A América do Norte

Comprei este livro na Feira do Livro de Lisboa, o ano passado. O que me atraiu foi o facto de ser uma obra de não-ficção sobre um país que me fascina muitíssimo, os Estados Unidos da América. Quando cheguei a casa percebi, no entanto, que quem o escreveu foi um jornalista açoreano chamado Alfredo de Mesquita que, no início do século XX, trabalhou como embaixador em Nova Iorque. Como na altura não me apeteceu ler algo antigo sobre os EUA, adiei a leitura até hoje. Fiz mal, pois este país eternamente jovem não conhece a palavra “antigo”.
A história de Alfredo de Mesquita confunde-se com a da própria obra. No início do século XX, o jornalista e diplomata foi convidado a exercer de embaixador na Big Apple, uma das cidades do momento. Ao lá chegar, Mesquita ficou tão impressionado com o que viu que decidiu relatar tudo em livro, nascendo, então, A América do Norte (1928). Aqui retrata a vida do quotidiano dos americanos, como trabalham, o que fazem nos tempos livres, como são as suas casas, como se entretêm, como são as suas invenções e construções, a arquitetura, as grandes obras públicas, as indústrias emergentes, a sua relação com a família, com a religião, o papel da mulher, a ética no trabalho, a vontade que têm em aprender tudo e em cultivar-se, como são as suas universidades, alguns self-mademen que se tornaram célebres, e inclusivamente como foi a campanha presidencial que decorria aquando da sua visita e a consequente vitória de Theodore Roosevelt, por quem o autor nutria alguma simpatia.
Tudo é contado ao pormenor e com muito humor, numa escrita absolutamente deliciosa que não fica a dever nada aos melhores escritores. Mesquita tinha um olho clínico e percebe-se que se dava com pessoas interessantes e que era respeitado. Era também muitas vezes convidado para eventos públicos e privados, o que lhe dava acesso privilegiado a tudo o que ocorria. Uma das observações que Onésimo Teotónio de Almeida (autor do prefácio) faz é o facto de Mesquita só tecer elogios ao EUA sem nunca ver o seu lado negativo. Ao ler o relato, confesso não ter pensado ser o caso, contudo, após ler o prefácio (algo que faço sempre no fim), reparei ser verdade. No entanto, creio que aqui não é relevante, pois o leitor é contagiado pelo espanto constante do autor e pela sua ânsia de pôr tudo no papel de forma a dizer aos portugueses que um país jovem é capaz de ser incrível.
Gostei muito deste livro. Muitíssimo. A escrita de Alfredo de Mesquita é maravilhosa e os comentários que faz são impressionantes. É inacreditável que poucas sejam as diferenças entre os EUA do início do século XX e os do início do século XXI. Se quando lá vamos atualmente achamos tudo enorme e cheio de vida, imaginem uma pessoa do passado que habitava um dos países mais pobres da Europa. Amazing.
