o que se segue é o relato triste e inacreditável de um casamento vitoriano falhado em que as mulheres, embora inocentes e muitas vezes com a razão do seu lado, não tinham quaisquer direitos.

Este livro foi uma autêntica surpresa para mim. Não só pela maneira de como está escrito (Anne escreveu-o um ano após Agnes Grey e a sua maturidade como escritora é notória), como também pela sua temática a roçar o feminismo, num período em que o termo e o conceito não existiam. As irmãs Brontë também são conhecidas por pensarem nos direitos das mulheres nas suas obras, e creio que nenhuma o faz melhor do que Anne, a mais nova das três. E é precisamente disso que trata A Inquilina de Wildfell Hall. Helen foge de uma situação injusta para tentar salvar o filho, mas a verdade é que ela própria não se sentia capaz de viver numa conjuntura desrespeitosa e infeliz só porque a sociedade o impunha. E, apesar de ter voltado para um marido alcoólico, depressivo e moribundo para tratar dele, e só depois de este falecer se ter permitido recomeçar de novo, não creio que o mérito de fortalecer as mulheres numa sociedade que as via como propriedade do esposo seja posto em causa, pois Helen voltou porque quis devido ao seu forte sentido de dever (não nos esqueçamos igualmente de que Anne Brontë era filha de um pároco e que, acima de tudo, a época em que vivia não estava assim tão desenvolvida para que Helen largasse tudo e deixasse o marido morrer sozinho em nome do feminismo.)

Não nos esqueçamos igualmente do contexto em que a obra foi escrita. O irmão de Anne, Branwell, também passou por uma grande provação amorosa que a autora terá usado como sua inspiração no livro.

Por tudo isto e muito mais A Inquilina de Wildfell Hall merece um lugar de destaque não só no portfolio das irmãs Brontë, como também no cânone da literatura inglesa e mundial. Recomendo vivamente a sua leitura.

Literatura Britânica

O Professor

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Neste meu périplo para ler todas as obras das irmãs Brontë, deixei para último as que foram escritas por Charlotte. Li Jane Eyre (1847) o ano passado e agora recomecei os seus restantes livros por O Professor (1857).

Esta novela foi originalmente escrita quando Charlotte ainda era uma adolescente, sendo a sua primeira tentativa de romance. E nota-se. O Professor conta a história de William Crimsworth, um órfão que com o apoio desapegado dos tios estuda em Eton para um dia ingressar no clero. Como não o é de todo o seu desejo fazê-lo, os tios retiram-lhe a ajuda sendo este obrigado a procurar o irmão, Edward, que herdara a fábrica dos pais. Edward recebe-o mal e o emprego como escriturário que William consegue na empresa dura poucos meses. Tentando por Hunsden, um homem estranho e sombrio, a procurar novos rumos para a sua vida, William parte para a Béigica onde acaba por encontrar trabalho como professor numa escola de raparigas.

As descrições que faz das alunas são sempre superficiais e focadas no físico e nas suas  maneiras, principalmente se forem belgas. São “feias, malfeitas, ignorantes e sujas.” Só as três que se sentam sempre na primeira fila é que chamam a atenção do professor pela sua beleza, mas ainda assim são consideradas “ordinárias, desorientadas e estúpidas.” William acaba por desenvolver uma atração pela diretora da escola, Zoraide, que “brilhava no meio das alunas como uma estrela sobre um pântano coberto de fogos-fátuas profundamente convencida da sua superioridade.” Tudo nela é bom, tanto a nível fisico como psicológico, mas, apesar de dar esperanças ao professor, está comprometida com o Sr. Pelet, diretor da escola dos rapazes e dono da casa onde William se encontra hospedado.

Após esta grande desilusão, William vira a sua atenção para uma professora de lavores suíça que começa a frequentar as suas aulas com o objetivo de aprender inglês. Frances vai personificar o ideal da mulher vitoriana da classe média: inteligente, submissa q.b., não muito bonita mas agradável à vista, faz tudo corretamente de modo a agradar ao professor. A sua autoconfiança cresce sempre que William a elogia e quando ela começa a tirar as melhores notas da turma é subitamente despedida por Zoraide.

Com este despedimento, Frances vai-se embora fazendo com que William mova mundos e fundos para encontrar o seu paradeiro. Passado algum tempo, quando a alcança, descobre que ela trabalha como professora de francês, história e geografia, e que é bastante respeitada no meio. Os dois acabam por casar, partem para Inglaterra (sonho antigo de Frances cuja mãe era inglesa), e abrem uma das melhores escolas de raparigas no condado onde vivem, ficando a viver ao lado da propriedade de Hunsden, seu vizinho e amigo.

Na minha opinião, O Professor tinha um grande potencial para se tornar um clássico, mas peca sobretudo pela confusa narrativa de Charlotte Bronte. O romance demora muito a arrancar, sendo o primeiro terço dedicado à relação de William e Edward que acaba subitamente para regressar apenas num ou noutro comentário final. Parece que, à primeira vista, a premissa da história é uma e depois se torna outra completamente distinta. Creio igualmente que a descrição das mulheres e o papel do feminino deixa um tanto a desejar. A diferença de tratamento entre as raparigas belgas e Frances é enorme e, a meu ver, injustamente generalizada. No entanto, Charlotte faz uma critica interessante à sociedade inglesa, apelidando-a de superficial e enganadora, ao contrário da belga que, sendo latina, é mais consciente da dignidade que advém do trabalho. Trabalho esse muito valorizado ao longo de todo a história, ao ponto de, no final, Frances pedir ao marido William que a deixe continuar a leccionar pois: “gosto do descanso, mas prefiro a atividade. É preciso que trabalhe e que trabalhe consigo. Tenho observado que as pessoas que somente buscam o prazer de se acompanharem nunca se amam tanto como aquelas que trabalham e sofrem, conscientemente, por uma finalidade comum.”, numa clara critica à aristocracia.

Outro dos pontos fortes, porém pouco explorado, deste romance é a personagem de Hunsden. No início não entendemos bem a sua intenção, nem porque o preocupa tanto William e o seu estilo de vida. todavia, no final, apercebemo-nos de que esta figura é uma alusão ao diabo a quem William “vende a alma” de modo a encontrar o seu lugar no mundo. Esta comparação é um pouco lata porque o nosso protagonista nem sempre segue os concelhos de Hunsden e, no fim, até se torna seu amigo pessoal, contudo é a própria autora que o define como um Mefistófeles e uma víbora.

Muito mais haveria a dizer sobre O Professor, de Charlotte Brontë. Termino apenas com a ideia de que é um rascunho preparatório para o que viriam a ser os seus romances e que, na busca da perfeição, o escritor tem por vezes de falhar para aperfeiçoar a técnica de modo a escrever a sua obra-prima. Este falhanço é mau, ma non troppo.

Literatura Britânica

Agnes Grey

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Neste meu périplo pelas obras das irmãs Brontë, decidi ler o terceiro livro que me faltava dos três que foram publicados em 1847: Agnes Grey, de Anne Brontë. Apesar de não ser tão intenso nem magnânimo como Jane Eyre ou O Monte dos Vendavais, continua a merecer (fortemente) a nossa atenção.

O que Charlotte, Emily e Anne Brontë mais desejavam era ser autoras com trabalho publicado. Para isso, decidiram escrever uma prosa que mais tarde pudessem editar numa compilação conjunta. Charlotte escreveu Jane Eyre, Emily escreveu O Monte dos Vendavais, e Anne escreveu Agnes Grey. Curiosamente, este último foi o que, à época, teve mais aceitação por parte do editor e o que mais vendeu junto de um público que não se achava preparado para entender as outras duas obras. Hoje em dia, o livro de Anne é o menos conhecido dos três, tendo sido altamente ultrapassado pelos textos das irmãs que hoje são considerados verdadeiras obras de culto.

Agnes Grey (1847) conta a história de uma jovem preceptora que decide independentizar-se para poder ajudar a família e para se sentir, de certa forma, útil à sociedade. As casas por onde passa não são propriamente um paraíso, pelo que Agnes aprende a amadurecer depressa e sozinha, acabando por encontrar um equilíbrio emocional pouco comum à sua idade. Esta foi mesmo uma das características de que mais gostei no livro: Anne Brontë, na voz de Agnes, tece vários comentários sobre a vida, sobre como viver em harmonia consigo própria, com os outros, com a natureza e os animais, sobre como educar as crianças, e até sobre o casamento e a aparência das mulheres. Achei a sua mentalidade deveras moderna e edificante, especialmente tendo em conta o pensamento do séc. XIX no início da era vitoriana. Também apreciei a sua escrita, simples e indo ao cerne da questão, se bem que se nota não estar tão desenvolvida com a das irmãs. O final do livro foi o esperado, um pouco cliché, porém satisfatório.

Por todas estas razões creio que passar ao lado de um livro como Agnes Grey é um erro. Apesar de ser o menor dos três originalmente publicados, continua a ser bom, com uma história ternurenta e cheia de lições de vida que nos fazem pensar e encarar as personagens de um modo quase estóico. Recomendo vivamente.

Literatura Britânica

O Monte dos Vendavais

Se há um clássico inglês por excelência, eu diria que é O Monte dos Vendavais (1847), de Emily Bronte. Como é que eu ainda não o tinha lido? Como?

As Irmãs Bronte ficaram conhecidas tanto pelas suas obras literárias, que se tornaram autênticos clássicos da literatura inglesa, como pelas suas vidas cedo ceifadas pela tuberculose. Anne, a mais nova, escreveu Agnes Grey (1847), A Inquilina de Willfell Hall (1848) e alguns poemas, morrendo em 1849 com 29 anos. Charlotte foi a que viveu mais tempo, 39 anos, e a que deixou um maior espólio, nomeadamente Jane Eyre (1847), Shirley (1849), Villette (1853), O Professor (1857) e poesia. Também foi ela quem encorajou Emily a publicar os seus poemas e, mais tarde, um trabalho em prosa: O Monte dos Vendavais, o único que nos deixou e talvez o mais famoso dos livros Bronte.

Esta história ocorre nas charnecas selvagens do Yorkshire, no final do séc. XVIII e início do séc. XIX. A nossa narradora participante, Nelly Dean, conta como Mr. Earnshaw, após uma viagem a Liverpool, decide levar para casa o órfão Heathcliff, para espanto da família, principalmente dos filhos Hindley e Catherine. Catherine recebe o rapaz de braços abertos e forma com ele um elo tão forte que os dois acabam por se apaixonar, porém, quando Mr. Earnshaw falece, Hindley regressa da faculdade para assumir as suas responsabilidades de senhor da casa e decide rechaçar e maltratar Heathcliff. Entretanto, Catherine faz amizade com os filhos da casa vizinha, os Linton, e acaba por casar com Edgar, um jovem rico e passivo. Devastado com a união, Heathcliff decide ir-se embora, voltando três anos depois, refinado, endinheirado e com um ardente desejo de vingança.

Esta introdução é apenas o prelúdio do que acabará por acontecer. As personagens  principais são muito emotivas e encontram-se ambientadas numa atmosfera agreste e obscura que marca o ritmo e favorece a essência gótica do romance. Os comportamentos repetem-se de uma geração para a outra, quase como se os mais novos imitassem os mais velhos por via de exemplo, parando quando o limite e o amor superam o cansaço da crueldade e da frieza. O final é o que se espera, uma conclusão satisfatória e racional que dá um sinal de esperança ao futuro dos que resistem e acabam por ficar.

Gostei muito deste livro. A escrita de Emily Bronte é magnífica e a sua original história de amor, obsessão, depressão e crueldade é das mais únicas e profundas que já li. É incrível pensar que três irmãs tão jovens marcaram tão fortemente a literatura como as Bronte. Os seus romances são hoje mundialmente aclamados e alvo de inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas. Enquanto leitora, gostei tanto de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais que me sinto encorajada a ler todos os livros das Bronte.

Literatura Britânica · Literatura Norte-Americana

O Terceiro Homem

Decidi ler este livro porque faz parte da minha coleção Biblioteca Visão. Foi a primeira vez que li Graham Greene e, seguramente, não será a última.

Originalmente, O Terceiro Homem (1963) foi pensado como guião para um filme de Carol Reed, “para ser visto e não lido”, como o próprio Greene admite no prefácio da obra. Contudo, devido ao êxito estrondoso da película (nomeada para vários Óscares e vencedora do Bafta para Melhor Filme Britânico e do Grande Prémio do Festival de Cannes 1949), o autor decidiu romanceá-la.

Nesta história, cuja acção decorre pouco após o final da II Guerra Mundial, Rollo Martins vai a Viena, cidade ocupada pelas quatro forças vitoriosas, para descortinar o que aconteceu ao amigo de infância Harry Lime, que morrera em circunstâncias suspeitas. Quando começa a investigar o caso, Martins descobre diversas incongruências e percebe que talvez o que acreditara até então não seja inteiramente verdade.

Num thriller noire à boa maneira hollywoodesca e com uma escrita desenfreada que apela a que o leitor continue a virar as páginas, Greene desenvolve a sua narrativa de suspense sem deixar nada de fora, nem mesmo um twist no final que eu, confesso, não esperava.

Perfeito para ler em um ou dois dias, O Terceiro Homem é o romance ideal para os amantes de policiais ou para quem deseja simplesmente começar a ler a obra de Graham Greene. Recomendo. (E agora, ao filme!)

Literatura Britânica · Literatura Europeia

Silas Marner

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Sempre quis ler este livro, não só porque a sua autora é George Eliot (de quem sempre ouvi falar na faculdade), mas também porque a capa é a imagem de um homem a pegar afectuosamente na mão de uma criança, o que, para uma recente mãe, é atractivo.

Silas Marner (1861) conta a história de Silas, um homem injustamente acusado de roubo, que decide mudar de cidade para começar uma vida nova. Trabalha como tecelão e consegue acumular uma pequena fortuna que conta todos os dias à noite, antes de se deitar. Certa vez, repara que foi roubado e cai numa grande depressão. Após um passeio solitário pelas redondezas, ao chegar a casa encontra uma criança de dois anos a dormir, sozinha, aos pés da sua lareira.

A história de Silas cruza-se com a de outras personagens igualmente importantes para o livro, mas ao expô-las aqui só complicariam o meu resumo. E é exatamente essa a única crítica que tenho a fazer à obra: é demasiado curta para um enredo tão cheio. Na minha opinião, o livro carece desenvolvimento. Acontece tudo demasiado depressa sem que o leitor tenha tempo de digerir o que acabou de suceder. Sem ser isso, creio que é um texto bastante bom, a escrita de Eliot é simples e agradável de ler, e a história é ternurenta com o final que eu secretamente desejava. Uma óptima opção para começar a mergulhar no trabalho desta escritora.

Literatura Britânica

Os Luminários

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Como gosto muito de clássicos dou por mim a ler escritores que fazem parte do cânone da literatura ocidental, seja portuguesa, americana, inglesa ou espanhola. Contudo, por vezes também me apetece ler autores mais contemporâneos. O problema é que não sou muito boa a julgar livros pela capa, e já me aconteceu comprar exemplares que não consigo passar do primeiro capítulo. Por isso, decidi estar atenta aos prémios de renome que galardoam obras saídas nesse ano. Um deles é o Man Booker Prize, de Inglaterra, que visa premiar o melhor livro escrito em língua inglesa. Foi assim que cheguei a este Os Luminários, vencedor no ano de 2013.

Eleanor Catton não me era uma escritora desconhecida. Li O Ensaio (2008) e devo dizer que não foi do meu agrado, mas resolvi dar-lhe outra oportunidade devido à críticas extremamente positivas que recebeu. Os Luminários (2013) tem 832 páginas e foi considerado o romance da Nova Zelândia, país originário de Catton e onde decorre a acção da obra. No século XIX, e em plena febre do ouro, o advogado Walter Moddy chega a Hokitika com a esperança de fazer fortuna. Em vez disso, dá por si a participar numa tensa “reunião” de doze homens locais num dos hotéis da cidade, onde se vê envolvido num mistério sobre a morte de um garimpeiro, o suicido mal sucedido de uma prostituta e o desaparecimento de um milionário. A partir daqui, Catton narra-nos a História dos pioneiros da Nova Zelândia, quem eram e como viviam, enquanto resolve o mistério acima referido. Para além disto (e como se fosse pouco), ainda dá ao seu romance uma aura mística ao atribuir a cada personagem um signo do zodíaco, fazendo-a comportar-se de acordo com as suas características.

É uma história longa e cheia de camadas que exige um compromisso grande da parte do leitor, mas lê-se bem e com toda a compreensão. É acima de tudo um exercício estrutural magnífico que, de tão bem feito, nem parece existir. Foi uma bela surpresa. Não só gostei do mistério e do crime, como também aprendi muito sobre a Nova Zelândia. Recomendo.

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Os Cadernos Secretos de Agatha Christie

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Sou uma fã incondicional de Agatha Christie. A primeira vez que li uma das suas obras foi no 11º ano, a nossa professora de Inglês quis testar o nível de Lingua escrita da turma e escolheu And There Were None (1939) para o fazer. O exercício consistia em lermos o livro e fazermos um teste com apenas quatro perguntas de interpretação. Na altura, as coisas não me correram muito bem, mas o bichinho da Rainha do Crime ficou e sigo-a desde então. É, de longe, a autora que mais leio.

Os livros de Agatha Christie não são difíceis de ler. A sua escrita é acessível e fácil de entender, o que permite ao leitor mergulhar na história, concentrar-se nos pormenores e deleitar-se com o ritmo do suspense. Este é um dos motivos que John Curran aponta para o sucesso da escritora, juntamente com a invenção de um detetive interessante e original que alcançou tanta fama que chegou mesmo a ultrapassar a da sua criadora. Nestes cadernos encontrados ao acaso numa das casas de Christie, Curran descortinou o seu método de trabalho, a forma como elabora as histórias, como escolhe as personagens e o género de crime que prefere aplicar. Reuniu tudo num livro a que chamou Os Cadernos Secretos de Agatha Christie (2009), uma obra mais consultiva do que propriamente para ler de fio a pavio onde o autor aborda quase todas as obras da Rainha do Crime.

Creio que este registo é muito curioso e intrigante para qualquer fã de Christie. Explica bem como a escritora pensava no delito e chegava ao assassino. Parece que entramos na sua mente e a vemos funcionar. Eu apenas aconselho a não lê-lo todo de seguida porque John Curran revela, por vezes, o final de algumas obras. A minha estratégia é ler o livro de Christie e consultar depois a obra de Curran. Desta forma, a leitura fica mais completa e enriquecida. E, como bónus, no final, estão publicados dois contos inéditos de Poirot. O que é que um fã quer mais?

Literatura Britânica

The Man Who Was Thursday

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Gosto muito da coleção Penguin English Library, tendo já comprado vários dos seus exemplares. Tratam-se de clássicos britânicos que qualquer amante da cultura inglesa gostaria de ler. Para além disso, as capas são artísticas, o tamanho é perfeito para ter nas mãos, a maior parte dos livros é leve e fácil de transportar e o papel é agradável ao tato. O (enorme) bónus é o facto de as lombadas serem muito coloridas e ficarem perfeitas numa estante. Por isso, quando vi esta obra de G. K. Chesterton e li a contracapa que dizia tratar-se de um livro de espiões, não hesitei e adquiri-a de imediato.

The Man Who Was Thursday (1908) passa-se em Londres num período em que a ameaça anarquista paira no ar e amedronta a população com o constante prenúncio terrorista. Syme, um homem que não acredita neste movimento, é abordado por um polícia que o convence a assistir a uma reunião anárquica (sob o pseudónimo de Thursday) e a tentar decifrar o que lá ocorre sob a chefia do temível Sunday. Nessa reunião, Syme acaba por descobrir que um dos objetivos do grupo é bombardear um encontro entre duas personalidades em França, e também se apercebe que, para além dele, todos os outros participantes são policias disfarçados, à exceção de Sunday.

Esta narrativa foi muitas vezes descrita como um thriller metafísico em que nada parece fazer sentido. O início é relativamente normal, mas a meio a história ganha contornos fantásticos que parecem não ter nexo. No final ficamos um pouco confusos e não percebemos bem o que acabámos de ler, quando nos damos conta de que o subtítulo do livro é O Pesadelo e nos apercebemos de que tudo não passa de um sonho decorrido numa realidade que não é a nossa. Se virmos a obra desta maneira ela acaba por ter alguma coerência. Pelo menos foi o que aconteceu comigo. De qualquer forma, é uma história estranha. Para quem espera um romance de espiões, desengane-se, este livro não o é. Para quem gosta de algo mais alternativo ao estilo de Alice no País das Maravilhas, acho que ficará maravilhado com Chesterton. Seja como for, até agora, foi o livro da Penguin English Library de que menos gostei. Não é mau, só não é para mim.